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Capítulo 2: Escravos, Fazendas, Permuta, e o Projecto

2.1.2 As Armas

Outro dos meios de pagamento de grande procura por parte dos africanos, para a permuta em relação aos diferentes produtos, são as armas de fogo. Consideremos o papel que estas tinham, no comércio de Angola.

Neste processo é destacado por Isabel Castro Henriques, quer o papel das armas de fogo, quer o papel do transporte dos produtos para a costa, como factores desestruturantes que levaram à mutação das sociedades segundo as regras europeias1.

O mesmo produto seria – além de o principal produto responsável pela destruturação – produto de permuta. A destruturação efectuada, no plano mercantil, porque na transição do tráfego negreiro para o comércio normal, os africanos, quer a níveis institucionais, quer a nível politico, não desenvolvem os mecanismos de conhecer e gerir as relações no mercado internacional2. O que lhes leva a não poderem furtar-se, quer a regulação, quer ao jogo europeu.

Por outro lado a banalização das armas de fogo no sertão, mesmo que não tenha abrangendo todos os povos em simultâneo, alteraram quer as regras de combate e caça. O primeiro leva a que, para poder estar englobada nas redes comerciais, tenha de adoptar, quer as técnicas, quer os hábitos, dos europeus em detrimento dos próprios, levando a uma europeização.

Não querendo enveredar por uma teoria de longa duração, tenhamos em atenção como esses produtos, e que utilidade social teriam nas próprias sociedades das diferentes nações africanas. No plano interno as armas de fogo além de não teriam tido uma aceitação hegemónica, estavam sujeitas a um controlo ao seu acesso por parte das próprias autoridades africanas3. No entanto, como Isabel Castro Henriques refere, numa

1 Segundo a mesma, produtos como os alimentos, e os tecidos, eram mais como ofertas na óptica

europeia, como tributos nas Africanas. Isabel Castro Henriques, Percursos da Modernidade em Angola

Dinâmicas Comerciais e Transformações no Século XIX, Lisboa, Instituto de Investigação Cientifico Tropical, 1997, pp. 539 – 540.

2 Idem, Ibidem, p. 640.

3 Isabel Castro Henriques, Os Pilares da Diferença Relações Portugal-África séculos XV-XX, Lisboa,

leitura de geopolítica, a introdução das mesmas alterou os equilíbrios no mesmo continente.

Para percebermos a importância da mesma a procura deste bem, devemos compreender a sua utilidade no quadro das sociedades africanas, permitindo, às facções ou aos sobas africanos que a tivesse, a construção de uma unidade politica mais centralizada1. Deste modo, Roquinaldo Ferreira analisa, dentro do processo de centralização dos reinos africanos, Matamba, em luta contra os pumbeiros. A questão aqui presente, estava relacionada, com a posse dos elementos de coacção que, no plano da Europa, foi uma forma de estabelecer estados centrais. Mas, a par destas questões, a que ter em conta o valor que tinham estes bens no seio das sociedades africanas.

Outro ponto fulcral é o da relação bélica entre os diferentes estados africanos, a qual tem uma identificação com o divino pelos mesmos. Quer as armas quer os cavalos, assumiam uma grande importância devido ao estado de guerra contínuo entre os vários estados, e povos africanos, no qual o acesso a este bem representava uma vantagem face aos seus rivais. Por outro lado, no caso do estado africano em questão, deu um auxílio a centralização do poder. Ora, mesmo que não tivesse-se assistido a uma generalização, dado as acções belicistas entre os mesmos, e as rivalidades, obrigava a que as nações africanas com os contactos mais próximos dos portugueses e demais europeus recorressem a este bem com frequência; de modo a que não perdessem a vantagem.

Apesar de, como disse Isabel Castro Henriques, não abranger todas, as que comerciavam este bem com os europeus tinham, no quadro da economia africana, bens de prestígio, além do aspecto pragmático, que as dava vantagem sobre suas rivais. Neste plano, uma arma de fogo poderia equivaler a cerca de 1000 guerreiros, o que é demonstrativo do seu valor.

1 Roquinaldo Ferreira, Cross Cultural Studies in The Atlantic World, Cambridge, Cambridge University

Outra leitura de Roquinaldo Ferreira faz uma interpretação baseada no sucesso da substituição destes bens, pelos que eram vendidos pelos ingleses no norte1. No caso das nações que se dedicavam a actividade negreira, o acesso as melhores armas, além de um meio para deterem hegemonia, eram um meio também de obterem mais escravos e logo terem acesso a mais armas.

Outra questão que o este autor foca, era o saber se havia interesse por parte das autoridades portuguesas que esse bem não circule no sertão, no entanto convinha restringir o acesso ao mesmo por parte das restantes potencias europeias a pactuarem naquela zona.

No período em estudo havia uma de venda dos mesmos, quer pelos ingleses e franceses, ao sertão. Neste contexto, a coroa pretendia que as mesmas não fossem vendidas, via-se na obrigação de continuar a vende-las, com a discordância dos governadores. Está presente, no A.H.U, toda uma série de cartas entre o governador e a coroa, relativa a essa questão. A coroa, em resposta às várias directrizes dos governadores, visando a exportação desse mesmo bem, respondeu que as armas eram de fraca qualidade e que só servem para a caça, não representando perigo para os interesses lusitanos2. Porém não deixa o governador de advertir, que o envio de armas e sua comercialização no sertão, ia contra os objectivos portugueses naquela região3. Dada a concorrência estrangeira teria sido necessário a proceder a este comércio, as armas que eram enviadas de Portugal eram de qualidade inferior. A remessa dessas armas, em tão desvantagem com as que as nações, quer francesa, quer inglesa usavam no trato, deve- se aos objectivos militares portugueses de domínio da mesma região.

1Idem, Ibidem, p. 47.

2A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 63, doc nº 7, 22 – 02 – 1780 Vide: A.H.U, Conselho

Ultramarino, Angola, Caixa 69, Doc nº 71.

3A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 64, doc nº 59, 08 – 12 – 1781 Vide: A.H.U, Angola,

Num documento, após a campanha do Dande, há a referencia a armas de calibragem nessas paragens1. Estas, não obtidas através de Portugal, tinham sido adquiridas aos Ingleses e aos Franceses na qual estavam presentes armas de grande calibre.

Para este período, Herbert S. Klein, usando fontes francesas, denota que os Africanos, com as mercadorias europeias e de outras partes eram muito exigentes sendo a qualidade desta crucial para o tráfego Negreiro2. O Concelho Ultramarino em resposta indica que – apesar das intenções face a Angola – tal comércio não é contraditório. Em primeiro lugar as armas adquiridas pelos africanos, seriam usadas nas suas caçadas. Por outro lado as armas que Portugal enviava para o Sertão, eram de qualidade inferior o que não lhes dava hipóteses de as usar em esforços bélicos contra os Portugueses. Eram importantes quer para a caça, como para a guerra, que era um dos meios de se obter mão-de-obra escrava3. Logo, os objectivos da coroa, para a exportação deste produto sairiam gorados. A estratégia portuguesa, para não comprometer as operações militares, era dar de facto esse mesmo produto, mas sem que a sua utilização comprometesse a posição portuguesa.

Uma outra questão, era a violência no sertão; de facto, uma preocupação contínua. Algumas destas armas, caso das facas flamengas, eram mesmo proibidas de se vender, alegando o uso delas nas rixas, quer no sertão, quer em Luanda. As armas, espingardas, facas flamengas, balas de chumbo, traçados, faziam parte da permuta sendo usadas com as fazendas da Índia4. No entanto como este governador bem afirma, estas vendem-se livremente em Luanda, os negros usavam-nas para fins lícitos também, e não a havia forma de controlar o acesso a elas5; o que, como consequência, impedia

1 A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 77, Doc nº 47, 04 – 06 – 1792.

2 Hebert S. Klein, “Economic Aspects of the Eighteen Century Slave trade” in The Rise of Merchant

Empires editor James D. Tracy. Cambridge, Cambridge University Press, 1993, p. 291.

3 A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 95, doc. nº 9, 10 – 03 – 1800. 4 A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 95, doc. nº 9, 10 – 03 – 1800. 5 A.H.U, Conselho Ultramarino, Angola, Caixa 101, doc. nº 38, 25 – 08 – 1801.

que os portugueses controlassem essa região1. Parte da correspondência indica que os governadores, assim como muitos dos sertanejos não estavam de acordo com o envio deste produto para o sertão2. O acesso as armas implicava – devido a beligerância entre os estados africanos – quebra de mão-de-obra que poderia ser negociada no sertão.

Desta forma, ao contrário do exemplo dado na Lunda, no sertão anexo a presença portuguesa, havia de facto uma proliferação de armas que atesta a banalização de seu uso. Mas, que nesta óptica, para este período, não esteve relacionado com a desestruturação dos estados do que hoje é Angola, mas antes ao reforço de alguns, que inclusive foram usadas contra os portugueses. A lógica, aqui presente, é substituir o acesso as armas francesas e inglesas, de modo que não se perder esta moeda, mas fornecendo material que não teria a mesma qualidade. Esta, nesta lógica, faria com que o mercado em questão fosse um motor para o desenvolvimento das armas portuguesas. Ora o fraco peso deste como moeda de permuta, é também uma prova da superlotação (que não significa uma generalização do seu uso a todos os grupos) do sertão deste bem, o que resultava em quebra da mesma, seja pela proveniência francesa ou inglesa, ou pela presença de armas portuguesas.

Se estas, por um lado, parecem ser opostas as intenções militares portuguesas para as mesmas paragens, por outro lado estão relacionadas com as intenções económicas. Nas directrizes formuladas, para o sertão de Benguela, está expresso a ideai de se aumentar o consumo de produtos do reino nessas paragens.

No entanto há, até para evitar um acesso as armas inglesas e francesas, uma preferência pela venda deste produto por parte de Portugal, que pode ser visto numa dimensão politico/económica. Estas porém sem sucesso, o que indicia a abundancia deste bem no sertão angolano, assim como a preferência pelas armas das potências mencionadas. Logo no plano económico, a utilização deste bem como forma de permuta não é, no período em estudo, a moeda mais valiosa de troca. No plano interno, mais do

1 A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 71, doc. nº 60, 15 – 11 – 1786. 2 A.H.U, Angola, Conselho Ultramarino, Caixa 71, doc. nº 60, 15 – 11 – 1786.

que proceder a desestruturação das sociedades, antes é um meio – para as que negoceiam com os europeus – reforçarem o seu poder no plano local.

2.2 As Fazendas e a Historiografia recente

No entanto, não eram só os bens produzidos em territórios sobre domínio português que eram usados na permuta por escravos. O termo fazenda, para o período em questão, abrange uma ampla realidade conceptual. Do ponto de vista da circulação de bens, o termo fazenda era usado para designar bens que pudessem ser usados no comércio1. No contexto desta dissertação, irei usar este termo apenas para designar os tecidos vindos da Índia, que serviam para realizar o tráfego negreiro.

Ora, no que a este produto diz respeito, no entender de Herbert S. Klein ele apresenta-se como um dos problemas das exportações portuguesas, que consistiam em armas e bebidas, visto que não seriam usadas no escambo2. Já Miller, além dos produtos referidos por Klein, sublinha o peso assumido pela reexportação dos produtos têxteis da Europa3.

A este debate têm-se juntado os historiadores da Índia segundo os quais, a África teve um papel periférico no estudo das redes de comércio indianas4. A questão das fazendas da Índia tem sido estudada para as zonas mais a norte da África subsaariana, tendo um peso importante para a região do Dhaomé e para a região do Biafra5. A questão que se levanta é, e no tráfego comercial português? Qual o peso que este mesmo bem teria? Mas esta não é a única questão pela qual este assunto é abordado.

1 Sheila Siqueira de Castro Faria, “ Fazendas” in Dicionário do Brasil Colonial (1500 – 1808) dir.

Ronaldo Vainfas, Rio de Janeiro, Objectiva, 2000, p. 220.

2 Herbert S. Klein, op cit, p.292. 3 Joseph Calder Miller, op cit, p. 77.

4 Pedro Machado, “Cloths of a New Fashion: Indian Ocean Networks of Exchange and Cloth Zones of

Contact in Africa in India in the Eighteen Century and Nineteenth Century” in in How India Clothed

The World edit. Giorgio Riello e Tirthankar, Leiden/Boston, Brill, 2009, p. 55.

5 Lembrando que a análise feita pelo historiador em questão, está dentro da questão se teve um impacto, e

como o teve dentro da indústria têxtil Africana. Mas sobre esta questão em estudo, vide Joseph. E. Inikori, “English versus Indian Cotton Textiles: The Impact of Imports on Cotton textile productions in West Africas” in How India Clothed The World edit. Giorgio Riello e Tirthankar, Leiden/Boston, Brill, 2009, p. 105.

Alguns historiadores tratam esta questão, não no impacto no tráfego negreiro, mas antes no impacto que tiveram ou não no desenvolvimento, analisando o crescimento, na rivalidade entre os algodões ingleses e têxteis indianos. Essa todavia é uma questão que diz respeito, ao tráfego entre a Grã-Bretanha e a Índia e não infere no comércio com África.

Uma boa questão é aquela levantada por Jobson de Arruda, a respeito aos benefícios destes negócios para a Coroa portuguesa na relação da balança comercial. A reexportação dos produtos da Ásia diminuía a reexportação, assim como a importação para Portugal, das fazendas brancas de Hamburgo e da Holanda para as Américas e Ásia1, a qual, por sua vez, levaria a uma diminuição dos bens da Europa, e um maior equilíbrio das divisas de ouro nos cofres nacionais. Mas esta, apesar da vantagem que aufere ao reduzir o peso das exportações da europa, representa também um handicap, uma vez que esse ouro e prata iam para a Ásia para obter as mesmas fazendas.

Ora, como visto no primeiro capítulo, houve um aumento da exportação dos produtos da Ásia, cuja sua reexportação para Angola valeria cerca de 68%. Mas como se terá reflectido essa mesmo em Portugal na sua relação com o tráfego negreiro, e como se relaciona com o projecto português?

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