1.2. Vigilância em saúde do trabalhador
1.2.2. lAs ações do Estado sobre os ambientes de trabalho
1.2.2.2 As ações do patronato e dos trabalhadores
No Brasil, os perfis de saúde do trabalhador têm-se modificado nas últimas décadas, reflexo da implantação de novas relações econômicas e de mercado internacionalizadas, bem como de nova base tecnológica, definidas na microeletrônica, nos métodos de informação e de automação que têm acarretado mudanças no processo produtivo, na organização do trabalho, nas relações sociais de produção e conseqüentemente nos padrões de saúde da classe trabalhadora, coexistindo ainda com modalidades produtivas tradicionais, do tipo manufatura.
Todos esses processos têm em comum a despreocupação com a saúde dos trabalhadores e com o meio ambiente, baseando-se na lógica do patronato da acumulação de capital contando com a exploração da força de trabalho e dos recursos naturais. Poucos têm sido os estudos sobre a relação entre as novas e as antigas formas de trabalho e o adoecimento dos trabalhadores.
A intervenção nos ambientes de trabalho, do ponto vista do patronato, tradicionalmente tem sido feita através da medicina do trabalho, medicina ocupacional ou pela engenharia de segurança e higiene do trabalho que, diante do estado de desenvolvimento técnico atual, conseguem, na maioria das vezes, apenas desenvolver formas e equipamentos de proteção contra o adoecimento, em que a ação é deflagrada ou para fiscalizar a aplicação dos mecanismos de proteção, ou para minimizar processos em que a doença tenha fugido do controle desses mecanismos (Machado, 1996 p.20). Essas ações são desenvolvidas pelas empresas, através dos Serviços de Segurança e Medicina do Trabalho ou através de serviços contratados de terceiros (Portaria MTb - 3.214/78).
Para Costa et alii (1989, p.30), o processo de lutas e conquistas em curso no país, nos últimos anos, com relação às intervenções nos ambientes de trabalho, apresenta nítida diferença entre a fábrica e a sociedade. À medida que a organização dos trabalhadores fora da fábrica vai ampliando suas discussões a respeito da
democratização e melhoria do ambiente de trabalho - ainda que por parcela do movimento sindical - passando inclusive a influenciar em diversos campos da sociedade, o interior das fábricas não acompanha essa evolução. Os trabalhadores seguem conduzidos pela repressão e dispersão no interior das organizações.
Leite (1994, p.572) chama a atenção para a relação entre a resistência histórica do patronato brasileiro em modificar as políticas de gestão da mão-de-obra e as dificuldades para adoção de formas de organização do trabalho baseadas numa participação mais efetiva dos trabalhadores nas decisões relativas aos processos produtivos e, conseqüentemente, da melhoria das condições de trabalho. Afirma que a fraca organização sindical nos locais de trabalho tem sido o ponto básico para o alijamento da maioria dos sindicatos do processo de implantação das inovações organizacionais do trabalho implantadas no país.
A autora afirma, também, que as empresas brasileiras parecem estar optando por um modelo de projeto de incorporação individual de mão-de-obra, no qual não há qualquer espaço de representação política e social. Os esforços são dirigidos para eliminar as formas de organização dos operários no interior das fábricas. A adoção de formas individuais de negociação é vista como meio de afastar os trabalhadores dos sindicatos, fazendo-os parecer como indesejáveis e desnecessários.
O processo de discussão a respeito da reestruturação produtiva, da flexibilização da organização do trabalho e de relações mais democráticas dentro das fábricas tem-se dado de forma mais sistemática apenas por alguns sindicatos, prioritariamente da região do ABC paulista, que têm dado ênfase na denúncia do desemprego e na profunda contradição presente no fato de as empresas pedirem a colaboração dos trabalhadores nas decisões relativas ao processo produtivo, ao mesmo tempo que se negam a negociar com eles a maneira como as mudanças poderiam ser implementadas na prevenção e controle dos riscos presentes nos ambientes de trabalho (Informacut, 1995).
A organização dos trabalhadores no campo da saúde, que se inicia na década de oitenta e se estende para os anos noventa, acompanha o quadro de reestruturação
produtiva do país, apresentando estratégias e perspectivas muito heterogêneas. Alguns sindicatos constituem setores especializados, com o objetivo de formação de quadros, dentro do propósito de não-delegação das questões relacionadas ao ambiente de trabalho. Assessorias técnicas são contratadas, técnicos dos programas de saúde dos trabalhadores das secretarias estaduais e municipais e alguns pesquisadores das universidades vão-se incorporando ao setor para dar suporte técnico (Costa et alii,
1989).
Deste movimento, resultam algumas intervenções como denúncias, ações políticas e jurídicas dentro dos ambientes de trabalho. Porém, nenhum sistema de monitoramento dos riscos controlado pelos trabalhadores conseguiu ser implantado pelos sindicatos de trabalhadores, baseando-se as ações em eventos pontuais, demonstrando a fragilidade dessa organização no interior da fábrica. Algumas pesquisas são desenvolvidas em parcerias com universidades e Ministério do Trabalho através da Fundação Jorge Duprat - Fundacentro, especialmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais (Costa et alii, 1989; Ribeiro, 1997).
Ressalte-se que o movimento dos trabalhadores ganha espaço nas regiões mais industrializadas do país, predominantemente fora das empresas devido às dificuldades de penetração nos ambientes de trabalho. A maioria dos sindicatos abordam as doenças provocadas por agentes físicos e químicos; apenas o movimento sobre as questões das Lesões por Esforços Repetitivos difere desse caminho: situado em um novo contexto e conjuntura, inicia-se dentro dos centros de processamentos de dados, no interior de empresas estatais, estendendo-se posteriormente para sindicatos e associações de bancários (Ribeiro, 1997b).
A característica comum entre estas experiências traz como resultado a discussão das violências vivenciadas e o adoecimento como conseqüência das condições de trabalho. As dificuldades de transpor os muros das fábricas para conhecer o cotidiano do trabalho e transformar esta realidade por parte tanto das organizações dos trabalhadores quanto dos técnicos e pesquisadores têm gerado contradições ao mesmo tempo que têm
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propiciado a construção de alternativas metodológicas de reconstituição dessas vivências.