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1.3 O DNOCS E OS PRESSUPOSTOS DA INTERVENÇÃO ESTATAL

1.3.2 As barragens no processo de descoberta do Nordeste “seco”

É consenso entre os estudiosos da história da formação econômica e social do Nordeste considerar a atuação do poder público no estudo do seu meio físico como sendo uma das mais ricas (senão a mais rica) experiência já ocorrida em uma região Semi-Árida do mundo. De fato, entre as principais atribuições da IOCS nessa região estava a realização de estudos sistemáticos sobre suas características metereológicas, geológicas, pedológicas, topográficas e hidrológicas, além da fauna e da flora. Para tanto, foram utilizados vastos recursos humanos e financeiros para mobilizar equipes de técnicos e cientistas, nacionais e estrangeiros, com a finalidade de realizar tais estudos20. Coube a essas equipes, com a ajuda de milhares de trabalhadores a incumbência de fazer uma verdadeira varredura nos sertões do Nordeste para levantar as suas potencialidades os limites de seus recursos naturais, especialmente os de solo e água, para definir áreas propícias à construção de grandes obras de represamento de água (os chamados boqueirões e “gargantas de serra”, àquela época) dotando a região de grandes volumes de águas vindas com os seus invernos incertos.

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É preciso fazer distinção entre Polígono das secas e o Semiárido. O primeiro refere-se a uma divisão administrativa e foi criado por uma lei, de 7 de janeiro de 1936 e posteriormente teve complementado o seu traçado pelo Decreto-Lei nº 9.857, de 13 de setembro de 1946. Ele abrange oito Estados nordestinos - o Maranhão é a única exceção -além da área de atuação da Adene em Minas Gerais, com 121.490,9 km², e compreende as áreas sujeitas repetidamente aos efeitos das secas. Já o Semiárido ocupa 841.260,9 km² de área no Nordeste, nas regiões do Agreste e Sertão nordestinos e outros 54.670,4 km² em Minas Gerais e caracteriza-se por apresentar reservas insuficientes de água em seus mananciais, nas regiões do Agreste e Sertão Nordestinos. Atualmente, o Polígono das Secas, segundo a Resolução nº 11.135 do Conselho Deliberativo da SUDENE, abriga 1.133 municípios.

20 Foi assim que o engenheiro Arrojado Lisboa, diretor do IOCS até 1912, coordenou uma equipe de técnicos e cientistas contratados da Leland Stanford Junior University – Califórnia, entre os mais capacitados na área de estudos físico-ambientais dos Estados Unidos, além de profissionais brasileiros, todos formados no exterior. Ver a esse respeito: FILHO, João Medeiros e SOUZA, Itamar de – op. Cit. Na nota nº 4, pp. 42-27.

No final dos anos trinta do século passado, já existia um acervo bastante considerável de estudos físico-ambientais das quatro principais bacias hidrográficas do Semi-árido: Acaraú e Jaguaribe, no Ceará; Sistema do Alto Piranhas, na Paraíba e o Sistema Baixo Açu ou Baixo Piranhas, no Rio Grande do Norte. Posteriormente, no final da década de 1940, foram iniciados os estudos do Sistema do Apodi, no Rio Grande do Norte. Ao final da década de 1950 já estava praticamente consolidado um vasto conhecimento agroecológico dos sertões nordestinos, fundamentado em pesquisas sobre os recursos ambientais do semi-árido, apontando para as suas potencialidades e limitações para a acumulação de água em grandes reservatórios voltados para a perenização de rios e para a irrigação.

Esses estudos foram detalhados posteriormente para as faixas úmidas da referida zona, que foram chamadas de vales úmidos. Trata-se de estreitas faixas de terras servidas por rios (na sua grande maioria de regime hidrológico temporário) com vastas formações hidrológicas subterrâneas e solos com boa aptidão agrícola. O objetivo de tais estudos era orientar as futuras ações governamentais no uso desses recursos naturais, seja no abastecimento humano e animal, seja no desenvolvimento da agricultura irrigada, através da perenização de rios.

Podemos considerar que já havia se acumulado um conhecimento significativo durante a primeira metade do século XX sobre o ecossistema do Nordeste semi-árido, o qual foi decisivo para o desencadeamento de ações governamentais em sua economia, especialmente sobre suas atividades agropecuárias, em que pese o GTDN ter diagnosticado o reduzido grau de conhecimento não só dos recursos naturais como a organização econômica como uma limitação para o desenvolvimento da Região. A segunda fase refere-se aos estudos de aproveitamento desses recursos, propriamente dito. Tratava-se nesse caso de definir as estratégias que possibilitassem, dentro das limitações de solo e água, a modernização das atividades agropecuárias com vistas à “retenção” dos fluxos migratórios no campo. Tais objetivos, entretanto, não foram alcançados, não só no que diz respeito à construção de barragens, como também na difusão da agricultura irrigada, revelando, pois, um insuficiente desenvolvimento das forças produtivas de até então. Mas isso não tirou os méritos do IFOCS quanto ao grande avanço verificado no conhecimento técnico e científico produzido sobre o ecossistema regional, que só passaria a ser largamente utilizado a partir do final dos anos de 1950, o que coincide com a integração da economia nordestina ao mercado nacional e uma maior inserção da mesma na divisão internacional do trabalho.

Por outro lado, a realidade econômica e social do Nordeste “seco” não se tornou objeto de estudos e pesquisas por parte do poder público, tal como ocorreu com seus aspectos físicos. Isso porque o afloramento dos conflitos sociais pareciam, mesmo aos olhos dos estudiosos, uma conseqüência natural do “espírito violento” do homem nordestino, e não necessariamente algo vinculado com as condições materiais e objetivas de vida de sua população21. Tudo era reduzido à secular questão da cultura da brutalidade do homem do campo (leia-se: camponês) como fonte dos problemas de insubordinação. O próprio fato de o DNOCS ter sido capturado pelas oligarquias rurais, diante da atuação das classes políticas e intelectuais dominantes àquela época justifica essa negligência com relação aos desdobramento das causas da pobreza e do atraso do Nordeste por parte do poder público. Até porque à época ainda não tinham sido difundidos entre nós estudos que servissem de referencial a uma reflexão sobre as causas do reduzido grau de desenvolvimento econômico regional. Mesmo a teoria marxista não era conhecida dos que se ocupavam desse problema.

Foi assim que o pensamento de homens públicos como Rodolfo Teophilo, Liberato de Castro e Thomás Pompeu de Sousa Brasil22, cujo conservadorismo de suas obras saltava aos olhos, acabou reforçando a dominação das oligarquias rurais e a ação conservadora do Estado. Outros estudiosos lograram dar um certo aprofundamento à questão das secas e suas trágicas consequências sobre a sociedade nordestina, a exemplo de José Américo de Almeida e José Guimarães Duque23. O que se pode destacar na obra desses pioneiros no estudo dos problemas do Nordeste – o que foi, de fato um grande avanço para a época - é a preocupação não exatamente com a acumulação de água, mas o seu aproveitamento de forma racional e em proveito da grande massa da população nordestina, o que abriu caminho para o tratamento da questão agrária regional. Entretanto, muitos desses autores cometeram sérios equívocos na

21 A esse respeito, consultar o excelente trabalho de Alberto Passos Guimarães sobre as raízes da violência e do banditismo: As classes perigosas – banditismo urbano e rural, especialmente a terceira parte. Rio de Janeiro: Graal, 1982.

22 Ver, a esse respeito: i) RODOLFO, Theófilo – A Fome. Rio de janeiro, José Olympio, 3ª Ed., 1979; SOUZA BRASIL, Thomás Pompeu de. Memórias sobre o Clima e a Seca do Ceará. Fortaleza, A. Batista Fontenele, 1958 (Coleção Instituto do Ceará, Monografia, nº 23); iii) CARREIRA, Liberato de Castro. A Seca do Ceará. Rio de Janeiro, Jornal do Commercio (Artigos publicados entre 1877 e 1879). Apud: ALVES, Joaquim. História das Secas. Fortaleza, A. Batista Fontenele, 1958 (Coleção Instituto do Ceará, Monografia, nº 23).

23 Sobre esses autores, consulte-se: i) GUERRA, Felipe e GUERRA, Teófilo – Secas Contra Seca no Rio Grande do Norte; Secas e Invernos, Açudagem, Irrigação e Costumes Sertanejos. Mossoró, Escola Superior de Agricultura e Fundação Guimarães Duque/CNPq, 1980, 3ª Ed. (Coleção Mossoroense, 29); ALMEIDA, José Américo de. A Paraíba e Seus Problemas. João Pessoa, A União, Secretaria da Educação e Cultura, 1980, 3ª edição revisada; DUQUE, José Guimarães – Solo e Água no Polígono das Secas. Fortaleza, DNOCS, 1953, 3ª edição.

análise dessa questão, decorrentes do desconhecimento da natureza da agricultura irrigada e da sua organização social.

Entre os autores acima citados, José Guimarães Duque foi o que, de fato, logrou aprofundar o debate sobre os problemas do Nordeste semi-árido. O que há de mais original na sua obra é sem dúvida a denúncia das condições econômicas e sociais em que vivia a maioria dos sertanejos. Mesmo com pouco rigor técnico e científico, Duque alertou para os perigos da prioridade dada pelo poder público aos estudos técnicos e físico-ambientais e da construção de grandes barragens, obscurecendo a análise de fatores outros determinantes das condições de exploração e miséria que se abatiam sobre os cassacos24. Não tardaram as reações de indignação dos latifundiários a esta denúncia feita pelo citado autor que, entre outros, podemos encontrar nos pronunciamentos do senador paraibano Argemiro Figueiredo25.

A ação do DNOCS continuou priorizando a construção de barragens de pequeno e médio porte e outras obras de infra-estrutura, como estradas de ferro e de rodagem. Essa estratégia só começou a sofrer mudanças significativas a partir da década de 1950, quando a intervenção governamental passa a ser redirecionada pelo processo de integração da economia nordestina ao mercado nacional até então em curso, bem como pelo surgimento de estudos (na sua maioria de caráter acadêmico) que passaram a denunciar os equívocos dessa forma de atuação do poder público na região. Aí a agricultura irrigada passa a ter um novo status no processo de legitimação da presença do Estado, dessa vez revestido de um discurso modernizador. Até então, a ação estatal priorizava os programas de açudagem, coluna mestra do fortalecimento do poder das oligarquias agrárias.