5. ASPECTOS TEÓRICOS-CLÍNICOS
5.3. AS ALIANÇAS INCONSCIENTES NA INTERVENÇÃO TRIANGULAR
Retomando as formulações kaësianas acercas das alianças inconscientes, no capítulo II, e das alianças de base as quais nos propusemos a analisar, lembraremos aqui uma vinheta de Tomás que apresentamos no capítulo III, aonde a analista propõe um deslizamento de uma estereotipia (abaixar-se) para um jogo (brincar de morto-vivo), no qual não só Tomás passou a participar, mas também a convocar a analista para o jogo.
O que podemos pensar a partir do recorte apresentado? Há alguma aliança em questão? Nossa hipótese é de que na cena em questão a analista tenta a construção de uma aliança de afinação primária com o sujeito autista.
Embora Kaës proponha inicialmente essa modalidade entre o par mãe-bebê, ele também afirma (2014, p.51) que as alianças de base (da qual a aliança de afinação primária faz parte) estão no princípio de todas as relações: mãe-bebê, casais, relações entre gerações, bem como relações de grupos.
O que nos faz tomar tal aliança em consideração, entretanto, é a tentativa de sustentação – praticamente criação, de tão precária que se encontra no sujeito autista – de um tecido relacional primário.
Assim como na relação mãe-bebê, a relação entre o sujeito e o analista é assimétrica. Já o seria em qualquer que fosse o caso, mas entre um neurótico e um autista a assimetria se
evidencia em decorrência da diferença dos recursos simbólicos que um possui em relação ao outro.
O que vínhamos traçando a partir de Kupfer e Lajoquiere anteriormente, ambos apoiados nos ensinamentos lacanianos, de que o analista ocupa o lugar de Outro para tentar transmitir ao sujeito marcas simbólicas, aqui pensamos, através de Kaës, que nessa aliança há uma transmissão de significantes.
Usando as palavras do autor:
Através dessa relação (...) passam as experiências sensório-motoras, as ecopraxias e as ecolalias, as emoções e os primeiros significantes sobre os quais se apoiarão as pulsões e as estruturas cognitivas, a capacidade de sonhar e de adquirir proteção. (KAËS, 2009, p.45)
Nesse caso, a analista vai tentando nomear o aparentemente sem sentido, mas aquilo que ele traz no corpo, e apoiando sobre isso significantes que possam promover algum deslocamento e que possam vir a ajuda-lo a fazer laço.
O autor ressalta ainda que tais alianças supõem um ambiente no qual a mãe e a criança estão incluídos de diversas maneiras. Embora o autor não desenvolva muito a respeito, tomamos aqui a liberdade de inferir que esse “incluído de diversas maneiras” diz respeito aos vários grupos dos quais esses dois sujeitos – a princípio colocado pelo autor como uma díade – fazem parte: desde o grupo familiar até as marcas culturais próprias a cada povo – marcas essas que virão a ser transmitidas consciente e inconscientemente nessa aliança.
O jogo, proposto como deslizamento, como forma de nomear o sem sentido e dar contornos à angústia e ao corpo, não é senão parte dessas “diversas maneiras” às quais essa dupla – analista e sujeito – estão inseridas. Trazer um elemento da cultura, do que um adulto pode brincar com uma criança, só é possível porque a analista é atravessada pela cultura – e a transmite enquanto um jogo para a criança. A atribuição de sentido, portanto, sempre como uma transmissão de um contexto ao qual ambos estão inseridos.
Trarei aqui mais uma vinheta de Tomás. Como já dito, Tomás apresentava um quadro de grande fechamento autístico. De modo geral, durante nossos encontros, se mantinha a certa distância, parecendo alheio ao que acontecia, dando voltas na sala enquanto alguma atividade acontecia dentro do grupo, embora olhasse a tudo com uma espécie “atenção indiferente”.
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Uma das crianças, porém, um menino psicótico de 8 anos, a quem chamaremos de Augusto, passa a andar numa motoca no pátio externo à sala. Augusto também tem grande dificuldade no tocante ao laço e tende a sair da sala durante as atividades, fazendo alguma outra coisa no pátio, ou desenhando sozinho.
Em seguida à saída de Augusto da sala para andar na motoca, percebo que Tomás também sai e fica o observando na motoca, demostrando uma curiosidade que passo a interpretar como interesse. Augusto parecia se divertir bastante e o olhar de Tomás para ele mostrava um deliciamento com toda aquela diversão.
Observando a cena, intervenho dizendo: “Puxa, que legal essa brincadeira de Augusto! Parece ser bem divertida! Tem uma outra motoca ali, será que o Tomás também gostaria de brincar?” Apesar dessa tentativa de intervenção triangular, Tomás parece sentir-se invadido e se vira, saindo de cena.
Alguns poucos minutos depois retorna e, para minha surpresa, Augusto – que não tinha manifestado nenhuma reação à minha intervenção, e que tem bastante dificuldade com o laço – retoma nossa conversa dizendo: “Vem, Tô!”. Tomás continua a observar, até que vai até a outra motoca para brincar. Mantem-se, porém, afastado, sem brincar com Augusto e distanciando-se cada vez que Augusto chegava perto – o que não consistia num jogo, com ele mostrando verdadeiro incômodo a cada aproximação de Augusto.
A partir dessa vinheta pensamos a respeito da aliança de prazer-desprazer compartilhado e de ilusão criadora. No entanto, pensamos essa aliança não acerca do autismo, mas da analista com Augusto. Isso porque, conforme apresentamos no capítulo II, acreditamos que no autismo se passe uma dificuldade no que tange à aliança de afinação primária, que é necessária para que possa, posteriormente, se formar a aliança de prazer compartilhado.
Kaës nos ensina que:
tal aliança de base confere à criança, aos pais e a toda a família a experiência de confiança na relação, a da realização do desejo por meio da relação”. Ainda, “sustentam identificações primárias (...) essas identificações acolhem o bebê como sendo feito da mesma massa que a própria pessoa (KAËS, 2014, p.52).
Foi depois de conseguir uma aliança com a analista, fruto de diversos encontros anteriores, que Augusto pode, convocar Tomás para juntar-se a ele. Acerca disso, duas
hipóteses podem ser pensadas: a primeira, de que foi por uma identificação à analista que Augusto agiu.
Nesse sentido, há algo de problemático que seja pela via da identificação à analista que Augusto convoque Tomás. Se assim tiver ocorrido, foi por pura colagem imaginária, de modo que não houve uma expressão do sujeito de desejo e tal aliança seria, na verdade, patológica.
A hipótese que acreditamos, porém, é a de que operou a identificação e ainda algo além: o sentimento de pertencimento a esse grupo. Sustentado pela analista, que lhe atribui um lugar e tece com ele um diálogo, Augusto pode convocar Tomás, então, para algo que ele fazia, para uma atividade do grupo, criando um lugar na relação com o outro, bem como propondo um lugar também a Tomás.