II. ORÇAMENTO PARTICIPATIVO E EMPODERAMENTO: UMA DISCUSSÃO
1. Variáveis intervenientes nos resultados da participação 4Erro! Indicador não
2.1 As categorizações do conceito de empoderamento Erro! Indicador não
Diversos autores trabalham com o conceito de empoderamento a partir de diferentes perspectivas analíticas. Baquero e Baquero (2007), Meirelles e Ingrassia (2006) chamam a atenção para sua utilização na literatura a partir de três diferentes dimensões: a individual, a organizacional e a comunitária:
[...] em nível individual, quando se refere às variáveis intrafísicas e comportamentais; em nível organizacional, quando se refere à mobilização participativa de recursos e oportunidades em determinada organização; e em nível comunitário, quando a estrutura das mudanças sociais e a estrutura sociopolítica estão em foco (BAQUERO; BAQUERO, 2007, p.140).
O empoderamento individual “diz respeito ao aumento da capacidade dos indivíduos influírem na sua vida”. O empoderamento organizacional “significa contribuir com as decisões da organização (empresarial) para melhorar seu desempenho”. O empoderamento comunitário busca capacitar “os grupos sociais desfavorecidos para a articulação de seus interesses e participação comunitária”, tendo como objetivo a conquista plena dos direitos de cidadania a defesa de direitos, bem como a influência sobre as ações do Estado. Pase (2007) acrescenta que há, ainda, a abordagem de Paulo Freire na dimensão de empoderamento de classe social, que agrega a noção de conscientização enquanto um processo de conhecimento, que se efetiva numa relação dialética homem-natureza, a partir de um ato de ação-reflexão.
As diferentes dimensões que são acionadas para o tratamento do conceito de empoderamento guardam relação com a matriz de pensamento à qual as diferentes pesquisas estão relacionadas. Neste sentido, as correntes filosóficas individualistas priorizam em suas abordagens o empoderamento psicológico; as correntes filosóficas comunitaristas priorizam o empoderamento de caráter comunitário, as correntes ligadas à sociologia das organizações
62 buscam entender o empoderamento a partir das organizações, enquanto as correntes marxistas relacionam o empoderamento a uma abordagem das classes sociais. Cada uma destas dimensões será sumariamente detalhada abaixo.
2.1.1 A dimensão psicológica do empoderamento
Os autores que trabalham com a perspectiva de empoderamento psicológico são influenciados por uma perspectiva filosófica individualista, que geralmente ignora a influência de fatores sociais e estruturais. Trata-se, portanto, de uma perspectiva que acarreta a fragmentação da condição humana, na medida em que desconecta, de forma artificial, o comportamento dos homens do contexto sociopolítico em que estes se encontram inseridos. Nesta perspectiva, o empoderamento é visto como
um sentimento de maior controle sobre a própria vida que os indivíduos experimentam através do pertencimento a distintos grupos, e que pode ocorrer sem que haja necessidade de que as pessoas participem de ações políticas coletivas (CARVALHO, 2004, p. 1091).
Aponta-se, assim, que o empoderamento psicológico tem como base o nível individual de análise, na medida em que o mesmo está relacionado ao aumento da capacidade dos indivíduos de se posicionarem de forma a influenciar os processos que determinam suas vidas. Esta abordagem sobre o conceito o relaciona a uma auto-emancipação fundada numa compreensão individualista, que enfatiza a dimensão psicossocial. Essa compreensão sobre o empoderamento
está presente na sociedade norte-americana, cuja cultura tem sido cooptada pelo individualismo e pelas noções individuais de progresso, orientada para o ‘self made man’ (o homem que se faz por seu próprio esforço pessoal). A ênfase é no aumento do poder individual, medido em termos do aumento no nível de auto-estima, de auto-afirmação e de autoconfiança das pessoas. Estratégias voltadas à auto-ajuda e ao auto-aperfeiçoamento estão presentes nesse tipo de empoderamento (BAQUERO; BAQUERO, 2007, p. 140-41).
63 Esta perspectiva de análise destaca que há empoderamento individual ou interpessoal quando indivíduos singulares são ou se apercebem como portadores de recursos que lhes possibilitam influenciar ou controlar os rumos de ações que lhes afetam. Cabe destacar, portanto, que mesmo sendo influenciada por fatores psicológicos como auto-estima, temperamento, traumas e experiências, esta forma de empoderamento é relacional, na medida em que esta resulta da percepção que os indivíduos têm de suas interações com os ambientes e demais pessoas. Neste sentido, pode-se afirmar que há empoderamento individual quando
[...] as pessoas sentirem que são competentes em uma determinada situação, que sua presença é relevante, têm mais oportunidades e recursos para agir que constrangimentos e limitações. A própria participação e o exemplo de lideranças locais que se saem bem em fóruns participativos podem constituir fontes importantes de empoderamento intrapessoal, não sendo raro encontrar, em pesquisas, pessoas que relatam ter aprendido a participar participando, sendo impelidas, enfim, a posicionar-se em instâncias públicas e coletivas (ZIMMERMAN, 1990 apud HOROCHOVSKI e MEIRELLES, 2007, p. 495).
Contrapondo-se criticamente a esta corrente, ressalta-se que o empoderamento deve ser identificado no ambiente sociopolítico, não se tratando de um traço de personalidade estático, mas sim de um construto dinâmico orientado contextualmente.
2.1.2 A dimensão organizacional do empoderamento
O empoderamento organizacional remete à ideia de organização, independentemente desta ser pública ou privada, e está relacionado aos mecanismos de compartilhamento do poder decisório e da liderança, buscando tornar as decisões mais coletivas e horizontais. Este mecanismo de “democracia interna” configura-se em uma tendência atual bastante comum em algumas organizações, que adotam esse procedimento com o objetivo de atenuar as hierarquias e a divisão entre o pensamento e a execução. No caso específico da sociedade civil o empoderamento organizacional “possibilita que
64 seus membros ou público alvo participem, de forma mais ou menos direta, das decisões estratégicas e operacionais” (PERKINS; ZIMMERMAN, 1995 apud HOROCHOVSKI; MEIRELLES, 2007, p. 495-496).
O empoderamento organizacional está relacionado à abordagem que se faz do processo de trabalho que se pauta pela delegação do poder de decisão, pela autonomia e pela participação dos funcionários na administração das empresas. Colocado nessa perspectiva, o empoderamento organizacional significa “dar ao pessoal autoridade para fazer mudanças no trabalho em si, assim como na forma em que ele é desempenhado” (SLACK et al., 1997, p. 311 apud BAQUERO; BAQUERO, 2007, p. 141).
Esta modalidade de empoderamento envolve uma série de procedimentos que tem como objetivo um maior envolvimento das pessoas no processo de tomada de decisões que incidem no contexto e no conteúdo do trabalho. Empoderar, nesse caso, “significa obter o comprometimento dos empregados em contribuir para as decisões estratégicas, com o objetivo de aumentar o nível de produtividade da empresa” (CUNNIGHAM; HYMAN, 1999 apud BAQUERO; BAQUERO, 2007, p. 141).
Ressalta-se, neste sentido, que a dimensão organizacional do empoderamento tem como foco principal a atividade empresarial, que adota esse conceito para convencer os trabalhadores a melhorarem o desempenho das atividades, o que acaba legitimando o processo de reestruturação produtiva e fortalecendo a estratégia do aumento da lucratividade das empresas. Destaca-se, assim, que tal dimensão do empoderamento ganha evidência
na literatura gerencial com o surgimento de termos como ‘colaborador’ ao invés de empregado/funcionário, que encobrem um aumento da precarização/exploração e dão a falsa ilusão de uma maior ingerência do trabalhador sobre a produção – o que de fato não ocorre, visto a manutenção das assimetrias características do capitalismo (MEIRELLES; INGRASSIA, 2006, p. 5).
65 2.1.3 A dimensão de classe social do empoderamento
Há ainda outra dimensão do empoderamento, conhecida na literatura como empoderamento de classe social, dimensão que tem no educador brasileiro Paulo Freire o seu maior expoente, cuja força das idéias influenciou não apenas os pensadores ligados ao debate educacional, mas atingiu também um grande número de cientistas políticos, sociólogos e outros pesquisadores de diversos campos sociais.
Baquero et. al. (2002), ao analisarem esta noção de empoderamento oriunda do pensamento de Paulo Freire, destacam que o referido autor contrapõe o seu conceito de empoderamento de classe à noção de empoderamento psicológico, concepção que acredita na auto-libertação do indivíduo, da qual aquele autor discorda, visto que, para ele, a libertação tem que ser concebida como um ato social. Por isso é que em seu diálogo com Iara Shor, Freire deixa claro a sua descrença em relação à auto-emancipação pessoal, pois no seu entender a liberdade deve ser usada para ajudar aos outros a procederem a sua libertação, por meio da transformação da sociedade.
Neste sentido é que o empoderamento proposto por Paulo Freire configura-se em um processo de ação coletiva que se manifesta na interação entre indivíduos envolvendo, necessariamente, um desequilíbrio nas relações de poder na sociedade. Deste modo, o empoderamento pode ser concebido como algo que emerge de um
processo de ação social, no qual os indivíduos tomam posse de suas próprias vidas pela interação com outros indivíduos, gerando pensamento crítico em relação à realidade, favorecendo a construção da capacidade pessoal e social e possibilitando a transformação de relações sociais de poder (FREIRE, 1986 apud BAQUERO; BAQUERO, 2007, p. 11).
A discussão sobre o empoderamento de classe social elaborada por Paulo Freire traz no seu bojo a reflexão sobre como a classe trabalhadora, por meio de suas próprias experiências, sua própria elaboração de cultura, se posiciona na busca do poder político. Por conta disto é que o referido educador
66 atribui ao empoderamento uma característica que vai além de um invento individual ou psicológico, na medida em que este “indica um processo político das classes dominadas, que buscam a própria liberdade da dominação. Um longo processo histórico de que a educação é uma frente de luta” (BAQUERO, 2005 apud MEIRELLES; INGRASSIA, 2006, p. 6).
Esta modalidade de abordagem sobre o conceito de empoderamento provoca um rompimento com as noções de ordem individual e psicológica. Paulo Freire coloca o conceito de empoderamento como um contraponto à concepção liberal estadunidense, que associa esta concepção ao princípio da individualidade e não a uma transformação mais ampla da realidade – não tendo, portanto, o objetivo de obtenção do poder político.
Há um reconhecimento de grande parte da literatura temática sobre a importância de Paulo Freire em relação à discussão sobre o empoderamento. Ao buscar avançar qualitativamente nesta discussão, Paulo Freire acabou por agregar à sua reflexão a noção de conscientização enquanto um processo de conhecimento que incorpora a relação dialética homem-mundo, por meio de uma interação que envolve ação e reflexão. Destaca, assim, que
[...] a inter-relação entre capital social e empoderamento pode contribuir para superar problemas como a situação de pobreza de pessoas e comunidades, transformando as relações de poder em favor daqueles que tinham pouca autoridade para que tenham controle sobre os recursos – físicos, humanos, intelectuais, financeiros e de seu próprio ser – e sobre a ideologia – crenças, valores e atitudes (FREIRE, 1979; BAQUERO, 2005 apud PASE, 2007, p. 257).
O processo de empoderamento de classe social pressupõe o entendimento sobre a dimensão social nas quais as ações dos sujeitos se inserem, bem como as consequencias que essas ações provocam. Freire atribui a este termo o significado de um processo no qual o cidadão conquista as condições para tornar-se autônomo no tocante às suas decisões e para interpretar o meio social que lhe envolve. Este significado que o conceito assume a partir da matriz que traz o enfoque de classe social incorpora a ideia
67 de que empoderar “significa entender a dimensão social na qual suas ações se inserem, o que provocam e porquê” (FREIRE, 1986 apud LORD, 2006, p. 11).
Assim, o empoderamento se ocupa da comunidade coletiva, bem como da consciência de classe, buscando compreender de forma crítica a realidade, “com o propósito de usar o poder que ainda resta aos despossuídos, como uma ferramenta de desafio aos poderosos, e, em última análise, para transformar a realidade através de batalhas políticas conscientes” (CRAIG; MAYO 1995 apud OAKLEY; KLAITON, 2003, p. 11).
2.1.4 A dimensão comunitária do empoderamento
O empoderamento comunitário pode ser definido como um processo no qual os sujeitos individuais e coletivos de uma referida comunidade, em espaços participativos, organizam as ações com o intuito de atingir objetivos traçados de forma coletiva e consensual. Porém, alerta-se para o fato de que
[...] o consenso não é produto de uma comunidade monolítica, cujos membros têm os mesmos e harmoniosos interesses, e sim de processos às vezes exaustivos de discussão e convencimento, sendo uma resultante de tensões e conflitos por recursos (PERKINS; ZIMMERMAN, 1995 apud HOROCHOVSKI; MEIRELLES, 2007, p. 496).
No que se refere à abordagem que tem como referência o empoderamento comunitário, há um reconhecimento por parte dos autores de que a sociedade é constituída por diferentes grupos de interesses, com níveis diferenciados de poder e de controle sobre os recursos, o que muitas vezes faz com que o processo de empoderamento implique em redistribuição de poder, gerando resistência por parte daqueles que o perdem.
Desta forma, autores como Baquero e Baquero (2007) ressaltam que o empoderamento comunitário influencia o desenvolvimento da capacitação de grupos desfavorecidos e fomenta a articulação de interesses e a participação comunitária com o objetivo de preparar esses grupos para a ampliação da compreensão política.
68 Neste sentido, em um contexto de empoderamento comunitário, há o engajamento da população na compreensão da problemática que afeta as suas condições de vida, na discussão de soluções alternativas, na definição de prioridades e na decisão a respeito de estratégias de implementação de programas, acompanhamento e avaliação dos mesmos. Trata-se, neste sentido, de desenvolver competências para um agir político e para atuar sobre os fatores que incidem na qualidade de sua vida. Para isso, é fundamental que a comunidade participe como sujeito e não como objeto desse processo, não se tratando de uma mera participação reduzida a uma presença física em assembleias para atingir metas previamente estabelecidas (BAQUERO; BAQUERO, 2007).
Em processos marcados pelo empoderamento comunitário, verifica-se a experiência subjetiva do empowerment psicológico e a realidade objetiva das condições estruturais. Isto é modificado sempre que ocorre a redistribuição de recursos. Destaca-se que o empoderamento comunitário demanda
a convivência da noção de determinismo social com a de agenciamento humano e o reconhecimento da mútua relação de condicionamento e determinação entre as macroestruturas e a ação de sujeitos individuais e coletivos (CARVALHO, 2004, p. 1092).
Um aspecto central do empoderamento comunitário é a possibilidade colocada para os agentes individuais e coletivos de que esses desenvolvam competências para participarem da vida em sociedade, o que pressupõe não apenas habilidades “mas pensamento reflexivo que qualifique a ação política”. A implementação de práticas e processos que tenham como objetivo esse tipo de empoderamento
demanda abordagens educativas que valorizem a criação de espaços públicos (rodas e grupos de discussão, colegiados, gestores etc.), que logrem promover a participação dos indivíduos e coletivos na identificação e na análise crítica de seus problemas, visando a elaboração de estratégias de ação que busquem a transformação do status quo (CARVALHO, 2004, p. 1092-1093).
Pode-se apontar que o trabalho comunitário que tem como objetivo empoderar a comunidade tem um papel fundamental para o surgimento de um
69 tecido social fortalecido, na medida em que promove interação que confere poder aos sujeitos sociais envolvidos. Desta forma, o empowerment é mais bem concebido e avaliado “como um processo contínuo, com os participantes passando do nível de fortalecimento pessoal ao desenvolvimento de pequenos grupos de apoio, de organizações comunitárias, parcerias e finalmente à ação política” (LAVERACK; WALLERSTEIN, 2001 apud BECKER et al., 2004, p. 665).
A dimensão comunitária do empoderamento está relacionada aos mecanismos de capacitação dos entes coletivos, visando dotá-los de condições para lutarem por seus direitos, bem como para ocuparem espaços em projetos da sociedade ou mesmo nos governos.
Considerando as características do objeto desta investigação, o Orçamento Participativo, será adotada neste estudo a concepção de empoderamento comunitário.
2.2 O conceito de empoderamento na avaliação de experiências empíricas: articulando estrutura e ação
O quadro analítico de empoderamento baseia-se em uma longa tradição de análise do poder no interior da teoria social, oriunda de uma série de tradições disciplinares que centraram-se na investigação da relação entre estrutura e ação (NARAYAN, 2005).
O eixo fundamental de análise da teoria social contemporânea, que se convencionou chamar de relação entre “estrutura” e “ação”, se expressa nos questionamentos: seria o indivíduo totalmente autônomo ou até que grau estaria determinado pela sociedade? Seria esta superior e prévia a ele ou seria ele um elemento importante na construção da ordem social? (DOMINGUES, 2004, p. 17,8). Uma das grandes discussões que sempre percorreu as ciências sociais se deu no âmbito da tensão entre estrutura e ação. Ou seja, discutiu-se sobre os constrangimentos e possibilidades sociais que preexistem às ações dos indivíduos sociais e sua articulação com a capacidade dos próprios indivíduos, via ação, mudarem a estrutura e transformarem a sociedade. O
70 grande debate dividiu a teoria social entre os que reforçavam o papel da ação e da prática, e aqueles para os quais a estrutura era primordial.
A teoria social nos últimos decênios tem se ocupado de desenvolver aportes na tentativa de sintetizar as duas abordagens (DOMINGUES, 2004, p.57). As obras de Bourdieu, Giddens, Habermas e Boaventura de Souza Santos, por exemplo, são expressão disso, pois procuram romper com a polarização entre estrutura e ação, objetivismo e subjetivismo.
Neste sentido, constatam-se também duas perspectivas distintas embasando a produção sobre instituições políticas: uma perspectiva racionalista e outra culturalista (ZURBRIGGEN, 2006; HALL; TAYLOR, 2003). Em termos gerais, os enfoques racionalistas centram-se no agente e os culturalistas na estrutura:
Si bien la perspectiva racionalista reconoce la influencia de la estructura en los resultados políticos, ella es producto del agente, mientras que en la perspectiva culturalista la estructura existe independientemente de los individuos que la habitan (ZURBRIGGEN, 2006, p. 72).
Os enfoques racionalistas enfatizam a racionalidade instrumental e o cálculo dos atores, visando a maximização dos interesses. Nesta perspectiva, “as instituições fornecem informações concernentes ao comportamento dos outros e se mantêm porque realizam algo da ordem de um equilíbrio de Nash” (HALL; TAYLOR, 2003, p. 198).
A perspectiva culturalista, por sua vez, sustenta que o comportamento dos atores jamais é inteiramente estratégico, mas limitado pela visão de mundo própria aos indivíduos. Desse ponto de vista, as instituições fornecem modelos morais e cognitivos que permitem a interpretação e a ação. Assim, a persistência das instituições é explicada ao enfatizar que “muitas das convenções ligadas às instituições sociais não podem ser o objeto explícito de decisões individuais” (HALL; TAYLOR, 2003, p. 198).
Deve-se ressaltar que enfoques complementares têm surgido de forma a integrar relacionalmente o ator e a estrutura na compreensão da política. Diversos autores invocam uma atitude colaborativa e articulada entre as diferentes correntes, de forma a aprimorar a compreensão da ação humana e a
71 resolução dos problemas teóricos ligados às perguntas da reprodução e da mudança institucional.
O quadro analítico de empowerment é inserido neste contexto e busca dar conta da relação entre estrutura e ação (ALSOP, BERTELSEN, HOLLAND, 2006). Uma visão estática do poder mostra-o como uma relação estruturada de dominação/submissão. Na abordagem do empowerment o poder provém de várias fontes sociais, econômicas, políticas e culturais, e pode ser gerado e disseminado através das interações sociais. Neste sentido, o poder é entendido como a capacidade e autoridade para: influenciar o pensamento dos outros (poder sobre); ter acesso a recursos e bens (poder para); tomar decisões e fazer escolhas (poder para); resistir ao poder dos outros, se necessário (poder de).
E justamente por tratar-se de um conceito relacional, que articula a análise da ação e da oportunidade estrutural, que a literatura temática destaca que esta chave analítica é especialmente útil para a análise de experiências empíricas (ABBERS, 2000; BAIOCCHI et al., 2005; FUNG; WRIGTH, 2001; NARAYAN, 2005; PETESCH; SMULOVITZ; WALTON, 2005; OAKLEY; CLAYTON, 2003; SANTOS, 2002; COSTA, 2003; HOROCHOVSKI; MEIRELLES, 2007; BAQUERO; BAQUERO, 2007).
Uma forma viável de operacionalizar o conceito, que interessa sobremaneira aos propósitos desta pesquisa, é relacioná-lo à criação de novas institucionalidades. Nestas novas institucionalidades participativas os debates, as negociações, as deliberações e as informações concernentes às políticas públicas de alguma forma alcançam os cidadãos afetados – para que os mesmos possam tomar parte, ainda que de forma indireta, no alargamento dos fóruns representativos, fazendo com que os cidadãos “sejam levadas em consideração, em processos transparentes” (JACOBI et al. 2004 apud HOROCHOVSKI; MEIRELLES, 2007, p. 488).
Nesta mesma perspectiva de associar o conceito às mudanças institucionais, Lubambo e Miranda (2007) estabelecem uma relação entre esses espaços participativos e o processo de fortalecimento dos recursos das comunidades pobres e excluídas, para que tenham condições de participarem
72 da implementação de políticas públicas e de processos deliberativos. Neste sentido, destacam que os arranjos institucionais são importantes, inclusive, para o barateamento dos custos de organização e obtenção de informações por parte dos atores coletivos. Um “canal de participação novo que é