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As aulas do ensino secundário sob o olhar dos inspetores de ensino

No documento Luna Abrano Bocchi.pdf (páginas 95-107)

Capítulo 3 – O dia a dia no Colégio: indícios sobre as práticas escolares

3.2. As aulas do ensino secundário sob o olhar dos inspetores de ensino

Os documentos consultados sobre o Colégio Arquidiocesano são muito reveladores sobre o que acontecia nessa instituição em anos passados e o inspetor de ensino é certamente um dos sujeitos que se destaca. E é compreensível, afinal, desde 1900 o Colégio tinha a equiparação ao Ginásio Nacional, sendo perdida e retomada em anos posteriores. Nas páginas do Echos, nos cadernos da secretaria, nos belos quadros com as fotografias de pessoas homenageadas e, como não podia deixar de ser, no próprio caderno de registros do inspetor federal, ele se faz presente. O inspetor é alguém que cumpre a função de fiscalizar o colégio, acompanhar os exames parcelados e finais, assistir a determinadas aulas, acompanhar o trabalho da secretaria, dentre outros afazeres. Ele é um representante do Governo a quem se quer impressionar, cuja opinião é muito valiosa e que é constantemente colocado em posição de destaque e respeito pelo Colégio. Os Termos de visita do inspetor federal trazem registros de 1931 a 1938 das visitas realizadas ao Arquidiocesano (Colégio Arquidiocesano, 1935b). Nos primeiros anos é curioso perceber como há mais detalhes sobre o dia a dia da escola e é comum que o inspetor relatasse as observações que fazia das aulas, especialmente em relação aos conteúdos que eram ministrados e se eles estavam de acordo com os programas estabelecidos.

No dia 7 de outubro de 1931, primeiro registro do caderno, o inspetor relata a “perfeita obediência ao horario” e os assuntos abordados nas aulas assistidas do primeiro ano. Foram observadas as aulas de Francês, História, Noções de Ciências, Geografia, Matemática, Português, Francês, História e Ciências. É interessante notar que o inspetor relatou tanto a aula de Noções de ciências quando de Ciências, aparecendo os seguintes assuntos:23:

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O documento analisado foi escrito à mão e por vezes não foi possível compreender a grafia dos inspetores federais. Nestes casos, a palavra ou expressão foi substituída por um ponto de interrogação (?).

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Noções de ciências: descrição de experiências: tubo de Newton. Pyrometro de quadrante, annel de L´Gravessande. (...)

Sciencias: Estados dos corpos: dilatação, balança hidrostática. Alavancas com os desenhos feitos no quadro negro (Colégio Arquidiocesano, 1935b, p. 1).

Na aula de Noções de ciências o inspetor assistiu à descrição de experiências. Não há mais detalhes sobre isso e podemos indagar sobre como será que a aula ocorreu. O professor explicou o que seria cada instrumento? Ele usou os próprios instrumentos para apoiar a descrição? Ele demonstrou como funcionavam? Foi usado algum compêndio que apoiasse a explicação? Como os alunos participaram da aula?

Figura 3.1 Exemplares do Pirômetro de Quadrante.

O primeiro, em destaque, foi produzido pela empresa francesa Ducretet.

Fonte: Memorial do Colégio Marista Arquidiocesano de São Paulo.

Figura 3.2 – Exemplares do Anel de S´Gravesande.

Fonte: Memorial do Colégio Marista Arquidiocesano de São Paulo

A própria palavra “descrição” indica que ocorreu uma explicação do professor e não temos indícios de que os instrumentos tenham sido demonstrados em aula, mas sabemos que o Arquidiocesano possuía em seu Gabinete de Física os três instrumentos

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citados. Tanto eles quanto a balança hidrostática, mencionada na aula de Ciências, aparecem listados no Relatório enviado ao Departamento Nacional do Ensino para

revisão da “ficha de classificação” para obter a equiparação permanente de 1933. Os

instrumentos mencionados pelo inspetor faziam parte do acervo em 1933 e, apesar de não ser possível confirmar quando eles foram adquiridos, achamos que possa ter ocorrido anteriormente a essa data, já que há indícios anteriores a esse ano que indicam que o Colégio possuía um acervo bastante completo.

O tubo de Newton foi classificado dentre os instrumentos de Física, no item “atuação da gravidade” e é usado para demonstrar que objetos com densidades diferentes no vazio caem com igual velocidade. No item Calor, aparecem dois tipos de Pirômetro, um aquecido a álcool e outro aquecido a gás. Este instrumento pode ser usado para observar e comparar a dilatação dos corpos, assim como o Anel de Gravesande, que também serve para demonstrar a dilatação dos corpos sob a ação do calor.

Chama a atenção a observação feita do inspetor em relação aos desenhos da alavanca no quadro negro. Supomos que era um recurso utilizado pelo professor para explicar o conteúdo e que essas alavancas não foram mostradas aos alunos, por isso a necessidade de desenhá-las no quadro. No documento analisado aparecem outras observações semelhantes quanto ao uso do quadro negro, o que traz uma questão à tona. Por que esse era um recurso que chamava a atenção do inspetor federal?

Apesar de não ser frequente, há outros casos em que o inspetor descreve aulas que tenham envolvido o uso da lousa. No dia 27 de outubro do mesmo ano durante a aula de Matemática ocorreu a revisão das fórmulas de juros com exercícios no quadro negro e na aula de Corografia foi traçado um mapa do Ceará (Colégio Arquidiocesano, 1935b, pp. 6-7). Em 1933 há outro registro que aborda o mesmo recurso:

(...) Na segunda turma da primeira serie comporta 41 meninos inscritos e 5 ausentes neste hora, assisti a (proclamação) preleção de matematica cujo assunto era “Redução de medidas (?) e medidas de superfície propriamente ditas com alguns problemas adequados e resolvidos no quadro negro. (...)

Desta passei alguns instantes na quinta serie, cujo horario indicava aula de Historia Natural (Zoologia especial). (...)

Tendo sido dadas as esplicações preliminares, assisti com praser a arguição do menor da classe. Com muito desembaraço, estabeleceu no quadro negro o conjunto sinotico dos crustaceos, caracterisando cada grupo, ajudando-se da etimologia dos nomes.

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Sai da quinta serie dando sinceros parabens a classe toda (Colégio Arquidiocesano, 1935b, pp. 35-36).

Além da referência ao quadro negro, é possível notar que as atividades propostas nas aulas de 1931 e 1933 foram diferentes. Em alguns casos o professor usava-o para apoiar a sua explicação e em outros, particularmente nas aulas de Matemática, envolvia a resolução de problemas. Na aula de História Natural há ainda a descrição de uma situação em que o aluno usou o quadro negro para fazer uma anotação dos crustáceos, tema do estudo. No Guia das escolas o quadro negro, juntamente com os cartazes murais, são considerados materiais importantes durante as aulas.

O quadro pode prestar todo o tipo de serviços, pois é uma espécie de livro e de caderno comum, aberto diante de todos os alunos, que nele podem acompanhar com facilidade uma explicação ou exercício. As cartas murais e os quadros murais e painéis de tantos tipos desempenham papel análogo. (...) O seu emprego nunca será demasiado frequente. Qualquer explicação no quadro assume valor superior àquela explicação puramente oral, porquanto se dirige ao mesmo tempo aos olhos e aos ouvidos (Furet, 2009, p.163).

O fato de o quadro negro privilegiar não somente os ouvidos, mas também os olhos, é um argumento que justifica o seu uso. O aluno, diante do professor, mesmo sentado e aparentemente sem ter uma atitude ativa na aula, estava imerso em uma situação que exigia um jeito de se portar que aos poucos foi sendo naturalizado – era preciso sentar de uma determinada maneira, segurar o caderno e o lápis de um jeito preciso, ouvir o professor e observar o quadro, fazendo relação entra essas duas coisas. Algo que passa despercebido de tão corriqueiro que parece ser, mas que exigia dos sentidos dos alunos uma atenção especial e um olhar e ouvir que foram sendo educados na própria sala de aula, pois dizia respeito de uma prática muito particular.

São mencionados alguns usos que o quadro poderia ter:

Em história, presta-se aos quadros sinóticos, resumos, árvores genealógicas. Em geografia, permite a representação de mapas mudos ou falantes. Nas ciências, lança-se mão dele constantemente, sejam gravuras científicas ou industriais, fórmulas de química ou esboços de aparelhos de física. No catecismo, escreve-se nele uma definição importante, algum quadro sinótico, o resumo e até o texto da lição que vai ser explicada. O ensino da matemática faz uso incessante do quadro negro (Furet, 2009, pp. 163-164)

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É interessante notar que a utilização da lousa poderia variar a depender da disciplina dada e das especificidades de cada aula. O seu uso na aula de ciências pode ser um indicativo do que acontecia no Arquidiocesano.

Especialmente nas aulas de Física e Química aparecem situações semelhantes às descritas anteriormente, a respeito das quais o inspetor menciona algumas substâncias químicas ou aparelhos científicos em suas observações das aulas. No dia 10 de outubro de 1931 há indicações mais precisas do que ocorreu:

Physica: apparelhos de medição das grandezas electricas: rheostatos, caixas de resistencia. Medição de uma resistencia. A parte (?) foi: determinar a resistencia electrica, correspondente ao ponto Xo do Pedro II.

História Natural: Aula de revisão. Abrangeu duas partes: a) As (?) em geral, classificação. Estudo da (?); assunto que corresponde ao Xo ponto do Pedro II. b) Muscineas: caracteres gerais e classificação, assunto que faz parte do XXXIIIo ponto do Pedro II.

Pude me convencer da facilidade que os alunos têm de se compenetrarem do assunto desta disciplina auxiliados por quadro sinópticos organizados pelo lente, assim como pelos numerosos exemplos naturais, metodicamente classificados em caixas envidraçadas e postas à disposição de toda a classe. (...)

Chimica: Glicose, saccharose e seus caracteres, correspondente ao ponto XXo do Pedro II (Colégio Arquidiocesano, 1935b, pp. 1-2).

.

Na aula de Física há informações de que os aparelhos foram usados, já que o inspetor descreve que houve a medição de uma resistência. No documento de 1933 também são listados muitos materiais que medem a resistência, dentre eles uma caixa de resistência com 5 bobinas e várias resistências avulsas (Colégio Arquidiocesano, 1933, pp. 73-74).

A observação feita na disciplina de História Natural chama ainda mais a atenção, pois não é frequente que o inspetor emitisse juízos de valor sobre as aulas, limitando-se a descrever os conteúdos ministrados, as atividades ou recursos utilizados e sendo bastante comum a indicação do livro didático usado. Neste caso, não só ele descreveu os materiais, como elogiou o uso feito dos quadros sinópticos e dos vários exemplos naturais, ressaltando ainda a classificação metódica nas caixas envidraçadas colocadas à disposição. Como foi anteriormente indicado por Pereira Frasão sobre os cuidados que deveriam ser tomados com os objetos do museu escolar, os exemplos naturais utilizados em aula eram armazenados em caixas envidraçadas, permitindo maior visibilidade das peças.

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Na aula de Química há somente a menção à glicose e sacarose e mais nenhum indicativo sobre como a aula ocorreu. No relatório sobre os materiais didáticos do Colégio, consta na parte de química a sacarose, mas não a glicose. De toda forma, nesta aula não há nenhuma indicação de que tenha ocorrido qualquer trabalho prático.

O inspetor ainda descreve outras aulas em 1931 e 1932 que indicam que alguns instrumentos científicos foram abordados. Foi registrado sobre a aula de Física: “Correntes contínuas e correntes alternativas; Bobina de Ruhmkorff e suas aplicações; tubos com gases rarefeitos (Colégio Arquidiocesano, 1935b, p. 8)”. A Bobina de Ruhmkorff aparece listada duas vezes no documento Serviço de inspeção do ensino

secundário, tanto na listagem dos materiais da sala de Ciências físicas e naturais

quanto na do laboratório de Física e, na listagem dos materiais no Relatório de 1933, também segue essa mesma orientação. Acreditamos que a bobina pode ter sido objeto da preleção do professor, já que os instrumentos de ensino não favoreciam somente a compreensão de certos fenômenos, mas alguns eram eles mesmos conteúdos de ensino.

Figura 3.3 Exemplares da Bobina de Ruhmkorff.

O exemplar 2 foi produzido pela empresa Radiguet & Massiot e o exemplar 3 pela empresa Deroylle.

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Em 1932 o inspetor observou diversas aulas, dentre elas a de Física do 4º ano: “Quarta série: Física: Pêndulo composto; aplicações dos pêndulos. Resolução de problemas” (Colégio Arquidiocesano, 1935b, p. 16). Um terceiro registro ocorreu no mesmo ano: “Quarta série: Química: Termo química – Princípios calorimétricos – Bomba calorimétrica – Calor de formação dos corpos epitérmicos e endotérmicos” (Colégio Arquidiocesano, 1935b, p. 19). Nos registros foram mencionados o pêndulo composto e a bomba calorimétrica e, apesar da indicação dos instrumentos, a bomba calorimétrica não aparece na lista de materiais didáticos disponíveis no Colégio.

Em 1933 foi designado um novo inspetor federal que, em sua primeira visita, relatou: “Acompanhado pelo Rvmo. Irmão Diretor percorri todas as dependências do mesmo. Observei com especial cuidado os Gabinetes de física, química, história natural, biblioteca, cozinha e refeitório fazendo a melhor das impressões de tudo que vi” (Colégio Arquidiocesano, 1935b, p. 30). No mesmo ano houve uma nova alteração e o inspetor recém-designado reafirmou as opiniões emitidas pelo seu predecessor:

1º de julho. Visitei o Ginásio e constatei a justiça dos conceitos emitidos pelo Inspetor que era substituto, o Sr. Carlos de (?). Minha primeira impressão foi muito boa. Posso dizer que faço meus os conceitos por ele expendidos á pág. 30 deste livro a respeito das instalações do Ginásio (Colégio Arquidiocesano, 1935b, p.40).

Vemos que a impressão antes divulgada nas páginas da revista Echos acerca das dependências do colégio e em especial das instalações dos gabinetes de Física, Química e História Natural, não era somente uma visão que a direção do Arquidiocesano queria passar aos leitores da publicação, mas era algo reafirmado pelos inspetores de ensino, o que de certa forma dá credibilidade à imagem construída, já que tinham como função fiscalizar o Colégio e seguiam inúmeros critérios para fazê-lo.

Manuel do Carmo, o novo inspetor, mostrou-se cauteloso em suas primeiras observações:

Acabo de visitar varias aulas, onde fiz com que os snrs. professores não as interrompessem. Apreciei a disciplina reinante em todas. Não faço juízo precipitado. A minha primeira vizita foi logo após as ferias e era o segundo dia de aula. Irei dando minhas impressões á proporção que for (?), como pretendo,

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minhas visitas aos varios cursos, ás varias series (Colégio Arquidiocesano, 1935b, p. 41).

Consideramos os registros dos inspetores bastante valiosos porque mostram situações cotidianas do Colégio, já que as observações eram feitas com certa regularidade nos diversos anos e aulas. Além disso, pressupomos que havia um cuidado com o que era registrado e que as críticas e elogios não eram feitos gratuitamente, pois era sabido que as observações do funcionamento do colégio e das aulas teriam repercussão a depender da avaliação feita. Pode ser por isso, por exemplo, que Manuel do Carmo foi cuidadoso ao tecer o comentário acima, pois estava chegando ao colégio e, como ele mesmo disse, precisava considerar o retorno recente às aulas, momento este um pouco atípico da rotina escolar.

Por outro lado, o fato de termos notícias das aulas por meio dos relatos dos inspetores nos faz ponderar outros aspectos, pois é uma visão de uma pessoa que ocupa um cargo no governo e que não faz parte do quadro de funcionários da instituição. É uma pessoa que vem de fora do Colégio para avaliar e essa função é reconhecida por todos e, logicamente, é de suma importância para a instituição que se saia bem nessa avaliação. O fato de o inspetor observar as aulas não quer dizer que os professores mudavam a maneira como ensinavam e os alunos como se comportavam, mas podemos imaginar que havia uma preocupação diferente com o fato de que estavam sendo observados. Um indício disso é que as aulas eram interrompidas com a sua entrada, prática esta que Manuel do Carmo pediu que não ocorresse mais.

Posteriormente o inspetor foi visitar as obras em andamento no bairro da Vila Mariana e se mostrou surpreendido: “É um edificio que vae honrar S. Paulo, pela sua grandeza. Pela revisão da fixa de classificação que enviarei poderá a Superintendencia verificar que é um edifício de suma importancia (Colégio Arquidiocesano, 1935b, p. 44)”. Até 1938 não houve mais nenhuma outra observação sobre as novas dependências do colégio.

Há, além disso, outros três importantes registros sobre as aulas e o uso de materiais didáticos que faziam parte do acervo: “30 de Agosto. Ao chegar ao estabelecimento, visitei a 5ª série, onde assisti uma aula de História Natural, ministrada com o auxilio de quadros murais perfeitamente adequados ao assunto; sendo facil o aproveitamento para o aluno (Colégio Arquidiocesano, 1935b, p. 44)”. É

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interessante observar que esse registro de 1933 lembra outro já mencionado de 1931 em que o inspetor federal de então também fez referência à aula de História Natural do 5º ano e ao uso de quadro sinóticos e exemplares naturais e, da mesma forma, houve uma boa avaliação da aula pelo inspetor que mencionou a facilidade com que os alunos tinham de se compenetrarem no assunto auxiliados desses materiais. Esses dois registros indicam que, mais do que uma coincidência, havia uma proposta no ensino de História Natural do 5º ano que privilegiava o ensino prático e uso de materiais que acompanhassem as explicações.

No ano seguinte, em 1934, há um relato que menciona o uso de instrumentos científicos durante a aula de Física:

Dia 28 de Ag. Visitei o Colégio das 14 às 16 hr; percorrei diversas salas de aulas; em todas elas mandei verificar a frequência.

Ás 14.20 hr, na terceira série “A” assisti a preleção de física, sendo o assunto: Instrumentos de óptica; microscópio, luneta astronômica, telescópio. Servia-se o lente para a demonstração, do microscópio e da luneta astronômica (Colégio Arquidiocesano, 1935b, p. 71).

A luneta astronômica foi mencionada pela primeira vez no Echos de 1930, onde há o relato de que, após meses de espera, chegaram novas peças para os gabinetes de Física e História Natural, dentre eles a luneta astronômica, o goniômetro de Wollaston e o catetômetro. Na listagem dos materiais das salas especiais no documento Serviço

de inspeção do ensino secundário não consta a luneta astronômica, mas ela aparece na

lista de materiais didáticos possuídos pelo Colégio no relatório de 1933, dentre os instrumentos de Física, na parte de Ótica. O microscópio também faz parte dessa listagem e é identificado como microscópio grande modelo de laboratório (Leitz), aparecendo também na relação do material didático da sala de Ciências físicas e naturais (microscópio), assim como na relação dos materiais na sala de História Natural, no item relativo ao material para estudos microscópicos, havendo tanto o microscópio simples como os de forte aumento, com várias oculares e objetivas. Na relação de materiais do Serviço de inspeção, o instrumento está presente nessas três áreas, o que mais uma vez indica que o Colégio procurava seguir as orientações do Departamento Nacional de Ensino. É interessante como um mesmo instrumento aparece em mais de uma área de conhecimento, indicando tanto possíveis

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semelhanças entre essas áreas, quanto a diversidade de uso que o instrumento poderia ter.

A luneta astronômica e o telescópio também são considerados instrumentos de Ótica, conforme relato do inspetor de ensino. A luneta e o telescópio, no entanto, não constam na listagem de materiais do Departamento Nacional de Ensino, estando listados, além dos já mencionados microscópio e bobina de Ruhmkorff, a balança hidrostática.

Na aula relatada pelo inspetor, parece que o microscópio e a luneta foram manuseados somente pelo lente. O fato de os alunos assistirem à preleção, no entanto, não fazia disso algo passivo.

Primeiro, porque a audiência não é passiva, ela pode deliberar sobre o acontecimento, dando credibilidade à ação do professor, age em torno do exercício buscando responder corretamente (ou não) o que está apresentado em seu livro, o seu olhar diante do que vê não é passivo (Braghini, 2013, p. 44).

A audição, da mesma forma, era um sentido mobilizado e colocava o aluno em uma situação de atenção, tendo que relacionar o que escutava com o que observava da demonstração.

Além disso, tratando-se dos instrumentos de precisão, o professor era a pessoa autorizada a manuseá-los porque não era algo simples de se fazer, algumas vezes podendo até mesmo ser perigoso (Braghini, 2013, p. 45).

Em 1935 há outro registro do inspetor que chama a atenção por ilustrar uma prática não mencionada até então nos documentos pesquisados, relacionada ao uso do anfiteatro.

Após ter posto em ordem alguns papéis na Secretaria, assisti a várias aulas, em companhia do (?) Inspetor Prof. Arlindo (?) Costa. Na 5ª série realizava a sua aula de Latim o Irmão Reitor. Assistimos na 4ª série a uma arguição de Hist. Natural pelo Irão [sic] Ambrosio. A 3ª série estava em aula de Desenho do Prof. Irmão Illydio. No anfiteatro dava a sua aula prática de Sciencias o Irmão Victor (?). A 1ª série ocupava-se de aula de Frances sob a direção do Irmão (?).

Foi boa a nossa impressão geral (Colégio Arquidiocesano, 1935b, p. 94).

É importante considerar que neste mesmo ano foi inaugurado o novo prédio do

No documento Luna Abrano Bocchi.pdf (páginas 95-107)