2.3 M ECANISMO DE D ESENVOLVIMENTO L IMPO (MDL): INSTRUMENTO DE FLEXIBILIZAÇÃO E GOVERNANÇA
2.3.2 Os Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL)
2.3.2.1 As atividades ligadas a florestamento e reflorestamento
Nesta pesquisa, serão enfocados os projetos de MDL ligados a atividades de reflorestamento, mais conhecidos como “sumidouros de carbono”, tendo em vista a metodologia utilizada pelo Projeto Plantar. Essa metodologia, bastante criticada pelos atores sociais contrários ao projeto ora em estudo, traz consigo muitos questionamentos. Efetivamente, foram necessárias seis rodadas de negociações das Conferências das Partes (COP) das Nações Unidas para que fossem estabelecidos acordos mínimos entre todos os atores estratégicos para a governança ambiental global, no que se referem ao assunto mudanças climáticas.
Não obstante o Protocolo de Kyoto determinar, desde sua criação, a necessidade de atenção especial tanto às emissões de GEE, como também à remoção de CO2 por “sumidouros”, foi somente durante a realização da COP 7, realizada em Marraqueche, que se estabeleceu a possibilidade de inclusão de projetos ligados a LULUCF (Land Use, Land-Use Change and Forestry / Uso do Solo, Mudança de Solo e Florestas), no âmbito do MDL. Das disposições elaboradas naquela oportunidade, a Decisão 17, é conhecida como Acordo de Marraqueche.
Sua regulamentação, no entanto, só ocorreria na COP 9, através da Decisão 19 (UNFCCC, 2008).
As atividades de LULUCF envolvem, então, a remoção de gás carbônico, através de projetos de reflorestamento (alteração, induzida pelo homem, de terras não- florestadas em terras
florestadas realizadas por meio de plantio e semeadura, por exemplo) e florestamento (conversão, induzida pelo homem, de terra que não foi florestada por um período de, ao menos, 50 anos, em terra florestada por meio de plantio, semeadura e/ou a promoção de fontes naturais de sementes). Entretanto, há uma questão muito específica a ser considerada:
ao mesmo tempo em que remove o CO2 da atmosfera, essa atividade libera certa quantidade do mesmo gás, e emite, ainda, óxido nitroso e metano (ROCHA et al, 2004).
Os projetos tratam da fixação de carbono, sob a forma de biomassa, em atividades de florestamento e reflorestamento. A captura do carbono ocorre pelo processo da fotossíntese, sendo que o carbono seqüestrado da atmosfera fica estocado na madeira enquanto a árvore está viva. No momento do corte, uma parte do carbono é liberada, sendo que, no entanto, ainda há grande acúmulo na biomassa da árvore.
Interessante notar que, em sua definição, foram estipulados dois tipos distintos de RCEs, de acordo com a não-permanência do carbono na espécie vegetal. Desta forma, há uma RCE temporária, cujo valor negocial se expira no final do período de compromisso subseqüente ao período no qual foi criada, e outra de longo prazo, que se expira no final do período de creditação2 da atividade de florestamento ou reflorestamento do projeto de MDL para a qual foi criada. Ambos os tipos de RCE podem ser utilizadas pelos países do Anexo I para o alcance de suas metas.
De acordo com a decisão 19, formulada naquele momento, a definição de reflorestamento permanece a adotada no Acordo de Marraqueche, qual seja
“Reflorestamento é a conversão, induzida diretamente pelo ho mem, de terra não-florestada em terra não-florestada por meio de plantio, semeadura e/ou a promoção induzida pelo homem de fontes naturais de sementes, em área que foi florestada mas convertida em terra não-florestada em 31 de dezembro de 1989 (-/CMP.1 - Uso da Terra, Mudança de Uso da Terra e Florestas)”. (ROCHA et al, 2004).
Já Suerdieck (2002), destaca que, para serem elegíveis como projetos de MDL, as atividades florestais necessitam que:
2 O período de creditação de um projeto de MDL ligado a atividades de Florestamento ou reflorestamento pode durar de 20 a 60 anos, conforme a espécie vegetal utilizada (ROCHA et al, 2004). Segundo os autores, perío-dos mais longos de tempo privilegiam plantios de florestas naturais, tais como matas ciliares, florestas para preservação permanente e florestas para áreas de reserva legal.
1) o uso da terra tenha sido não- florestal, ou seja, dedicado à agropecuária e/ou alterada por ação humana até 31 de dezembro de 1989;
2) as atividades florestais tenham sido iniciadas após o primeiro dia de janeiro de 2000.
Para os cálculos de adicionalidade do projeto, é necessário um procedimento de estimativa e avaliação do acúmulo de biomassa em campo, bem como um sistema de monitoramento para coletar, analisar e inve ntariar as amostras visando a acompanhar a consistência das projeções em relação à formação de biomassa (SUERDIECK, 2002). De acordo com a autora, esse sistema de monitoramento possibilita não somente verificar a evolução na fixação de carbono durante o reflorestamento, como também identificar as perdas ou vazamentos de carbono (erros ou desvios das projeções de fixação de carbono).
Entre as justificativas para a complexidade envolvida nos projetos de LULUCF estão as questões de não permanência, adicionalidade, fugas, incertezas e impactos socioeconômicos e ambientais, inclusive os impactos na biodiversidade e nos ecossistemas naturais, associadas às atividades de projetos de florestamento e reflorestamento (UNFCCC, 2008). No entanto, de acordo com diversos ambientalistas, ONGs e movimentos sociais, uma das principais críticas existentes é a não inclusão, até esse momento, da proposta de Redução de Emissão de Desmatamento (RED) como atividade de projeto dos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (CASTRILLÓN, 2007).
De acordo com Castrillón, a proposta para a RED surgiu em 2005, durante a COP 11, liderada por Papua Nova Guiné e Costa Rica. Já na ocasião, a idéia contou com apoio da coalizão de Nações com Florestas Tropicais. Em resumo, propõe-se a inclusão do desmatamento evitado no comércio global de créditos de carbono. Ressalta-se que, de acordo com os apoiadores da proposta, tem-se a consciência de que a inclusão da redução do desmatamento no mercado de carbono não deteria a mudança climática. No entanto, acredita-se que ela deve integrar uma estratégia múltipla, envolvendo a busca de energia limpa (CASTRILLÓN, 2007;
CAMPAGNUCCI, 2007). Castrillón (2007) destaca que o Brasil, por sua ve z, vem defendendo a criação de um fundo de contribuições voluntárias para compensar os esforços de países em desenvolvimento na redução de seus desmatamentos.
A proposta para a inclusão da Redução de Emissão de Desmatamento nos MDL é apoiada pela Declaração das Florestas, um movimento que defende que as populações tradicionais das
florestas, as comunidades e os governos necessitam de incentivos reais para manter e fazer crescer seu “capital florestal” (CAMPAGNUCCI, 2007). A autora afirma que, de acordo com a declaração, o desmatamento das florestas tropicais em todo o mundo representa entre 18% e 25% das emissões de carbono globais. Com essa afirmativa, reafirma-se a grande participação dos países em desenvolvimento para o problema do aquecimento global. Espera-se que nas próximas rodadas de negociação da Conferência das Partes haja ava nços nesse sentido já que, na última COP-13, realizada em Bali, esse foi um dos pontos mais polêmicos e debatidos. Ao final do evento, decidiu-se pelo estabelecimento de diretrizes para que o mecanismo seja incluído no período após 2012, conhecido como Pós-Kyoto.
Outro ponto interessante a ser destacado em relação à questão é que dados do IPCC informam que o potencial de seqüestro de carbono das florestas do planeta é de cerca de 15% das emissões globais de GEE, considerando-se os combustíveis fósseis queimados até o ano de 2050. Para capturar cerca de 30 milhões de toneladas de carbono em um ano em plantios de novas árvores, seriam necessários 40 mil km2 de área plantada. Mas, reduzindo o desmatamento em 20%, esses mesmos 30 milhões de toneladas deixariam de ser emitidos.
Um projeto de plantação geralmente leva 20 anos para acumular alguns poucos milhões de toneladas de carbono – ou seja, seqüestrar o carbono -, mas centenas de milhões são liberadas em um único ano por desmatamento. Esses dados vêm corroborar os pedidos de diversos grupos ambient alistas para que o desmatamento evitado possa ser considerado no âmbito do mercado de carbono, recebendo, assim, os incentivos necessários para a conservação florestal.
2.3.2.2 A Utilização de Tecnologias mais Eficientes e a Caracterização de Desenvolvimento