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ARTHUR THIRÉ E JOGOS DE PODER NO COLÉGIO PEDRO

PELAS ÁGUAS DA POLÍTICA

ARTHUR THIRÉ E JOGOS DE PODER NO COLÉGIO PEDRO

Analisando as ações de Arthur Thiré, podemos, ainda, fazer uma análise dos jogos de poder no interior do Colégio Pedro II. Embora sejam embates que colocam em jogo o futuro da educação matemática no país, achamos pertinentes trazer tais questões para esse capítulo. No entanto, temos clareza que tais questões não se esgotam por aqui.

Dois professores em posições antagônicas! É exatamente assim que podemos definir a relação entre os professores Arthur Thiré e Joaquim de Almeida Lisbôa. Onde se deu o início de tal disputa? Não sabemos ao certo, mas podemos deduzir: nas publicações didáticas de cada um. No espaço conquistado junto às editoras. O primeiro round dá-se quando Arthur Thiré solicita à congregação do Gymnásio Nacional21 dispensa do concurso de ingresso, pois os professores que têm obras publicadas na área que pretendem atuar e cujo nome é reconhecido pelo saber que possui na área em questão, poderiam ser dispensados de tal concurso. O professor Joaquim de Almeida Lisbôa foi escolhido para dar um parecer sobre a obra do professor Thiré. Seu parecer consta de 48 páginas datilografadas, intitulado “OS LIVROS DE MATHEMATICA DO SNR. THIRÉ: Parecer apresentado á Congregação do Gymnasio Nacional, pelo lente de mathematica do Externato Pedro II, Joaquim Lisbôa”. Esse parecer (anexo V) é uma crítica que o professor Lisbôa faz às obras do professor Thiré, colocando-as no terreno de obras desprezíveis, afirmando que

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A denominação de Colégio Pedro II foi dada pelo Decreto 7.472, de 24 de julho de 1909, quando o Externado passou a ser assim denominado, e o internato denominado Colégio Bernardo de Vasconcelos (Gabaglia, 1914, p. 113).

seus livros não têm absolutamente nenhum valor (LISBÔA, p. 9). Após longas demonstrações de tudo o que considerava erro ou mau gosto nos livros, encerrou suas análises afirmando que o professor Thiré não poderia ser dispensado do concurso.

O professor Thiré faz o concurso e ingressa no Colégio Pedro II. Ao mesmo tempo em que ministra aulas de matemática no Colégio Pedro II, publica obras de cunho didático, incentivando mudanças na prática de sala de aula. As análises dessas obras fazem parte do capítulo 4. Nas reuniões de Congregação do Colégio, por vezes os embates foram acirrados. Vejamos alguns exemplos.

Em reunião da congregação, de 02 de maio de 1912, foi discutido um projeto de Arthur Thiré sobre a realização do ensino de matemática elementar em quatro anos. Tal proposta tem por base o decreto do Ministro do Interior Rivadávia Cunha Correa, o qual determinava que os estabelecimentos de ensino secundário teriam, no

ensino, um caráter prático, libertando-o da condição de subalterno de curso preparatório de ensino superior (GABAGLIA, p. 126). A proposta não apresentou

grandes mudanças, poderíamos dizer que foi uma primeira proposta nesse sentido. A proposta não saiu do papel, graças à oposição de antigos membros da congregação, como Lisboa (Livro de Atas do CPII).

Na reunião de 9 de fevereiro de 1918, Arthur Thiré apresentou projeto para a criação de um curso completo complementar de matemática, para obtenção de grau de bacharel em Ciências Matemáticas. Seu projeto foi complementado por Raja Gabaglia, dizendo que o bacharel em Letras não possuia utilidade prática para o país. Defendeu a idéia de que os alunos do Colégio Pedro II deveriam sair aptos a ganhar a vida. Agliberto Xavier também fez considerações sobre o projeto que em seguida é votado e aprovado por unanimidade (Livro de Atas do CPII, p. 19).

Em 14 de março de 1919, o assunto em pauta era a votação do programa de matemáticas, apresentado por Almeida Lisbôa. Defendendo sua proposta, Lisbôa falou de sua discordância com o professor Arthur Thiré sobre tais programas, considerando a proposta de Thiré diminuta. O Diretor Carlos de Laet propôs a necessidade de se apresentar um parecer por escrito sobre o programa apresentado por Lisbôa. Esse, numa atitude de enfrentamento, requereu a retirada do programa

que apresentou. Arthur Thiré diz: quando apresentei o meu programma não havia

outro. Agora que vi que o programma de Lisbôa consulta os altos interesses do ensino, acho-o melhor. Assim falando, vota também pelo programa apresentado por

Lisbôa (Livro de Atas do CPII, 1919, p. 160).

Outro embate foi pela ocupação da cátedra de matemática do Externato Pedro II, por ocasião do falecimento do professor Eugênio de Barros Raja Gabaglia. Nesse caso a disputa deu-se entre Arthur Thiré e Euclides Roxo. Com o falecimento de Gabaglia, o diretor Carlos de Laet designou Euclides Roxo para ocupar interinamente a vaga aberta, em 31 de março de 1919, visto que era professor substituto nomeado pela portaria ministerial, de 30 de dezembro de 1915. Em sessão de 07 de maio de 1919, por intermédio de aviso de número 661, o Ministro da Justiça, Urbano Santos, pediu à Congregação informações sobre o requerimento que Arthur Thiré havia encaminhado, solicitando junto ao ministério sua transferência para a vaga do professor Gabaglia no Externato, visto que era lotado no Internato. Uma discussão se estabeleceu e solicitando a palavra, Roxo defendeu seus direitos, afirmando ser ele o substituto para a vaga, condição adquirida ao ser classificado em primeiro lugar para a vaga, quando realizou concurso de títulos para o cargo de professor substituto, sendo nomeado em portaria ministerial, em 30 de dezembro de 1915. A congregação votou e Arthur Thiré venceu, recebendo apoio da maioria de seus membros, inclusive de seu Diretor. No entanto, para assumir a cadeira seria necessária a nomeação realizada pelo ministro. Em decreto, de 02 de outubro de 1919, Euclides Roxo é nomeado para a vaga. Em 11 de outubro de 1919, realizou-se a sessão de posse do professor Euclides Roxo. Arthur Thiré não se fez presente a tal sessão.

Em reunião de 22 de março de 1922, Thiré apresentou modificação para o curso de álgebra, alegando a exigüidade do tempo para o programa em vigor. A proposta de Thiré perdeu por 9 votos a 5 (Livro de Atas do CPII, p. 109).

Na reunião de 25 de julho de 1922, o professor Thiré apresentou ofício dizendo que o tempo para Aritmética era pequeno. Lisbôa discordou (Livro de Atas do CPII, p. 115).

Na sessão de 18 de abril de 1922, Arthur Thiré, Euclides Roxo, Henrique Costa, Fernando Raja Gabaglia, Guilherme de Moura Oliveira de Menezes e José Accioli propuseram que não fossem aceitas as sugestões do Ministro da Justiça sobre a distribuição e aumento do horário das aulas de matemática. Henrique Costa argumentou que o novo programa de matemática poderia ser cumprido com a carga horária antiga. O presidente questionou aos professores de matemática se realmente conseguiriam cumprir o novo programa com o número de aulas antigo, e Arthur Thiré, Henrique Costa e Euclides Roxo, respondem que sim (Livro de Atas do CPII).

Em 04 de março de 1924, Arthur Thiré propôs suprimir a equação exponencial da álgebra. Euclides Roxo e Agliberto Xavier queriam que fosse aumentada, e não suprimida a matéria. Votadas as propostas, mantiveram o programa já aprovado (Livro de Atas do CPII).

Observamos nos relatos das atas do Colégio Pedro II, que o professor Arthur Thiré apresentava uma postura bem mais pacífica do que alguns membros da congregação, que não se preocupavam em afrontar ou bater de frente. De um lado, o experiente professor Arthur Thiré motivava a congregação na busca da modernização do ensino de matemática, por outro lado, professores tradicionais como Lisbôa não aceitavam qualquer mudança nesse sentido. Os jogos de poder foram acontecendo e sendo tais conflitos administrados, ora por um dos lados, ora pela direção da congregação, e em outros momentos pelos próprios membros da mesma. Considerando que, segundo Foucault toda relação de forças é uma relação de poder, afirmamos que as relações de poder sempre permeavam os corredores do Pedro II.

CAPÍTULO 3