4.2 A SALA DE ESTAR/BAR
4.2.2 Artefatos e Imagens nas paredes
Uma das formas de caracterização dos ambientes da barbearia utilizadas pelos projetistas foi o uso de alguns artefatos e quadros fixados às paredes. Tais quadros contém ilustrações, fotografias, cartazes de filmes e propaganda de produtos relacionados supostamente ao consumo masculino (Figura 36). Os artefatos fixados estavam na sua maioria relacionados ao ofício do barbeiro. (Figura 37).
Figura 36 - Quadros com fotografias e publicidade de cerveja italiana fixados na parede da Barbearia Clube. Fonte: Foto do autor.
Figura 37 - Quadros com ferramentas relacionadas ao ofício do barbeiro. Fonte: Acervo arquiteto "CR".
São fotografias variadas, compreendendo fotos de mulheres em poses sensuais, na sua maioria nuas, cartazes de filmes americanos, músicos de jazz, automóveis, barbearias, publicidade de cerveja. Os artefatos fixados às paredes são navalhas, tesouras, barbeadores, pentes, pincéis de barbear. A grande maioria destas imagens e artefatos estão relacionados a épocas passadas, todas aparentemente anteriores aos anos 50, 60, do século XX.
Figura 38 - Imagens variadas fixada na parede da Barbearia Clube. Fonte: Fotos do autor.
Segundo os projetistas, tais artefatos estão relacionados de alguma forma aos interesses do “homem clássico”. O caderno de especificações do projeto faz algumas considerações sobre as características das imagens que devem ser fixadas a parede da barbearia:
recomenda-se a decoração com fotos em preto-e-branco (inclusive fotos sensuais - de bom gosto - na área de atendimento), cartazes de filmes clássicos ou de propagandas antigas. Deve-se sempre procurar integrar a logomarca e o brasão da Barbearia nos elementos de decoração, na forma de quadros, luminosos, “anúncios”. (Cadernos..., 2009, p. 15).
O publicitário “CS” evidencia em sua fala o processo de obtenção das imagens fotográficas, os principais locais onde foram encontradas e os tipos de fotografia utilizadas para a decoração. O publicitário reforça o interesse em imagens que remetessem ao passado, ao antigo:
[...] umas vinham de blog de história, sites específicos de fotografia. Fotografia antiga, e a gente foi juntando, coisa de cinema, fotos legais de mulheres de outras épocas, né? Barbearias, até situações de barbeiro e barbearias das mais variadas. Tem barbearia na, barbeiro fazendo a barba na guerra. Tem fotos de barbearias ultra antigas assim, do, sei lá, século dezoito, dezenove [...] (Publicitário “CS”, entrevista, março 2014).
A reunião de arranjos com artefatos e imagens fotográficas sugere, então, a tradicionalidade da barbearia e de seus clientes. Aparentemente, estes artefatos e imagens fotográficas definem o círculo de interesses do “homem clássico”, que entre outras coisas, compreendia o gosto por filmes clássicos, cerveja e mulheres. O arquiteto “CR” ressalta a importância desses arranjos para a caracterização dos ambientes:
[...] eu acho que o pessoal fez uma pesquisa bem interessante, tem coisa, tem imagens da segunda guerra. Tem umas coisas bem legais lá, e eu acho que aquilo, aquilo complementou muito bem, deu a liga do visual da barbearia [...]. E assim, as imagens, tem algumas com um pouco mais de nudez, outras com um pouco menos. Mas são imagens que eu acho que são muito bacanas, que ajudam a dar ambiência (Arquiteto “CR”, entrevista, março 2014).
As fotografias retratando mulheres nuas ocupam um local de destaque nas paredes da barbearia, já que é o tema com maior número de imagens. Interessante notar que as imagens, não somente as das mulheres, estão relacionados a produtos e serviços supostamente consumidos por homens (Figura 39). A aproximação das imagens femininas destes outros produtos na composição dos arranjos me leva a deduzir que, no contexto da barbearia, as mulheres retratadas nas fotografias fazem parte de uma gama de “produtos” que podem ser consumidos pelos clientes. São tidas como artefatos para o consumo visual do olhar masculino. A representação da
mulher como um produto consumível é recorrente na construção do conceito da Barbearia Clube. Em uma de suas peças gráficas de divulgação (Figura 40) é possível observar a representação de uma mulher loira que está sentada dentro de uma geladeira. Há nesta imagem uma relação direta entre o corpo desta mulher e a cerveja que, segundo os (as) envolvidos (as) no projeto da barbearia, é a bebida alcóolica consumida preferencialmente pelo “homem clássico”. A transformação desta representação feminina em produto de consumo masculino é reforçada pela frase “a loira da geladeira”. Fazendo alusão ao termo “loira gelada”, maneira informal utilizada para designar a cerveja em muitas regiões do Brasil.
Figura 39 - Arranjo com imagens relacionadas a produtos e serviços de consumo supostamente masculino. Fonte: Foto do autor.
Figura 40 - Representação feminina como um produto consumível. Fonte: Acervo digital da agência de publicidade.
Segundo o publicitário “CS”, as imagens, inclusive as de mulheres nuas, faziam parte de um processo para “desafrescalhar” o ambiente da barbearia, de torná-lo um espaço do “homem clássico”:
[...] por que assim, a hora que a gente decidiu tudo aquilo, lugar sem frescura, coisa de macho, a gente tinha que colocar no lugar elementos que traduzissem, que dessem, que mostrassem mesmo esse clima e essa atitude que a gente queria ter, né? Então vamo coloca aqui quadros e
posters que a gente teria na nossa, no nosso escritório, em casa. Teria no nosso quarto se a gente morasse sozinho, não tivesse a mulher pra opinar, sabe, se fosse solteiro se morasse sozinho [...] (Publicitário “CS”, entrevista, março 2014).
As imagens fotográficas retratando os nus femininos presentes nas paredes dialogam com o conteúdo de revistas eróticas destinadas ao consumo do público masculino. Revistas que segundo os projetistas são comumente encontradas nas barbearias. O publicitário “CS” evidencia em sua fala o desejo de criar um ambiente parecido com o da barbearia do bairro, onde o “homem clássico” não se sentisse constrangido, um local amigável, onde ele pudesse ver sua revista de “mulher pelada” tranquilamente:
[...] é amigão do cara. Fala besteira, pega vê revista de mulher pelada dentro do salão, comenta da gostosa sem constrangimento. A gente queria trazer isso, num formato mais organizado, né? Por que a barbearia de bairro é uma coisa meio orgânica [...] (Publicitário “CS”, entrevista, março 2014).
Pedro Paulo de Miranda Araújo Soares (2012), em seu trabalho etnográfico em barbearias porto-alegrenses, evidencia que a sociabilidade masculina nestes
locais é atravessada pelo compartilhamento e consumo de imagens eróticas femininas. A barbearia seria assim um local para o consumo masculino de imagens eróticas onde, ao contrário de outros locais, o homem poderia fazer isto tranquilamente, sem constrangimentos.
Porém, mesmo sendo comum, e até mesmo esperado, o consumo desse tipo de imagem na Barbearia Clube, segundo o publicitário “CS”, teria que se tomar cuidado quanto à escolha das imagens que seriam colocadas nas paredes. Não poderiam ser fotografias “pornográficas”. Há nesta forma de consumo erótico possibilitado pela Barbearia Clube questões relacionadas à moralidade do “homem clássico”. A barbearia se converte assim em um local de chancela deste consumo, onde os clientes afirmariam sua heterossexualidade junto a seus pares. As imagens “discretas” suprem a necessidade desse tipo de produto, sem contanto fragilizar a respeitabilidade do estabelecimento, mantendo de certa maneira a imagem de um pai ou de um avô “de família” associada aos clientes. Outra questão para o cuidado com o uso das imagens “pornográficas” seria o fato de muitas crianças, levadas por suas mães, fazerem o uso dos serviços. Sendo assim, as fotos deveriam ser de “bom gosto”, “artísticas”, escolhida criteriosamente.
É que tem mãe que vai levar o filho. Que já entendeu que na... ((Barbearia Clube)), é um lugar que eu posso levar meu filho, é um lugar de respeito, apesar de ter fotos de mulher pelada na parede. Mas são fotos bem escolhidas, são fotos artísticas, não são, não é escracho. Não é pornografia, né? Tem um apelo erótico, mas não é uma coisa de mal gosto [...] (Publicitário “CS”, entrevista, março 2014).
Esta situação se apresentou como um dilema. Era necessário inserir imagens de nus femininos, pois seriam importantes marcadores da masculinidade heterossexual. Porém, isso deveria ocorrer sem causar nenhum possível constrangimento aos supostos clientes. Neste sentido algumas estratégias foram utilizadas pelos projetistas. É possível observar que raramente a imagens se apresentam de forma isolada. A maioria das fotografias estão dispostas em arranjos que possuem outras imagens com temas variados. A forma de organização dos arranjos (Figura 41 e Figura 42) dissimulam a presença das imagens dos nus femininos. A sua aproximação de outras imagens, como a de músicos ou mesmo de barbearias antigas (Figura 43), e a sua descontextualizarão de um possível local pornográfico, como as revistas especializadas, as ressignificam como uma imagem
de “bom gosto”. Em nenhum dos arranjos as imagens dos nus são apresentadas com destaque. Normalmente elas são as de menor dimensão. As maiores retratam barbearias antigas, artefatos para o feitio de barba ou então publicidade de cerveja. Seu posicionamento também é feito em função das imagens maiores, nunca estando acima destas. Há uma hierarquização na visualidade das imagens que dilui, materialmente e semanticamente, a presença destas imagens e as deslocam de um contexto pornográfico.
Figura 42 - Distribuição dos arranjos de imagens na Barbearia Clube 02. Fonte: Acervo arquiteto "CR".
Figura 43 - Distribuição dos arranjos de imagens na Barbearia Clube 03. Fonte: Foto do autor.
Aparentemente, não existem revistas consideradas pornográficas nos ambientes do estabelecimento. Apesar dos projetistas da Barbearia Clube não considerarem as fotografias expostas nas suas paredes como “pornografia”, é possível dizer no entanto, que estas imagens estão relacionadas a conteúdos imagéticos de revistas masculinas classificadas como pornográficas.
Beatriz Preciado (2010) define as revistas pornográficas como veículos de representações públicas da sexualidade. Em sua pesquisa, já mencionada neste trabalho – em que ela aborda as imbricações entre a materialidade e a construção de masculinidades a partir da década de 1950 – a autora afirma que a pornografia se configura, não somente pelas fotografias consideradas obscenas, mas também pela exposição pública do que é considerado de foro privado. As revistas pornográficas masculinas e suas imagens seriam formas de informação visual reproduzidas mecanicamente, capazes de despertar desejos corporais implicados na construção de masculinidades.
Segundo Hilan Bensusan (2004), a pornografia é parte significativa da construção das masculinidades, pois fornece aos homens um imaginário do que é ser “homem”, e um modo de estabelecer seu relacionamento com as mulheres. De
um modo geral a pornografia com imagens que retratam o nu feminino está de acordo com o olhar masculino, seus principais consumidores. Bensusan (2004) evidencia que a pornografia é uma criação de homens para os homens:
Ela tem um antigo lastro nas nossas formas artísticas que exibem a fêmea como sendo um prêmio, uma caça, um corpo a ser dominado. Ela tem uma função grande na formação de homens: ela ensina os homens como pensar nos seus instintos puros. A pornografia, que inventa sujeito e objeto do desejo, quer apresentar aos homens a libido em si mesma, [...] e contam aos homens que desejos eles devem ter (BENSUSAN, 2004, p. 134).
Desta forma a barbearia participa da construção destes homens e de seus entendimentos sobre o que é ser um “homem clássico”. É possível também observar a inserção, a iniciação dos meninos, levados pelas mães, em um processo de construção de desigualdades de gênero onde o machismo é produzido e reproduzido. Os ambientes e seus arranjos constroem posições de sujeito (HALL, 2000), a partir das quais, homens e meninos podem construir suas subjetividades em consonância com um ideal prescritivo que supõe que as masculinidades e suas formas de experienciar o mundo são necessariamente heterossexuais.