4 NO UNIVERSO ARTESANAL, OS SÍTIOS SIMBÓLICOS DE
4.1 O desenvolvimento e os sítios simbólicos de pertencimento
4.1.3 Artesanato regional na “Suíça pernambucana”
Em seu artigo sobre cultura global e identidades locais Li-Chang Sousa (2011), fala sobre as estimativas de resistência das culturas regionais e locais frente à magnitude da hegemonia de fluxos culturais globais que caminham para consolidar uma espécie de “cultura
global”. Haveria segundo a autora, probabilidade dessa “cultura global” interferir sobre as manifestações locais num processo de padronização/homogeneização, descaracterizando culturas tradicionais. A observação de Li-Chang parte da análise sobre a paisagem cultural que permeia os indivíduos e que conjuga elementos de várias culturas ao mesmo tempo.
Seria esta, uma premissa da cidade de Gravatá, com seus telhados coloniais de grande caimento, sobre as calçadas cobertas de artesanato regional, as quais fazem lembrar a colocação de Canclini sobre hibridismo cultural, formulando a noção de que até mesmo os sítios artesanais
“não são áreas delimitadas e homogêneas, mas espaços de interação em que as identidades e os sentimentos de pertencimento são formados com recursos materiais e simbólicos de origem local, nacional e transnacional” (CANCLINI, 2003, p. 153).
Existe uma discussão, portanto, sobre as interferências da globalização sobre costumes culturais que somam às comunidades fragmentos de outras culturas e que conflitam imediatamente com o que se considerara legitimamente representativo em um sítio; as tradições. Para Canclini (2003) a
globalização, que acirra a concorrência internacional e desestrutura a produção cultural endógena, favorece a expansão de indústrias culturais com capacidade de homogeneizar e ao mesmo tempo contemplar de forma articulada as diversidades setoriais e regionais. Destrói ou enfraquece os produtores pouco eficientes e concede às culturas periféricas a possibilidade de se encapsularem em suas tradições locais. Em uns poucos casos, dá a essas culturas a possibilidade de estilizar-se e difundir sua música, suas festas e sua gastronomia por meio de empresas transnacionais (CANCLINI, 2003, p. 22, Apud SOUSA, 2011).
Na verdade, o km 80 da Rota - 232, é maior do que qualquer imagem projetada, pois é composto pelo chamado hibridismo, que segundo Hall (2003) não é referível a uma identidade híbrida, que contrasta “tradicional” e “moderno”, mas sim um processo de tradução cultural, incompleto por estar em construção. O hibridismo é o que condiciona o sujeito a conciliar-se com várias matrizes culturais ao mesmo tempo.
Mendes (2011), estudou as bonequinhas da sorte a partir do hibridismo e da
folkcomunicação. Sua análise sobre correlações culturais levou a perceber que a comunicação
mercadológica que envolve tal artesanato insere-o num contexto comercial e de refuncionalização/ressignificação. Isto é, as bonecas de pano que eram simples brincadeiras agora são instrumentos simbólicos de sorte, isto visa converter valores simbólicos em econômicos. Nesta ressignificação, a bonequinha garante sua permanência de valor comercial/cultural, atribuindo o código “sorte” e o “saber-fazer” regional.
O artesanato bonequinha da sorte em sua escala de venda permite interação entre o local e o global, configura uma comunicação intergrupos. Pois representa uma produção popular e cultural que se reconverte em globalizada, transfigurando-se numa comunicação de sentidos, uma folkcomunicação, abrindo margem para um estudo entre fronteiras, folclore e a comunicação de massa, conforme elucida Mendes (2011). Por exemplo, a empresa “O Boticário” incorporou à marca como bonequinha “solidária” em duzentos e quarenta de suas franquias, assim como a Empresa Pernambucana de Turismo, gerando uma comunicação institucional. Esta, mobiliza e cria sentidos promovendo uma imagem positiva no mercado competitivo, engajam-se numa estratégia de comunicação organizacional (Ibidem).
O que justifica o uso do termo folkmarketing é a alteração até mesmo do nome inicial do artesanato em questão, com objetivos mercadológicos. Entenda-se a folkcomunicação como
troca de informações entre membros do mesmo grupo social, num primeiro momento, e entre grupos sociais distintos, num segundo momento. Portanto, consideram-se as práticas populares de produção de linguagem – no artesanato, nos jogos, nas diversões, nos eventos festivos e outras tantas formas de manifestações populares – como um modo de produzir sentido e reinventar as vinculações sociais, em nível comunitário e entre as comunidades e a sociedade em geral. Na perspectiva da folkcomunicação, a cultura é considerada como ambiente de produção, circulação e consumo de informações. É a condição ambiental de produção de sentido que viabiliza a dimensão comunicacional das práticas folclóricas. Segunda consideração: não conceber o mundo cultural das camadas populares como uma totalidade fechada, mas que esse mundo mantém uma relação social, invariavelmente tensa, com outras esferas sociais, seja na relação entre grupos ou classes sociais [...]. É o caso em que a cultura tradicional torna-se mediação na qual os segmentos populares produzem recursos cognitivos para minimizar o estranhamento diante das distintas linguagens apresentadas no processo de modernização (GUSHIKEN, 2011, p. 2 -3).
Na página eletrônica da “Barbosa Fair Trade”11 importador e atacadista internacional
das bonequinhas da sorte e de outros produtos advindos do Chile, Equador, Guatemala, África do Sul, Índia, Quênia e Sri Lanka, informa-se (nas línguas holandesa e alemã) que a loja virtual não é acessível aos consumidores diretos, apenas para atacadistas ou revendedores. O apelo inicial é “ser de um país em desenvolvimento” e “feito à mão”. Na etiqueta indicativa resistem apenas os dizeres gerais da boneca, num comparativo com o que é vendido em Pernambuco, acrescentado em negrito a seguir:
Se você usa uma bonequinha em seu coração, ela dá saúde. Com uma bonequinha em sua carteira, você gasta menos dinheiro. Oferece proteção no carro. E... se você tem uma bonequinha no seu bolso, você receberá muita paixão. [É boneca da sorte que veio de Gravatá é coisa do povo daqui é cultura popular. Por isso nunca esqueça Pernambuco é o lugar]. www.barbosa.nl/producenten/brazillie/nilza/ (Negrito nosso).
Nilza Bezerra não soube informar o valor pelo qual seu produto é vendido no exterior. O endereço que consta no site informa a localização física em Culemborg, na Holanda, sendo o escritório da Barbosa Fair Trade em outra cidade, Heerhugowaard. Conforme a líder do grupo de mulheres que trabalham com a bonequinha da sorte, existem outros canais de venda internacionais, mas são modestos e esporádicos.
O sítio artesanal gravataense é um dos mais diversos e ricos em artesanato regional, além de ser diverso em referências paisagísticas e gastronômicas, é também diverso em expressões artesanais. O outro artesanato aqui pesquisado, os brinquedos de madeira, podem ter uma funcionalidade importante uma vez incorporados às escolas. É até mesmo recomendável a julgar perspectivas pedagógicas como a montessoriana12 pela qual acredita-se
que o aprendizado parte do concreto para o abstrato e a experiência direta com materiais estimula a descoberta.
Pois, nas brincadeiras infantis, auxiliadas por jogos e materiais, é possível formular hipóteses, compartilhar emoções, criar e recriar o ambiente sociocultural. Crianças que se envolvem inteiramente com um universo lúdico ao interagirem com outras, ou somente com seus objetos, protagonizam um ato de aprendizagem (TEIXEIRA, 2009). Sem ter conhecimento real de sua importância, engajado no mercado dos brinquedos educativos, Josuel Cotó já atendeu a encomendas de escolas para confecção de brinquedos de aprendizagem matemática como ábacos (ver apêndice).
A confecção de brinquedos artesanais geralmente num contexto familiar, num coletivo escolar, ou comunitário, é capaz de fortalecer relações sociais configurando também uma manifestação cultural envolta em laços de afetividade, compartilhados entre muitos indivíduos. O mercado dos brinquedos artesanais está enfraquecido e nesta era da globalização, o destino de muitos destes brinquedos pode ser os lugares de memória, explicados por Pierre Nora. Exatamente “onde subsiste uma consciência comemorativa numa história que a chama, por
que ela a ignora [...] monumentos, santuários, [museus], são os marcos testemunhas de uma outra era, das ilusões de eternidade” (NORA,1993, p. 12-13).
Para o autor, tais lugares fortalecem-se do sentimento de que a memória espontânea é módica, por este motivo é que se criam arquivos e outras operações não naturais. Assim, se o
12 Para melhor entender consulte Montessori (1965), tratando das condições do ambiente influenciadoras do desenvolvimento da criança, enaltece o papel do material concreto na aprendizagem.
que vive resguardado nestes lugares de memória (museus, santuários, etc.) não estivesse ameaçado, não teria razão de ali estar.
No recorte pesquisado foram encontrados brinquedos artesanais num lugar de memória: o Museu do Centro de Artesanato de Pernambuco em Bezerros. Entre os divertimentos simplórios estão: as miniaturas de parques de diversões e os carros de alumínio. A inserção de brinquedos artesanais em museus é uma prática mais comum do que se imagina, o que se conhece hoje como “Arte Figurativa”, antes tinha o nome de “Loiça de Brincadeira” (CABRAL, 2014).
A “Loiça de Brincadeira” não é o único exemplo regional, em cidades como Bezerros e Gravatá; o brinquedo “mané gostoso” (ver figura em apêndice) é considerado patrimônio lúdico pernambucano. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional –IPHAN, enquadra-o na categoria de “brinquedo popular”, mantendo durante anos projetos que envolviam atividades relacionadas à modalidade artesanal brincante. Assim, também o Museu do Homem do Nordeste da Fundação Joaquim Nabuco –FUNDAJ, resguarda em seu acervo alguns objetos da temática. Da mesma maneira, o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular – CNFCP enalteceu a figura de mestres brinquedistas pernambucanos e suas criações (IPHAN, s/d).
Neste sentido, entende-se que a cultura lúdica caracteriza-se como um patrimônio cultural, por ser peculiar a cada localidade, o que evidencia traços típicos das formas de brincar regionais, uma espécie de brincadeiras territorializadas (SILVA e SILVA, 2018). No âmbito de Gravatá, portanto, seria viável um olhar diferenciado e maiores investimentos no sentido de resguardar a tradição e ao mesmo tempo impulsionar as vendas assistindo artesãos que resistem na prática que referencia o lugar.