A partir dos anos 1970 formou-se um pensamento alternativo à corrente hegemônica. A concepção teórica e metodológica que preside todas as formulações não conservadoras, a partir daí, é a de que o território é uma produção social. Os estudiosos passam então a se preocupar com os conflitos e lutas travadas em torno desse ambiente construído socialmente. (BRANDÃO, 2007a).
Dentre as abordagens não ortodoxas, as principais contribuições teóricas que exerceram influência no pensamento voltado à economia regional nos países subdesenvolvidos e que, consequentemente, deram suporte a ações públicas no Brasil, em particular, foram desenvolvidas na década de 1950, com uma forte inspiração nas idéias de insuficiência do mercado para garantir a plena acumulação capitalista. Duas dessas contribuições merecem atenção especial: a proposta dos complexos industriais de François Perroux e a teoria da transmissão interregional de Hirschman.
Perroux (1967a) observa que a teoria econômica tradicional define desenvolvimento como a combinação das transformações de ordem mental e social de uma população que lhe possibilitam o aumento cumulativo e duradouro do seu produto real global. Contudo, o crescimento duradouro é impossibilitado por numerosas características mentais e sociais das populações. As características mentais podem ser interpretadas como atributos intangíveis, algo parecido com o que foi posteriormente batizado de capital social por outros autores. Perroux considerava que o crescimento econômico se realizava de maneira concentrada no espaço regional ou nacional, por meio da conformação de pólos de crescimento que transmitiam reflexos difusos e desequilibrados para as demais localidades. Esse autor examinou as relações que se estabelecem em um complexo industrial, destacando o papel de indústrias motrizes como aquelas capazes de gerar efeitos de encadeamento e integração. Nesse sentido, um complexo industrial como o automotivo deveria viabilizar profundas modificações do espaço econômico ao seu redor.
Indústria motriz foi definida por Perroux (1967) como aquela que tinha a propriedade, mediante o crescimento do volume de produção e da compra de
serviços produtivos, de aumentar o volume de produção (e de compra de serviços) de outra ou de várias indústrias, denominadas movidas. A indústria motriz poderia aumentar o volume de produção para utilizar plenamente e o melhor possível os seus capitais fixos. Ao atuar num ponto cada vez mais baixo das suas curvas de custos, procuraria aumentar a produção, baixar o custo médio e preço. Este processo iria incrementar sua demanda por insumos fornecidos pelas indústrias movidas. No caso de hesitações ou lentidão por parte dos diretores das indústrias motrizes, esse autor propunha que o Estado estimulasse um aumento de produção com mecanismos de políticas públicas a exemplo de subsídios.
Ao estudar regiões subdesenvolvidas, Perroux (1967) observou que ali se encontravam empreendimentos capitalistas com características de enclaves, pouco integrados com a economia local. O conjunto da economia ainda não estava articulado por redes de preços, fluxos, antecipações. Passaria a sê-lo por meio da criação de vários pólos de crescimento que, ligados pelas vias e meios de transporte, pouco a pouco constituiriam a infraestrutura da economia de mercado.
A articulação entre empresas ou entre pólos de crescimento geraria externalidades, entendidas como os efeitos econômicos usufruídos por uma empresa ou indústria não detectados pelo mecanismo de preços, mas proporcionados pela interação com outras empresas e com o meio ambiente. Ocorrem quando o impacto de uma decisão não se restringe aos participantes desta decisão. Podem ser externalidades negativas, quando prejudicam os outros, a exemplo de uma fábrica que polui o ar. Podem ser benéficas quando outros voluntariamente ou involuntariamente se beneficiam delas, a exemplo da melhoria de eficiência em um determinado mercado. Na abordagem perrouxiana, o estímulo gerado pela indústria motriz levaria a um maior dinamismo de mercado ao gerar lucros induzidos pelo volume de produção e compra de serviços de outras empresas.
Segundo Scott (2006) as políticas de desenvolvimento regional fundamentadas em pólos de crescimento de Perroux passavam por uma industrialização capital-intensiva baseada na produção em massa em densos complexos regionais de atividade econômica. Os efeitos multiplicadores emitidos das plantas líderes num sistema de produção em massa, combinados com políticas de
substituição de importações para reduzir a dependência em insumos importados, constituiriam um veículo para a independência econômica nacional2. Esses programas tiveram sucesso até metade dos anos 1970 e são identificados por Scott (2006) como fordismo periférico, termo que procura expressar sua dependência tecnológica em P&D do primeiro mundo, além das rígidas e autoritárias relações de trabalho que prevalecem nas plantas locais. Scott (2006) observa que geralmente o limitado poder de compra do mercado doméstico nos países de industrialização por substituição de importações, aliado às crises econômicas internacionais, tornou esses programas crescentemente problemáticos quando atingiram estágios mais complexos de implementação.
Ao se referir ao tema de desenvolvimento regional, Hirschman (1958), observou que a emergência de um pequeno número de um ou muitos centros de força econômica seria um pré-requisito essencial para que qualquer tipo de desenvolvimento ocorresse. Considerando os conceitos de forward e backward
linkages, ou seja, os impactos para frente e para trás (HIRSCHMAN, 1958), supõe-
se que a implantação de uma indústria complexa como a automotiva tenha intenso efeito germinativo numa região. Isso significa que a chegada desse tipo de indústria cria demanda para outras situadas em um estágio anterior na cadeia produtiva – efeito para trás. O conceito de efeito para frente expressa a mesma idéia para as empresas nas etapas seguintes da cadeia produtiva, embora de maneira mais vaga, como comentou Melo (2001), pois a viabilidade da entrada de firmas em determinados ramos industriais depende de potenciais usuários. Entende-se que a disponibilidade de insumos não estimula necessariamente a implantação de novos empreendimentos numa região, se a partir desta houver dificuldade de acesso a potenciais clientes e/ou à mão-de-obra adequada a suas necessidades.
Os linkages de Hirschman são consideradas externalidades dinâmicas por Lemos, Santos e Crocco (2005) devido a sua natureza irreversível. No entendimento desses autores representam a operacionalização de economias externas marshallianas resultantes do aprofundamento da especialização e divisão do trabalho, inerentes à industrialização e decorrentes de fenômenos de longo prazo, do crescimento geral da indústria e das transformações tecnológicas. Já as
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externalidades estáticas são reversíveis, e resumem-se a um problema de precificação. As primeiras podem ser interpretadas também como externalidades estruturais e as segundas, conjunturais.
Os conceitos para frente e para trás, identificados por Hirschman, estariam relacionados não só com economias pecuniárias, mas também com as externalidades criadas a partir das relações interindustriais. (HIRSCHMAN, 1958). Os efeitos na demanda de serviços em vários setores não se traduziriam apenas em valores financeiros, existiriam ganhos intangíveis no padrão de trocas e na qualidade das instituições.
Ao questionar se um desenvolvimento regional equilibrado seria factível, Hirschman (1958) observou que as economias mais atrasadas pareciam estar inseridas num ciclo vicioso – não se investiam em atividades que exigissem larga escala porque não havia mercado – o qual dependia da decisão de investir em larga escala. Na visão desse autor, o desenvolvimento equilibrado embutia uma grande contradição. Seria quase impossível para uma economia subdesenvolvida galgar uma etapa mais avançada com suas próprias forças, ou mesmo com pequeno auxílio do exterior.
Hirschman (1958) via o desenvolvimento como uma cadeia de desequilíbrios. O objetivo de políticas de desenvolvimento deveria ser antes conservar do que eliminar os desequilíbrios que refletem os lucros e perdas de uma economia competitiva. Para manter uma economia dinâmica, o papel da política desenvolvimentista seria conservar as tensões, as desproporções e os desequilíbrios. A cada passo, uma indústria tiraria vantagem de economias externas criadas pela expansão prévia e, ao mesmo tempo, formaria novas economias externas a serem exploradas por outros operadores. O autor refere-se à capacidade completiva, definida como qualquer situação na qual um aumento da procura da utilidade de A e o consequente acréscimo na sua produção provoca uma procura intensificada da utilidade B e no seu preço corrente. Isso acontece não somente quando a conexão entre as duas utilidades se faz via processo de produção. (HIRSCHMAN, 1958).
Hirschman (1958) remete-se ao conceito de investimento induzido, que tem semelhanças com o efeito multiplicador – cada investimento deverá motivar uma série de outros investimentos – efetivar uma transformação real de uma economia subdesenvolvida. Nos países subdesenvolvidos, entretanto, esse encadeamento não ocorreria inexoravelmente. Segundo esse autor, as economias externas não beneficiariam automaticamente os produtores privados atômicos, os quais não teriam condições de identificá-las com precisão, nem conseguiriam prever as repercussões que os tornariam, eventualmente seus consignatários para outras firmas. (HIRSCHMAN, 1958).
Diferentemente da abordagem tradicional, na percepção de Hirschman, os pequenos produtores atomizados não estariam capacitados a usufruir plenamente as economias externas e fazer opções racionais, uma vez que o processo de escolha é complexo. Daí a importância do planejamento e do papel do Estado na distribuição dos recursos públicos como mecanismo de influenciar o desenvolvimento das diversas regiões de um país. Segundo esse autor, o desenvolvimento depende não tanto em encontrar a combinação ótima de dados recursos e fatores de produção, mas em identificar recursos e habilidades que estão escondidas, difusas, espalhadas ou mal utilizadas. Na sua abordagem, está presente a idéia de que deveriam ser priorizadas as indústrias de bens intermediários, não pelo potencial de desenvolvimento tecnológico, mas pelo poder germinativo em termos do impulso de demanda. Assim os efeitos de encadeamento poderiam justificar políticas setoriais.
No nosso entendimento o investimento induzido tem semelhanças com um investimento endógeno, realizado em decorrência de uma expansão da demanda resultante de um aumento da renda ou mesmo de um investimento autônomo. Por sua vez, este último é feito deliberadamente em virtude de fatores externos, sem necessariamente haver expectativa de geração direta de lucro, a exemplo de inovações tecnológicas, ou investimento público. O investimento induzido pode ser estimulado a partir de investimentos autônomos ou através de políticas econômicas. Hirschman (1958) ressalta a relevância da intervenção do Estado para desencadear tais processos dinâmicos em cadeias produtivas.