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As CEBs e a RCC: Que Catolicismo Temos Hoje?

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As tipologias que mostram a formação do catolicismo brasileiro são bem definidas por Pedro Ribeiro de Oliveira (1997). Ele enumera as três partes constitutivas do catolicismo popular, a saber: o catolicismo popular tradicional, o catolicismo romanizado, dito catolicismo de massas, e o catolicismo da libertação.

Os elementos de cada um são importantes para indicarmos de um modo mais seguro, qual o tipo de catolicismo que temos hoje.

Oliveira, ao aprofundar sua análise sobre o catolicismo brasileiro enfatiza o problema político da religião popular e suas dimensões sociais ao refletir sobre as tipologias do catolicismo popular.

O autor discorre sobre o problema político da religião popular e suas relações com a transformação social.

E utilizando um espectro bem mais amplo no espectro social e político, Oliveira quer desnaturalizar as categorias meramente binárias que oscilam entre o pólo de uma tradição esquerdista, da naturalizada expressão "a religião é o ópio do povo", engessada na alienação, e outro de caráter exclusivamente salvacionista e ligado aos oprimidos da sociedade.

Se, no primeiro pólo, a tradição esquerdista incompatibiliza a subjetividade religiosa com a racionalidade da ação política transformadora, o segundo pólo o salvacionista infere uma condição libertadora dada pelas religiões. Segundo Oliveira, cada um, em termos absolutos, é insuficiente para transformar a sociedade.

Para isso, Oliveira redimensiona a definição de popular desfazendo visões do senso- comum ao recuperar e atualizar análises marxistas de Gramsci, Godelier e Bourdieu que resumem a religião não como um simples reflexo das relações sociais, mas como um complexo sistema de relações simbólicas que atuam articuladamente nas estruturas de produção social de poder, incluído nesse caso o poder e a produção econômica.

Conforme Bourdieu trata-se da distinção

Entre trabalho religioso anônimo e coletivo, vale dizer, a produção do autoconsumo, e o trabalho dos especialistas para consumo dos leigos (...). A produção religiosa cabe a todos os membros de um determinado grupo, que de modo prático manejam o conjunto dos esquemas de pensamento e ações referentes ao sagrado (...). Este é o caso das religiões populares. (BOURDIEUapudOLIVEIRA. p.44).

Portanto são "oposições dialéticas, uma vez que o trabalho religioso anônimo e coletivo sempre coexiste uma única totalidade sistêmica de representações e práticas referentes ao sagrado" (OLIVEIRA, p. 45).

Assim os libertadores e os carismáticos teriam o espaço institucional e o reconhecimento social e necessários para a construção de um tipo de catolicismo brasileiro consoante com ao estágio atual da modernidade.

Diríamos também que a certa inquietação que Oliveira resume-se na consideração do "alargamento do campo de pesquisa" que é retomada por Cecília Mariz (2003)

Na realidade, a RCC, seria o quarto item incluído na tipologia tripartite de Oliveira e que sugere um redimensionamento do campo popular no sentido de ampliar esse campo e sua relação com a instituição da Igreja Católica no Brasil.

A reconfiguração da sociedade nos últimos 30 anos por conta da fluida modernidade esvaziou o campo de um espectro religioso, digamos mais à esquerda , popular e transformador conforme Pedro Ribeiro de Oliveira coloca ao analisar o catolicismo da libertação. Não considero coincidência a ascensão da RCC, de perfil mais conservador e propenso à hierarquização, nesse espaço de ações políticas deixado pela Teologia da Libertação Nesse sentido concordo com autores como Brenda Carranza (2000) e Júlia Miranda (1999). Não se trata da simples oposição das CEBs à RCC ou conforme concepção naturalizada na qual "a Renovação Carismática Católica reza e as Comunidades Eclesiais de Base fazem política" (CARRANZA, 2000, p.156). A RCC também faz política! Quero dizer com isso que um viés indefinido da sociedade conforme os padrões da modernidade atual orienta a tipologia carismática .

Mas nem por isso, o catolicismo carismático estaria distante de uma concepção de religião mais popular (Cf. OLIVEIRA, 1997). Consideramos a RCC como uma religião de caráter popular, mesmo que nas suas origens seu perfil seja vinculado a setores mais conservadores. Por respeitar a hierarquia católica, a RCC está imersa no reconhecimento que a Igreja Católica deu ao "valor das expressões religiosas populares, ou, no mínimo, aprendeu a respeitá-las" (OLIVEIRA, p. 58). Assim a RCC constrói direções e caminhos na trilha de contornos populares deixada pelas CEBs.

Além do mais, a aproximação com setores mais populares da sociedade é um deslocamento estratégico para a RCC e para a própria Igreja Católica.Essa postura é suscitada inclusive nas intervenções discursivas de seus fundadores como os padres Haroldo Rahm e Eduardo Dougherty ao rebateram o caráter atribuído a RCC de ser " um movimento a mais dentro da Igreja"(MARIZ,2003,p.173) Na realidade a RCC adquire um caráter reativo, atrativo e necessário por conta da diminuição do número de católicos no Brasil verificada na transferência quantitativa de católicos para o campo pentecostal, que é mais popular socialmente.

Conforme o padre Dougherty, Carranza (2000) destaca que "A RCC não é um movimento mas uma movimentação do Espírito Santo, há aí uma grande diferença.O movimento é para um grupo, enquanto uma renovação litúrgica, bíblica, carismática, é para todo mundo"(2000,p.38)

Ao atualizar as configurações do catolicismo brasileiro, Cecília Mariz analisa o movimento da Renovação Carismática Católica questionando se ele é uma igreja dentro da Igreja e conclui que a " rejeição da etiqueta movimento expressa , tal qual no projeto das

CEBs e dos católicos da Teologia da Libertação, o desejo de abarcar toda a Igreja e não ser algo marginal com uma organização paralela"(,2003,p.175)

Para classificar as práticas carismáticas, a autora usa ainda o termo pentecostalismo católico considerado ainda pejorativo por vários membros da RCC. Contudo, a RCC revela a aquisição de um instrumental pentecostal (efusões, glossolalia, performances, para depois ser absorvida pela hierarquia da Igreja Católica.

Uma das explicações para a sobrevivência dessa igreja (...) se encontra em sua organização caracterizada pela capacidade de controlar os desvios e manter grupos divergentes juntos. A importância dada a hierarquia e a autoridade fez com que as dissidências e rupturas que ocorreram através da história fossem relativamente pouco numerosas em relação aos conflitos e tensões que já dividiram essa instituição. Essa capacidade integrativa da organização católica se revela forte quando se compara essa igreja com as protestantes, que sofrem frequentemente cisões e se subdividem. (MARIZ,2003 p. 171)

Nesse cenário, a ascensão da RCC absorve em grande parte, mas com outro sentido mais litúrgico e espiritualizado, o trabalho das CEBs. Vislumbra-se um corte social espiritualizado na RCC.

Os aportes teóricos dessa dissertação consideram o deslocamento do fenômeno religioso na direção da desinstitucionalização ou da desregulação religiosa conforme Hervieu-Léger (1999). Afinal tratamos de uma modernidade que carece de definições Este seria um interessante ponto de chegada para a inscrição e definição do objeto estudado, se não fosse pela refutação que Cecília Mariz faz sobre tal condição ao lembrar certa perenidade na inserção social da religião. As organizações sociais existem e, mesmo por estarem em processo de mudança (e por isso!), continuam a transmitir e reproduzir as experiências coletivas. Em se tratando de religião, Weber é o suporte teórico que Mariz utiliza ao citar a questão do carisma e sua necessária rotinização. (MARIZ, 2003, p. 170).

Deste modo os discursos sobre desregulamentação e desinstitucionalização do fenômeno religioso são parcialmente considerados na realidade que se quer analisar. Conforme Mariz, "novas formas de viver a religião implicam novas formas de organização e/ou transformações nas instituições tradicionais, mas não a sua negação ou simples desaparecimento" (2003, p. 170).

As CEBs, esvaziadas histórica e teologicamente, continuam existindo e, na centralização conservadora promovida pelos Pontificados de João Paulo II e Bento XVI, foram devidamente incorporadas à hierarquia da Igreja. Digamos que uma domesticação do

caráter popular e transformador das CEBs abriu o espaço de produção do discurso católico para a RCC.

Com tudo isso, a RCC é o aporte canônico desse movimento de resgate da grande tradição do catolicismo. É a construção de uma subjetividade religiosa. E o contraste da RCC não se dá apenas com respeito às CEBs e à Teologia da Libertação, mas também quanto às outras formas de ser do catolicismo

Enfim, é a orientação do catolicismo para o encantamento de mundo no estágio atual da modernidade.

III VALORES RELIGIOSOS E LEGISLAÇÃO: PROPOSTAS, TENSÕES E

IMPASSES:

O capítulo articula a orientação teológica católica de defesa de determinados valores morais com os movimentos sociais e reações e contestações recíprocas em torno do debate público de propostas legais referentes ao aborto, às práticas da eutanásia, a união civil homoafetiva, as pesquisas com células-tronco embrionárias, assim como a justificativa para a implantação do ensino religioso na educação pública

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