3.2. Estrutura e Funcionamento do Atendimento Educacional Especializado nas Salas de
3.2.6. Articulação com o Ensino das Classes Comuns
Esta unidade temática preocupa-se em descrever e analisar os discursos das
professoras das SRMs, produzidos no transcurso dos grupos focais ou informados via
questionário, especificamente sobre a relação do AEE ofertado nas SRMs com o ensino nas
classes comuns. Assim, alguns tópicos de problematização são salientados nesta unidade
temática, quais sejam: a função da escolarização dos alunos com NEEs, a questão da
responsabilidade pela alfabetização desse alunado, as diferenças e a interface entre os
trabalhos desenvolvidos na sala comum e na SRMs, as resistências manifestas no processo de
inclusão escolar, a participação das professoras das SRMs nas atividades gerais da escola, o
relacionamento entre os pais e professoras das SRMs.
Instigadas a refletir sobre a função da escolarização dos alunos com NEEs, as
professoras das SRMs da rede estadual destacam os aspectos da aprendizagem, da
participação social e da cidadania, em igualdade de condições e respeitadas as suas
especificidades. São representativos os enunciados da PE1 que compreende que a
escolarização dessa população tem “os mesmos objetivos que os alunos sem deficiência,
aprender a ler e a escrever, conseguir assimilar coisa do cotidiano, manusear cédulas, ir ao
supermercado”, bem como os da PE4 que enfatiza a sua função para que “eles possam
aprender e se tornar cidadãos críticos”. A PE3 enfatiza, num tom de perspectiva ideal, que a
“função da escolarização para essa criança deveria ser da mesma forma ao aluno sem NEE;
porém o aluno com NEE irá absorver de maneira diferente”.
As concepções apresentadas pelas professoras das SRMs rede estadual aproximam-se,
de certa forma, das reflexões de Ferreira e Ferreira (2007, p. 40), que afirmam que a
escolarização na perspectiva da cidadania:
[...] trata de valorizar a curiosidade investigativa sobre os fenômenos da natureza,
sobre os processos sociais, sobre a interação entre eles; trata de desenvolver a
apropriação de linguagens do mundo contemporâneo como instrumentos de
socialização do conhecimento e ferramentas do pensamento; e trata de permitir a
expressão, a vivência de valores que tiram a máscara de neutralidade do
conhecimento, para fazer dele fonte de transformação do sujeito e da vida em
sociedade.
Dada essa circunstância, provocou-se a problematização a respeito da diferença entre o
trabalho realizado nas SRMs e nas classes comuns. Desta feita, as professoras das SRMs da
rede estadual indicam o AEE nas SRMs como suporte ao trabalho nas classes comuns.
Representativo o enunciado da PE3:
É uma forma de contribuir mesmo [o AEE nas SRMs]. Às vezes eu trabalho a
dificuldade que eles estão tendo na sala comum: se é matemática, eu trabalho
matemática; se for português, eu trabalho língua portuguesa. Mas eu não trabalho,
por exemplo, “orações subordinadas”, eu trabalho textos, interpretação de textos.
Nesse sentido, a PE1 elucida:
O AEE não é reforço! Porque no início as professoras [das classes comuns] achavam
que o AEE era reforço. No AEE o trabalho é diferenciado. Não se aborda o conteúdo
da mesma forma que se trabalha na classe comum. Deixo claro que: se precisar
ampliar material a gente amplia; se precisar de algum recurso que tenho aqui pode
pegar para trabalhar na sala. Deixo bem claro ao professor que estou de prontidão no
caso de precisarem de alguma ajuda, algum recurso.
O enunciado acima da PE1 reproduz o discurso oficial – “[...] o AEE não se confunde
com reforço escolar” (ROPOLI ET AL, 2010, p. 23) – e é recorrente em pesquisas que
utilizam as narrativas dos professores das SRMs (MICHELS; CARNEIRO; GARCIA, 2011;
MILANESI, 2012). Entretanto, Michels, Carneiro e Garcia (2011, p. 15) problematizam esse
enunciado, já que “O preço de tal concepção pode ser uma autonomia da Educação Especial
em relação à Educação Básica, característica de um modelo tradicional que se desenvolveu
nas instituições especializadas e que está sendo conservado na perspectiva inclusiva”. Assim,
adverte-se para o fato de a SRMs dar ênfase a “[...] um trabalho estritamente técnico focado
nas deficiências do sujeito” (BAPTISTA, 2011b, p. 4). Nesse sentido, Baptista (2011b)
questiona a configuração das SRMs em espaços de “preparação para a aprendizagem”, tal
qual a lógica das classes especiais. Para tanto, compreende-se a necessidade destes serviços de
educação especial ensejarem, para além do sujeito atendido, uma atuação junto às relações
sociais e escolares estabelecidas com este sujeito.
Quanto ao fato dos recursos pedagógicos das SRMs da rede estadual estarem
disponíveis nas classes comuns, a PE1 afirma: “nem sempre! Por exemplo, tem muitos jogos,
mas os professores dizem que dá muito trabalho levar os jogos para sala [comum] porque
pode perder e dispersar os outros alunos”. A PE2 aponta que “quando o professor vai usar,
por exemplo, o mapa [em alto relevo para os alunos com deficiência visual/cegueira], ele pega
na minha sala. Mas não está na sala de aula”. Os enunciados produzidos pela PE1 e PE2
distanciam-se das recomendações expressas nos dispositivos oficiais (BRASIL, 2009b), já
que cabe ao professor do AEE introduzir “[...] para seus colegas do ensino comum e para os
alunos das turmas os equipamentos e recursos que são utilizados por seu aluno de educação
especial no AEE, para que todos possam compartilhar as atividades escolares de forma
cooperativa na sala de aula” (MANTOAN; SANTOS, 2010, p. 33).
Um dos pontos mais salientados do discurso oficial para a promoção da inclusão
escolar do público-alvo da educação especial é a interface que deve existir entre o trabalho
desenvolvido pelo professor do AEE e o da sala comum. Nesse aspecto, verificou-se que na
rede estadual essa interface não se dá de forma sistematizada, planejada, mas, sim,
aleatoriamente, como sugere a PE1:
A interface com os professores das classes comuns às vezes se dá no intervalo, no
recreio [...] é natural. Nós temos as sextas-feiras para realizar a interface. Tentamos
ser mais natural para que o professor da classe comum não se sinta pressionado,
ofereça resistência. Assim, no bate papo buscamos saber como o aluno está se
portando em sala, como está sendo a interação e desempenho dele.
Silva (2009), Oliveira e Lima (2011) e Miranda (2011) chegaram às mesmas
constatações em suas pesquisas em escolas estaduais, qual seja, a informalidade das trocas
entre o professor do AEE e o professor da classe comum. Nesse sentido, Garcia e Lopez
(2013, [n.p.]) entendem que
[...] os atendimentos educacionais especializados têm assumido uma
complementariedade formal, uma vez que não constituem serviços articulados com
o trabalho pedagógico desenvolvido na classe comum. Podemos dizer que em
grande medida o modus operandis das salas de recursos, do ponto de vista do
trabalho docente ali realizado mantêm-se como paralelo ao trabalho realizado na
classe comum, o qual pouco incide sobre o processo de escolarização ou de
educação formal dos sujeitos da modalidade educação especial.
Ainda, observam-se, nessa forma espontânea para articulação das ações, as relações de
poder e entre os professores das SRMs e os das classes comuns. O enunciado da PE1 é
ilustrativo:
Quando o professor [da sala comum] quer que eu alfabetize o aluno eu digo:
professor, esse aluno, antes de ser meu, é um aluno seu! Porque às vezes o professor
fala: esse aluno tem deficiência, ele é da sala de recursos. No horário do contraturno
ele é meu! Mas no horário da escolarização ele é do professor da classe comum.
No caso da deficiência auditiva, a PE3 insere, para além dos professores das classes
comuns e das SRMs, outros agentes no campo de disputas da educação para o estudante
surdo: o instrutor mediador e o intérprete. Assim, a PE3 enuncia que, quando o professor
regular não assume a responsabilidade pela escolarização, “os surdos muitas vezes ficam
dependentes do instrutor mediador”, Ainda, menciona que “o intérprete não é o professor do
aluno surdo. Porque às vezes há uma confusão de papéis. Se um surdo é fluente na língua
dele, o intérprete só irá fazer a transmissão”. Essas considerações evocam novas
problematizações acerca do papel de cada um desses atores na educação do aluno surdo e
sugerem as omissões, as resistências e as lutas próprias do espaço da política.
O Quadro 8 ilustra a participação das professoras das SRMs da rede estadual nas
seguintes atividades gerais das escolas em que atuam: conselhos de classe, reuniões
administrativas, reuniões de pais, horário de trabalho pedagógico coletivo, atividades sociais e
culturais.
Quadro 8 – Participação das professoras das salas de recursos multifuncionais nas atividades
gerais da escola – rede estadual de ensino de Paranaíba/MS
Professoras
das SRMs
Conselhos
de classe
Reuniões
administrativas
Reuniões
de pais
Horário de trabalho
pedagógico coletivo
Atividades
sociais e
culturais
PE1 Não respondeu
PE2 X X X X X
PE3 X X
PE4 X X X X
Fonte: elaborado pelo autor com base nos dados coletado na pesquisa (2012)
Como se observa, com exceção da PE1 que não preencheu este item do questionário
aplicado, apenas a PE2 indica que participa de horário de trabalho pedagógico coletivo,
espaço que possivelmente seria viável para a realização da interface entre o trabalho do
professor da sala comum e o atendimento prestado nas SRMs. Ainda, constata-se que, das
professoras que responderam ao questionário, todas (PE2, PE3 e PE4) mencionam a
participação nas reuniões de pais e de atividades sociais e culturais. Salienta-se, ademais, que
todas as professoras das SRMs da rede estadual informam que recebem apoio da equipe
escolar, contradizendo, assim, outros enunciados produzidos anteriormente.
No ensino regular, informa a PE1 que, em época de provas, houve casos de
professoras das classes comuns procurarem a gestora da educação especial para saber como
avaliar o rendimento acadêmico dos alunos público-alvo da educação especial, mormente os
com deficiência intelectual. Assim, nas palavras da PE1, “a gestora orientou que a avaliação
fosse realizada dentro das habilidades do aluno com deficiência intelectual, atribuindo uma
nota não somente pela produção acadêmica, mas o que evoluiu no social, na linguagem oral,
na participação”. Salienta-se que, de acordo com as professoras das SRMs da rede estadual,
são atribuídas notas aos alunos com NEEs nas classes comuns.
Quanto às adequações/adaptações das provas para os alunos com NEEs nas classes
comuns da rede estadual, levantou-se que: “a prova do deficiente intelectual não é adaptada”
(PE1); dos alunos cegos somente um realiza a prova em Braille, sendo que “os demais
realizam prova oral” (PE2), “as provas para os surdos não são adaptadas, mas tem o instrutor
mediador para interpretar a prova para o aluno surdo” (PE3). Nas interações do grupo focal,
os professores das SRMs da rede estadual advertiram para os perigos de criar generalizações
acerca das adaptações das provas nas classes comuns, enfatizando que tal ação varia “de
professor para professor”.
Sobre a participação dos alunos com NEEs da rede estadual nas provas oficiais
padronizadas, a PE1 acenou afirmativamente. No que se refere ao impacto dos resultados das
provas dos alunos com NEEs, a PE1 destaca que “não teve tanta diferença na média dos
alunos com ou sem deficiência, já que essas provas são objetivas” (PE1).
Acerca da decisão para promoção ou retenção do aluno com NEEs em classes comuns,
as professoras das SRMs da rede estadual foram unânimes ao declarar a existência de um
processo diferenciado na discussão da promoção/retenção de alunos com ou sem deficiências.
Nesse sentido, cabe salientar o relato da PE2:
Em termos de promoção no ensino regular, geralmente, a final do ano, reúnem-se
professores da classe comum, coordenador pedagógico, professor da SRM e a
gestora da educação especial e discute-se o que é melhor para esse aluno, elencando
vários aspectos para verificar o que é melhor para ele, se é promover ou reter por
mais um ano.
Sobre o relacionamento dos pais dos alunos com as professoras das SRMs da rede
estadual que realizam o AEE, a PE3 informa que periodicamente “os pais dos surdos ligam
para saber”. A PE1 acrescenta que “há reuniões semestrais coma a família para mostrar o
desempenho e o desenvolvimento do aluno/filho. Quando o aluno está faltando eu vou até a
casa dele para saber o porquê das faltas”.
Neste momento, expõem-se os enunciados das professoras das SRMs da rede
municipal referentes aos tópicos eleitos para configuração desta unidade temática. Desse
modo, apresentam-se, em primeiro lugar, as percepções das professoras das SRMs da rede
municipal sobre a função da escolarização dos alunos com NEEs, as quais expressam o
sentido da escolarização baseado na promoção da autonomia, da aprendizagem e do
desenvolvimento, da cidadania desse alunado e aproximam-se, portanto, das concepções
manifestadas pelas professoras das SRMs da rede estadual. O enunciado da PM1 simboliza os
objetivos da escolarização do estudante com NEE: “tornar o aluno um indivíduo consciente –
mesmo com suas limitações – e atuante no meio, e exercendo o papel dele de ser humano”
(PM1).
Entretanto, atentando-se às práticas cotidianas da escola, a PM4 adverte que a função
da escolarização do estudante com NEEs “tem sido a socialização. Embora eu pense que não
deva ser o objetivo maior. Já que eles não estão ali só pra socializar, mas para aprender assim
como os demais”. Nesse aspecto, o enunciado da PM4 aproxima-se do posicionamento de
Barreto e Goulart (2008, p. 97) de que “Garantir a convivência social não é sinônimo de
inclusão. A inclusão só ocorre, de fato, quando são efetivadas políticas educacionais que
garantam a aprendizagem e a participação social, e que ambas – Educação e Educação
Especial – sejam discutidas conjuntamente”. Acrescenta a PM1, sob os efeitos do enunciado
da PM4, que “acho que [o objetivo da escolarização] é desenvolver habilidades e
potencialidades. Eu não acho que seja ler e escrever, porque isso pode acontecer com alguns,
mas o principal é torná-los autônomos” (PM1). A concepção de escolarização do público-alvo
da educação especial apresentada pela PM1 “[...] faz com que muitas instituições e
profissionais organizem suas práticas, caracterizadas pela baixa expectativa em relação a seus
alunos, como natural” (BARRETO; GOULART, 2008, p. 95).
Quanto à diferença entre o ensino da sala comum e o da SRMs, a PM3 enuncia que “o
objetivo do ensino na sala comum é levar o aluno ao conhecimento acadêmico, enquanto o
AEE é voltado mais à autonomia do aluno, para que ele possa melhorar sua integração na sala
de aula, na escola, e fora da escola”. Contudo, dada a complexidade da política de inclusão
escolar, o contexto da prática não está em consonância com o discurso oficial, como adverte a
PM1, “eles [os alunos com NEEs] não participam de todas as atividades do currículo [da sala
de aula comum]. Tem horas que você chega lá e a professora está passando geografia no
quadro e a monitora está brincando com ele de quebra-cabeça que não tem nada a ver com o
conteúdo”. Neste cenário, Baptista (2011b, p. 1), para refletir sobre a política de inclusão
escolar do público-alvo da educação especial, convoca
[...] um amplo debate sobre as diretrizes da escola brasileira, sua organização
pedagógica e seus profissionais, no sentido de favorecer a pluralidade de ações que
sejam complementares, que constituam um currículo pautado na abrangência, na
flexibilidade e na garantia de acesso ao conhecimento.
Problematizando a relação entre os professores das salas comuns e os das SRMs da
rede municipal, com vistas a identificar a existência de interface entre esses trabalhos, a PM4
afirma que “alguns professores são abertos; a maioria não!”. Já a PM1 é mais contundente ao
enunciar que “se houvesse interface, existiria essa relação”. Posto isto, tal como na rede
estadual, verifica-se fragilização entre a articulação sistematizada entre o ensino comum e o
AEE ofertado nas SRMs das escolas municipais – constatação ao qual Michels, Carneiro e
Garcia (2011) e Milanesi (2012) também alcançaram em seus estudos realizados,
respectivamente, na rede municipal de Florianópolis/SC e na rede municipal de Rio Claro/SP.
O Quadro 9, elaborado com dados coletados via questionário aplicado aos professores
das SRMs da rede municipal, reitera esta constatação, já que apenas a PM3 indicou sua
participação nas atividades de trabalho pedagógico coletivo da escola.
Quadro 9 – Participação das professoras das salas de recursos multifuncionais nas atividades
gerais da escola – rede municipal de ensino de Paranaíba/MS
Professor
as das
SRMs
Conselhos
de classe
Reuniões
administra
tivas
Reuniões de
pais
Horário de trabalho
pedagógico coletivo
Atividades
sociais e
culturais
PM1 X X
PM2 X X
PM3 X X X
PM4 X X X
Fonte: elaborado pelo autor com base nos dados da pesquisa (2012)
Ainda, dos dados apresentados no Quadro 9, a única atividade geral da escola que
todas as professoras das SRMs da rede municipal informam que participam são as reuniões
com os pais dos estudantes. Além disso, com exceção da PM4, as outras apontam a
participação em atividades sociais e culturais das escolas em que atuam.
Outro dado importante para esta análise é que, das quatro professoras das SRMs da
rede municipal, duas (PM3 e PM4) acenam que recebem apoio da equipe escolar e as outras
duas (PM1 e PM2) indicam ausência desse apoio. Cotejando essa informação com os dados
expostos no Quadro 9, cabe problematizar se há relação entre a ausência de apoio da equipe
escolar e a participação das PM1 e PM2 somente nas reuniões de pais e atividades sociais e
culturais no contexto das atividades gerais da escola.
Para potencializar os serviços prestados no AEE das SRMs, Mantoan e Santos (2010,
p. 34) ecoando as recomendações do documento oficial intitulado Sala de recursos
multifuncionais: espaço para atendimento educacional especializado (BRASIL, 2006),
consideram que
A presença do professor de educação especial nas reuniões de elaboração do Projeto
Político Pedagógico – PPP – das escolas é fundamental, assim como em encontros
para planejamento mensal de atividades, avaliação do desempenho dos alunos do
AEE, encontro com os pais, organização e realização de festividades, enfim de todas
as iniciativas e ações pedagógicas e sociais das escolas.
Conforme as professoras das SRMs da rede municipal, os alunos público-alvo da
educação especial são avaliados nas classes comuns com base na média geral da sala. Nas
interações do grupo focal, ao discutir as notas atribuídas nas classes comuns, diversas
situações foram colocadas em pauta: a PM2 informa que “às vezes é por mérito, em outras o
professor diz que colocou o aluno para fazer prova em grupo”; a PM4 indica que nem sempre
as notas recebidas refletem o desempenho do aluno. Sobre o tema, a PM1 condensa os
principais casos: “tem professor que prefere deixar o diário em branco e no final do ano
decidir; outros preferem dar nota seis [média mínima para aprovação] para no final do ano o
aluno passar de qualquer jeito; outros, ainda, preferem dar a nota que ele tirou mesmo, a nota
real”.
Em relação à avaliação de educandos com deficiência intelectual, Anache e Martinez
(2009) problematizam a visão classificatória que continua perseguindo o ideal de
homogeneização das turmas, quer nas escolas do ensino comum que nas escolas especiais.
Para as autoras a “[...] avaliação precisa romper com práticas classificatórias que tendem a
reprodução mecânica dos conteúdos, privilegiando a competitividade e não o trabalho
coletivo” (ANACHE; MARTINEZ, 2009, p. 52).
Referente às adaptações das provas nas salas comuns, a PM4 aponta que “alguns
[professores] me perguntam como elaborar a prova”, já as PM1 e PM2 afirmam que poucos
professores as procuram para dialogar sobre o assunto, e, quando isso ocorre, no caso de
alunos não-alfabetizados, aconselha-se “aos professores aplicarem prova oral” (PM2).
Na rede municipal, como já informado neste texto, adotou-se a proposta de inserir
profissionais de apoio pedagógico, denominados “monitores”, nas salas comuns para
acompanhar, principalmente, alunos com deficiência intelectual, transtornos globais do
desenvolvimento, paralisia cerebral. Esses monitores geralmente são, de acordo com as
professoras das SRMs, estagiários dos cursos de licenciatura, que, dadas as resistências e
circunstâncias adversas, acabam se responsabilizando pelo ensino do aluno com NEEs, como
enunciam a PM1 (“o professor entrega para o monitor!”) e a PM4 “numa sala de
alfabetização, os professores se angustiam [pela exigência de alfabetizar um grande número
de alunos], e a alfabetização do aluno com deficiência intelectual fica para o monitor”. O
enunciado da PM4 é provocativo para pensar no plano subjetivo acerca da sua formação como
também pela política de resultados que assombram as escolas atuais. Nessa perspectiva,
analisa Ball (2001, p. 109) que “O ato do ensino e a subjetividade dos/as professores/as
alteram-se profundamente no contexto do novo panopticismo da gestão (da qualidade e
excelência) e perante as novas formas de controle empresarial (através de marketing e
competição)”.
Acerca da participação de alunos com NEEs da rede municipal, nas avaliações oficiais
em larga escala, um certo silêncio foi irrompido no grupo focal. Entretanto, a PM2 indica que
os alunos surdos participam, ao passo que a PM4 adverte que “há casos em que se pede para o
aluno faltar”.
No que diz respeito ao processo de decisão sobre a retenção ou promoção do aluno
No documento
MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO UNIVERSIDADE FEDERAL DA GRANDE DOURADOS FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
(páginas 171-181)