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4. O PROBLEMA DA ARTE COMO UM PROBLEMA DA HISTÓRIA

5.1 Arte e verdade: uma retomada da teoria do belo

Nem tomada como uma produção da consciência, que seria compreendê-la estritamente a partir de um idealismo, e, tampouco, limitando-a, de maneira geral, a uma relação interna ao conhecimento, a verdade se articula a partir de um ideal que jamais se apresenta de modo puro, mas apenas na diversidade das obras de arte. Assim, a verdade está circunscrita pelo conceito benjaminiano de ideal a uma ideia histórico-filosófica que desconhece o uso simplesmente ahistórico do termo. Na arquitetura de sua teoria, Benjamin pretende “resguardar a dignidade da verdade como o problema filosófico mais alto ao mesmo tempo em que fundamenta a crítica na pretensão de verdade de cada obra [de arte]”248. Para o desenvolvimento dessas reflexões, ele se coloca à

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distância da verdade como aletheia e a compreende como emet, a palavra hebraica que se traduz por verdade, cuja constelação de significados está muito longe da acepção grega.

‘Emet significa sobretudo ‘firmeza’, ‘estabilidade’, referindo-se a pessoa ou coisa; em relação a palavras ditas ou escritas significa ‘verdade’, mas no sentido de credibilidade, ‘certeza’. [...] Verdade pois no horizonte hebraico é sobretudo o que se chamaria de fidelidade; e de fato ‘emet pode sempre ou quase sempre se traduzir assim249.

A Verdade está, nesse sentido, aliada à dimensão da ação prática da experiência enquanto a acepção grega define verdade como um atributo do conhecimento. O conceito de experiência, como já afirmado, permeia toda a obra do autor e é tematizado de maneira direta em O Narrador: considerações sobre a obra de

Nikolai Leskov, no qual a perda da experiência na narrativa moderna é lamentada, pois

se perde com ela a compreensão da verdade não como um valor absoluto, mas como valor contingente construído a partir de uma relação entre presente e passado. Nesse contexto, o conhecimento não é uma questão de apropriação e, portanto, a experiência é tomada em alta conta. Isso acontece porque a interação é condição fundamental para o conhecimento, que se modifica a cada vez que a relação se estabelece ou mesmo quando é intensificada. Nessa configuração, o objeto não está passivo diante da ação perceptiva do sujeito e o sujeito não é determinado pelo objeto, o que não restringe o conhecimento à reflexão, pois conhecer é um processo relacional como já afirmado.

Em uma das notas que Benjamin escreve para a redação de sua tese sobre os românticos, o fragmento intitulado “Verdade e verdades, conhecimento e conhecimentos”, lemos que “as verdades, contudo, não se manifestam nem de forma

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LAGES. Entre diferentes culturas, entre diferentes tradições: o pensamento constelar de Walter Benjamin, p. 50.

sistemática nem conceitual, quanto menos na forma ajuizadora dos conhecimentos, mas sim na arte”250

. A verdade é uma configuração indissociável de seu modo de apresentação e acessível somente sob determinada forma de exposição, assumindo, assim, um estatuto de categoria estética. Logo, não é pelo conhecimento que se pode ascender à verdade, embora determinados conhecimentos sejam indispensáveis para a apresentação da verdade postulada. Susana Kampf Lages em seu ensaio “Entre diferentes culturas, entre diferentes tradições – o pensamento constelar de Walter Benjamin” sintetiza a leitura que o filósofo alemão faz de O Banquete, de Platão, no prefácio ao livro sobre o barroco. Segundo a autora, na seção intitulada “O belo filosófico”, Benjamin procura “definir a verdade ontologicamente pelo negativo, como algo que se subtrai ao conhecimento e que só pode ser conhecido na medida em que se desdobra na forma da apresentação, à qual ela se encontra ligada numa relação indissolúvel”251

.

A apresentação (Darstellung) é intrínseca à linguagem e, portanto, a obra de arte é necessariamente algo que comunica, já foi dito. Contudo, é importante esclarecer que só a linguagem tomada em uma acepção instrumental pode ser compreendida como mero recurso comunicativo. Em uma compreensão não-instrumental, a comunicação não acontece através da linguagem, mas na linguagem, portanto o homem comunica na língua e não através dela. Susana Kampff Lages, agora em uma nota à sua tradução do ensaio “Sobre a linguagem em geral e a linguagem dos homens”, nos ajuda a compreender essa acepção ampliada de linguagem, para além das línguas verbais, a qual é comum à cultura alemã e estranha à nossa cultura. Na tradição alemã o caráter da linguagem é de função expressiva e significante, por isso não é uma metáfora falar a

250 BENJAMIN. Gesammelte Schriften. Band IV-I, p. 47. (Tradução de trabalho) 251

LAGES. . Entre diferentes culturas, entre diferentes tradições: o pensamento constelar de Walter Benjamin, p. 57.

respeito da linguagem das aves ou da música. (Essa é a compreensão que permite o pensamento de Humboldt, segundo o qual os homens têm várias línguas, mas, ao mesmo tempo, possuem uma mesma linguagem). Assim, as coisas se comunicam ao homem e por isso ele pode nomeá-las. Mas como o próprio Benjamin escreve, “não se trata de antropomorfismo”252

e sim de atribuir à coisa uma determinada autonomia que retira do sujeito o poder supremo de atribuir sentido ao mundo, pois as qualidades do objeto influem no caminho de sua aquisição e não somente delimitam o seu pertencimento ou não ao domínio do conhecível253. Retornamos à crítica ao modelo monológico de conhecimento que está na base da tese benjaminiana sobre os românticos de Iena. A descentralização do entendimento que dá ao mundo um lugar secundário abre espaço para a discussão e desconstrução de um determinado modelo de razão e de verdade.

Quando Benjamin inicia a segunda parte do seu trabalho sobre os românticos asseverando que “a arte é uma determinação do medium-de-reflexão, provavelmente a mais fecunda que ele recebeu”, e a frase que se segue: “A crítica de arte é o conhecimento do objeto neste medium-de-reflexão”254, não só um tipo de racionalidade está sendo questionado, mas, igualmente, um modelo de crítica de arte e estética baseado no conceito de “empatia” (Einfühlung) de Dithey que havia se estratificado ao longo do século XIX. No lugar da empatia, o justo distanciamento. A identificação do oprimido com o opressor serve à preservação das relações de dominação. Portanto, a crítica exige um reposicionamento do observador para uma mudança de perspectiva não só no seu modo de ver, mas ainda no modo de estabelecer relações.

252 BENJAMIN. Escritos sobre mito e linguagem, p. 55.

253 GAGNEBIN. Do conceito de Darstellung em Walter Benjamin ou verdade e beleza, p. 189. 254 BENJAMIN. O conceito de crítica de arte no romantismo alemão, p. 69.