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As aproximações entre empoderamento e saúde

A palavra empoderamento aparece de forma transversal no campo da saúde como diretriz dos cuidados em saúde – aparece na Psicologia Comunitária12, na Reforma Sanitária,

na Reforma Psiquiátrica, na Promoção da Saúde, na Educação Popular em Saúde, nas produções em torno AIDS, na Atenção Primária e em diversas outras áreas. A sua presença se faz de forma diversa: com caráter instrumental, conceitual, apologético e também de crítica.

Nesta pesquisa, pretendemos mostrar que o empoderamento, enquanto figura

menor se movimenta de forma capilar, muitas vezes de forma imperceptível, não ficando

restrito a um campo específico de práticas e saberes. Portanto, para que pudéssemos apreender esse objeto e até mesmo entender como ele se constrói como um dispositivo em saúde, colocou- se como necessário investigar os seus movimentos, ampliando, quando necessário, o corpus da pesquisa.

No primeiro momento da pesquisa, buscamos mapear um certo histórico do empoderamento e, posteriormente, trabalhamos em cima dos enunciados de literaturas governamentais, mais especificamente da Promoção da Saúde, e artigos científicos em torno da Saúde que abordam o empoderamento. A escolha de nos direcionar para a Promoção da Saúde foi porque os enunciados em torno do empoderamento em saúde afirmam que a perspectiva conceitual do empoderamento está associada à elaboração do campo da Promoção da Saúde, na qual ele se coloca como uma estratégia educativa e com dimensão socializadora (LABONTE, 1998; RESENDE, 2004). Contudo, tornou-se insuficiente nos ater apenas à Promoção da Saúde e fez-se necessário, em alguns momentos, que seguíssemos o empoderamento para fora da Promoção da Saúde e para fora da Saúde, rompendo as barreiras artificialmente construídas que definem o que é o campo da Saúde.

Para tal investigação, realizamos uma revisão bibliográfica a partir do Portal Capes. Utilizamos os descritores empoderamento e saúde, delimitamos os anos de 2011 a 2016 e obtivemos um resultado de 131 produções. Todos os resumos foram lidos e foram exploradas de forma mais minuciosa algumas dessas produções, aquelas nas quais percebemos que o

12 A Psicologia Comunitária não é circunscrita como campo da saúde, contudo, ela traz importantes contribuições

ao empoderamento para a saúde. Julian Rappaport (1981; 1995) é um importante teórico da Psicologia Comunitária que trabalhou o conceito de empoderamento e é utilizado como referência pelos teóricos da saúde. Além de contribuir com o empoderamento, a Psicologia Comunitária atravessa a construção de Educação Popular em Saúde, que mais adiante nesta pesquisa se fará essencial para entender os usos do empoderamento na saúde.

conceito de empoderamento se mostrava mais capilar ou que nos auxiliavam a compreender sua materialização enquanto dispositivo em saúde.

A partir desses textos, pesquisamos a conexão que eles fazem com outros discursos: produções oficiais como leis, cartilhas, orientações de órgãos de governo e também com publicações mais antigas. Com essa investigação arqueogenealógica, conseguimos visualizar os movimentos e aproximações entre discursos que fazem com que o empoderamento se legitime enquanto uma tecnologia em saúde com as características que vêm se colocando hoje em dia. Ao traçar o caminho que as publicações traçaram, encontramos as “falhas” do suposto processo contínuo de uma história linear e coerente, de esperadas conquistas e progressos. Desta forma, ficaram evidentes as singularidades dos acontecimentos e as relações de poder que permitiram, e vêm ainda permitindo, que tais aproximações sejam feitas, e que se efetivem um certo discurso e uma certa prática de empoderamento.

O empoderamento em saúde é colocado desde uma “utopia” a uma imagem- objetivo a ser alcançada como quanto prática efetiva de cuidado em saúde. Ele aparece seja enquanto processo/estratégia, seja como finalidade do processo. Exemplos: empoderamento enquanto aumento de poder e autonomia nas relações interpessoais e institucionais de grupos e indivíduos que estão submetidos a relações de opressão, dominação e discriminação social, que acabam ocasionando dificuldade e impedimentos no cuidado de sua saúde (ARRAES et al., 2012; AZEVEDO et al., 2014; VASCONCELOS, 2013); empoderamento relacionado a processos reflexivos e críticos aos processos de adoecimento, às relações para com a própria saúde e os estilos de vida (COTTA et al., 2013); empoderamento enquanto processo de responsabilização de indivíduos pela própria saúde (LOPES, 2015); e enquanto domínio sobre a vida sob um processo de aprendizagem de informações necessárias para tomar decisões acerca da própria saúde (TADDEO et al., 2012). O empoderamento também está relacionado nos textos a práticas educativas, que os autores afirmam fazerem parte do projeto assistencial da saúde em todos os níveis de atenção – primária, secundária e terciária. Exemplos de tais práticas: educação em saúde para pessoas com doenças crônicas, como hipertensão e diabetes (TADDEO et al., 2012; LOPES, 2015; REBOUÇAS et al., 2016), educação em saúde voltada ao envelhecimento, à gravidez e ao puerpério (BOTASSO et al., 2013; MEDEIROS et al., 2015), participação da comunidade em reuniões e conferências de saúde, o chamado controle social (PAESE; PAESE, 2011; ARRAES et al., 2012; SILVA et al., 2012), cursos e capacitação em humanização e em outras tecnologias leves para profissionais de saúde (COTTA et al., 2013) e cursos de alfabetização para usuários de serviços de saúde mental (AZEVEDO et al., 2014).

Quanto às definições e histórico do conceito, as publicações acima o descrevem basicamente como pertencente à promoção da saúde, modelo e movimento de reorganização assistencial na qual privilegia ações preventivas e promotoras de saúde em detrimento da assistência simplesmente curativa (BRASIL, 2006; LOPES, 2012). Pesquisamos tal modelo a partir da Política Nacional de Promoção da Saúde, em suas três versões (BRASIL, 2006; 2008; 2015) e outras produções oficiais como cartilhas e recomendações de órgãos internacionais que se vinculam a ela.

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