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2. MAS no meio do caminho também surge o SÓ QUE

2.3 As acepções e os contextos de uso da perífrase conjuncional SÓ

Longhin (2003), em ótica funcionalista, analisou dados, em um corpus20 do português falado e escrito, do item conjuncional coordenativo SÓ QUE21, formado pelo operador de foco22 SÓ e a partícula multifuncional QUE.

A autora alerta que essa nova conjunção, produto de um processo de gramaticalização, tem traços responsáveis por indicar contraste entre os segmentos por ela articulados. O processo de mudança por qual passou essa

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Para a análise do SÓ QUE foram levantadas 192 ocorrências de fala, retiradas de entrevistas do “Projeto Censo da Variação Linguística” (PEUL), de dados de fala semicoloquial coletados na cidade do Rio de Janeiro no período de 1980 a 1982, e do “Banco de Dados Interacional”. Em relação ao material escrito, foram levantadas 190 ocorrências na revista da Veja.

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Esta perífrase é uma expressão indivisível, de caráter formulaico, por consequência, nas orações “QUE SÓ você irá à festa” ou “SÓ quero QUE o dia termine bem”, não se trata do mesmo objeto.

22 “as sentenças com SÓ QUE são construções de foco à medida em que a perífrase promove a introdução de informação (preferencialmente) nova no discurso e efetua mudanças na informação pragmática do ouvinte, por meio do cancelamento de pressuposições ou expectativas” (LONGHIN, 2003, p. 141).

perífrase conjuncional, a gramaticalização, ocorre a partir da reinterpretação de material linguístico já existente numa dada língua que o repertório linguístico pode ser atualizado.

Para determinar as funções e subfunções do SÓ QUE, Longhin (2003) parte de estudos sobre gramaticalização, uma vez que podem dar pistas acerca do processo de mudança do objeto estudado.

Longhin (2003) aponta que, para a renovação das conjunções, a língua recorre a duas estratégias:

a) habilita palavras de natureza diversa – adverbial, preposicional, pronominal e nominal – ao papel de conjunção [...]

b) generaliza o processo – iniciado no latim vulgar – que consiste em combinar a partícula subordinativa QUE com palavras de diferentes categorias para a formação de perífrase conjuncionais23 (LONGHIN, 2003, p. 106 e 107).

Graças às perífrases conjuncionais baseadas em QUE e a adaptação de diferentes classes ao papel de conectivo que o arsenal dos conectores conjuntivos foi/é atualizado.

Longhin (2003) resgata de Ducrot as duas acepções de sentido dadas ao MASSN e ao MASPA. Enquanto o primeiro tem valor pragmático de refutação e retificação, o segundo é argumentativo em sentido estrito.

A autora busca em Dascal e Katriel (mímeo) similarmente entender como as partículas AVAL e ELA, do Hebreu, equivalentes ao nosso MAS, atuam. Esses pesquisadores perceberam que as formas supracitadas indicam contraste por cancelamento e por correção, envolvendo a estratificação do significado em várias camadas: da mais explícita para a menos explícita, dividida em cinco: (a) quando uma pressuposição semântica é cancelada; (b) quando a força ilocucionária é cancelada; (c) quando a modalidade é

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Advérbio + que: ainda que, logo que, sempre que, depois que, antes que, já que, assim que, mesmo que.

Preposição + que: até que, desde que, sem que, para que.

Pronome + nome + que: de sorte que, de modo que, ao passo que, de forma que, à medida que, ao tempo que.

cancelada; (d) quando uma condição de felicidade é cancelada; e (e) quando uma implicatura conversacional é cancelada.

Longhin (2003) mostra que o SÓ QUE, à semelhança do MAS, pode articular (i) orações (20), (ii) oração + constituinte oracional, em que o último pode ser realizado por um adjetivo (21), por um particípio (22) ou por um sintagma preposicional (23), e pode articular ainda (iii) sequências discursivas, como exemplifica (24).

(20) O fato de uma obra sobreviver não quer dizer que ela seja lida. Eu tentei ler „Ulisses‟, não consegui e achei que era burro. SÓ QUE eu não sou burro. „Ulisses‟ é que é inteligível. (Veja, ano 34, nº33, p.14)

(21) Deve ter algum problema na integração da varanda, com os apartamentos. Elas acabam funcionando como janelas, como simples janelas, SÓ QUE maiores, né. (NURC92)

(22) Nada de paredes escuras ou compartimentos apertados, nos quais a marujada se acotovela como pode. Sua arquitetura interna lembra um navio de superfície, SÓ QUE encolhido. (Veja, ano 33, nº 34, p.116)

(23) De corpinho novo, o deputado promete não abandonar os obesos. Quer criar, inclusive, uma frente parlamentar de defesa da categoria. “O gordo é o estuário da culpa do mundo”, dramatiza. Ele perdeu 64 quilos, mas que ninguém se engane. “Agora me sinto com mais energia, mais agressivo”, diz. É o Roberto Jefferson de sempre, SÓ QUE em versão light. (Veja, ano 33, nº 35, p. 81)

(24) Quinze por cento. Sendo que pros pras pessoas que moram, de repente, esse imposto chega a vinte, sei lá. SÓ QUE tem o seguinte, você tem, você vê esse dinheiro do teu imposto sendo aplicado, é, em restauração de rua, você não tem as ruas esburacadas que tem no Rio, você tem, se você passa mal, você tem o serviço hospitalar. (NURC92)

O SÓ QUE, conforme Longhin (2003), apresenta o sentido básico de contraste por quebra de expectativa e subdivide-se em microfunções, listadas abaixo, enquanto o MAS, segundo a mesma autora, indica contraste por oposição semântica e por quebra de expectativa.

i. SÓ QUE Marcador de diferença;

ii. SÓ QUE Marcador de acontecimento

inesperado/indesejado;

iii. SÓ QUE Marcador de refutação;

iv. SÓ QUE Marcador da não satisfação de condições; v. SÓ QUE Marcador de contra-argumentação24.

Para Longhin (2003, p. 120), a noção de quebra de expectativa

[...] está relacionada às expectativas que os falantes têm a respeito do que acreditam ser apropriado ou "normal" no mundo. As expectativas "normais" nada mais são que os padrões característicos do mundo com o qual o falante tem familiaridade, ou que ele tem em mente, ou que ele pensa que o ouvinte pensa que ele tem em mente, em um contexto relevante. A quebra de expectativa, nesse sentido, equivale a toda a situação em que, de alguma forma, há divergência entre aquilo que se diz e aquilo que é considerado normal. O quadro se complica quando, na interação, os interlocutores têm expectativas diferentes a respeito de um certo assunto. Isso acontece com relativa frequência e se deve a fatores como idade, sexo, status social, bagagem cultural ou ideologia.

O SÓ QUE na marcação de diferença surge da comparação de igualdade entre dois elementos. A princípio, o falante compartilha os traços comuns desses itens para depois, introduzida pela conjunção inovadora, expor a diferença, a informação focal. Esse uso pode ser parafraseado da seguinte maneira: “X é como Y em quase tudo, a diferença é que X (ou Y)...” (LONGHIN, 2003, p. 124). Segue exemplo.

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(25) Como nos presídios, ali há grupos rivais com líderes, SÓ QUE o ímpeto era adolescente, sem organização. Alguns subiam nos muros e telhados como numa comemoração. (Veja, ano 32, nº 44, p.131)

Essa ruptura de expectativa se dá de três distintas formas: acréscimo, substituição ou exclusão de parte de informação de um dos elementos.

Na marcação de acontecimento inesperado/indesejado, o SÓ QUE assinala a ruptura com o que é normal, certo, desejável no mundo, ou seja, em determinada circunstância esperava-se, com base no senso comum dos interactantes, que algo acontecesse; no entanto o desfecho segue uma direção contrária à esperada, como em (26) a seguir. É possível ter a seguinte leitura dessa acepção: “X. Para minha surpresa Y” (LONGHIN, 2003, p. 129).

(26) a gente tinha combinado de passar o carnaval na praia né...então ia eu...duas amigas minhas e o namorado de uma delas...aí a gente tinha combinado pra saí as oito...da noite né...SÓ QUI começou a maior chuva... aí meu pai começou a implicar... não vocês não vão agora não... é perigoso né. (narrat/94)

Como se observa em (27), na oração introduzida por SÓ QUE, é negada, desmentida ou contestada a informação explícita ou implicitamente veiculada pelo falante e, posteriormente, é acrescentado o que ele julga como correto. Une-se, aqui, a refutação à retificação. Essa acepção pode ser interpretada da seguinte forma: “X. Não conclua X, pois Y (LONGHIN, 2003, p. 131)”.

(27) chegou lá um médico consultou... "oh:: o senhor tá com infarti... tem que ir prá Rio Preto... que aqui num tem aparelhagem que precisa... (...) ele me levou no hospital... na Santa Casa... aqui de Rio Preto... fiquei dez dia internado ... cinco dia no CTI... ligado nos aparelho... aí depois eu fui pro quarto... fiquei em observação...aí:: me liberaram... vortei... prá trabalhá fiquei um tempo que eles me deram... trabalhei mais... resto do mês... aí eu vortei... a senti mal de novo... SÓ QUI aí

já num era infarti aí já era... é:: é:: ... uma veia entupida... (narrat/91)

Em relação ao SÓ QUE em marcação de não satisfação de condições, “a noção de quebra de expectativa decorre do desacordo entre a vontade ou necessidade de ser ou fazer algo e o não cumprimento, por alguma razão, de pelo menos uma das condições necessárias” (LONGHIN, 2003, p. 133), isto é, o falante apresenta dois argumentos, os quais seguem para conclusões distintas. Uma leitura pertinente para esse sentido é “X quer Y. Não conclua que é possível, pois Z” (LONGHIN, 2003, p. 133).

(28) E: Vem cá! (hes) Você tem vontade, assim de ter filhos algum dia?

I: Tenho. Isso eu tenho vontade. E: Tem?

I: SÓ QUE a mulher, aí não pode. Está meia braba. Ela tem problema, sabe? (Censo-E25)

Quando o falante legitima uma conclusão, mas depois a descarta em favor de uma conclusão contrária, sendo essa conclusão real ou virtual, o SÓ QUE marca a contra-argumentação, conforme mostra o exemplo.

(29) A gente começa a cantar escondido, aí como todo mundo começa a rir, aí ela percebe, sabe? É, deixa eu ver mais quem? Tem o Carlos de ciência- ciências. (aos) [ele] ele é legal, assim, sabe? SÓ QUE eu não vou com a cara muito com a cara dele não. (Censo-Adr63c)

Longhin (2003), após detalhar e exemplificar as acepções da perífrase SÓ QUE, assume que se trata de uma forma polissêmica, em razão de, embora tendo vários sentidos, conservar a noção geral de quebra de expectativa. Acrescenta ainda que não houve ocorrência em seus dados do SÓ

QUE indicando contraste por oposição semântica, mas há a possibilidade de existir25.

A partir da análise acurada dos dados e baseada principalmente nos estudos de Lakoff, Ducrot e Dascal e Katriel chega a autora ao esquema geral subjacente às acepções do conectivo:

SÓ QUE funciona como um operador de foco, que acrescenta uma circunstância em geral nova, não considerada até o momento, e que apresenta esta circunstância como sendo a única que se justifica adicionar. Esse elemento novo contrasta com tudo mais no tipo de conclusão que autoriza e é suficiente para tornar inválida uma generalização previamente considerada (LONGHIN, 2003, p. 141)

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