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As Bases da Teoria dos Construtos Pessoais

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3. A TEORIA DOS CONSTRUTOS PESSOAIS

3.4 As Bases da Teoria dos Construtos Pessoais

A formação heterogênea de Kelly, ciências exatas e ciências humanas, e o pouco contato com outras teorias o conduziu para um caminho um pouco diferente dos outros psicólogos. As bases teóricas de sua teoria surgem no período em que orienta alguns alunos nos estudos de psicologia e atende clinicamente outros estudantes capazes de discutir racionalmente seus problemas. Não cuidou de neuróticos, psicóticos ou pessoas com outros distúrbios psiquiátricos. Certamente, se tivesse que lidar com esquizofrênicos ou algo parecido sua teoria teria sido conduzida em outro sentido (SCHULTZ e SCHULTZ, 2004). Em sua obra The Psychology of Personal Constructs (1963) estabeleceu as bases de sua teoria. Essa obra é uma síntese da obra de mesmo nome publicada no ano de 1955, em dois volumes.

 Construto. É uma hipótese que o indivíduo elabora e utiliza para descrever pessoas, conceituar coisas ou, de uma forma mais geral, para antecipar eventos. Entenda-se por eventos, a partir de agora, situações sociais, pessoas, coisas etc. Os construtos possuem natureza dual como, por exemplo, bom-ruim, amor-desamor, gordo-magro etc. Schultz e Schultz (2004, p. 341) entendem construto como “hipótese intelectual que elaboramos para explicar os eventos da vida. Os construtos são bipolares ou dicotômicos, tais como alto versus baixo, honesto versus desonesto”. Para Peck e Whitlow (1976, p. 49), “um construto é mais que um mero rótulo; é um modo de predizer eventos futuros” e mais ainda “a utilidade de um construto é determinada pela exatidão das predições que formulamos a partir dele”. De acordo com o próprio Kelly (1963, p. 105 – tradução livre), “um construto é a forma pela qual algumas coisas são interpretadas como sendo parecidas e, no entanto, diferentes de outras”.

 Alternativismo construtivo. É a base filosófica de toda a sua teoria. Refere-se ao fato de que as pessoas são livres para escolher a forma como vêem o mundo e seus comportamentos decorrem dessas escolhas. Há sempre caminhos alternativos a serem seguidos. “Nós assumimos que todas as nossas interpretações atuais do universo estão submetidas a revisões e reconstruções” (KELLY, 1963, p. 15 – tradução livre). A todo o momento as pessoas tomam decisões escolhendo o melhor caminho a ser seguido baseado em sua experiência de vida. Esse posicionamento é uma mistura de livre arbítrio com determinismo como assinala Hall et al (2000). Segundo Gargallo e Cánovas:

A postura filosófica de Kelly se insere em uma tentativa de equilíbrio entre o empirismo e a lógica pragmática, sempre vigente na mais pura tradição americana, e o racionalismo/idealismo, procedente de uma tradição mais européia. O homem se aproxima do mundo a partir de suas construções (racionalismo), porém tais construções se confrontam experimentalmente com a realidade. Isto provoca uma separação do realismo tradicional (MINGUET, 1998, p. 151).

A posição descrita acima parece resultar em uma busca pelo construtivismo. Um rompimento com o empirismo fundamental e com racionalismo (inatismo) tradicional, em uma tentativa de junção dessas duas correntes tão antagônicas.

 A metáfora do homem-cientista. O homem, quando colocado diante de qualquer pessoa ou de qualquer objeto ou ainda de qualquer situação, elabora uma série de hipóteses que servem para descrever uma pessoa ou coisa ou prever determinadas situações sociais, caso suas hipóteses não sejam comprovadas são rejeitadas e elaboradas novas hipóteses assim como faz um cientista. Como relata Hall et al (2000), a idéia dessa metáfora surgiu quando Kelly alternava seu atendimento entre orientação a estudantes de mestrado e atendimento clínico de seus pacientes. Percebeu que durante toda a tarde, ao atender seus estudantes ou seus pacientes, fazia a mesma coisa, ou seja, atuava como um cientista. Contudo, é notadamente evidente que o homem se distância do cientista no que diz respeito à precisão de suas previsões. O cientista controla tudo com o embasamento científico que já conhece e é reconhecido pela comunidade científica, enquanto que o indivíduo tem como alicerce apenas suas experiências anteriores que pode ser vasta, mas também pode ser mínima. Assim, Gargallo e Cánovas explicam:

Em resumo, o homem, ao longo de sua perspectiva histórica, pode ser considerado como um cientista recém-iniciado. Todos os seres humanos formulam predições a respeito dos fenômenos a acontecimentos que procuram explicar, predizer e controlar seu curso. As construções que realizamos nos ajudam nesse esforço preditivo. Posteriormente, as construções se confrontam com os acontecimentos aos quais se referem para validar sua eficácia, e, se são inadequadas, se modificam. É o mesmo procedimento do cientista profissional, que confronta suas hipóteses e teorias com dados experimentais ainda que as ferramentas de contraste não sejam tão precisas (MINGUET, 1998, p. 151).

 Motivação. Nas teorias da personalidade de uma forma geral há uma busca incessante dos fatores motivacionais. Nesse ponto, Kelly diverge completamente da maioria estudiosos da personalidade e é bastante criticado por isso. Para Kelly, a motivação é algo intrínseco ao ser humano. O simples fato de estar vivo motiva-o a fazer previsões de eventos. Observe o que escreve Hall et al (2000, p.333 e 334) a respeito da motivação para Kelly:

(...) Kelly propôs que “motivação” é um construto desnecessário e redundante. Ele tinha duas objeções fundamentais. Primeiro, os modelos motivacionais são usados para explicar por que uma pessoa é ativa ao invés de inerte. Mas, segundo Kelly, as pessoas são ativas por definição, de modo que não precisamos explicar o “porquê” delas serem ativas: elas são ativas porque estão vivas! (...) Segundo, coerente com a ênfase no construtor, Kelly rejeitava os motivos como rótulos que impomos aos outros. Esses rótulos têm mais utilidade para compreendermos a visão de mundo da pessoa que os oferece do que o comportamento da pessoa que está sendo rotulada.

Assim, a Teoria da Personalidade dos Construtos Pessoais de George Kelly baseia-se na idéia de construto que são representações intelectuais a respeito de pessoas, coisas ou situações sociais e é utilizado para antecipá-los (no caso de pessoas e coisas, descrevê-los). A base filosófica de sua teoria chama-se alternativismo construtivo que assume todas as interpretações atuais do universo como sujeitas a revisões e construções. Utiliza a metáfora

homem-cientista para descrever como o indivíduo se desenvolve cognitivamente. O homem,

assim como o cientista, está, a todo o momento, elaborando e testando hipóteses para aceitá- las ou refutá-las e elaborar novas hipóteses. A motivação é algo intrínseco ao ser humano não cabendo justificá-la. Esses quatro conceitos iniciais servirão como norteadores nos estudos do postulado fundamental, do ciclo da experiência e dos corolários dessa teoria mais relevantes para esta pesquisa.

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