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As competências necessárias para formar amizades (aptidões sociais)

Capítulo I – Quadro Teórico de Referência

6. As competências necessárias para formar amizades (aptidões sociais)

Tal como acabo de referir, o desenvolvimento da compreensão social para o estabelecimento de relações de amizade está dependente de aptidões intelectuais.

De acordo com Rubin (1982), as aptidões sociais compreendem as capacidades de ser incluído nas atividades do grupo, ser aceite e posteriormente considerado como um auxílio pelos seus pares, resolver seguramente conflitos, exercer o bom senso e finalmente o tato que é encarado como um dos aspetos mais exímios do desenvolvimento social.

A expressão aptidões sociais designa a “capacidade de comunicar eficazmente, que por sua vez necessita da capacidade de uma pessoa se imaginar no papel de outra” (Rubin, 1982, p. 17). Seguindo ainda esta linha de pensamento, o autor afirma que estas interações propiciam contribuições incomparáveis para a aquisição de outras aptidões sociais, nomeadamente, técnicas para conduzir com tato outras pessoas à interação e para resolver conflitos, permitindo-lhes assim que se comparem umas com as outras (cf. Idem, 1982).

Para Del Prette e Del Prette (2007) in Schujmann (2010), estas aptidões sociais classificam-se como “um conjunto de habilidades sociais, ou seja, a pessoa possui um

conjunto de comportamentos a serem usados e explorados conforme a necessidade das

situações sociais” (p.18). Estes autores avançam a conjetura segundo a qual os

indivíduos que propiciam os ganhos ao máximo e as perdas ao mínimo para si e para os

seus pares são considerados como “socialmente competentes” (p.33). Por outro lado, os

pares das pessoas consideraram a capacidade de gerir o comportamento, o afeto e a cognição com o intuito de alcançar os seus objetivos sociais sem proporcionar constrangimentos aos pares; consequentemente, “a competência social será a capacidade de ser bem-sucedido socialmente, não obstante ao sucesso social dos outros” (Waters & Sroufe in Cavaco, 2002, p. 3).

Rubin (1982) refere um estudo realizado por John Gotmman acerca de popularidade Este autor e os seus colaboradores concluíram que as crianças mais populares eram as que melhor sabiam fazer amigos, comparativamente às não populares. No entanto, saber fazer amigos não significa que tenhamos sucesso social, pois tal como Rubin (1982) indica, “algumas crianças podem ser excelentes no teste de desempenho de papéis relativo às aptidões sociais, mas ao mesmo tempo serem incapazes ou não querer pôr estas aptidões em prática” (p. 69).

Tais aptidões para a amizade incluem a capacidade de intervir junto a um grupo, de realizar atividades de grupo, bem como a capacidade de ser amigo concebido como “

um companheiro atento, aprovador e pronto a ajudar” (Idem, 1982, p. 70).

Conforme as crianças crescem vão-se tornando progressivamente capazes de produzir comportamentos que podem ou não ser considerados recompensadores para outras crianças. Porém, é importante que se tenha consciência de que estes comportamentos nem sempre constroem uma amizade, pois muito depende do modo como a afeição é expressa e do modo como é interpretado pela outra criança, ou seja, o que para uma criança é uma demonstração de afeto, para outra pode não ser (Idem, 1982).

Outras das capacidades que fazem parte das aptidões para a amizade é referente ao sucesso na resolução de conflitos.

Ao contrário do que se constata com as crianças mais velhas, uma parte significativa do tempo que as crianças mais pequenas passam todos os dias com os seus pares é dedicado à resolução de conflitos e, mesmo esperando que os seus amigos lhe sejam leais e se apoiem mutuamente, ocorrem alguns conflitos. Relativamente à sua resolução, algumas vezes esses conflitos são irreconciliáveis, conduzindo

posteriormente ao termo da amizade; porém, noutras ocasiões as crianças progridem através das suas discordâncias de maneira construtiva (Idem, 1982).

Ao longo do desenvolvimento das conceções acerca da amizade e na adquirição de aptidões para a amizade, as crianças devem aprender que é importante falar abertamente sobre os seus sentimentos, tal como expressar-se acerca dos seus direitos, tornando-se capazes de ter em consideração os direitos e sentimentos dos outros, o que possibilita uma adquirição das qualidades subtis tais como tato, que são essenciais para manter a amizade (Idem, 1982). Numa situação de conflito, se existir uma relação de amizade entre os pares nele envolvidos, a criança tende a elucidar o seu comportamento, a solucioná-lo com rapidez, e ainda a conservar a ligação após o conflito (Nelson & Aboud, 1985; Hartup, Lauren, Stewart & Eastenson, 1988, Newcomb & Bagwell, 1995 in Lopes, Magalhães & Mauro, 2003).

Todavia, nem todas as crianças têm a mesma facilidade em fazer amigos, podendo-se constatar casos de crianças que precisam de auxílio para aplicar estas aptidões.

Uma criança que não tenha amigos pode utilizar a interação com os seus pares para desenvolver a sua autoconfiança, bem como as aptidões necessárias para o sucesso social; no entanto, devido à eventual falta de aptidões sociais (como por exemplo, a incapacidade de se aproximar de outras crianças ou a disposição a afugenta-las), pode ser necessário que os pais e educadores intervenham (Rubin, 1982).

Rubin (1982) apresenta como planos possíveis para colmatar estas falhas, as seguintes estratégias: aproximar a criança em questão de outra que considerem poder criar-se alguma ligação, contribuindo para uma experiência social e válida de aceitação social ou colocar uma criança mais velha que seja muito competitiva ou agressiva junto da criança em questão para que se possam relacionar como irmãos, de modo a sentir uma aceitação de outros.

O educador de infância tem um papel indispensável relativamente à promoção de situações de aprendizagem em que as crianças consigam adquirir as aptidões sociais necessárias para estabelecerem relações de amizade; contudo, deve ter em conta um fator muito importante, o saber separar a ajuda da interferência, pois apesar de poder ajudar, não deve tentar fazê-lo de forma autoritária (cf. Idem, 1982).

Rubin (1982) menciona uma certa ênfase exagerada que é por vezes colocada pelos adultos na importância de fazer amigos, e por isso é relevante referir que por vezes, os adultos exercem uma tal pressão sobre as crianças, que elas sentem que fazer

amigos é quase uma obrigação, acabando por se poder tornar numa obsessão, tal como afirma Riesma in Rubin (1982). De acordo com Riesma, ao fomentarmos esta obsessão

e ideia de que é um problema não ter muitos amigos, podemos acabar por “minar muito

do que tem valor na vida das crianças, incluindo aptidões, gostos, ideais e

compromissos individuais” (Idem, 1982, p. 25).

Sumarizando, é fundamental sublinhar a importância quer do respeito das diferentes necessidades da criança, inclusive a necessidade de intimidade e solidão, quer do respeito das diferenças entre as crianças no que se refere às suas motivações para estabelecer e manter amizades, quer ainda da compreensão de que a qualidade das relações sociais das crianças é mais importante que a sua quantidade.