CAPÍTULO 2 CONDICIONANTES DA RECICLAGEM NO BRASIL
2.3. Desigualdade e mercados: a configuração dos mercados de reciclagem no Brasil
2.3.2. As classes sociais na obra de Pierre Bourdieu
Em sua análise das classes sociais, Bourdieu estende, combina e corrige a visão de clássicos como Marx, Durkheim e Weber em uma estrutura distinta e relacional (WACQUANT, 2013). Para o autor, os agrupamentos sociais são definidos empiricamente com base na quantidade total e relativa de dois tipos de recursos altamente legítimos e dos quais os agentes podem lançar mão nos processos de competição social modernos: o capital econômico, comumente medido pelo nível de renda; e o capital cultural, que são conhecimentos culturais úteis amplamente reconhecidos como válidos e que podem
81 estar mais ou menos incorporados na disposição dos indivíduos (habitus). Em sua visão, portanto, é preciso levar em conta as “capacidades de apropriação material dos instrumentos de produção material ou cultural (capital econômico)” e as “capacidades de apropriação simbólica desses instrumentos (capital cultural)” (BOURDIEU, 2013, p. 109). A consideração sistemática do capital cultural como um princípio de diferenciação social é, assim, um dos fatores que distinguem a abordagem de Bourdieu da de Marx.
Reconhecendo a importância dessas duas propriedades básicas dos agentes na produção das distinções que organizam o mundo social e baseado em uma visão relacional de estrutura, de acordo com a qual os grupos sociais se produzem em suas diferenças, Bourdieu propõe que é possível mapear o espaço social, delineando as estruturas objetivas de classe de uma determinada sociedade. Em A Distinção: Crítica Social do Julgamento, Bourdieu (2011) analisa a estrutura social francesa definindo as posições sociais dos agentes com base em eixos quantificando duas variáveis: o volume total dos capitais possuídos por um determinado agente ou grupo de agentes (soma do capital cultural e econômico) e a composição relativa dos capitais possuídos (quantidade relativa de capital econômico e cultural na composição do capital total)37.
Conforme apresentado para o caso da França, Bourdieu sugere que o espaço social e seus grupos sociais podem ser representados em quatro quadrantes. O eixo y indica o capital total, com a parte superior representando as frações de classe mais elevadas e a inferior, as mais baixas. Já o eixo x indica a composição relativa do capital, sendo que os grupos com maior composição de capital econômico no seu capital total localizam-se a direita e os com maior composição de capital cultural localizam-se à esquerda. Como indicado na figura, o posicionamento nessa estrutura é fortemente relacionado com os seus estilos de vida, apresentando forte correlação, por exemplo, com preferências esportivas, musicais e gastronômicas.
37 Para realizar esse mapeamento relacional das posições, Bourdieu utilizou a técnica estatística da Análise de Correspondência Múltipla, representando os efeitos globais da estrutura de capitais dos agentes, que não podem ser reduzidos à combinação dos múltiplos efeitos puros das variáveis independentes (LEBARON, 2009).
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Figura 1: O espaço social e grupos sociais em França. Fonte: Bourdieu (2010).
O mapeamento objetivo das posições relativas dos diferentes agentes sociais faz com que seja possível identificar agrupamentos de indivíduos com posições similares e também distinções entre posições de vários grupos. A proximidade no espaço social está associada às chances usufruídas pelos grupos nas lutas sociais e a estilos de vida e estratégias de reprodução semelhantes, o que cria afinidades que tendem a facilitar os processos de mobilização. Por outro lado, agentes ou grupos em posições distantes tendem a ter menos afinidades, o que dificulta sua reunião. Grupos de indivíduos ocupando posições semelhantes no espaço abstrato não são necessariamente uma classe social definida mecanicamente, não estando fadada a se mobilizar, como sugere a abordagem de Marx. Para o autor Francês, a efetiva realização das classes depende de um trabalho político capaz de mobilizar atores que usufruem de condições semelhantes de reprodução social.
Bourdieu ainda relaciona a estrutura definida por propriedades que podem ser objetivamente analisadas e mapeadas (conhecimento desencantado) com aspectos simbólicos, mais subjetivos que estruturam as relações entre grupos sociais (conhecimento encantado), o que é importante para superar
83 a oposição entre teorias objetivistas, que reduzem classes a grupos discretos, e teorias subjetivistas, que reduzem a ordem à agregação das formas de classificação individuais. Em sua visão, as classificações subjetivas que os agentes fazem de si mesmos e dos outros na prática e os estilos de vida que adotam estão, portanto, direta e indiretamente relacionados à posição ocupada no espaço social definida pela distribuição relativa das propriedades objetivas. As distâncias no espaço social são operadas na prática por intermédio de símbolos, que se definem em relação a outras práticas e propriedades, traduzindo-se em uma forma específica de capital: o capital simbólico. Esse recurso, que corresponde à reputação, autoridade e ao prestígio dos agentes no espaço social, tem a propriedade especial de não ser percebido como uma forma de poder, possibilitando que o mundo social não seja sentido como um espaço de conflito ou concorrência entre grupos com interesses antagônicos, mas como ordem social (BOURDIEU, 2013).
Assim, na prática, a percepção é produto de uma dupla estruturação: do lado objetivo, é estruturada pelas posições relativas das propriedades dos agentes, e do lado subjetivo, pelos esquemas de percepção e apreciação disponíveis, sobretudo os cristalizados na linguagem, que expressa o estado das relações simbólicas de poder passadas. As relações de poder estão presentes na cognição dos agentes e nas categorias que usam para apreender o mundo e a transformação das estruturas passa necessariamente pela transformação do conhecimento do mundo social e dos símbolos que mediam sua apreensão, o que ocorre por meio de disputas que mobilizam os capitais obtidos em disputas anteriores.
Na próxima parte do trabalho, revisamos análises sobre a fabricação dos grupos que compõem a sociedade brasileira realizadas a partir de preceitos da perspectiva bourdieusiana. Elas nos serão fundamentais para compreender especificidades das formas de organização da reciclagem no país.