Capítulo 1 A Justiça do Trabalho de 1958 a 1964: a consolidação do poder
1.1. As alterações no funcionamento da Justiça do Trabalho
encaminhados ao Congresso Nacional entre 1946 e 1964, é possível perceber a existência de um intenso debate entre os parlamentares em relação a alterações no Direito e na Justiça do Trabalho. Foram encontradas 204 propostas de criação de novas leis envolvendo o tema do judiciário trabalhista. Dentre essas, 20 tratavam explicitamente da ampliação do número de Juntas de Conciliação e Julgamento e Tribunais Regionais e seu funcionamento, de alterações na CLT e no poder normativo e da lei de greve55.
O grande número de proposições legislativa s abarcando a Justiça do Trabalho fortalece a hipótese de que a instituição vinha tendo um papel decisivo nas negociações envolvendo a classe trabalhadora e que os diversos setores da sociedade brasileira representados no Congresso Nacional viam como uma necessidade interferir na sua organização, especialmente nos períodos mais próximos ao golpe de 1964, quando a instituição se consolidou como ―referência fundamental nas relações e nos conflitos entre o capital e o trabalho‖.56
Dos projetos de lei que tramitaram no Congresso Nacional no período entre a Constituição de 1946 e o golpe de 1964, alguns chamam a atenção por tratarem diretamente da organização do poder judiciário do trabalho. O primeiro57 foi encaminhado em 31 de julho de 1947 e visava
regulamentar a organização dos Tribunais Regionais e do Tribunal Superior
55 Os demais projetos tratavam basicamente de ajustes orçamentários e de regulamentação da carreira dos juízes e servidores da instituição.
56 SILVA, Fernando Teixeira da. Entre o acordo e o acórdão: a Justiça do Trabalho paulista na antevéspera do golpe de 1964. In . A Justiça do Trabalho e
sua história. Org. GOMES, Angela de Castro; SILVA, Fernando Teixeira da. Ed.
Unicamp, Campinas, 2013.
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do Trabalho, dividindo-os em instituições de primeira e segunda categoria58:
a primeira (estado do Rio de Janeiro) e a segunda região (estados de São Paulo e Paraná) foram classificadas como de pr imeira categoria e eram compostos por sete magistrados togados, mais quatro juízes59
representantes dos sindicatos patronais e empregados.60
Das 20 proposições legislativas apresentadas no quadro nº1, a seguir, o arquivamento foi o destino de 17, e apenas t rês tornaram-se leis. O primeiro projeto apresentado após a Constituição de 194661 visava
regulamentar o funcionamento da estrutura institucional, com os seguintes títulos: dos tribunais e juízes, dos advogados e solicitadores, dos serviços auxiliares da justiça, do cartório do juízo de direito, dos funcionários da justiça e das disposições gerais e transitórias. Foi proposto de maneira colegiada pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados, tendo tramitação entre 1947 e 1965, mas não cheg ou a ser
58
De acordo com o Decreto-lei nº9797 de 9 de setembro de 1946. Disponível em: www.camara.leg.br. Acesso em 26 de setembro de 2013.
59 Os juízes representantes dos sindicatos patronais e empregadores eram chamados de juízes classistas. Escolhidos por meio de eleições sindicais integravam as JCJs, que eram compostas por dois classistas e um juiz togado. Os Tribunais Regionais e o TST também eram compostos por classistas e togados até a aprovação da Emenda constitucional 24, em 1999, que extinguiu a representação sindical na Justiça do Trabalho. Ver: VIEIRA, Pedro Benjamin; TOURON, Ramon Castro. Importância da representação paritária na Justiça do
Trabalho. São Paulo: LTr, 1993 e PRUNES, José Luiz Ferreira. A representação classista na Justiça do Trabalho. 2.ed. Curitiba: JURUÁ, 1995.
60 Diário do Congresso Nacional. Ano II, 01 de agosto de 1947 p.4602 -4206. Os magistrados de segundo grau, assim como os Ministros do TST, eram nomeados diretamente pelo presidente da República, com indicações de juízes togados ou sindicatos.
61 Projeto de lei nº 519/1947 – Diário Oficial da Câmara. 1 agos. 1947, p. 2206 a
2210. Disponível em
http://imagem.camara.gov.br/Imagem/d/pdf/DCD01AGO1947.pdf#page=6. Acesso em 1 fev. 2013.
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debatido nas comissões nem no plenário, sendo arquivado em 27 de novembro de 1965.
Quadro 1 - Projetos envolvendo modificações na legislação do trabalho
ou na Justiça do Trabalho encaminhados ao Congresso Nacional no período de 1946 a 1964.
Projeto de Lei
Autor Data Tema
519/1947 Comissão de Constituição e Justiça 31/07/1947 Organiza a Justiça do Trabalho. 1471/194 9 Comissão Mista de Leis Complementares
1949 Dispõe sobre os dissídios coletivos de trabalho, regulando o artigo 123, parágrafo segundo, e o artigo
158 da Constituição Federal. 3570/195
3
Aarão Steinbruch - PTB/RJ.
09/09/1953 Estende à Justiça do Trabalho a ação rescisória. 3637/195
3
Nelson Omegna - PTB/SP
22/09/1953 Altera a redação do artigo 878 da CLT, que dispõe sobre a
execução das decisões proferidas pela Justiça do
Trabalho. 3960/195
3
Poder Executivo. 10/12/1953 Altera dispositivos da CLT na parte relativa à Justiça do
Trabalho. 523/1955 Armando Correa -
PSD/PA.
09/08/1955 Institui a lei orgânica da Justiça do Trabalho.
905/1956 Machado Sobrinho - PTB/MG
29/12/1956 Condena ao pagamento dos juros legais e honorários de advogado a empresa que causar a ruptura do contrato de trabalho por dolo ou culpa e estabelece e cria, na Justiça do Trabalho, a assistência judiciária trabalhista e a função de advogado de ofício, nas condições que determina. 3212/195
7
Carlos Lacerda - UDN/DF
12/09/1957 Estende aos empregados de pessoas e de instituições sem fins econômicos, comparadas às empresas mencionadas no
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parágrafo primeiro do artigo segundo da Consolidação das Leis do Trabalho, aprovado pelo decreto-lei 5452, de 1º de março de 1943, o direito de sindicalização e os efeitos de sentenças normativas da Justiça do Trabalho e da outras providências. Explicação: equip ara entidades a empregador. 693/1959 Adylio Martins
Vianna - PTB/RS.
31/07/1959 Dá nova redação ao artigo 894 da Consolidação das Leis do
Trabalho. 746/1959 Oscar Correa -
UDN/MG.
07/08/1959 Transfere da instância administrativa e da Justiça
comum para a Justiça do Trabalho do julgamento das
controvérsias referentes à previdência social. 2133/196 0 Jose Talarico - PTB/GB.
04/08/1960 Dá nova redação ao artigo 841 da CLT., permitindo a imposição de embargos às decisões do TST. 3146/196 1 Vasconcelos Torres - PSD/RJ.
11/07/1961 Altera o artigo 663 do decreto- lei 5452 de 1943 da CLT. 3170/196
1
Vasconcelos Torres - PSD/RJ.
11/07/1961 Regula a recondução dos vogais da Justiça do Trabalho. 3269/196
1
Bocayuva Cunha - PTB/RJ.
14/08/1961 Reconhece à Justiça do Trabalho competência para
fixar salário profissional mínimo.
3317/196 1
Miguel Bahury - PSD/MA.
21/08/1961 Acrescenta dois parágrafos ao artigo 645 do decreto-lei 5452,
de 1º de maio de 1943 (Consolidação das Leis do
Trabalho). 3473/196 1 Jose Raimundo - PTB/MG. 18/10/1961 Altera os artigos 670 e 693 do decreto-lei 5452, de 1º de maio de 1943 (CLT), dispondo sobre a composição dos Tribunais Regionais. 4536/196 2 Aurelio Viana - PSB/AL 12/07/1962 Modifica disposições da legislação do trabalho e dá outras providências.
33 1598/63 Adylio Martins
Vianna – PTB/RS
05/12/1963 Altera o artigo 650 do decreto- lei 5452, de 1º de maio de 1943
(CLT). 1319/63 Helcio Maghenzani
– PTB/SP
22/11/1963 Altera a redação do artigo 899 e parágrafo único da Consolidação das Leis do
Trabalho. 1012/196 3 Roland Corbisier - PTB/GB. 18/9/1963 Revoga o Decreto-lei 9070, de 15 de março de 1946, que regula o direito de greve e defere à Justiça do Trabalho a competência para decidir sobre a legalidade ou ilegalidade das
greves. Fonte: <www.camara.gov.br>. Acesso em: dez. de 2012.
Em relação à tramitação dos projeto, as proposições governistas foram encaminhadas por deputados que podem ser considerados ―qu adros políticos históricos‖,62
do PTB, com experiência na área trabalhista e participação direta na consolidação da legislação social brasileira. Na prática, isso não trouxe grandes benefícios para a aprovação de novas leis, visto o número reduzido de modificações legislativas no período, pois, mesmo os deputados oposicionistas e identificados com os setores patronais, não conseguiam a aprovação de seus pleitos.
Dos três projetos aprovados pelo Congresso, um tratou de alteração pontual em relação ao artigo 8 78 da CLT, que abordava diretamente o tema da execução das decisões da Justiça do Trabalho, assunto que será abordado em detalhes no terceiro capítulo desta tese. A
62 Como exemplo é possível citar o deputado Aarão Steinbruch - PTB/RJ. Formado
em Direito na Universidade de Porto Alegre, atuou como jornalista no periódico Última Hora, tendo sido diretor da prestigiosa Revista do Trabalho, com expressivas publicações em torno da edição de novas leis e da jurisprudência da Justiça do Trabalho. Informações complementares podem ser acessadas em: http://www12.senado.gov.br/noticias/materias/2012/12/19/aarao -steinbruch-de- advogado-dos-trabalhadores-a-criador-do-13o. Acesso em 10 de jan.2014. Sobre a
Revista do Trabalho: Carla Guedes Martins. Revista do Trabalho: Um estudo do Direito do Trabalho. Dissertação (Mestrado em História), Universidade Federal Fluminense, 2000.
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proposta nº 3637/1953, de autoria do deputado Nelson Omegna do PTB/SP, foi transformada na lei nº2275/1954, que regulamentou a execução das decisões da Justiça do Trabalho. Na prática, possibilitou aos trabalhadores e sindicatos reclamar o não pagamento de uma decisão judicial, sem a necessidade de discutir a matéria de fato e de direito, ou seja, possibilitou que a decisão da Justiça não pudesse ser questionada na esfera civil. Outra proposição transformada em legislação foi a de nº 3960/1953, convertida na lei nº 2244/54, que legislou sobre o funcionamento da Justiça do Trabalho e foi sancionad a durante o segundo governo do presidente Getúlio Vargas, em 30 de junho de 1954. Na prática, tratou da organização dos Tribunais do Trabalho, ao determinar como os presidentes dos Tribunais Regionais deveriam encaminhar os recursos aos Tribunais Superiores no que se refere às questões de posse e exercício dos juízes vogais, além da própria disposição do TST (o número de ministros, as turmas julgadoras), das competências do presidente do TST e do corregedor geral da Justiça do Trabalho.
A legislação de 1954 tratou dos procedimentos realizados pelos tribunais da Justiça do Trabalho, equiparando -os aos da Justiça Comum. Em outras palavras, mesmo com incorporação ao poder judiciário pela Constituição de 1946, até então não havia um dispositivo legal que regulamentasse seu funcionamento e mesmo equiparasse as decisões da Justiça do Trabalho aos demais tribunais federais. Chamo a atenção para o fato de terem sido necessários oito anos desde a Constituição Federal de 1946 para que de fato tivesse ocorrido o nivela mento entre os Tribunais do
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Trabalho e os demais tribunais do poder judiciário63. Essa demora parece
ser um forte indício de que em outras áreas também pode ter havido certo ―atraso‖ na efetivação das conquistas expressas na Carta Magna.
Ainda em relação aos projetos de lei que tramitaram até 1964, cabe mencionar que dos 20 projetos encaminhados, 17 foram propostos por deputados governistas (sendo 10 deles membros do PTB) e um por uma comissão mista do Congresso Nacional. Apenas dois foram encaminhados por deputados da oposição, o que pode significar certa preocupação do poder Executivo em relação ao funcionamento da Justiça do Trabalho. Talvez o judiciário estivesse tomando decisões que desagradavam o governo, principalmente por muitas vezes concederem, por meio de sentença normativa, aumentos superiores aos índices oficiais de aumento do custo de vida, como se verá detalhadamente no próximo subitem deste capítulo, dedicado ao estudo do julgamento dos dissídios coletivos.
O projeto de lei nº 1471/1949 (proposto pela Comissão) foi a terceira proposição a tornar-se lei, convertida no dispositivo legal nº 4330 de 1964, logo após o golpe. A concepção original visava regular o artigo nº158 da Constituição Federal que tratava dos julgamentos dos dissídios coletivos de trabalho e do exercício de greve, que será analisado com detalhes no próximo capítulo desta tese. Mas desde já afirma -se que as questões relacionadas ao poder normativo da Justiça do Trabalho foram excluídas do projeto nº 1471, com o substitutivo aprovado em 25 de
63 Houve conflitos de interesse em relação à incorporação da Justiça do Trabalho ao Poder Judiciário, havendo formulações que afirmavam que os juízes do Trabalho não tinham os mesmos direitos e competências que os magistrados da Justiça comum. Segundo Ives Gandra da Silva Martins Filho, foi necessário que os ministros da Justiça do Trabalho recorressem ao STF para dirimir a questão, tendo a Suprema Corte reconhecido os direitos e as garantias outorgados aos magistrados brasileiros e aos juízes togados da Justiça do Trabalho. Consultar: MARTINS FILHO, Ives Gandra da Silva. Breve história do trabalho. In: FERRARI, Irany; NASCIMENTO, Amauri Mascaro; MARTINS FILHO, Ives Gandra da Silva.
História do trabalho, do Direito do Trabalho e da Justiça do Trabalho. 2 ed. São
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outubro de 1955, de autoria do deputado Carvalho Neto ( PSD/SE). O exercício do poder normativo somente sofreria alterações, muitos anos depois, na vigência da Constituição de 1988.
Em relação ao julgamento dos dissídios coletivos, a intenção d o projeto era regular a competência normativa da Justiça do Trabalho. Os tribunais poderiam, desta forma, aplicar o poder normativo em todos os casos concretos que fossem ajuizados no limite de sua jurisdição e nos termos apresentados nos processos encamin hados por sindicatos, DRT, Ministério Público ou mesmo pelo próprio presidente do TRT. Ainda poderiam fixar normas e estabelecer condições sobre o salário - facultando sua extensão a todos os que exercem a mesma profissão ou atividade econômica, atendidos no julgamento o interesse da coletividade e os princípios de equidade e justiça social64.
O poder normativo foi motivo de muitas divergências no momento em que Oliveira Viana65, objetivando regulamentar o artigo da Constituição
de 1934 que previa a criação da Justiça do Trabalho, elaborou um controvertido projeto encaminhado ao Congresso. O foco do debate teve como principais interlocutores Waldemar Ferreira66 e Oliveira Viana. A
principal polêmica dizia respeito à possibilidade de a Justiça do Trabalho
64 Projeto de lei nº 1471/1949 – Disponível em www.camara.gov.br. Acesso em fevereiro de 2013.
65
Importante jurista e pensador que atuou em diversos ramos do Direito, tendo formulado o primeiro projeto de criação da Justiça do Trabalho encaminhado ao Congresso, em 1934, foi consultor do Ministério do Trabalho Indústria e Comercio e Autor de diversas obras: Problemas de Direito Corporativo, Rio de Janeiro: José Olympio,1938; Problemas de organização e problemas de direção : Povo e o governo. 1. ed. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1952; Instituições políticas
brasileiras. São Paulo: José Olympio, 1949. 2 v.
66 Waldemar Ferreira foi professor catedrático do curso de Direito Comercial, na Universidade de São Paulo e atuou também como deputado federal. Esteve envolvido diretamente nas polêmicas em torno da criação da Justiça do Trabalho. Sobre o tema, consultar: FERREIRA, Waldemar. Princípios de Legislação Social e
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intervir no conflito coletivo do trabalho quando malograda a negociação direta, podendo criar normas e condições de trabalho para as categorias. Em outros termos, com o poder normativo, as cortes trabalhistas poderiam, em tese, exercer funções legislativas.
Segundo Ligia Lopes Fornazieri67, o poder normativo da Justiça
do Trabalho foi o principal ponto de divergência entre Waldemar Ferreira e Oliveira Viana, representando duas posições em relação ao funcionamento dos tribunais trabalhistas: os civilistas, que pensavam o poder normativo como um atentado à separação dos poderes expresso na Constituição, e aqueles que pensavam estar criando um ramo do Direito diferente do Direito comum, sendo a Justiça do Trabalho uma justiça especial, capaz de criar normas jurídicas aplicadas às categorias profissionais em casos concretos. De acordo com Oliveira Vianna, os civilistas, comercialistas, processualistas ou mesmo os grandes advogados, analisavam em demasia as publicações em torno das matérias relacionadas ao mundo do Direito, deixando de observar as ―realidades das sociedades‖ e os seus reflexos na ―super-estrutura constitucional do Estado‖. Em outros termos, era necessária uma nova interação entre o mundo do Direito e aquele vivido pelos cidadãos.68 É possível afirmar que este poder compõe a ―lógica fundacional‖69 da Justiça do Trabalho, de decidir e modificar normas em
matéria de dissídios coletivos. Ou seja, ele se encontra no centro das decisões da Justiça do Trabalho e está imbricado na sua própria criação.
Nesse sentido, é necessário ampliar o estudo sobre o poder normativo, principalmente para compreender como teria sido sua aplicação
67 Um projeto de Justiça do Trabalho no Brasil: o debate entre Oliveira Vianna e Waldemar Ferreira (1934-1938). Campinas, Digitado, 2013.
68 OLIVEIRA. Vianna. Problemas de Direito Corporativo. Op. Cit. p. 28.
69 O conceito de lógica fundacional foi desenvolvido por Elina Pessanha, a partir da pesquisa Justiça e Cidadania. PESSANHA, Elina. Labour Law and Justice in
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ao longo da história. As recentes pesquisas envolvendo o tema concentram-se no período anterior a 196470, o que, por enquanto, acaba
limitando as comparações sobre como foi atuação da Justiça do Trabalho na utilização dessa prerrogativa ao longo dos distintos períodos de nossa história política, principalmente durante os anos de chumbo.
As discussões em relação a este poder voltaram a ganhar força no processo de redemocratização, no contexto da emergência do chamado ―novo sindicalismo‖71. Os sindicatos mais combativos, sobretudo do ABC
paulista, reivindicavam a reformulação da legislação sindical e trabalhista com novos regramentos, visando o suposto fortalecimento da organização dos trabalhadores e da democratização das relações entre capital e trabalho. Parcela significativa do movimento sindical via no poder normativo, como ainda vê, um obstáculo a esse fortalecimento.
Na Constituição Federal de 1988, ao poder normativo foi incorporado o princípio da regra da condição mais favorável72 e, mesmo
priorizando a via autônoma da composição dos conflitos coletivos, continuou assegurando às categorias a faculdade de ajuizar o dissídio por meio de seus sindicatos. Confirmou-se a incumbência da Justiça do
70 Sobre o pré-64 consultar: Fernando Teixeira da Silva. PODER, NORMAS E
JUSTIÇA: os trabalhadores e o tribunal regional do trabalho de São Paulo (1963 -
1964). Tese apresentada para concurso de Livre -Docência, IFCH, UNICAMP, Campinas, 2013 e CORRÊA, Larissa. As relações sindicais Brasil-Estados Unidos
na Ditadura Civil-Militar (1964-1978). Tese de Doutorado em História. IFCH,
UNICAMP, Campinas, 2013.
71 Sobre o novo sindicalismo consultar: SADER, Eder. Quando novos per sonagens entraram em cena: experiências e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo (1970-1980). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1988 e MATTOS, Marcelo Badaró.
Novos e velhos sindicalismos no Rio de Janeiro (1955-1988). Rio de Janeiro: Vício
da Leitura. 1998.
72 A Constituição Federal de 1988 determina que a lei não pode prejudicar o direito adquirido, ou seja, o trabalhador que já conquistou um direito não pode ter seu direito atingido, mesmo que sobrevenha uma norma nova que não lhe é favorável.
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Trabalho em estabelecer normas e condições de trabalho, respeitadas as disposições convencionais e o patamar mínimo legal de proteção.
Conforme mencionado nos parágrafos anteriores, o poder normativo fora criado com a Justiça do Trabalho e alterado pela Constituição de 1988 e pela Emenda Constitucional 45, de 30 de dezembro de 200473. A primeira alteração incorporou a cláusula da situação mais
benéfica aos trabalhadores, portanto uma conquista dos sindicatos durante a Constituinte. Já a segunda modificação limitou o poder normativo, incorporando a necessidade de acordo entre empregados e patrões para ingressar na Justiça do Trabalho, sendo que antes bastava uma das partes requerer a mediação judicial.74 Ao visualizar esse cenário, uma das
principais perguntas que me ocorria era se não teria havido tentativas de alterar ou limitar o poder normativo no período entre 1941 e 1988.
Uma das primeiras constatações em relação à aplicação do poder normativo ao longo da nossa história é a existência de um número limitado de pesquisas sobre o tema. As análises concentram-se nas interpretações
73 Sobre a Emenda Constitucional nº 45 ver: OLIVEIRA, Walter. Poder normativo
da Justiça do Trabalho: direito formal da classe trabalhadora brasileira.
Dissertação de Mestrado em Ciência Política, UFRGS, Porto Alegre, 2005.
74 Na Reforma do Judiciário de 2004, uma Emen da constitucional limitou esse poder. Chegou-se a cogitar sobre o seu fim. Em recente livro sobre a trajetória dos juízes da Justiça do Trabalho, Ângela de Castro Gomes e Elina Gonçalves da Fonte Pessanha entrevistaram um conjunto de nove magistrados. Ao s erem questionados sobre o poder normativo, demonstraram que a matéria ainda não foi pacificada, havendo divergências sobre a sua manutenção ou não. Por exemplo, ao questionarem se o juiz Mauricio José Godinho Delgado era contra o Poder Normativo, ele respondeu que defendia a sua extinção por considerar um excesso intervencionista do Estado. Entrevista com Mauricio José Godinho Delgado. In:
Trajetórias de Juízes. Porto Alegre, 2010. Por outro lado, a vice -presidente do TRT
4, Maria Helena Malmann, afirmou durante o evento ―Gestão Documental e Pesquisa Histórica nos acervos da Judiciário‖, ocorrido nos dias 25 e 26 de