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ARTE PRIMITIVA E ARTE MODERNA: AFINIDADES ELETIVAS

Diferente do que o título pode sugerir, não temos a pretensão de nos aventurarmos no campo da antropologia, pois cabe ao historiador da arte, que se ocupa da história do “primitivismo”, compreender a arte “primitiva” em relação ao contexto ocidental no qual os artistas modernos a “descobriram”, de modo diverso do antropólogo, que deve compreendê-la levando em consideração o ambiente sociocultural em que foi criada.

O termo “primitivismo” apareceu na França, no século XIX; seu uso era reservado à História da Arte, como atesta o Nouveau Larousse Illustré, publicado entre 1897 e 1904: “n.m. B. – Arts. Imitation des primitifs”.1 A definição deste dicionário revela o uso do termo “primitivo” na França na metade do século XIX: o primitivo em questão se referia às obras italianas e flamencas do século XIV e XV, anteriores à estética renascentista, à arte romana e bizantina e à uma multiplicidade de objetos artísticos não ocidentais

38 abrangendo desde a arte peruana à javanesa. A arte da África e da Oceania precisaram esperar o século XX para encontrar seu lugar ao lado do adjetivo “primitivo”.

A partir da década de 30 do século XX, o termo “primitivismo” começou a aparecer em dicionáros americanos com o seguinte sentido: “crença na superioridade da vida primitiva”,2 “a adesão ou a reação àquilo que é primitivo” (idem). “Primitivismo”, portanto, se refere ao interesse dos artistas modernos pela arte e pela cultura das sociedades “primitivas”. O termo não designa um grupo de artistas organizados como tal, tampouco um estilo identificável e relacionado a um determinado momento histórico; ele se refere às diversas reações dos artistas, do final do século XIX e primeira metade do XX, em relação ao “primitivo”. Apesar do termo “primitivismo” ter sido, desde o seu surgimento, bastante claro, isto não impediu que muitos confundissem o “primitivismo” (fenômeno eminentemente ocidental) com as artes dos povos tidos como “primitivos”.

A História da Arte mostra-nos que quanto mais a sociedade burguesa presava a virtuosidade e a engenhosidade na arte, mais e mais os artistas começaram a valorizar o simples, o ingênuo, o bruto e o não refinado. Mas, podemos notar, também, que muitos artistas do final do século XIX utilizavam o termo “primitivo” como um adjetivo positivo, para se referir a toda arte estranha à filiação greco-romana do realismo ocidental. Van Gogh, por exemplo, utilizava-o quando se referia aos mestres japoneses que ele venerava. Gauguin, para se referir à arte persa, hindu, peruana, entre outras. E a lista das manifestações artísticas que poderiam ser colocadas ao lado do adjetivo “primitivo” não parava de crescer.

Todavia, nas primeiras décadas do século XX, assistimos a mudanças e restrições no emprego do termo “primitivo”. Com a “descoberta” das máscaras e estatuetas africanas e da Oceania, por parte de Matisse, Derain, Vlaminck e Picasso, no ano de 1906, apareceu uma interpretação modernista para o termo. Seu campo semântico passou a se restringir à arte da África e da Oceania, ainda que os antigos empregos tenham permanecido por muito tempo. Segundo William Rubin, a mudança sofrida pelo termo, após 1906, é conseqüência de uma mudança do gosto. A valorização da arte destes continentes está relacionada à valorização da sua inventividade, em detrimento da arte que se desenvolveu em sociedades teocráticas, como a antiga arte egípcia e a asteca. Ainda que as obras de origem africana e da Oceania fossem concebidas dentro

39 de uma tradição pré-estabelecida, elas provam que seus criadores dispunham de uma liberdade maior do que poderíamos supor. Além do mais, não produziam obras monumentais, o monumental é uma das características da arte desenvolvida nas teocracias e que passou a ser vista com pouca simpatia pelos modernistas, à exceção dos muralistas mexicanos e de Henri Moore. O certo é que foi somente depois das repercursões da obra Demoiselles d’Avignon, de Picasso, que data de 1907, que o gosto moderno se abriu para os objetos “primitivos” mais desconcertantes, quero dizer, mais distantes da tradição artística ocidental.

Desde a década de 70 do século XX, as palavras “primitivo” e “primitivismo” foram bastante contestadas por serem julgadas etnocêntricas e pejorativas. Outros termos genéricos foram sugeridos para ocupar o lugar de “primitivo”, mas sem sucesso; em contrapartida, nenhuma outra foi proposta para substituir “primitivismo”. O adjetivo “primitivo” tem conotação fortemente pejorativa. No dicionário citado há pouco, Nouveau Larousse Illustré, à palavra “primitivo”, seja ela substantivo ou adjetivo, são atribuídas dezesseis definições diferentes, entre elas, duas de caráter pejorativo: no campo da etnografia, “primitivo” designa os povos que se encontram ainda num grau menos avançado de civilização; no campo das Belas Artes, refere-se aos artistas, pintores e escultores que antecedem os grandes mestres, a saber, os renascentistas italianos. A palavra “primitivismo”, derivada de “primitivo”, é realmente etnocêntrica, mas isso faz sentido, porque ela não nos remete à arte “primitiva” e sim ao interesse e à reação que essa arte suscitou nos artistas ocidentais.

Importa esclarecer que o emprego destas duas palavras, na História da Arte Moderna, tem conotação absolutamente positiva. Picasso foi quem melhor expressou a positividade destes termos. Podemos dizer que, antes mesmo dos estudos de Lévi-Strauss, foram os artistas modernistas do começo do século XX que, primeiramente, compreenderam que os povos tidos como “primitivos” não são atrasados, nem inferiores a nós, e que a capacidade de inventividade e realização destes deixa, muitas vezes a desejar, as conquistas da nossa civilização. Picasso afirmou que a arte ocidental jamais ultrapassou a escultura “primitiva”. Para ele e para os fauvistas, o termo “primitivo” é tão respeitoso quanto gótico, bizantino, barroco, embora estes adjetivos tivessem, na conjuntura em que se originaram, um valor depreciativo. Robert Goldwater3 afirma que

40 os dois termos, quando associados à arte, possuem conotação elogiosa. E é essencialmente neste sentido que ambas as palavras serão utilizadas aqui neste artigo.

Mas é certo que, para o público burguês do século XIX e para o grande público dos nossos dias, o termo “primitivo” tem um sentido negativo, pois estes tomam como inferior toda obra que foge dos parâmetros do estilo acadêmico ou da tradição realista e, portanto, toda arte que não é ocidental e grande parte da arte do Ocidente. Isto porque o senso comum de “ontem” e de hoje é guiado pela ideia de “progresso cultural”, herança da teoria da evolução de Darwin que, ao influenciar, no século XIX, as Ciências Sociais, reforçou o preconceito em relação às criações oriundas de continentes como a África, na medida em que estas novas ciências afirmavam que seus autores encontravam-se no nível mais elementar da escala evolutiva.

Compreendemos, então, que a palavra “primitivo” é, tradicionalmente definida em termos negativos, em virtude do olhar de superioridade do homem ocidental sobre o outro, que, de maneira geral, aponta para alguma coisa ou alguém menos avançado ou menos complexo. Porém, desde o final do século XIX, o “primitivismo” elevou o que era considerado “primitivo” a contraponto dos malefícios da modernidade, ou seja, colocou a validade destas pressuposições em dúvida, utilizando-se delas para contestar a sua própria cultura. Todavia, é com um dos movimentos da vanguarda histórica, o Surrealismo, que o “primitivo” passa a ser uma das fontes necessárias para subverter a cultura ocidental, em seu conjunto. A busca incessante de Breton pela infinita “potência perdida”4 do homem, capaz de mudar a ordem íntima do que consideramos real, levou-o a desclevou-obrir e a se interessar plevou-or tlevou-oda manifestaçãlevou-o que desclevou-onhece levou-os limites implevou-ostlevou-os pelo mundo ocidental, que escapam as determinações morais, religiosas e ideológicas deste mundo.5

Os historiadores das ideias Arthur Lovejoy e George Boas afirmam que o “primitivismo” é marcado pelo “descontentamento do civilizado face à civilização ou a um dos seus aspectos manifesto ou característico. É a crença, por parte dos homens que vivem numa condição cultural extremamente evoluída e complexa, em uma vida mais simples e menos refinada [...] é uma vida mais desejável”.6 Logo, a crítica do Surrealismo à nossa sociedade logocêntrica e tecnicista é a manifestação desse descontentamento e este, segundo Lovejoy e Boas, deve ser claramente situado na sua relação com as idéias

41 em vigor no Ocidente, na primeira metade do século XX: o materialismo na política e nas ciências, e o positivismo na filosofia.

O interesse de André Breton pelo “primitivo” levou-o a colecionar objetos de origem diversa: máscaras de esquimós provenientes do Alaska, peças oriundas das ilhas do Pacífico e da América do Norte. Ciente da grande proximidade da cultura europeia, principalmente francesa, com a africana, e da institucionalização desta cultura pelos discursos etnográficos, Breton preferiu lançar a sua atenção a outras terras e a outros mares.

Os surrealistas jamais pretenderam fazer da consciência “primitiva” um objeto de investigação; simplesmente se interrogavam sobre o seu valor, com a intenção de reencontrar a experiência primeira da qual nasceram os mitos, as religiões, as crenças.7 O apelo à consciência “primitiva” tem uma função muito clara para os surrealistas. Ela é um dos caminhos percorridos pelos surrealistas para desalienar o espírito perdido do homem moderno da sua única consideração de realidade objetiva. Os surrealistas não pretendiam se tornar primitivos, tampouco sua relação com eles é de nostalgia ou evasão; o que lhes interessava na consciência “primitiva” era a indiferença entre a vida cotidiana e aquilo que estava além da realidade objetiva; para a consciência primitiva não há cisão, mas continuidade entre uma coisa e outra. Todavia, o insólito é, frequentemente, para o primitivo, mais nefasto do que fausto, enquanto que, para Breton, possibilitaria alargar o nosso conhecimento, perceber a estreiteza do pensamento racional, nos desalienar e promover a “desrealização”.8

A relação de Breton e do Surrealismo com o “primitivo” não foi de exaltação do exotismo, comum no século XVIII-XIX, nem de um interesse puramente formal, onde os objetos “primitivos” eram valorizados na medida em que eram formalmente próximos às poéticas modernistas. Interessava aos surrealistas ter acesso ao modo de pensar daqueles homens, pois julgavam-no muito importante por ser uma forma de pensamento primordial; consideravam que o “primitivo” seria sempre mais instintivo e, portanto, mais próximo dos aspectos fundamentais da existência humana.

Mas não são os povos tribais ou tidos como selvagens os únicos a não estarem inseridos no conceito de civilização. No início do século XX o mundo ocidental também passou a ter seus próprios “primitivos”, aqueles que viviam à margem da sociedade: os

42 loucos (esquizofrênicos, na sua maioria), os criminosos, os perversos e os camponeses.9

Estes novos “primitivos” também passaram a ser iluminados pelo foco de atenção de muitos artistas na passagem do século XIX para o XX, entre eles André Breton e os surrealistas. A expressão da loucura não poderia escapar do pensamento daqueles que foram fervorosos críticos do império da razão.

Mas o difícil é compreendermos o “elogio à loucura” de Breton sem cairmos em simplificações. Breton busca o desregramento de todos os sentidos, tal como havia proposto Rimbaud; todavia, segundo Alquié, em L‘immaculée Conception, Breton esclarece que o espírito não deve perder-se no delírio, mas, ao contrário, deve “submeter, à vontade, as ideias delirantes sem que o espírito caia numa perturbação incontrolável”.10 Ele é fiel a Rimbaud, que propõe um “imenso e raciocinado desregramento de todos os sentidos”. Precisamos admitir que Breton não propunha dar liberdade às fantasias desprovidas de sentido, o que ele queria era devolver ao homem aquilo que a natureza lhe deu e que o longo processo civilizatório tirou-lhe. Não conseguiríamos conseguiria ser mais clara do que Ferdinand Alquié: “O surrealismo não ama perder a razão; ele ama tudo o que a razão nos fez perder”.11

Deveríamos nos perguntar qual foi, de fato, a importância do “primitivismo”. A resposta fica em aberto. Entretanto, se admitimos que a arte da Oceania e, principalmente, da África foi uma fonte de influência muito importante para a História da Arte do século XX, devemos também combater o reducionismo de afirmações como “o cubismo se originou da arte negra” ou “a arte primitiva e a expressão da loucura mudaram o sentido da evolução da arte moderna”. Devemos lembrar que o museu de etnografia de Paris, antigo museu do Homem, foi aberto ao público em 1882 com uma coleção considerável de objetos da Oceania e da África, e que revistas com fotografias de objetos “primitivos” já circulavam, na França, bem antes dos artistas modernos se interessarem por eles. Os artistas só começaram a se interessar pelos objetos “primitivos” e a colecioná-los, precisamente quando suas próprias pesquisas haviam criado correspondências entre aqueles objetos e suas obras, correspondências nascidas de uma afinidade eletiva2.

2 Texto extraído: www.uel.br

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