5. A Comunidade Aprendente e as aulas da Licenciatura
5.2 As aulas
passaram a se organizar e encomendar diretamente das editoras, o que tornava os
livros mais baratos e fáceis de adquirir por parte de todos.
Quando as aulas começaram a ser planejadas com a utilização de um livro
texto houve uma sensação de alívio, um relaxamento, por parte dos integrantes da
Comunidade e as Rodas de planejamento das aulas passaram a ser mais
descontraídas. Foi em um desses encontros, quando planejávamos a aula 23, em 01
de março de 2011, que uma das professoras que compõem o grupo sugeriu que
reservássemos um tempo dos encontros para discussão dos textos que seriam
trabalhados durante as aulas da Licenciatura. Estava faltando o “estudo coletivo” do
conteúdo. Embora todos concordassem com a sugestão, devido às inúmeras
atividades desenvolvidas por cada um dos rodantes, tanto profissionais, como
pessoais, nunca chegamos a colocar em prática essa atividade. Cada um que
comparecia a aula estudava o texto “em casa” e levava suas contribuições para
discutir no grande grupo. Mas, apesar dessa falta, não houve situações controversas
criadas pelos professores que estavam na sala de aula. Como o planejamento das
aulas era realizado coletivamente sempre íamos para as aulas com o discurso
afinado; cada um sabia como seria conduzida a aula e, depois de algum tempo,
aprendemos a trabalhar com a companhia de outros professores “nas nossas aulas”.
Assim, depois que resolvemos a questão do planejamento das aulas
realizado coletivamente, como consequência, as aulas também deixaram de ser
tensas e começaram a transcorrer mais descontraídas. Acredito que isso ocorreu
por dois motivos: as aulas passaram a serem atividades planejadas com segurança
e antecedência e a nossa experiência em trabalhar no coletivo foi aumentando com
o desenrolar das atividades da Licenciatura.
5.2 As aulas
As aulas foram outro desafio para o grupo constituído pelos professores e
pelos alunos da Licenciatura, pois a maioria dos envolvidos era oriunda de cursos de
graduação da área das ciências exatas e a proposta da Licenciatura é de oferecer
uma formação, tanto para os alunos como para os professores, baseada no diálogo
e na construção do conhecimento coletivamente. A intenção é evitar uma “educação
bancária” em que prevalece a transmissão de valores e conhecimentos do professor,
detentor do saber, aos alunos, depositários dos conhecimentos repassados pelo
professor, segundo a concepção de Freire (2005).
Para o senso comum, aula tem o significado de ser uma atividade de ensino,
desenvolvida num determinado espaço de tempo e sobre um determinado assunto.
Portanto, a partir desta perspectiva, “dar aula” significa ensinar um conteúdo
específico utilizando técnicas adequadas, em espaços organizados para este fim.
Assim, dentro de um modelo tradicional de ensino, a aula é vista como sinônimo de
transmissão de conhecimento realizada por um professor, detentor do saber, através
de uma preleção dirigida aos alunos, agentes passivos no processo educativo.
Porém, atualmente, autores que discutem educação têm opiniões diferentes
a respeito do que é “dar aula”. No entender de Rios,
uma aula não é algo que se dá, mas algo que se faz, ou melhor, que
professor e alunos fazem, juntos. Afirmar que fazem juntos não significa,
absolutamente, que fazem de maneira igual. É na diferença e na
reciprocidade de papéis que vai se constituindo o evento que se chama aula
(RIOS, 2012, p. 75).
Para ampliar essa ideia, Rios (2012) traz o pensamento de Ponce (1989),
que entende a aula como local onde o espaço e o tempo privilegiam a comunicação
didática entre o professor e os alunos. Assim a sala de aula proporciona aos sujeitos
envolvidos
uma relação intersubjetiva, supõe portanto a presença de sujeitos
interagindo entre si. Em outras palavras, tanto o aluno como o professor
devem ser vistos como sujeitos do processo ensino-aprendizagem, e neste
sentido possuem uma igualdade para que tal relação se estabeleça. (...)
Porém, aluno e professor possuem diferentes níveis de compreensão da
realidade e o diálogo em aula não deve ignorar este dado, mas sim
incorporá-lo como dado fundamental (PONCE, 1989, p. 77, apud RIOS,
2012, p. 75).
Concordando com o pensamento das autoras e acreditando na construção
coletiva das aulas, onde professores e alunos, através do diálogo fazem a aula
juntos e com a ideia de fugir dos métodos convencionais de ensino, que levam a
uma “educação bancária”, na Licenciatura, desde a elaboração do projeto, o grupo
apostou no diálogo para conduzir as atividades das aulas, pois “o que pode ser
opressivo num ensino não é finalmente o saber ou a cultura que ele veicula, são as
formas discursivas através das quais ele é proposto” (BARTHES, 2001, p. 41).
Assim, durante todo o curso da Licenciatura, independentemente dos
conteúdos trabalhados e da forma como eram apresentados, o grupo que planejou e
executou as aulas da Licenciatura procurou manter um diálogo com os alunos,
propondo, sem impor, a condução das atividades relacionadas com as aulas da
Licenciatura. Seguindo esta conduta, foram os alunos, com o auxílio dos
professores, que apontaram os conteúdos a serem trabalhados no Módulo III, que
fechou o curso, a partir de temas que tiveram interesse em aprofundar ou que não
foram tratados nos módulos anteriores.
Quanto ao diálogo entre os professores e os alunos, este tem que ser
construído em conjunto considerando os sujeitos envolvidos, que frequentam a
mesma escola e a mesma sociedade, embora, naquele momento, ocupando
diferentes posições. Desta forma, concordo com Rios, quando afirma que
o diálogo se faz na diferença. E há, sem dúvida, uma diferença nos papéis
de professor e de aluno. O que se quer afastar, na relação entre eles, é a
desigualdade, essa sim instalada de uma perspectiva de dominação, de
descriminação (RIOS, 2012, p. 79).
Esta foi a nossa postura durante todo o curso da Licenciatura. Nos
colocamos na posição de mediadores do processo, mas abertos ao diálogo com a
turma, mesmo que, as vezes, ocupássemos posições antagônicas. Ouvíamos os
alunos e juntos buscávamos a solução para resolver os impasses que se criaram ao
longo da nossa convivência enquanto se desenvolveu a Licenciatura.
Outro paradigma que foi quebrado nas aulas da Licenciatura foi quanto à
disposição das cadeiras na sala. Tanto os professores como os alunos, habituados a
uma disposição de cadeiras em filas, utilizadas desde meados do século XIX,
quando ocorreu a universalização do ensino e o início das aulas expositivas, com os
alunos sentados um atrás do outro, estranharam a novidade que ocorreu a partir da
primeira aula, com a arrumação das cadeiras em círculo. Os professores chegavam
mais cedo e as cadeiras eram dispostas em círculo para que se formasse uma roda
onde todos podiam enxergar os presentes. Dissemos que estava formada a “Roda
da Licenciatura”. Esta disposição das cadeiras nas aulas da Licenciatura aconteceu
durante todo o curso e, se no início pareceu estranha tanto para alguns professores
assim como para os alunos, depois de certo tempo ficou consolidada. Assim se, por
algum motivo, os alunos chegavam antes dos professores na sala, arrumavam as
cadeiras com aquela disposição.
Nesta primeira aula, a forma como ocorreu à apresentação dos professores
e dos alunos também não foi como a maioria estava acostumada a proceder.
Primeiro, por que estavam presentes oito (8) professores, que sentaram em “roda”,
mesclados com os alunos. Portanto, durante a primeira parte da aula, quando na
condição de coordenador, apresentei o curso da Licenciatura e a forma como seriam
desenvolvidas as atividades, os alunos não sabiam quem era professor e que era
colega na “Roda da Licenciatura”. Após o intervalo, uma das professoras se
destacou da Roda e passou a conduzir as atividades de apresentação. Somente
neste momento, quando a apresentação chegava a um dos professores, foi que
começaram a descobrir quem era professor e quem era aluno. Nas apresentações,
foi solicitado que além de se apresentar, cada um dissesse com que herói,
super-herói ou personagem se identificava e qual era a virtude e a fragilidade dele. No
início os alunos custaram a “se soltar”, mas no fim todos participaram sem que tenha
aparentado muito penoso para eles. A professora que conduziu a atividade parecia
estar muito nervosa, porém coordenou muito bem as apresentações e fez um
“fechamento” muito bom da aula. No dia seguinte, por e-mail, a professora comentou
a sua participação na aula
Pessoal,
Agora, analisando nosso primeiro encontro.... como foi difícil estar lá na
frente. Hoje, calmamente analisando acho que eles se soltaram, falaram de
seus valores, ficaram a conversar logo após o término do encontro e a tarde
professores ligados ao curso de Refrigeração solicitaram comprovantes
para curso em POA. Nosso vínculo vai se constituindo aos poucos....
(E-mail enviado em 09 de outubro de 2010)
Depois da aula, os professores presentes conversaram sobre o que
perceberam durante a aula e a avaliação foi positiva. Todos estavam satisfeitos com
a primeira aula, se sentindo “mais leves”. Havia passado o nervosismo e a
ansiedade que tomaram conta de todos nós, devido à responsabilidade de lecionar
em curso de formação de professores ao mesmo tempo em que estávamos,
também, passando por uma formação para nos tornarmos professores de
licenciaturas. Na manhã seguinte recebemos, de uma das professoras que integrava
o grupo, uma mensagem que sintetizava o sentimento de todos:
Bom dia!!!! Bom sábado!
Gostei muito da primeira aula, muitooooo planejada... penso que daí vem o
sucesso. Como a nossa orientadora fala e agora falamos também,
formamos nos formando, pensava nisso no decorrer da aula, o quanto
organizar a sala de aula e poder mostrar isso para os licenciandos é
importante para a que nos propomos no curso. E o mais "legal", em grupo,
olha aí a importância do coletivo! Fico muito agradecida que vocês me
acolheram no grupo mesmo não sendo mais do IF. Obrigada por me
proporcionarem momentos como o dessa primeira aula!
(E-mail enviado em 09 de outubro de 2010)
Outro desafio que os “engenheiros”, professores e alunos, tiveram que
superar foi à apresentação de filmes durante o período de aula
33. Para quem havia
passado pelas aulas “duras” da área das ciências exatas, esse tipo de atividade se
constituía em “matação de aula”. Esta constatação pode ser observada no Anexo III,
quando uma das professoras presente a atividade da aula 8, na ocasião em foi
rodado o filme “Tempos Modernos”, observando o comportamento dos alunos
escreveu “Um filme no ambiente escolar é ócio?”.
Porém, como a mensagem transmitida pelos filmes foi trabalhada em sala de
aula e em trabalhos que os alunos fizeram “em casa”, alguns modificaram a opinião
que tinham em relação a filmes rodados no ambiente escolar. Fizemos mais
algumas apresentações de vídeos, mais curtos, e indicamos vários filmes com
temas como a educação e a sala de aula com as relações existentes entre
professores e alunos. A maioria entendeu que um filme pode se constituir em um
ponto de partida para iniciar um debate sobre educação.
O primeiro bimestre do Módulo I, desenvolvido entre outubro e dezembro de
2010, teve dezoito (18) aulas e, devido a forma insegura como estávamos realizando
o planejamento das aulas, as atividades foram estanques. Não havia um
encadeamento muito claro entre as atividades trabalhadas. Com a adoção do livro
texto, o planejamento ficou mais fácil para todos os envolvidos e as aulas também.
No segundo bimestre do Módulo, também foram desenvolvidas dezoito (18)
aulas, entre fevereiro e maio de 2011, sendo que nas primeiras aulas abordamos a
história da educação no mundo e no Brasil. Para trabalhar este tema tínhamos no
grupo um colega formado em história que assumiu algumas aulas deste conteúdo,
além de outras aulas em que o conteúdo era Trabalho e Educação. Suas
participações normalmente foram tradicionais ministrando aulas expositivas. Como
possui muito conhecimento sobre os conteúdos que trabalhou e os alunos estão
acostumados com aulas expositivas, suas aulas foram consideradas “muito boas”
pelos alunos. Entretanto fugiam da proposta da Licenciatura que prevê o trabalho
33 No Módulo I apresentamos os filmes “Narradores de Javé”, na segunda aula, para enfatizar a importância do registro escrito e o filme “Tempos Modernos”, na aula 8, quando abordamos o tópico Trabalho e Educação.