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ARTIGO I: ”Perfil dos Pacientes Vivendo com HIV em Porto Alegre, RS,

PERFIL DOS PACIENTES VIVENDO COM HIV EM PORTO ALEGRE, RS,

BRASIL.

Formatado conforme as normas da Revista Brazilian Journal of Infectious

Diseases

Resumo

Introdução: O advento da terapia antirretroviral transformou o

prognóstico dos pacientes vivendo com HIV. Estima-se que aproximadamente

734 mil indivíduos vivam com o HIV no Brasil, representando uma prevalência

de 0,4% na população em geral. Objetivo: Descrever o perfil atual dos

pacientes em um Serviço de Atendimento Especializado (SAE) em HIV/AIDS no

sistema público na cidade de Porto Alegre – Sul do Brasil. Resultados: Os

resultados do presente estudo apontam para uma modificação no perfil

epidemiológico dos pacientes vivendo com HIV/AIDS no Brasil. Os pacientes

atendidas atualmente são adultos com mais de 40 anos, predominantemente

homens, com fatores de risco para doença cardiovascular, como tabagismo,

hipertensão arterial sistêmica e dislipidemia. A população afro-descendente

representou mais de 38% dos pacientes, mostrando uma prevalência alta em

um estado como o Rio Grande do Sul, onde mais de 80% da população é de

cor branca, e a proteinúria patológica ocorreu em 19,9% dos pacientes.

Conclusão: O presente estudo traz informações sobre o perfil dos pacientes

vivendo com HIV/AIDS no Brasil, evidenciando seu envelhecimento, a redução

do predomínio do sexo masculino, frequência importante da população

afro-descendente, com fatores de risco estabelecidos para doença cardiovascular e

alta prevalência de proteinúria patológica.

Introdução

O advento da terapia antirretroviral (TARV) combinada e a política de

acesso universal ao tratamento no Brasil transformou o prognóstico dos

pacientes vivendo com HIV [1, 2]. Dessa forma, houve aumento da sua

expectativa de vida e comorbidades associadas como doenças

cardiovasculares, renais e hepatites, tornaram-se mais frequentes neste grupo

[3, 4].

A epidemia global de HIV compreende cerca de 35 milhões de indivíduos

portadores em todo mundo. No Brasil, estima-se que no ano de 2014

aproximadamente 734 mil indivíduos estejam vivendo com o HIV,

representando uma taxa de prevalência de 0,4% na população em geral.

Percebe-se uma concentração de casos nas regiões sudeste e sul do Brasil,

correspondendo a 54.4% e 20.0% do total de casos, respectivamente,

identificados de 1980 até junho de 2014. O maior número de casos de AIDS no

Brasil ocorre entre os indivíduos com idade entre 25 e 39 anos em ambos os

sexos. No período de 1980 até 2008, houve aumento nos casos de mulheres

com AIDS, com a relação de 15 homens para cada 10 mulheres.

Adicionalmente, observa-se nos últimos dez anos um aumento significativo na

taxa de detecção de HIV em pacientes de 15 a 24 anos e mais de 60 anos.

Entre as capitais, Porto Alegre tem a maior taxa de detecção de casos por

AIDS, com 96,2 casos para cada 100.000 habitantes, comparado com outras

cidades como São Paulo (21,7 casos) e Rio de Janeiro (36 casos) [5].

O objetivo do presente estudo é descrever as características

epidemiológicas e discutir as modificações do perfil dos pacientes vivendo com

HIV e atendidas em um Serviço de Atendimento Especializado (SAE) de

referência na cidade de Porto Alegre – Sul do Brasil.

Pacientes e Métodos

Este é um estudo epidemiológico transversal descritivo realizado no SAE

HIV/AIDS IAPI do sistema publico de saúde de Porto Alegre, Brasil.

Todos pacientes portadores de HIV com mais de 18 anos, atendidos no

ambulatório do SAE da Vila IAPI, que realizaram duas consultas ou mais, com

prontuário ativo (tendo realizado pelo menos uma consulta em 2012) no referido

ambulatório, foram incluídos na análise. A partir de 1.119 pacientes

cadastrados desde abril de 2008 até dezembro de 2012, foram considerados

para a análise 1.040 pacientes com prontuário ativo.

Foram avaliados dados como idade, sexo, cor, uso de cigarro, álcool,

substâncias ilícitas (crack, maconha e cocaína), peso e altura para cálculo do

IMC, uso de TARV e tipo de TARV, presença de hipertensão arterial sistêmica

(HAS), doença renal crônica (DRC), diabete melito (DM) e dislipidemia; dados

laboratoriais como sorologia para hepatite B, hepatite C, sífilis (teste não

treponêmico - VDRL) e contagem de células CD4 (células/mm3). Os critérios

para definição de HAS, DRC e proteinúria, DM e dislipidemia seguiram os

critérios do JNC 8, KDIGO, ADA e AACE, respectivamente [6-9]. Para o item

cor, agrupou-se os pacientes descritos negros e mulatos a afro-descendentes e

os pacientes descritos brancos como caucasianos. Não houve descrição de

indivíduos orientais no presente estudo.

Na análise estatística foi utilizada avaliação descritiva com média e

desvio padrão para variáveis contínuas e frequência e percentagem para

variáveis categóricas. Foi utilizado como banco de dados o programa Microsoft

Excel e, para análise, o programa SPSS versão 18 (Statistical Package for

Social Sciences) para Windows.

Resultados

Dos 1.040 pacientes avaliados, 553 (53,22%) foram do sexo masculino,

sendo 11 (1,05%) transexuais. A média de idade era 41 anos (41 + 11,77 anos),

com 565 (61,88%) pacientes caucasianos e 348 (38,11%) afro-descendentes.

Em relação aos costumes e uso de drogas ilícitas, 140 (15,71%)

pacientes relataram ingerir álcool com frequência acima do habitual em sua

avaliação, 345 (38,67%) pacientes eram tabagistas, 48 (5,38%) utilizavam

crack, 34 (3,82%) cocaína e 29 (3,26%) cannabis. O índice de massa corporal

médio (IMC) dos pacientes foi 24,32 + 5,25, sendo 15,66% tinham IMC maior

que 30 kg/m2.

Em relação a dados laboratoriais a creatinina média era de 0,8 mg/dL +

0,32, sendo que apenas 11/1032 (1,06%) dos pacientes no estudo

apresentavam creatinina acima de 1,3 mg/dL. A proteinúria média era de 75,55

+ 43,27 mg, com 133 (19,96%) pacientes apresentando proteinúria patológica.

Considerando coinfecção, 122 (11,84%) pacientes eram coinfectados com

hepatite pelo vírus C, sendo 87 (71,3%) do genótipo 1 e 30 (24,8%) do genótipo

3. Vinte e nove (2,80%) pacientes eram portadores de hepatite pelo vírus B,

sendo apenas 6 (0,57%) pacientes infectados pelos vírus HIV/HCV/HBV

concomitantemente. Em relação aos casos de sífilis, 142 (14%) pacientes

tinham VDRL positivo.

Do total de pacientes, 111 (10,68%) tinham CD4 menor que 200

células/mm3, 448 (43,11%) com CD4 entre 201 e 500 e 480 (46,19%) com CD4

maior que 500. Comorbidades como diabetes, dislipidemia e hipertensão

arterial tem suas frequências evidenciadas na Tabela 1. Dos pacientes

avaliados, 759 (72,98%) estavam em uso regular de TARV, 253 (24,32%)

nunca haviam utilizado antirretrovirais e 28 (2,69%) pacientes tinham

abandonado o tratamento proposto. Os tratamentos antirretrovirais mais

frequentemente utilizados estão descritos na Tabela 2. Considerando os

pacientes em uso regular de antirretrovirais, 597 (78,65%) apresentavam no

momento da coleta de dados carga viral para HIV indetectável.

Tabela 1. Características dos pacientes portadores de HIV com prontuário ativo em

atendimento no SAE IAPI entre abril de 2008 e dezembro de 2012.

Idade 18-39 anos 477/1030 (46.3 %)

Idade > 40 anos 553/1030 (53.7 %)

Sexo Masculino 551 (53.5 %)

Caucasianos 559 (61.9 %)

Uso de álcool 140/886 (15.8 %)

Tabagismo 343/886 (38.7 %)

Uso de crack 48/886 (5.4 %)

Uso de cocaine 34/885 (3.8 %)

Uso de Cannabis 29/884 (3.3 %)

Índice de Massa Corporal > 30 77/497 (15.5 %)

Diabete Melito 65/1025 (6.3 %)

Dislipidemia 254/1023 (24.8 %)

Hipertensão Arterial 222/1001 (22.2 %)

Hepatite Crônica pelo Vírus B 29/1028 (2.8 %)

Hepatite Crônica pelo Vírus C 122/1030 (11.8 %)

Proteinúria Patológica 133/664 (20.0 %)

Contagem de CD4 total (células/mm

3

)

> 500 474/1029 (46.1 %)

200 – 500 445/1029 (43.2 %)

< 200 110/1029 (10.7 %)

HIV RNA (cópias/mL)

< 50 590/1030 (57.3 %)

50 – 1000 163/1030 (15.8 %)

Tabela 2. Esquemas terapêuticos antirretrovirais utilizadas, n (%), total = 759 pacientes

AZT+3TC+EFZ 196 (25.79 %)

AZT+3TC+LPV/r 124 (16.31 %)

AZT+3TC+ATV/r 105 (13.82 %)

TDF+3TC+LPV/r 91 (11.97 %)

TDF+3TC+EFZ 89 (11.71 %)

TDF+3TC+ATV/r 61 (8.03 %)

TDF+3TC+DRV/r+RAL 10 (1,32 %)

OUTRO ESQUEMA 83 (10.93 %)

Legenda: Zidovudina (AZT); Lamivudina (3TC); Tenofovir (TDF); Atazanavir/ritonavir (ATV/r); Lopinavir/ritonavir (LPV/r);

Efavirenz (EFZ); Nevirapina (NVP); Raltegravir (RAL); Darunavir/ritonavir (DRV/r)

Discussão

Recentemente têm ocorrido redução na morbimortalidade dos pacientes

vivendo com HIV/AIDS e a detecção de novos casos em indivíduos com mais

de 60 anos [1, 5]. Esta situação levou à modificação no perfil destes pacientes

em vigência de TARV, o que resultou no aumento de pacientes com idade

maior que 50 anos e o aparecimento de outras comorbidades associadas ao

envelhecimento, em detrimento das doenças oportunistas [10].

Os resultados do presente estudo apontam para uma modificação no

perfil epidemiológico dos pacientes vivendo com HIV/AIDS na cidade de Porto

Alegre, onde existe uma das maiores taxas de detecção de HIV/AIDS do Brasil.

De acordo com o presente relato, os pacientes atendidos atualmente são

adultos com mais de 40 anos, com fatores de riscos bem estabelecidos para

doença cardiovascular, como tabagismo, hipertensão arterial sistêmica e

dislipidemia [11]. A prevalência de hepatite pelo vírus C, relatada em estudos

como maior que 30% em portadores de HIV [12], foi menor na presente

casuística (11.84%), talvez pelo baixo risco de transmissão por transfusão

sanguínea [13] e o uso cada vez maior de drogas ilícitas inalatórias

não-injetáveis. Adicionalmente, a ocorrência de casos de sífilis, com o percentual

maior que o encontrado na literatura, é alarmante e deve ser trabalhada de

forma preventiva e com diagnóstico e tratamento precoces [14].

Comparativamente, observou-se 14% de pacientes com o exame positivo no

presente estudo, enquanto que em um trabalho realizado em São Paulo com

moradores de rua, foi encontrado uma prevalência de 7% [15]. Não existem

dados oficiais sobre prevalência de casos de sífilis, tendo em vista a

obrigatoriedade de notificação apenas em gestantes e seus conceptos. Por

outro lado, o fato do presente trabalho ter avaliado um teste não-treponêmico

(VDRL) pode ter superestimado o percentual de casos positivos.

A população afro-descendente representou mais de 38% dos pacientes,

mostrando uma prevalência alta em um estado como o Rio Grande do Sul,

onde mais de 80% da população é de cor branca [16]. A vulnerabilidade desta

população tem sido destacada recentemente no Brasil e devem ser realizadas

campanhas específicas para este segmento, tendo em vista a dificuldade de

acesso nos serviços de saúde e seus riscos inerentes [17].

Em relação aos esquemas de tratamento para HIV, mostrou-se uma

grande heterogenicidade, tendo em vista que a terapia proposta para início de

tratamento de indivíduos portadores de HIV no Brasil

(Tenofovir+Lamivudina+Efavirenz) representou apenas 11,71% do total [2].

Esta situação mostra que os esquemas são diversos e os autores fazem a

hipótese de que os diferentes tipo de tratamento são adequados aos diferentes

tipos de pacientes vivendo com HIV. Salienta-se que 24% do total de pacientes

não tinham histórico de uso de antirretrovirais, sendo que o Ministério da Saúde

do Brasil tem como objetivo o início cada vez mais precoce e universal para

pacientes vivendo com HIV [2]. De acordo com a intenção da Programa das

nações unidas em relação à HIV/AIDS (UNAIDS) o alvo deve ser diagnosticar

90% dos casos, tratar 90% destes casos, e alcançar a supressão viral em 90%

dos pacientes em tratamento [18]. Dados do Ministério da Saúde do Brasil

informam que menos de 50% dos pacientes diagnosticados estão em vigência

de antirretrovirais e apenas 33% dos pacientes alcançaram a supressão

virológica do HIV [19].

Como limitações do estudo podemos considerar o fato de ter sido

realizado em um único centro. Por outro lado, o trabalho apresenta dados

relevantes para a região, tendo em vista que não existem estudos locais

recentes sobre o panorama e perfil atual do grupo estudado.

Em conclusão, o presente estudo traz informações sobre o perfil dos

pacientes vivendo com HIV/AIDS na cidade de Porto Alegre, evidenciando seu

envelhecimento, a redução do predomínio do sexo masculino, frequência

importante da população afro-descendente, com fatores de risco estabelecidos

para doença cardiovascular e alta prevalência de proteinúria patológica. Dessa

forma, é fundamental reorganizar os programas de atenção integral à saúde,

dando ênfase à prevenção da ocorrência de comorbidades como doenças

cardiovasculares e renais, qualificando a saúde dos pacientes portadores da

doença crônica do HIV. Adicionalmente torna-se fundamental a ampliação no

diagnóstico, tratamento e supressão viral destes pacientes, de acordo com a

meta mundial da UNAIDS e Ministério da Saúde do Brasil [19].

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