No sentido de complementar o trabalho realizado nas aulas, desenvolvi várias actividades extra-curriculares e projectos com as turmas de inglês e francês, que me permitiram diversificar e enriquecer a experiência de aprendizagem dos alunos.
VI.1. O projecto de leitura de inglês
Com a turma de inglês, depois de concluir a unidade sobre o movimento dos direitos cívicos, realizei um projecto de leitura subordinado ao mesmo tema, usando
49 vários discursos, poemas e canções sobre o racismo, a segregação e o próprio movimento (ver anexo 56). Este projecto teve como objectivos levar os alunos a compreenderem de forma mais profunda o movimento dos direitos cívicos; estimular a reflexão sobre o racismo e a segregação; promover o desenvolvimento das suas capacidades de leitura, em particular, da capacidade de interpretação; e incentivar a cooperação, a discussão e partilha de ideias.
Para cumprir estes objectivos, seleccionei textos que deixavam grande margem interpretativa ao leitor e que, por apresentarem uma visão subjectiva dos temas em estudo e expressarem valores, sentimentos e opiniões, favoreciam a identificação e uma compreensão mais profunda das perspectivas daquelas que foram vítimas de racismo e segregação e deram voz à luta pelos direitos cívicos.
Estes textos foram distribuídos aleatoriamente por diferentes pares de alunos, que os leram, discutiram e interpretaram com a orientação de uma ficha de leitura (ver anexo 57). Esta continha questões genéricas elaboradas com vista a dirigir a atenção dos alunos para diferentes aspectos do texto, como a mensagem, as referências culturais, os símbolos ou as estratégias usadas pelo autor na construção do texto. A ficha incluía ainda questões que visavam levar os alunos a expressarem a sua reacção ao texto, identificando o que consideravam mais interessante e partilhando as emoções, imagens e pensamentos que o texto lhes suscitou.
Cada par partilhou a sua análise e as suas reacções ao texto com a turma em curtas apresentações orais, que permitiram transformar a sala de aula num espaço de partilha de leituras e de diferentes perspectivas sobre o racismo e a luta pelos direitos cívicos. De facto, ao tomarem contacto com um leque variado de textos através das apresentações dos colegas, os alunos puderam conhecer diferentes pontos de vista sobre os temas em estudo e construir, em conjunto, um conhecimento mais complexo e não estereotipado da luta pelos direitos cívicos. Como sublinham Byram & Morgan (1994: 55), o uso de vários documentos sobre o mesmo tema é essencial para evitar que uma imagem seja generalizada a toda a sociedade, criando uma visão simplificada da cultura.
Com o objectivo de obter feedback dos alunos relativamente ao projecto de leitura e levá-los a reflectir sobre o seu trabalho, apliquei uma ficha de auto-avaliação (ver anexo 58), em que era pedido aos alunos que avaliassem o seu desempenho individual e o desempenho do par e explicassem o que tinham aprendido com o projecto. A partir das suas respostas, verifiquei que os alunos fizeram um balanço
50 positivo do seu trabalho e sentiram que foram capazes de cooperar eficazmente com os seus colegas. As suas respostas mostraram-me ainda que o projecto de leitura os conduziu efectivamente a aprofundar a sua compreensão sobre a luta pelos direitos cívicos e que, neste processo, as suas percepções do mundo sofreram alterações.
Além de referirem os factos que aprenderam, nesta ficha, vários alunos explicam como o projecto alterou a sua visão do mundo e os levou a compreender a importância de certos valores, como a igualdade. O comentário de um aluno que trabalhou o poema ―The Caged Bird‖ de Maya Angelou ilustra particularmente bem como o encontro cultural proporcionado pela leitura desafiou o entendimento que os alunos tinham do mundo e os estimulou a tornarem-se mais abertos ao Outro: ―Freedom is for everyone, no matter the color, race, nation… I also learned to respect more hardly the people who aren‘t respected at all‖. As reacções dos alunos, em geral, e esta, em particular, confirmam que, tal como é sugerido por Aase (2007: 9), ―experiences of literature from unfamiliar milieus and cultures provide possibilities for identification and understanding new ways of thinking. There is an assumption that literature thus becomes a strong tool for enhancing tolerance for other people and generosity in meeting differences in behaviour and thinking‖.
Assim, o projecto de leitura constituiu uma oportunidade para os alunos reflectirem activa e autonomamente sobre o tema em estudo e, ao mesmo tempo, desenvolverem as competências de produção oral e de leitura de modo integrado.
VI.2. O questionário sobre cultura norte-americana
Além de ter realizado o projecto de leitura, no estágio, colaborei na dinamização de uma exposição sobre a cultura norte-americana, que envolveu todas as turmas de 12º ano, elaborando um questionário sobre a exposição. Este foi distribuído por várias turmas de inglês do ensino básico e secundário. Com vista a incentivar os alunos a esforçarem-se por descobrir as respostas às perguntas, foi anunciado que aqueles que respondessem correctamente a todas as perguntas se habilitariam a ganhar um CD de música norte-americana. Tanto por iniciativa própria como por imposição dos professores, foram muitos os alunos que participaram no concurso entregando os questionários preenchidos. Desta forma, o questionário permitiu envolver activamente
51 os alunos na visita à exposição e assegurar que, em vez de simplesmente observarem as imagens, estes leriam os cartazes e aprenderiam com a informação aí veiculada.
VI.3. A visita de estudo ao Cinema São Jorge
A fim de complementar as aulas de francês, logo no seu segundo mês de aprendizagem da língua, levei os alunos do 7º ano ao cinema São Jorge para verem o filme Le petit Nicolas, numa sessão exclusiva para escolas realizada no âmbito da Festa do Cinema Francês. Esta visita de estudo teve como principais objectivos motivar os alunos para a aprendizagem do francês e expô-los ao uso da língua em contexto de comunicação real.
Para conduzir os alunos a criarem um horizonte de expectativas sobre o filme e familiarizarem-se com o universo do petit Nicolas, na aula que antecedeu a visita, os alunos analisaram o cartaz e o trailer do filme e foi-lhes distribuído um questionário de escolha múltipla sobre o filme para preencherem durante a visita de estudo, que foi corrigido na aula seguinte. Através destas actividades os alunos puderam desenvolver a compreensão oral e escrita e adquirir novo vocabulário relacionado com a escola.
Esta visita de estudo motivou muito os alunos, que, na sua maioria, nunca tinham visto um filme francês. Como anteriormente referido (cf. II.3.), depois do visionamento do filme, estes alunos, que revelavam, naquela altura, resistência ao uso do francês, começaram a tentar exprimir-se na língua estrangeira por sua iniciativa. Isto indica que, ao verem a língua sair das páginas do manual e ganhar vida no ecrã de cinema, os alunos ficaram mais motivados para usarem a língua com fins comunicativos. As suas reacções mostraram-me que as actividades extra-curriculares, ao motivarem os alunos, podem estimulá-los a aprender e a aderir à língua.
VI.4. A exposição da francofonia
A fim de celebrar a semana da francofonia, organizei uma exposição com cartazes produzidos individualmente pelos alunos sobre países francófonos (ver anexo 60). Para os preparar, os alunos tiveram de pesquisar imagens do país que lhes foi aleatoriamente atribuído e encontrar certos dados demográficos, geográficos, linguísticos, políticos e culturais nas enciclopédias Larousse, L’Agora e Wikipedia.
52 Parte da pesquisa foi efectuada sob a minha orientação numa aula realizada na sala de computadores, em que lhes mostrei os sites que deveriam usar e como poderiam fazer a pesquisa, de modo a equipá-los com os instrumentos necessários para trabalharem autonomamente, fora da sala de aula. A fim de assegurar que os cartazes teriam uma boa apresentação, por sugestão da minha orientadora, disponibilizei no site da escola um modelo de apresentação do cartaz, que os alunos apenas tinham de descarregar e preencher com os dados da sua pesquisa.
Apesar de lhes ter dado um modelo e sugestões muito precisas sobre a forma de pesquisar, muitos alunos tiveram dificuldades em fazer o trabalho pedido. As primeiras versões do seu trabalho apresentavam vários tipos de problemas, entre os quais: erros linguísticos; informações incorrectas; imagens que não eram ilustrativas dos países; e formatação errada. Por este motivo, tive que fazer diversas correcções e sugestões para que alguns trabalhos tivessem qualidade suficiente para serem expostos. Esta experiência mostrou-me que os alunos do 7º ano têm dificuldade em trabalhar autonomamente, necessitando que o professor os acompanhe de perto.
A exposição foi montada com a ajuda dos meus orientadores. De modo a enriquecê-la, além dos cartazes dos alunos, incluímos outros materiais que possuíamos e ainda materiais oferecidos pelo Instituto Franco-Português. Para levar os alunos a aprender com a exposição, elaborei um questionário que os obrigou a explorar os vários espaços da exposição e a ler os cartazes aí afixados.
Deste modo, a exposição deu a conhecer a francofonia aos alunos e à comunidade escolar. Através deste trabalho os alunos puderam compreender a importância da língua francesa no mundo; identificar o espaço geográfico da francofonia; desenvolver capacidades de leitura, em particular, a capacidade de scanning; e aprender a pesquisar em sites francófonos. Sendo o francês uma língua que os alunos pensam ser pouco útil e pouco falada no mundo, mostrar-lhes a vastidão e riqueza do mundo francófono constituiu um importante passo para modificar a percepção que tinham da língua e abrir os seus horizontes.
Em conclusão, os projectos e actividades extra-curriculares desenvolvidas constituíram oportunidades para motivar os alunos, incentivar a sua autonomia e levá- los a alargarem o seu conhecimento da língua e cultura estrangeira. Estas actividades não se limitaram, assim, a servir um propósito lúdico. Em particular, o projecto de
53 leitura e a exposição da francofonia promoveram aprendizagens, que, por restrições de tempo e meios, não poderiam ser realizadas exclusivamente na sala de aula.