CAPÍTULO 2 – A RELIGIÃO INDÍGENA XUKURU DO ORORUBÁ
2.7 A importância dos contatos interétnicos na formatação do Ritual Sagrado
2.7.3 As caminhadas religiosas e a Laje do Krajéu
Na Laje do Krajéu
65, durante o circuito religioso das caminhadas das Festas de São
João e de Mãe Tamaim, é celebrado o Ritual Sagrado em memória dos antepassados e aos
“Encantados” Xukuru que tombaram nas mobilizações pelas terras. Segundo “Seu Cecílio”,
liderança da Aldeia Cana Brava, este ritual de caminhada faz parte de uma ação de
reintrodução pelo Cacique “Xikão” das práticas religiosas perdidas na memória coletiva
Xukuru. Elas foram retomadas para o fortalecimento da identidade étnica e religiosa nas
caminhadas realizadas na Festa de São João e de Nossa Senhora das Montanhas - Mãe
Tamaim (Conversa informal durante a caminhada da Festa de São João, em 2017).
Abaixo apresentamos a fotografia da Laje do Krajéu, onde é realizado o Ritual
Sagrado, no qual os índios pedem proteção e bênçãos para o povo Xukuru do Ororubá.
Fotografia 10 – Laje do Krajéu, caminhada de São João, Aldeia Vila de Cimbres.
Fonte: Arquivo pessoal do autor, 2017.
Em 23 de junho de 2017, acompanhamos os índios Xukuru do Ororubá em todas as
“obrigações Rituais”, fazendo parte da Festa de São João. O dia começou com a caminhada à
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Lajé do Krajéu, depois o Toré na Igreja de Nossa Senhora das Montanhas e seguindo com o
Toré no Salão São Miguel. Na tarde, seguimos para a Busca da Lenha, depois da chegada,
observamos a construção da fogueira. À noite, registramos o acender da fogueira, o início da
Missa de São João, e após o final, o Toré público dançado de forma serpenteada na porta da
Igreja.
Na continuação da jornada ritual, observamos o Toré no Salão São Miguel e, à 0:00
hora, partimos para acompanhar o Ritual na Laje do Conselho. Na sequência, seguimos para
assistir o Toré na porta da casa de Biruna (índia que estava convalescente). Voltamos para o
Salão de São Miguel e esperamos para o Ritual final realizado na porta da Igreja às 04:00
horas no dia 24 de junho de 2017.
Todos os anos, o Cacique “Xikão” partia da Aldeia Cana Brava para a Festa de São
João e de Mãe Tamaim e parava na Lajé do Krajéu. Os índios mais velhos como o pai de “Seu
Cecílio” contava que, quando os índios morriam, eram trazidos em redes de Cana Brava para
serem sepultados no cemitério da Vila de Cimbres. Os homens do cortejo retiravam o morto
da rede, deitavam na Pedra do Krajéu e davam pinga. Depois, com o passar dos anos,
trocaram a rede pelos caixões. Para “Seu Cecílio” o memby chama os Encantados, “todos os
Encantados estão aqui. Aqui é um ponto de força da nossa religião. Essa é a tradição e deve
continuar” (Fala pública de “Seu Cecílio” na Laje do Krajéu, 23/07/2017).
Na caminhada de São João, os índios partem das aldeias em direção à Igreja de Nossa
Senhora das Montanhas na Aldeia Vila de Cimbres. Vão se encontrando no caminho e o
ponto de parada é na Aldeia Couro Dantas na “barraca do Bem Viver”, feita de madeira e
coberta com palha, localizada à beira da estrada. Todos que fazem esse roteiro passam no
local onde tomam um café, um chá, comem um pedaço de bolo, uma tapioca, dão um abraço,
sorriem e partem com destino à Pedra do Krajéu. Acompanhamos em 23 de junho de 2017 o
grupo.
Chegamos em carro alugado às 04:30 da madrugada na barraca, onde estavam a índia
“Bela”, sua prima e a índia Francisca na organização do lanche. Os índios partiram de outras
aldeias e se encontravam com o Cacique Marcos na Aldeia Santana. Vinham caminhando até
a Aldeia Couro Dantas e chegaram às 05:00 hs. Chovia, ventava e fazia muito frio. A todo
momento chegavam mais índios e também pesquisadores e aliados do povo Xukuru do
Ororubá.
Após 20 minutos, o grupo com mais de cem pessoas partiu em direção à Lajé do
Krajéu. Foi uma caminhada de 01:40 minutos. Na chegada à Laje, uns 50 índios e aliados do
povo esperavam, tinham vindo de outras aldeias. O Cacique Marcos, o gaiteiro “Seu
Medalha”, a liderança Chico Jorge, a liderança “Seu Cecílio” e o Bacurau “Seu Adjá”, de
joelhos, tocaram a Pedra Sagrada e todos oraram em silêncio agradecendo pela vida e pedindo
proteção a todos os seus antepassados.
Na sequência, o gaiteiro executou três músicas no memby e, por fim, o Cacique
Marcos falou da necessidade de manter a tradição da Religião Indígena Xukuru, da
importância de realizar as obrigações para os “Encantados”, pois sem eles o povo Xukuru não
seria nada. Na sequência, partimos para a Igreja de Nossa Senhora das Montanhas, distante 15
minutos de caminhada.
Durante as caminhadas e as festas de São João e Mãe Tamaim, foi comum
observarmos os índios “trajando” o tacó, a vestimenta ritual. Porém, com o passar dos anos,
também mudou, ganhou novo aspecto e material para sua confecção.
Fotografia 11 – No centro, o ex-Cacique Zé Pereira, vestido para festa religiosa, [1970?].
Fonte: ORORUBA Filmes (2017).
Provavelmente, na década de 1970, conforme fotografia acima, durante o cacicado de
Zé Pereira, a vestimenta utilizada pelos indíos Xukuru nas festividades e celebrações
religiosas era o tacó, feito da palha do milho e utilizado para dançar o Toré. Possivelmente, os
índios na fotografia estavam vestidos para celebrar a Festa de São João ou a Festa de Nossa
Senhora das Montanhas - Mãe Tamaim. Analisando a imagem, observamos que os índios
vestiam um conjunto de artefato ritual: goleiras, saiotes e a barretina, chapéu atualmente
usado em quase todas as manifestações públicas. É importante destacar o uso do jupago
(cacete), feito da madeira do candeeiro e que tem o objetivo de marcar com a batida na terra
os passos do Toré.
Durante os anos de 2014, 2015, 2016 e 2017, observamos as Festas de São João e de
Nossa Senhora das Montanhas – Mãe Tamaim. Raras vezes encontramos um tacó
confeccionado com a palha do milho. Atualmente, a maioria é confeccionada de palha de
caroá ou folha do coqueiro, como também fazem os outros povos indígenas em Pernambuco
com seus artefatos. Na fotografia abaixo, registramos um dos índios a manterem a tradição.
“Seu Medalha” vestido com o tacó feito de palha de milho, durante a Busca da Lenha na Festa
de São João em 2017.
Fotografia 12 – “Seu Medalha” com o tacó na Busca da Lenha de São João.
Fonte: Arquivo pessoal do autor, 2017 .
No documento
O RITUAL SAGRADO: A RELIGIÃO INDÍGENA DO POVO XUKURU DO ORORUBÁ (PESQUEIRA E POÇÃO/PE)
(páginas 111-114)