5. RESULTADOS
5.4 Artigo 4: “Mesmo doente, a gente tem que vir trabalhar” - Vulnerabilidade à saúde de
infantil em Salvador – BA.
RESUMO
O artigo teve por objetivo analisar os principais condicionantes que induzem a situação de vulnerabilidade à saúde de crianças e adolescentes na realização da prática do trabalho infantil informal. Para tal, procurou-se compreender as disposições inerentes à dinâmica familiar na organização da prática laboral, os problemas relacionados à violência doméstica e ao local de moradia; no entanto, foi dada especial atenção às vulnerabilidades relacionadas à violência urbana e à saúde, principalmente nos espaços públicos, nas ruas e nas praias, por elas estarem susceptíveis aos riscos, agravos e/ou aos acidentes de trabalho. A metodologia incluiu a observação participante, diário de campo e entrevistas semiestruturadas. Foram realizadas 17 entrevistas com agentes sociais, sendo 10 de crianças e adolescentes com idade entre 09 a 17 anos, também foram feitas 07 entrevistas com jovens de 18 a 21 anos, mas que havia iniciado a prática laborativa na infância e permaneciam na condição de trabalhador informal. Os resultados mostram que os agentes sociais investigados, principalmente quando estão comercializando seus produtos nos pontos turísticos, centro histórico e praias, ficam mais exposta à vulnerabilidade social relacionada a legítima violência simbólica e sexual, com fins de dominação, de exploração, do assédio, de opressão, de humilhação, de constrangimento e de violação grave dos direitos humanos, do corpo e dos seus desejos.
Palavra-chave: Trabalho Infantil, Vulnerabilidade à saúde, Saúde Pública, Crianças e Adolescentes.
INTRODUÇÃO
A prática do trabalho infantil historicamente vem sendo produzida e reproduzida de geração a geração, caracterizada, muitas vezes, como uma forma de assegurar a sobrevivência familiar e o oficio de uma profissão para os filhos, com intuito de socialização, busca e a garantia de vínculos futuros no mercado de trabalho.
À medida que a família encontra dificuldades para cumprir satisfatoriamente suas tarefas básicas de socialização e de amparo/serviços aos seus membros, criam-se situações de vulnerabilidade. A vida familiar para ser efetiva e eficaz depende de condições para sua sustentação e manutenção de seus vínculos (PETRINI, 2003).
A estrutura familiar e a pobreza estão entre os diversos fatores que colaboram para a inserção precoce das crianças e dos adolescentes no mercado de trabalho. Antes dos 16 anos de idade o trabalho é considerado infantil, portanto, ilegal, exceto nas situações de aprendizagem estabelecidas pela Lei da Aprendizagem (Lei 10.097/2000) a partir dos 14 anos (BRASIL, 2010; CORROCHANO, 2013; 2014; SILVEIRA et al. 2012).
Diversos autores têm destacando a influência do território sobre as desigualdades de acesso ao mercado de trabalho e a bens e serviços urbanos, sobre a constituição de redes e sobre o acúmulo de capital cultural e social, que interferem significativamente sobre as oportunidades de integração, sobre as condições de vida e sobre a exposição a situações de risco e de vulnerabilidade social. (BOURDIEU, 2007; KAZTMAN, 2001; MARQUES, 2001;
KAZTMAN E WORMALD, 2002).
É compromisso da família, do Estado e da sociedade criar uma rede de proteção que dê condições para que crianças e adolescentes tenham acesso à educação integral, contextualizada e de qualidade, à saúde, à afirmação e reconhecimento cultural e à moradia.
Para tanto, é essencial que seu ingresso no mercado de trabalho na idade se dê de forma adequada, proporcionando espaço para seu amadurecimento profissional e prevenindo o seu comprometimento físico e emocional. Esse não é um desafio brasileiro apenas, mas global.
É preciso reconhecer que a prática do trabalho precoce pode trazer consequências para a vida das crianças e adolescentes ao afetar a saúde e interferir direta e drasticamente em todas as dimensões do seu desenvolvimento físico-biológico, emocional e social. Diante isso, o Ministério da Saúde elaborou e vem implementando as Diretrizes para a atenção Integral à Saúde de Crianças e Adolescentes Economicamente Ativos (DAISCEA), que visa à
elegibilidade dos acidentes no trabalho como evento possível de notificação compulsória (BRASIL, 2005).
Essa diretriz entende que o Sistema Único de Saúde (SUS) tem um papel de extrema relevância na atenção integral à saúde das crianças e adolescentes trabalhadores, no sentido de que as identifica, promove ações de educação sobre a saúde e segurança no trabalho, realiza ações de vigilância em saúde e atua de forma articulada com outros setores governamentais e da sociedade na prevenção e erradicação do trabalho infantil em suas piores formas, conforme a legislação vigente. Também oferece a possibilidade de avaliar a associação entre o trabalho e os problemas de saúde apresentados (BRASIL, 2005).
REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO
A metodologia deste trabalho consistiu na conjugação entre a observaçãoe entrevistas semiestruturadas, no intuito de compreender a situação de vulnerabilidades à saúde relacionadas a prática de trabalho infantil de crianças e adolescentes. As observações foram realizadas em espaços turísticos e de vida boêmia no da cidade de Salvador, com especial ênfase nos seguintes bairros: Barra, Rio Vermelho, Pelourinho, Avenida Sete, Dois de Julho.
Foi necessária uma rotina constante de observações nesses diversos espaços sociais, em diferentes períodos e dias da semana. Nas praias, as observações foram feitas no período matutino e vespertino, principalmente durante os finais de semana, e nos espaços socioboêmios especificamente no período noturno. À medida que iam sendo realizadas as incursões no campo de pesquisa, intensificavam-se as relações entre a pesquisadora e seus interlocutores.
O trabalho de campo teve início em 2013, de modo mais exploratório, a partir de observações, conversas informais e entrevistas exploratórias e se estendeu esporadicamente ao longo dos anos, intensificando-se no ano de 2016. A aproximação com as crianças e seus familiares foi processual e estabelecida de modo cuidado, de modo a estabelecer uma relação de confiança para tratar de um tema tão delicado e pouco abordado por essas pessoas no campo discursivo, já que ele é muito mais vivido e atuado e seus elementos simbólicos e discursivos por vezes ficam embutidos e há pouco ou nenhum espaço de explicitação e exposição. Dessa maneira, nos foi possível estabelecer uma relação social dialógica que nos permitisse adentrar em parceria com nossos interlocutores essa temática, sobre seus afazeres, a prática social do trabalho, a compreensão de seus pontos de vista sobre o mundo em que se inserem e estruturam suas percepções e ações.
Para os fins analíticos do presente artigo foram utilizadas 17 entrevistas das 22 entrevistas em profundidade realizadas, pois elas foram as que nos permitiram ouvir diretamente 10 de crianças e adolescentes com idade entre 09 a 17 anos e 07 com jovens de 18 a 21 anos. A inclusão dos mesmos justifica-se pelo fato de que iniciaram sua vida laborativa na infância e permanecem em situação de trabalho informal, o que nos oferece uma interessante visão retrospectiva e prospectiva, por ser esse um momento de profundas transformações e de estabelecimento de novas conexões com a família, a sexualidade, os relacionamentos, o trabalho, o estudo etc.
As entrevistas foram gravadas e transcritas na integra. Os participantes são identificados aqui por pseudônimos para evitar quaisquer possibilidades de desvelamento de sua identidade e/ou de seus familiares, o que se acentua no caso de uma pesquisa que se debruça sobre uma prática proibida por lei.
Foi feita uma leitura conjunta com fins ao esclarecimento de eventuais dúvidas do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e após a concordância e esclarecimento acerca dos objetivos e os procedimentos do estudo, foi feita a assinatura do termo pela pesquisadora e participantes. Este estudo respeitou os cuidados éticos necessários e foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia, parecer número 1499.586.
A construção do pautou-se na teoria das práticas do autor Pierre Bourdieu. Propôs-se pensar a vulnerabilidade à saúde a partir das disposições práticas do trabalho informal como sendo produto de um processo de interiorização das estruturas pelos agentes sociais, crianças e adolescentes, sobre as questões que as tornam frágeis mediante a inserção social no ambiente familiar e no mundo do trabalho.
Para abordar a vulnerabilidade à saúde utiliza-se como base a discussão sobre a vulnerabilidade social, pois envolve as debilidades e desvantagens da relação entre a disponibilidade de recursos materiais ou simbólicos dos agentes sociais, no caso aqui das crianças e adolescentes pesquisados, e o acesso à estrutura de oportunidades sociais, econômicas, culturais, acrescenta a saúde, que provêm do Estado, do mercado e da sociedade.
(ABRAMOVAY, 2002).
De acordo com Vieira-da-Silva (2010) posição ocupada por determinado agente em um espaço social, define as condições gerais de existência que permitem o acesso à boa alimentação, moradia e a serviços de saúde, mas que conforme for a posição ocupada, tanto pode ser causador de desconforto, como pode ser vivido como angustia e stress, portanto gerador de doenças.
Apresentam-se os principais condicionantes que induzem a situação de vulnerabilidade à saúde de crianças e adolescentes na realização da prática do trabalho precoce informal, as disposições inerentes à dinâmica familiar na organização da prática laboral, os problemas relacionados à violência doméstica e ao local de moradia, sobretudo, as vulnerabilidades relacionadas à violência urbana e à saúde, principalmente nos espaços públicos, nas ruas e nas praias, por elas estarem susceptíveis aos, riscos, agravos e/ou aos acidentes de trabalho.
VULNERABILIDADE À DINÂMICA FAMILIAR NA INCORPORAÇÃO DA PRÁTICA LABORAL PRECOCE.
“Mesmo doente, a gente tem que vier trabalhar, porque se não, as vezes não tinha comida pra comer, as vezes tinha que vir trabalhar arrumar dinheiro, comprar comida e comer‟ (Luana, 09 anos).
No grupo social investigado, encontraram-se similitudes em relação às situações de vulnerabilidade de crianças e adolescentes que exerciam distintas práticas do trabalho informal como vendedores ambulantes de alimentos e bebidas, como garçom de praia, operador no lava-jato, auxiliar de mecânico e ajudante da coleta e seleção de materiais reciclados. As disposições prática laboral inscrita na existência cotidiana indicavam uma estratégia de sobrevivência familiar.
Presume-se que as condições objetivas de existências dessas crianças e adolescentes submetam-nas a situação de vulnerabilidade devido as privações e a pobreza estrutural, especialmente, por morarem em bairros extensos apresentam um processo gradativo de desenvolvimento, com invasões e ocupação desordenada do solo, sobretudo em lugares segregados e com elevados índices de violências (CARVALHO, 2008).
As características predominantes da pobreza estrutural nesses bairros periféricos, em Salvador tem a ver, principalmente, com a segregação socioespacial e às forças do mercado, que impõem nas condições objetivas de existências das famílias as distâncias excessivas até o centro da cidade, a precarização de transporte públicos e vias de acesso, de formas de construções, de moradia, e também dificuldade de acesso aos serviços básicos mais diversos, especialmente os relacionados a educação e a saúde (SOARES, 2009)
Além disso, as famílias das crianças e adolescentes investigados por morarem nesses bairros, possivelmente, são vulneráveis ao desemprego e a informalidade. Segundo Borges e Carvalho (2014) no estudo sobre o “Mercado de trabalho, Segregação e Emprego em Salvador”, discute que, quanto mais houver distribuição desigual da atividade econômica no espaço urbano, maior será a concentração dos empregos formais em algumas regiões de modo desproporcional à distribuição da população. Com isso, vê-se que a pobreza e a desigualdade extrema persistem, ocasionando escassas possibilidades de mobilidade social à juventude (Pereira et al. 2017).
Constatações que foram observadas nos bairros de moradia dos agentes sociais pesquisados, onde, provavelmente, devido ao reduzido número de estabelecimentos e empregos formais no mercado de trabalho local, a estratégia de sobrevivência adotada pelas famílias, dentre as oportunidades ocupacionais, foram as relacionadas ao trabalho informal.
Dessa forma, as situações de vulnerabilidade existentes na inserção de crianças e adolescentes na prática laboral precoce, perpassa pela forma como se estabelece a organização de suas estruturas familiares, que em geral se constituem através de uniões livres sem a realização do casamento no civil e/ou religioso. Salvo exceções, há maior presença de domicílios chefiados por mulheres, devido a diversas situações, tais como separação e/ou abandono do companheiro, conforme relato:
Minha família é grande, mainha deixou 11 filhos, faleceu em 2011, ela bebia muito (...). Meu pai eu não sei quem é, não, quase todos meus irmãos tem um pai diferente. (...) Todo mundo vendia assim na rua, se eu não me engano nenhum dos meus irmãos completaram os estudos (Antônio, 17 anos).
Tenho pai, mas ele não gosta de mim, e nem eu gosto dele, ele sempre me desprezou. Ele não fica com uma mulher segura, ele pega se engravidou larga. Já tem seis filhos, tudo mãe diferente, nem uma gosta dele, ele tem seis processos, ele é aposentado não paga pensão de ninguém. (...). Minha mãe contou que ele queria me enterrar vivo, tipo assim, ele queria me botar no congelador, praticamente me enterrar no congelador da geladeira dela, na época que a gente morava lá em Sergipe, quando eu era pequeno, tinha dois anos e ele era usuário de drogas (Felipe, 12 anos).
Minha mãe tem seis filhos, cinco homens e uma menina. Meu pai infelizmente eu não conheço. Eu sou de pai individual, os outros três do mesmo pai e parece que os outros dois também é individual, já está no cotidiano da gente. É uma história um pouco embaralhada que eu não sei explicar como é funciona (Henrique, 17 anos).
Desse modo, a responsabilidade pelo o sustento familiar deixa de ser complementar, dividido entre o casal, e passa a ser única e especificamente uma obrigação imposta à mulher, conforme o relato: “ela não teve uma força masculina que auxiliasse na criação dos filhos.
Ela sempre foi mãe e pai (Henrique, 17 anos). Normalmente, observou-se que essas famílias chefiadas por mulheres são desprovidas de capital escolar, em termos escolares e apresentam baixo capital econômico, caracterizado pelo volume da renda familiar. Igualmente, percebeu-se que costumam ter mais crianças no espaço doméstico do que adultos e com isso, percebeu-se mostram mais vulneráveis a dificuldades no seu provimento financeiro.
Nas falas dos agentes sociais trabalhadores pesquisados, também foi possível de observar que os episódios de violência doméstica faziam parte de suas vidas, principalmente, devido ao alcoolismo dos pais, conforme se observa no relato de um adolescente ao lembrar da infância e a relação dos pais:
A infância não é muito agradável não, já passei por poucas e boas. Já morei na rua, de fome eu não morri, minha mãe sempre esteve ali lado a lado comigo, meu pai sumiu, pra não pagar pensão, ele bebia, batia muito nela.
Ela me contava que ele batia muito nela de baixo do chuveiro, dava soco e pontas pés, maltratava muito, então isso tudo foi acumulando na mente (Luciano, 21 anos).
Considera-se que devido essas complexas razões econômicas e sociais as famílias se veem impelidas a investirem no aprendizado da prática do trabalho infantil como uma possível alternativa à sobrevivência, a cada dia, através de trabalhos aleatórios e instáveis.
Acredita-se que é uma estratégia adotada na tentativa de provocar mudanças na posição no espaço social.
Pressupõem-se que é através da subjetividade socializada e dos valores práticos familiares, formado no inconsciente social, que essas crianças e adolescentes adquirem as disposições prática do trabalho informal desde tenra idade, como sendo um dos aspectos que compõe a forma de existência social.
A inserção nesse tipo de pratica informal, na maioria das vezes ocorre a partir da estruturação de uma prática de trabalho consolidada e desenvolvida pela família ou por amigos. Concomitantemente se observa na fala de Luana, 09 anos o descontentamento de sua inserção laboral associado às vendas de cachorro-quente, no espaço da rua:
Desde de quatro anos de idade eu acompanho minha mãe nas vendas, porque não tinha ninguém que me olhasse, ai eu ficava com minha mãe (...). Gostaria de ficar em casa, fazer as coisas dentro de casa, até que a gente trabalhasse dentro de casa mesmo, mais não trabalhasse na rua.
Dessa forma, a prática do trabalho infantil desenvolvida, especialmente, no espaço da rua faz parte do processo de socialização dessas crianças e adolescentes, onde a rua se torna elemento essencial em suas vidas desde de muito cedo, por ser um espaço na qual iniciam suas atividades de trabalho (SARTI, 1996). Mais ainda, notou-se que a disposição prática do
trabalho foi sendo inculcadas através da ordem, da disciplina, da responsabilidade e da moral que aos poucos se cristalizavam nas mentes e nos corpos desses agentes trabalhadores ao realizarem suas atividades laborais.
Nessa perspectiva, as condições objetivas do trabalho infantil, no grupo social investigado, colocam-no na zona de vulnerabilidade devido a simultaneidade e permanência na relação escola, trabalho e os momentos de diversão, sendo que, a prática do trabalho precoce pode ser considerada de maior relevância, devido aos ganhos significativos que auxilia na renda familiar, compensado no dispêndio de suas forças física para suprir as dificuldades e necessidades do mundo de suas urgências. Característica que pode ser observada na fala de TS, 09 anos ao mencionar as sensações de desconfortos corporais após a realização das atividades laborais em período ulterior à escola:
Ajudo minha mãe quando chego da escola a tarde (...). Às vezes quando chega a noite, fico muito cansada, minha cabeça dói, meu corpo, dói as costas, minhas pernas e meus pés, porque eu ando muito. Quando chego em casa as sete ou oito horas, as vezes assisto Chiquititas, as vezes assim chego tão cansada que tomo banho, visto minha roupa de dormir e vou dormir (TS, 09 anos).
No entanto, compreende-se que o tempo das crianças e adolescentes que trabalham e estudam frequentemente remete-se ao dever a ser cumprido na atividade laboral, com isso, possivelmente ocasionam insuficiência de momentos para a realização das atividades escolares:“as vezes eu faço de manhã, as vezes eu não tenho tempo não faço” (Luana, 09 anos).
Segundo a literatura especializada, à medida que as famílias urgem da aquisição do trabalho infantil, possivelmente irá comprometer capital escolar dessas agentes trabalhadores, devido à baixa escolaridade e/ou evasão escolar, e a longo prazo é capaz de prejudicar inserção no mercado de trabalho, adquirindo piores serviços, e possivelmente tendo à repetição das trajetórias laborais de seus pais: desqualificadas e mal remuneradas, principalmente a reprodução das atividades que se inscrevem no mercado informal.
Reflete-se que esses trabalhadores, também se submetem a violência simbólica familiar e a do Estado. Na primeira situação por sofrerem a inculcação de uma herança social muitas vezes perversa da prática de trabalho precoce e na segunda compreendida pela inexistência de políticas sociais e pela omissão do Estado na garantia dos direitos.
VULNERABILIDADE À VIOLÊNCIA URBANA NA DISPOSIÇÃO DO TRABALHO PRECOCE
Na prática do trabalho infantil, em nosso contexto, a vulnerabilidade à violência urbana, circunscrevem a realidade social dessas crianças e adolescentes em diversas dimensões. Em termos espaciais, ao relacionar-se com as condições de trabalho, por elas frequentarem ruas que na maioria das vezes são enladeiradas, com depressões e calçadas estreitas, com má iluminação e trânsito intenso, mesmo no final de semana, ocasionando considerável fuligem dos carros, poeira no asfalto. Mais ainda, em ambientes com prováveis criminosos e adultos prontos para explorá-las, principalmente assedia-las sexualmente, consequência de uma grave violência estrutural na infância que possivelmente continua sendo praticada conforme relatos:
Porque a gente tá na rua, é muita zoada (barulho), as vezes passa ônibus voando (correndo), as vezes nego passa olhando pode roubar (Luana, 09 anos).
Também já tive vários, como eu posso dizer, tipo os gays dando em cima de mim, desde de pequenininho queriam fazer coisa comigo. Mais velhos, tipo tinham os cabelos brancos, tinha uns que tinha um porte físico de homem que parecia homem arretado, homem sério, chamava pra comprar quando eu ia, pedia pra mostrar (genitália), pedia pra deixar eles fazerem os negócio, sexo oral, não era na praia não, era atrás do farol quando eu passava pra vender, isso me deixava arretado (Antônio, 17 anos).
Reflete-se que a situação de trabalho em que se encontram essas crianças e adolescentes, principalmente, quando estão comercializando seus produtos nos pontos turísticos, centro histórico e praias, ficam mais exposta à vulnerabilidade social relacionada a legítima violência simbólica e sexual, com fins de dominação, de exploração, do assédio, de opressão, de humilhação, de constrangimento e de violação grave dos direitos humanos, do
Reflete-se que a situação de trabalho em que se encontram essas crianças e adolescentes, principalmente, quando estão comercializando seus produtos nos pontos turísticos, centro histórico e praias, ficam mais exposta à vulnerabilidade social relacionada a legítima violência simbólica e sexual, com fins de dominação, de exploração, do assédio, de opressão, de humilhação, de constrangimento e de violação grave dos direitos humanos, do