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AS BAGAGENS DOS EXPLORADORES O modelo texto-leitor

No documento Cinematógrafo: um olhar sobre a história (páginas 66-71)

OS MISTÉRIOS DA RECEPÇÃO

AS BAGAGENS DOS EXPLORADORES O modelo texto-leitor

Propor um discurso sobre as mídias sem nada saber do sentido que adquirem as emissões para os espectadores, é se privar do elo essencial dos processos que conduzem a seus “efeitos”. É também crer que é possível estu- dar organizações midiáticas abstraindo-se de sua finalidade. Paradoxalmente, a pesquisa das mídias se esforça por contornar o principal de seus objetos, ao desarticular o processo do qual deveria dar conta e ao se subdividir em traba- lhos especializados que tratam, por exemplo, das configurações econômicas das mídias, do universo profissional dos jornalistas, dos produtores e dos animadores e ainda, sobre os efeitos das mídias. Qualquer que seja a impor- tância destes estudos, o momento da comunicação ou, pelo menos, o da transmissão de um sentido é deixado entre parênteses.

A semiologia dos anos 1960-70 parecia anunciar o fim desses parênte- ses. O momento da transmissão do sentido é enfim chamado a sair da caixa preta onde esteve provisoriamente consignado, depois completamente es- quecido. Forçoso é constatar que o anúncio não é seguido de efeitos. Os trabalhos de semiologia se voltam para a descrição formal dos textos propos- tos pelas mídias. Eles estudam as estratégias de significação manifestadas por estes textos, mas não o destino que lhes reservam seus destinatários. Mesmo quando alguns se interessam pelos receptores, é para analisar a posição de um receptor ideal, de um receptor de alguma forma dedutível do texto do qual ele será a imagem vazia, e se contentar com essa análise. Do texto, unicamen- te, se pretende deduzir a natureza de sua recepção pelos seus espectadores ao descrevê-los como fixos, sem recursos, pelo jogo de códigos e pelo de papéis que se impõe tal ou tal estrutura de enunciação. Mal saída da caixa preta, a problemática da transmissão do sentido se faz objeto de um retorno ao emis- sor. Ela é substituída no interior do texto, o problema do destinatário não sendo mais do que aquele dos signos que o representam.

A questão da recepção de significações propostas pelos programas retorna, entretanto, à ordem do dia no fim dos anos 1970, com a aparição de um espectador de carne e osso. Os estudos sobre a recepção colocam um termo no reino exclusivo do lector in fabula para analisar as relações concretas entre os textos difundidos pela televisão e as significações que alcançam efe- tivamente os telespectadores. A análise semiológica representa aqui um re- curso maior, mas os textos são doravante relacionados ao contexto de seu reencontro com seus usuários.

Lança-se um ponto entre a proposição midiática que constituem os “textos” (concebidos aqui num sentido amplo como conjuntos discretos de signos regidos por leis discursivas, qualquer que seja a natureza do material significante) e os processos interpretativos aplicados, de seu lado, pelo públi- co. Combinando análise textual e pesquisa empírica, semiologia e sociologia do público, teoria literária e ciências sociais, a pesquisa sobre a recepção se dá um objeto que não é nem a psicologia do espectador individual nem a coe- rência estrutural do texto, mas a natureza da relação entre texto e leitor. Assim se constitui o que hoje se convencionou designar como “o modelo texto-leitor”. Este modelo pode ser resumido em algumas proposições: (LIVINGSTONE, 1989. WOLF, 1992)

1. O sentido de um texto não faz parte integrante do texto. A recepção não é a absorção passiva de significações pré-construídas, mas o lugar de uma produção de

sentidos. A ambição da análise textual – deduzir a leitura (e o leitor) do texto – está, portanto rejeitada.

2. Esta rejeição passa pelo abandono de todo modelo de interpretação que privilegie o saber do analista. Uma vez que a pesquisa a respeito da recepção se reivindica de uma abordagem empírica, é preciso reconhecer que as estruturas do texto não são senão virtuais tanto como leitores ou espectadores não venham ativá- las. O saber de um texto, por sofisticado que seja não permite predizer a interpreta- ção que ele receberá.

3. Em ruptura com uma concepção linear da comunicação, o princípio que quer que os códigos que presidem à produção das mensagens sejam necessariamente aqueles aplicados ao momento da recepção está igualmente rejeitado. Uma vez que reconheçamos a diversidade dos contextos onde a recepção se efetua e a pluralidade dos códigos em circulação no interior de um mesmo conjunto lingüístico e cultural, não há mais razão para que uma mensagem seja automaticamente decodificada como foi codificada. A coincidência da decodificação e da codificação pode ser sociologica- mente dominante, mas teoricamente não é mais do que um caso de figura possível. (HALL, 1980)

4. Os estudos de recepção remetem a uma imagem ativa do espectador. O espectador pode não somente retirar do texto satisfações incompreendidas pelo ana- lista, mas pode também resistir à pressão ideológica exercida pelo texto, rejeitar ou subverter as significações que o texto lhe propõe. A latitude interpretativa deixada para o espectador está ligada à relativa polissemia dos textos difundidos, polissemia que os torna dificilmente redutíveis à simples presença de uma mensagem.

5. Passamos assim de um receptor passivo e mudo a um receptor não somente ativo, mas fortemente socializado. (GHIGLIONE, 1992) A recepção se constrói num contexto caracterizado pela existência de comunidades de interpretação. Através do funcionamento destas comunidades, a inscrição social dos espectadores resulta determinante. Ela se traduz pela existência de recursos culturais partilhados cuja natureza determinará a da leitura.

6. A recepção é o momento onde as significações de um texto são constituídas pelos membros de um público. São estas significações, e não as do texto em si, e ainda menos as intenções dos autores, que servem de ponto de partida para as cadei- as causais conduzindo às diferentes espécies de efeitos atribuídos à televisão. O que pode ser dotado de efeitos, não é o texto concebido, ou o texto produzido, ou o texto difundido, mas o texto efetivamente recebido.

Vemos então que o modelo texto-leitor permite colocar de uma manei- ra nova o problema da influência exercida pelas mídias. Este poder parece escapar dos textos difundidos para se tornar o dos receptores, aparentemente emancipados de uma influência que eles podem filtrar pela sua capacidade de resistência, de interpretação e de reinterpretação.

Mas a questão da influência exercida pelas mídias não desaparece por causa disso. Qualquer que seja a importância da recepção, ela permanece tributária do leque limitado dos textos oferecidos à interpretação. A recepção não exerce efeito senão e unicamente sobre os textos difundidos. A atividade de recepção é assim determinada por uma agenda que remete à natureza da oferta em matéria de programação. Os melhores espectadores do mundo não podem interpretar senão os programas que podem ver. Sua capacidade interpretativa é, de outro lado, submissa a limites internos. Estes limites são os dos registros culturais disponíveis ou indisponíveis às diferentes comuni- dades interpretativas. A recepção depende de um leque de recursos culturais que o espectador pode dispor ou não dispor. O número destes discursos, sua disponibilidade varia segundo os grupos. Face ao poder dos textos, os recur- sos interpretativos são muito desigualmente distribuídos.

UM ECUMENISMO EM TROMPE L’OEIL2

O sucesso de uma formulação teórica não impede de se chocar com problemas e com um mal-entendido. Os problemas colocados pelo modelo texto-leitor são aqui de duas espécies: ambigüidades metodológicas que cons- tituem tanto bombas de efeito retardado; extrapolações precipitadas a partir de resultados parciais, desembocando em novas mitologias. Quanto ao mal- entendido, é o que se aplica sobre a maneira em que o próprio modelo foi recebido e mobilizado no quadro de diferentes debates onde se afrontam as diferentes correntes de pesquisa sobre a televisão.

A história do modelo “texto-leitor” é paradoxal. Este modelo apare- ce, com efeito, no quadro de pesquisas que anunciam o fim de um parênte- se de trinta anos marcado pelo eclipse da Escola de Frankfurt e dominado pela pesquisa empírica americana. É, entretanto, reivindicado pela sociolo- gia pós lazars-feldienna, cujas posições ele parece confortar. Ele representa então uma convergência entre as diferentes correntes? Seu “ecumenismo” aparente voa depressa demais em estilhaços, designando-o de fato como um campo de batalha, e colocando o problema da recepção dos estudos sobre a recepção.

2 Expressão francesa originalmente referente a um efeito pictórico que, através do emprego de recursos

de perspectiva dava tal impressão de tridimensionalidade a uma pintura plana, sugerindo que um espaço inexistente na verdade existia. Por extensão e alusão, ilusão de ótica. (N. do T.)

Formulado por Stuart Hall, e aplicado no seio da escola de Birmigham, o programa de uma exploração dos efeitos ideológicos das mídias – domínio “rechaçado” pelas pesquisas dominantes em comunicação – tornou-se possí- vel pelo que chamamos eixo Paris-Birmigham. A aparição de tal eixo se tra- duz pela “apropriação” de certos conceitos ligados ao desenvolvimento da semiologia francesa. Esta permite ver, na seqüência de Barthes, como uma ideologia dominante se traduz na estrutura das mensagens, e, na seqüência de Althusser, como os receptores de um texto são ideologicamente posicionados por uma “interpelação” que os constitui em sujeitos. (HALL, 1982) Este programa ambicioso foi colocado em aplicação notadamente por Charlotte Brundson e David Morley (1978).

A realização do programa se traduz, entretanto por uma série de ruptu- ras e de reorientações. O principio mesmo de um estudo empírico da recep- ção, a adoção de procedimentos visando estudar o público efetivo (entrevis- tas, etnografias, observações participantes) implicam uma ruptura com o modelo puramente textual dos estudos semiológicos sobre as mídias e, em particular, com as pesquisas formais conduzidas em volta dos Cahiers du cinema ou da revista inglesa Screen.

Quanto aos resultados destes estudos empíricos, eles levam de sua par- te, a um questionamento da tese althusseriana da “interpelação”. O especta- dor empírico se revela mais ativo do que o deixam supor as hipóteses de partida. Ele é capaz de identificar a posição onde ele é interpelado e de se dissociar desta posição, de negociar seu papel tão bem quanto o sentido dos programas que lhe são apresentados.

A rejeição das teses althusserianas não significa, entretanto pelo aban- dono de um estudo das dimensões ideológicas da atividade da recepção. Este programa é reformulado em termos gramiscianos. O discurso monolítico da ideologia dominante cede assim lugar aos jogos móveis de alianças que per- mitem a influência hegemônica de certos discursos, permitindo também que uma resistência se exerça ao encontro destes discursos.

Tal evolução é então reivindicada como uma vitória pelos representan- tes da pesquisa empírica. Para estes, o itinerário dos cultural studies é exem- plar. Os teóricos críticos aceitaram submeter suas hipóteses a uma verificação empírica e estas foram invalidadas. Donde a acolhida positiva reservada aos estudos que desenvolvem o modelo “texto-leitor” pelos defensores dos “usos e gratificações”. Donde também os ataques virulentos (revisionismo, traição) dos quais eles são objeto.

É preciso então ter em conta a consonância ou a dissonância entre os resultados obtidos e o conjunto de um paradigma. É assim que, nascida de um questionamento do tipo marxista, a noção de uma “leitura resistente ou oposicional”, capaz de identificar e de rejeitar a ideologia veiculada pelos textos, se encontra, de fato, em harmonia com as teses da sociologia empírica, que depois das “duas etapas do fluxo das comunicações”, não cessam de afir- mar a existência de uma filtragem da informação proposta pelas mídias e o papel primordial de um contexto de recepção fortemente socializado. A socio- logia pós lazars-feldienna não precisa fazer um grande esforço para adotar o modelo texto-leitor. Basta-lhe, para tanto, reencontrar os limites colocados pela organização dos textos aos “usos” que pode fazer o leitor e as “satisfa- ções” que ele pode retirar. O caminho é fácil, e o é com The Export of Meaning. (LIEBS, KATZ, 1990)

Os pesquisadores culturalistas são então confrontados com um dilema: serem absorvidos pela tradição rival ou manter sua escolha de se apresentar como teóricos “críticos”. É significativo que uma separação se produza entre eles segundo uma linha divisória ligada à natureza da grande narrativa sobre o público. Alguns, como Fiske (1987), se filiam à celebração de um público livre e ativo. Outros, como Morley (1992) ou Ang (1989), denunciam a aco- lhida reservada aos seus resultados – acolhida que, segundo eles, resulta de uma incompreensão ou de uma mistificação – e contestam a utilização que dela é feita.

No documento Cinematógrafo: um olhar sobre a história (páginas 66-71)