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3.2 Contexto Específico

3.2.7 As aulas de leitura

leitura compartilhada, nos quais, além de ler, eles poderiam falar sobre o que estavam lendo, manifestar as suas impressões.

Para que essa leitura compartilhada fosse mais proveitosa, após fazer a minha própria leitura das obras, fiz uma resenha dos livros e identifiquei trechos que poderiam suscitar maior interesse dos estudantes. Registros de Anne Frank que relevavam a angústia dela por estar passando pela adolescência ou os conflitos vividos com a mãe, ou ainda a descoberta da paixão por Peter, foram selecionados visando provocar nos estudantes o sentimento de identificação com o que estava sendo lido. Destaquei ainda trechos em que Anne apresenta o seu relato sobre o que acontecia fora dos muros do Anexo. A guerra e o extermínio aos quais os judeus foram submetidos são relatados por ela com muita propriedade e ajudaram os estudantes a compreenderem melhor os assuntos que estavam sendo abordados nas aulas de História. Procedi da mesma forma em relação às outras obras a serem lidas. Selecionei e registrei trechos mais pertinentes a uma leitura em voz alta em sala de aula.

Assim, realizei, em voz alta, a leitura do prefácio e de vários outros trechos que achei interessantes. Mas também deixei os estudantes livres para pegarem os livros emprestados e lerem. Alguns com leitura mais fluida, logo no início do ano, tão logo comuniquei que leríamos o livro, o compraram e procederam à leitura.

Chamou-me a atenção o caso de uma estudante, a quem vou atribuir o nome fictício de Luísa, que eu já havia percebido que é brilhante, tem um olhar curioso para as aulas, sempre muito atenta, apresentando uma escrita madura, uma capacidade de interpretação de texto bem acima da média dos seus colegas, porém, muito tímida, sempre sozinha e triste durante o intervalo. Eu já havia tentado conversar com ela para descobrir a razão do isolamento e ajudá-la, mas ela sempre declarava apenas que estava encontrando dificuldades para acordar cedo, já que nos anos anteriores ela estudava à tarde e agora as turmas dos 9º anos passaram a ter aulas pela manhã.

Em uma segunda-feira, logo nas duas primeiras aulas que tinha com a turma dela, essa estudante chegou-se até mim e comunicou-me que havia lido O Diário de Anne Frank. Eu a parabenizei por isso e disse que teríamos a oportunidade de falar mais sobre as leituras.

Naquele dia, a aula estava destinada às orientações aos estudantes quanto à próxima etapa do projeto, que lhes demandaria a escolha da mulher inspiradora a ser entrevistada. Esta estudante, então, me disse que queria entrevistar a própria mãe, mas que achava que não poderia fazê-lo porque, por estar sempre muito ocupada, a mãe não teria tempo para ela.

Diante disso eu mencionei: “Eu acho que vocês duas podem aproveitar essa oportunidade para encontrarem um tempo a mais para estarem juntas”. Para minha surpresa, a

estudante começou a chorar muito e tive que retirá-la da sala de aula. Pedi licença aos estudantes e a acompanhei para uma conversa. Chorando muito a estudante disse-me que a mãe dela não a percebia, que só tinha tempo para o filho mais velho e que se sentia ignorada por ela. Eu a abracei e disse que provavelmente a mãe estava passando por um momento difícil, mas que isso não dizia respeito a quem ela era. Declarei o quanto ela era uma garota admirável, encantadora, o quanto já havia percebido a disciplina, a organização e a dedicação dela para com os estudos. Perguntei se ela queria que eu, junto com o Serviço de Orientação Educacional, mediasse uma conversa entre as duas, ao que ela disse que não. Então perguntei se ela já havia comunicado à „mãe o que estava sentindo‟. Ela disse que não e eu sugeri que ela tentasse ter essa conversa. Consegui fazer com que ela se acalmasse, pedi que fosse tomar uma água e que, quando se sentisse em condições, retornasse à aula.

Fiquei me perguntando o que havia acontecido para que uma estudante, que sempre se esquivava das minhas tentativas de aproximação, de repente se sentisse compelida a falar, tão abertamente, sobre as dificuldades de relacionamento que vinha enfrentando com a mãe.

Então, lembrei-me de que já no início da aula, naquele dia, ela comunicou-me que havia lido O Diário de Anne Frank. Quem conhece a obra sabe que Anne teve enormes dificuldades de relacionamento com a própria mãe e fala, reiteradas vezes, sobre isso em seu livro.

O que imagino que tenha acontecido é que, ao ler o relato de Anne, Luísa pôde compreender e elaborar melhor os sentimentos que vinha enfrentando em relação à mãe. Pôde perceber que outras pessoas enfrentam situações como a que ela estava vivendo. Senti que o livro lhe proporcionou condições de dar vazão aos próprios sentimentos, nomeá-los e entendê-los melhor. Provavelmente, ela se sentia muito culpada por ter raiva da mãe, e ver que Anne passou pelo mesmo fez com que ela pudesse purgar essa culpa.

Dias depois, ela voltou a conversar comigo e disse, que motivada por tudo o que nós havíamos conversado, decidiu abrir o coração para a mãe. Contou-me muito contente que tudo estava bem, que a mãe havia mencionado que, por estar sobrecarregada com o trabalho não estava percebendo o que vinha acontecendo. Ela me disse, muito orgulhosa, que as duas encontrariam tempo para realizar a entrevista porque, depois da conversa com a mãe, ela teve mais certeza ainda de que a mãe dela é a mulher mais inspiradora de sua vida.

A situação relatada é ilustrativa do alcance que a leitura livro pode ter. Sem dúvidas, ela contribui para um melhor desenvolvimento de habilidades e competências relacionadas à compreensão e interpretação de textos escritos, ela auxilia no aprimoramento da capacidade de escrita daquele que é leitor, mas, mais do que isso, ela nos ajuda a elaborar a nossa

existência, porque segundo Teresa Colomer (2014), “literatura não é luxo, literatura é a base para a construção de si mesmo”.

Outros estudantes que não eram leitores tão fluentes como Luísa também foram beneficiados pelas aulas em que realizei a leitura de trechos das obras em voz alta. Uma delas é uma estudante que sempre se mostrava alheia às atividades realizadas e queria passar o tempo inteiro ouvindo e cantando músicas de Funk, do Daleste4, de quem ela se declarava uma fã apaixonada. Afirmou não gostar de ler e mostrou enorme resistência à proposta de ler em sala de aula. Eu insisti e pedi-lhe, então, que só ouvisse as leituras a serem feitas. Para minha surpresa, depois de várias aulas lendo trechos, criteriosamente selecionados, de O Diário de Anne Frank, ao final da aula, ela veio comunicar-me que faria uma viagem para participar de uma competição de Caratê fora de Brasília e queria o livro emprestado para ler durante esse período.

Ao proceder à leitura, eu o fazia com o cuidado de ler com o entusiasmo, a entonação e o volume necessários para proporcionar o entendimento do que estava sendo lido. Venci a resistência inicial apresentada por eles e fui altamente recompensada ao ver que, mesmo estudantes muito indisciplinados, que em outras ocasiões não mostravam nenhum interesse pelas aulas, paravam para ouvir a leitura e ainda protestavam quando alguém atrapalhava, conversando ou fazendo qualquer outra coisa que os impedisse de ouvir.

O fato de postar as fotos do livro na página da escola, em minha página e ainda, o fato de termos realizado uma exposição, para toda a escola, na qual os próprios estudantes apresentaram os livros a serem lidos e a biografia de suas autoras, teve um impacto impressionante. Os estudantes dos 8º anos, não contemplados pelo projeto, passaram a ir até mim para reivindicar o direito de ler os livros. Encantou-me a disposição de uma estudante da tarde, do 7º ano, que foi à escola pela manhã à minha procura porque queria me dizer que, quando os estudantes dos 9ºanos terminassem a leitura das obras, ela também queria ler.

Sempre acreditei na importância da inserção de projetos sistemáticos de leitura no Projeto Político-Pedagógico de qualquer escola e causou-me enorme espanto ter chegado nesta escola e ter percebido a ausência de tão poucas iniciativas neste sentido. Ter insistido em minhas crenças, baseadas no que eu mesma vivi como leitora e em minha experiência na formação de leitores, permitiu-me perceber como erramos quando privamos os estudantes da

4 Jovem compositor de Funk que, no início da carreira, produzia letras que faziam apologia ao crime. É um dos criadores do subgênero Funk Ostentação que celebra o poder de consumo. Foi morto por disparo de arma de fogo em um dos shows em que apresentava no Rio de Janeiro,

leitura e como desperdiçamos um tempo valioso quando eles estão na escola com atividades que apenas os afastam dela.

Toda a experiência que vivi ao longo do Projeto Mulheres Inspiradoras só fortaleceu a minha convicção de que se quisermos, de fato, contribuir para a efetiva aprendizagem e, o mais pleno desenvolvimento de nossos estudantes, não poderemos abrir mão de eleger, em todas as ações e disciplinas, a leitura como a mais importante de todas as prioridades.