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As complexidades estruturais e o problema da unidade

enquanto os outros diálogos seriam belos ciprestes e pinheiros no bosque da Academia de Platão. Isto porque o diálogo, segundo o teórico, apresenta uma série de dificuldades quanto às expressões empregadas por seu autor, como também uma peculiaridade na sua forma. ἓmἴὁὄa,ΝὀἷὅtἷΝἶiὠlὁgὁ,ΝὅἷguὀἶὁΝἐuὄy,ΝὂaὄἷὦaΝἷὅtaὄΝἵὁὀtiἶὁΝὁΝὀήἵlἷὁΝὁuΝὁΝ“ἵἷὀtὄὁΝὅaἶiὁ”ΝἶaΝ doutrina platônica (p. 9).

Migliori (1998) prefere servir-se da metáfora platônica utilizada no próprio diálogo (29a) em que Sócrates afirma ao deuteragonista do diálogo (Protarco) estarem ambos envolvidos em uma tempestade em alto mar (29a). Isto devido à tamanha dificuldade em que estão envoltos, verificável a partir dos raciocínios que se seguem, estando eles imersos, muitas vezes, em imensas aporias. Semelhantes dificuldades as quais nem o próprio leitor está livre de enfrentar. A imagἷmΝἵὄiaἶaΝὂἷlὁΝὂὄὰὂὄiὁΝἢlatãὁΝἶὁΝ“maὄΝὄἷvὁltὁ”ΝiluὅtὄaΝἶἷΝmaὀἷiὄaΝaὀὠlὁgaΝ a própria situação do leitor frente ao conturbado diálogo. Contudo, segundo ele, é necessário ao leitor compor a sinfonia que reúne em uma única obra o diálogo (reductio ad unum): sair ἷmΝἴuὅἵaΝἶaΝ“ἴήὅὅὁla”ΝἵaὂaὐΝἶἷΝὁὄiἷὀtaὄΝὁὅΝ“ὀavἷgaὀtἷὅ”,ΝἵaὂaὐΝἶἷΝὁὄiἷὀtaὄΝὁΝlἷitὁὄΝἶiante do mar revolto característico deste mesmo drama. Ao iniciar um percurso interpretativo de um drama platônico complexo, como é o caso do Filebo, seria necessário que o leitor operasse em três níveis: o literário (a especificidade da escrita platônica), o estrutural (os âmbitos teóricos em que se movem o diálogo) e o filosófico (a reflexão sobre os conteúdos apresentados) (MIGLIORI, 1998, p. 330-333).

Segundo Muniz (2007), durante séculos, os estudiosos desta obra platônica lamentaram a perda de um suposto tratado de Galeno, Sobre as transições do Filebo (π λ θ θ Φδζ ί η αίΪ πθ), já que se imaginava na antiguidade que poderiam descobrir um mecanismo hermenêutico, nesse caso extratextual, capaz de fornecer a salvação aos intérpretes, a tão sonhada chave de leitura até então não encontrada pelos leitores do diálogo desde sua publicação, capaz de solucionar os problemas que o texto envolve, como também explicar as bruscas transições presente nesse texto platônico. O que demonstraria, segundo o teórico, uma profunda descrença em qualquer solução que pudesse ser encontrada no próprio texto (p. 113).

Do mesmo modo, essa descrença pode ser notada na obra de Allen (1975) em sua tradução e crítica ao comentário do renascentista Marsílio Ficino ao Filebo, no qual nos apresenta uma carta do político italiano Cossimo de Médici (que teria encomendado uma tradução desse diálogo a Ficino) ao filósofo italiano. Nesta carta, o governante de Florença descreve ter permanecido em seu leito junto com Lorenzo de Médici até a hora de sua morte lendo o Filebo; no seu entender, uma obra sobre o supremo bem humano. Ou seja, trata-se

do último diálogo lido pelo fundador da dinastia dos Médici60 (p. 6). Ironicamente, Waterfield

(1982), em seu prefácio introdutório à tradução da obra, sublinha que talvez esse não seria o diálogo que escolheríamos para ler nos instantes finais de nossa existência, como teria feito o político italiano da linhagem dos Médici.

Benjamin Jowett, já em 1897, teria reconhecido a complexidade dos temas abordados no diálogo ao destacar a mudança do estilo dramático platônico notada a partir deste escrito. Os elementos poéticos e dramáticos passam a ser subordinados ao elemento filosófico. Pois, são evidentes na obra algumas deficiências como certas passagens confusas e a falta de uma estrutura clara, completa, segundo Jowett (p. 521).

Diante do que já foi dito, nota-se o impacto da leitura do Filebo desde a antiguidade até à contemporaneidade seja no neoplatonismo (por exemplo, no extenso Comentário de Damáscio ao Filebo), como no período da renascença (no comentário de Ficiono). Nosso diálogo teve seus breves instantes de glória na Antiguidade e só depois de longos anos os estudos sobre o Filebo foram retomados. O diálogo permaneceu esquecido durante séculos na tradição interpretativa platônica e retorna à cena das discussões somente no século XIX, sobretudo no século XX. Mas por quais motivos o diálogo retorna ao debate filosófico platônico a partir do século XX? A seguir, apresento alguns dos fatores primordiais.

Umas das principais estudiosas da obra de Platão, a platonista francesa Monique Dixsaut afirma que o Filebo é um diálogo difícil, concordando com Rodier (1926, p. 137-174), dizendo aiὀἶaΝ ὃuἷΝ “(έέέ)Ν aΝ ὁἴὄaΝ ἵὁmὂὁὄtaΝ ὁΝ iὀἵἷὄtὁΝ ὂὄivilὧgiὁΝ ἶἷΝ ἶἷtἷὄΝ ἷmΝ si todas as ἵὁmὂlἷxiἶaἶἷὅΝὂὄὰὂὄiaὅΝὡΝlἷituὄaΝἶἷΝumΝἶiὠlὁgὁΝἶἷΝἢlatãὁ”Ν(ἀίί1,ΝὂέΝἀἆἃ)έΝἓmΝὁutὄaΝὁἴὄa,ΝaΝ mesma autora assegura que, sem dúvida, “ὁΝὂὄiὀἵiὂalΝὁἴὅtὠἵulὁΝὡΝἵὁmὂὄἷἷὀὅãὁΝἶὁΝFilebo é ὁΝὂὄὁἴlἷmaΝἶἷΝὅuaΝuὀiἶaἶἷ”Ν(1λλλ,ΝὂέΝ1ἀ)έΝἠὁΝἷὀtaὀtὁ,Νcomo veremos, a própria Dixsaut será uma das intérpretes a demonstrar o caráter equivocado desta suposta descrença entre os platônicos de que o Filebo possui deficiências tanto estruturais (literárias) de composição quanto nos conteúdos filosóficos, propondo uma leitura coerente e significativa sobre a obra.

Para alguns estudiosos (os revisionistas), neste diálogo, Platão apresentaria uma revisão de sua ontologia e de sua metodologia, rompendo definitivamente com os Grandes Gêneros do Sofista, com a hipótese das Formas e, principalmente, com o método dialético. Por outro lado, o Filebo,Ν ἵὁmὁΝ ὄἷὅὅaltaΝ ἒixὅaut,Ν ὧΝ ὁΝ “tἷὄὄἷὀὁΝ ὂὄἷἶilἷtὁ”Ν ἶὁὅΝ ἵhamaἶὁὅΝ “ἷὅὁtἷὄiὅtaὅ”ΝἶaΝfilὁὅὁfiaΝἶἷΝἢlatãὁΝὂὁὄΝἵὁὀὅiἶἷὄaὄἷmΝὃuἷΝἢlatãὁΝἵὁὀἵἷἴἷὄiaΝumaΝὄἷaliἶaἶἷΝ dividida segundo dois princípios fundamentais: o Uno e a Díade (DIXSAUT, 1999, p. 10).

60“ἣuaὀἶὁΝἑὁὅὅimὁΝἶἷitὁuΝὀὁΝὅἷuΝlἷitὁΝἶἷΝmὁὄtἷ,ΝὀὁΝfiὀalΝἶἷΝjulhὁ,ΝὀὁὅΝiὀfὁὄmamὁὅΝὂὁὄΝmἷiὁΝἶὁΝὂὄὰὂὄiὁΝ Ficino em uma carta a Lorenzo, que Cossimo teria examinado o Filebo ὂὁὄΝήltimὁμΝ‘ἓὀtãὁ,ΝἵὁmὁΝvὁἵêΝ sabe, desde que você mesmo esteve lá, ele morreu não muito depois de termos examinado os diálogos de Platão, um sobre o princípio das coisas (o Parmênides), e um sobre o Supremo Bem (o Filebo) (ALLEN, 1975, p. 6-7).

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Neste caso, conforme destaca a autora, torna-se imprescindível ao leitor de Platão a compreensão clara da primeira parte do diálogo e sua relação com o restante do texto, ou seja, compreender como os temas ontológicos são úteis e fundamentais para a compreensão dos temas éticos presentes na obra61.

Segundo as considerações de Muniz (2007), o Filebo é um diálogo de inúmeras “tὄaὀὅiὦὴἷὅ”έΝἏΝfimΝἶἷΝὅἷΝἷxὂliἵaὄἷmΝaὅΝἵὁmὂlἷxiἶaἶἷὅΝἶialὰgiἵaὅΝὂὄἷὅἷὀtἷὅΝὀaΝὁἴὄa,Ν bem como as dificuldades em relação aos conteúdos filosóficos, a obra da maturidade platônica tem sido interpretada de diferentes modos. Um deles consiste em analisar apenas algum aspecto que pareça mais relevante no texto platônico, como o prazer. Atente-se neste caso à intepretação revisionista (p. 113). Em busca de um recurso hermenêutico possível, muitos tendem a recorrer aos aspectos externos da obra, sem, contudo, analisá-la a partir de sua complexidade interna (como é o caso dos esoteristas).

Além disso, o Filebo destaca-se no cenário filosófico devido à complexidade de sua abordagem do prazer, visto por alguns teóricos anglo-saxões como a primeira abordagem do ὂὄaὐἷὄΝ ἵὁmὁΝ “atituἶἷΝ ὂὄὁὂὁὅiἵiὁὀal”έΝ ἧmaΝ viὅãὁΝ ὃuἷ,Ν ἵὁmὁΝ vἷὄἷmὁὅ,Ν ἶἷmὁὀὅtὄa-se extremamente complicada, desprendendo-se em grande parte da letra do texto.

Diante das complexidades que o texto apresenta, de acordo com Muniz (2012), podemos (resumidamente) destacar as três principais tendências interpretativas contemporâneas que surgem no século XX e fizeram com que o diálogo voltasse a ser estudado: (i) uma análise dos prazeres falsos, em grande medida desenvolvida por Gilbert Ryle (1950) (The Concept of Mind), filósofo da mente da contemporaneidade e defensor de uma leitura particular do Filebo (amplamente polêmica); (ii) a emergência da interpretação da ἵhamaἶaΝ“lἷituὄaΝἷὅὁtἷὄiὅtaΝἶἷΝἢlatãὁ”Νἴaὅἷaἶa,Νfuὀἶamἷὀtalmἷὀtἷ,ΝὀaΝἵhamaἶaΝ“tὄaἶiὦãὁΝ iὀἶiὄἷta”,Ν amὂlamἷὀtἷΝ ἵalἵaἶaΝ ὀὁΝ tἷὅtἷmuὀhὁΝ aὄiὅtὁtὧliἵὁΝ ἶaΝ filὁὅὁfiaΝ ὂlatὲὀiἵaΝ (particularmente aqueles contidos na Metafísica), desenvolvida (contemporaneamente) pela

61 Um diálogo que é tido por muitos como um diálogo repleto de múltiplas correções, a respeito do qual nem sequer se possui um acordo a respeito do assunto do qual se trata (uma questão debatida desde a Antiguidade), o FilἷἴὁΝὧΝὁΝtἷὄὄἷὀὁΝἷlἷitὁΝἶὁὅΝὂὄὁὂὁὀἷὀtἷὅΝἶἷΝumaΝ“ὀὁvaΝὁὀtὁlὁgia”ΝἶἷΝἢlatãὁ,ΝἷΝἶὁὅΝ partidários das doutrinas não-escritas. Para Crombie, por exemplo, uma das dificuldades do diálogo ὅἷὄiaΝὃuἷΝ“ἢlatãὁΝiὀtὄὁἶuὐΝὄaὂiἶamἷὀtἷΝἷΝἶἷὅἷὀvὁlvἷΝalgumaὅΝὀὁὦὴἷὅΝὃuἷΝὂὁἶἷrão ser compreendidas somente à luz de suas preocupações últimas e que nós somente conhecemos por Aristóteles. Rompendo definitivamente não somente com a hipótese das Formas, mas também com os grandes gêneros do Sofista, Platão operaria, neste diálogo, uma revisão drástica de sua ontologia, como também de seu método, isto é, da dialética. De acordo com os partidários das doutrinas não-escritas, ὃuἷΝtêmΝaΝἶiviὀaΝὅuὄὂὄἷὅaΝἶἷΝiὀfἷὄiὄΝaΝὂaὄtiὄΝἶὁὅΝ“ἷὅἵὄitὁὅ”ΝὁὅΝἶὁiὅΝὂὄiὀἵíὂiὁὅΝὃuἷ,ΝὀaΝviὅãὁΝἶἷlἷὅ,ΝὅãὁΝaΝ mônada e a díade indefinida, acreditam também exprimir claramente a existência das realidades matemáticas intermediárias, o que não se trataria propriamente de uma evolução, mas do surgimento de uma doutrina esotérica, até então reservada a alguns. Em outra perspectiva, a mistura dos elementos que constituem a vida boa – prazer e conhecimento – seria apenas um pretexto capaz de permitir a Platão expor os seus novos princípios metodológicos ou seus novos princípios ocultos (DIXSAUT, 2001, p. 286-287).

vertente interpretativa que se denomina como a Escola de Tübingen-Milão62– a qual, a partir

década de 60, trouxe à tona a discussão sobre os conteúdos do diálogo no âmbito do platonismo; (iii) o suposto debate surgido no platonismo acerca de uma suposta revisão da teoria platônica presente nos últimos diálogos, desde a crítica e consequente rejeição de Platão à hipótese das formas a partir do Parmênides. Como o Filebo geralmente é colocado entre os últimos diálogos de Platão, essa obra tornou-se o centro das atenções dos chamados “ὄἷviὅiὁὀiὅtaὅ”Ν (εἧἠIZ,Ν ἀί1ἀ,Ν ὂέΝ ἆ)νΝ (iv)Ν ἷΝ ὂὁὄΝ ήltimὁ,Ν tἷmὁὅΝ aὅΝ ὄἷaὦὴἷὅΝ aΝ ἷὅὅaὅΝ viὅὴἷὅΝ interpretativas que introduziram um amplo debate também criando uma série de interpretaçãoes, ortodoxas ou não, aos principais problemas levantados nesse diálogo platônico.

Como ressalta Rachid (2012), nesta visão tipicamente redutiva do platonismo (no caso da leitura esoterista) que busca referências externas para explicar os conteúdos apresentados pelos diálogos, esmaecem-se os conteúdos ético-políticos da filosofia de Platão como também os tópicos essenciais da dialética. No entanto, o Filebo apresenta uma variedade de conteúdos extremamente relevantes à definição da vida mista (entre prazer e conhecimento), por sinal, essencialmente humana. Figuram neste diálogo como temas relevantes: (i) a crítica à erística; (ii) a invectiva das paixões deletérias; (iii) a crítica à má escrita; (iv) a afirmação que a gênese do esquecimento é a fuga da memória; (v) a reminiscência e (vi) a analogia entre as ciências musicais, a gramática, e a dialética (p. 4-5). A interpretação de um Platão ágrafo, neste sentido, segundo o autor, parece reduzir os conteúdos culturais, tais como: a herança mítico-político na elaboração dos diálogos e o papel do filósofo na elaboração dos discursos (lógoi, mas, por hora, nos basta a crítica a esse tipo de leitura – voltaremos a ela quando for necessário em nossa análise do diálogo). Convém ao menos destacar que:

(...) se lêssemos Platão por um sistema apriorista de princípios em torno do um, considerado princípio formal, e da díada indefinida do grande e do

62 De acordo com Xavier (2005), nota-se que a proposta da Escola de Tübingen-Milão consiste em dar ênfase no caráter oral da filosofia de Platão; dito em outras palavras, a incompreensibilidade manifesta pelo texto platônico escrito só encontra uma completude interpretativa mediante o Platão não escrito, isto é, por via da tradição indiretaμΝ“ἤἷὅgataὄΝaΝἶὁutὄiὀaΝἶἷΝἢlatãὁΝὄἷὅἷὄvaἶaΝὡΝὁὄaliἶaἶἷΝὧΝmister para a edificação estrutural do novo paradigma hermenêutico, uma vez que, sem ela, não temos o que filósofo chamou – ele próprio – de o mais importante. Ora, o melhor lugar para se encontrar tal doutrina é certamente nos textos de caráter doxográfico escritos por discípulos diretos e/ou indiretos de Platão e por filósofos posteriores a ele que de alguma forma tiveram acesso ao conteúdo das lições doutrinais ἶἷΝὀὁὅὅὁΝfilὰὅὁfὁ”Ν(ὂέΝ1ἃἀ)έΝἓὅὅἷΝὂaὄaἶigmaΝἶἷΝlἷituὄaΝὧΝἶἷfἷὀἶiἶὁΝὂὁὄΝiὀήmἷὄὁὅΝἷὅtuἶiὁὅὁὅ,ΝἷmΝὅuaΝ maioria, de origem alemã e italiana, mas devem sua fundamentação metodológica rígida, na contemporaneidade, a Giovanni Reale (2004, p. 24). Este último, é quem apresenta uma releitura dos diálogos de Platão à luz de uma doutrina não-escrita, que ultrapassa o contexto da escrita e recorre a tradição indireta de nosso filósofo, a fim de eliminarem as insuficiências dos paradigmas tradicionais de leitura do texto platônico.

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pequeno, considerada princípio material, correlatos ao limite e ao ilimitado, reconheceríamos iniludivelmente nele antinomias e lacunas (RACHID, 2012, p. 5).

ἡὅΝlἷitὁὄἷὅΝἶὁὅΝἶiὠlὁgὁὅΝἶitὁὅΝ“ἵὁὀvἷὀἵiὁὀaiὅ”ΝἶἷΝἢlatãὁ,ΝὀὁὅΝὃuaiὅΝumaΝἷὅtὄutuὄa,ΝumaΝ ordem, pode ser facilmente identificável, é bem possível que não se sintam familiarizados com algumaὅΝὁἴὄaὅΝἶitaὅΝ“aὀὲmalaὅ”, como é o caso do Filebo, a ponto de sugerirem as soluções mais bizarras para explicarem as transições e complexidades presentes no supracitado diálogo. Diante de tal dificuldade, talvez uma primeira opção seja uma leitura rápida e superficial; ou a busca por referências e significados externos, que não aquelas provenientes da leitura do próprio texto. Não podemos atribuir a Sócrates certa desatenção ao denominado “ὂὄiὀἵíὂiὁΝ ἶaΝ ὄἷlἷvâὀἵia”,Ν ὀἷmΝ mἷὅmὁΝ aΝ ἢlatãὁΝ ὃuἷΝ tὄaὀὅmitἷΝ ὀaΝ falaΝ ἶὁὅΝ iὀtἷὄlὁἵutὁὄἷὅΝ (Protarco e Filebo, 19a) a necessidade de atenção a esse princípio. Convém informar, para a insatisfação dos comentadores, que não seriam eles os primeiros a criticarem o desenvolvimento aparentemente confuso desse início de diálogo, mas esse aspecto é questionado pelos próprios interlocutores de Sócrates e o condutor não se encontra atento a essa demanda. (Cf. 18a1-2, 18d6, 19a1)

Talvez seria o caso de crer que essa transgressão tem um propósito implícito, de tal modo que essa suposta anomalia, dilui-se à medida que tomamos a relação entre forma e conteúdo característica da atividade literário-platônica, ou seja, quando buscamos considerar o objetivo em particular dessa discussão dialética, ou seja, os temas que são tratados, analisados, discutidos em relação à forma de exposição adequada para tal exposição. Como Platão geralmente se preocupa em apresentar com maestria o seu os temas caros à sua filosofia – e o Filebo particularmente trata de uma refinada questão não só para Platão, mas para os gregos em geral que encontram-se muito além de um debate escoliasta – utilizando- se de inúmeros recursos literários dos quais dispõem para a composição de seus diálogos, o que se exige, é no mínimo, um esforço por parte de seu leitor em reconhecer a particularidade desta composição e a profundidade por trás de uma suposta transgressão logográfica aqui encontrada63.

Tendo ressaltado que grande parte das leituras que surgem no século XX do diálogo ao demostrarem dificuldade em relação aos problemas com um todo levantados pelo diálogo, e, principalmente, ao problema principal da unidade, não só para fora do próprio texto dialógico, caso recorrente nas interpretações clássicas do Filebo, é até mais tentador supor que o diálogo é incompleto ou que nos remete à conteúdos extra-dialógicos, à doutrinas orais, reservadas, ou que o diálogo diz respeito a um problema em debate na época, dentre outros

63 Compartilho aqui das considerações feitas por Muniz (2007) ao tratar do problema das transições do Filebo relacionadas ao problema principal desse diálogo, a saber: a unidade (Cf. MUNIZ, 2007, p. 113- 124).

como jὠΝaὂὁὀtamὁὅ,ΝaΝfimΝἶἷΝὅuὂἷὄaὄἷmΝaὅΝὅuὂὁὅtaὅΝ“aὀὁmaliaὅ”ΝἶἷΝἶἷtἷὄmiὀaἶὁΝἷὅἵὄitὁΝἷΝ superarem as incompreensões manifestas por meio de uma leitura parcial, ou mesmo surpreendentemente inventiva sem se atentarem ao sentido profundo da discussão apresentada64. Se a intenção de Platão se presta a determinados objetivos, seja o da

perplexidade (19a) que Protarco deseja que não seja o objetivo primordial da discussão ali travada, e que, por sinal, prefigura a inventiva contemporânea de nossos intérpretes (a nova ontologia, os dois princípios), podemos formular a seguinte questão, auxiliados por Dixsaut (2011):

Se este é o caso, e se toda a primeira parte do diálogo (até 31b) não se explica por meio de tais obsessões do Platão da velhice ou o afloramento de uma doutrina dos princípios até então mantida em segredo, só podemos estar ἶἷΝaἵὁὄἶὁΝἵὁmΝἔilἷἴὁ,ΝaὁΝὃuἷὅtiὁὀaὄμΝ“ὁΝὃuἷΝiὅὅὁΝagὁὄaΝtἷmΝaΝvἷὄΝἵὁmΝὀὁὅὅaΝ ἶiὅἵuὅὅãὁς”Ν(1ἆa)Ν(ὂέΝἀἆἅ)έ

Contudo, pretendo dedicar um tempo maior a essas análises e os equívocos, a meu ver, nos quais elas ocorrem. Voltemos, então, ao diálogo: didaticamente, é possível propor uma organização do diálogo, digo apenas didaticamente, porque estes temas encontram-se interligados segundo creio. Quanto à divisão dos temas ou o modo como o diálogo é organizado de uma maneira geral, não são, habitualmente, notadas diferenças muito contrastantes entre os estudiosos, adoto aqui essa mesma forma genérica (habitual) utilizada para dividir os momentos que compõem a obra. Geralmente se reconhece que o Filebo pode ser divido (didaticamente) da seguinte maneira: (i) Prólogo (11a-14b): aqui serão apresentados os discursos e posteriormente a tese (prazer versus inteligência) e a busca pelo bem ou pela Vida boa. (ii) Metodologia adotada: a questão do Um e do Múltiplo e as questões sobre a dialética (14b-22b); (iii) A ontologia (divisão) dos quatro gêneros (22c-31b); (iv) a análise e classificação dos prazeres: a distinção entre prazeres falsos e prazeres verdadeiros (31b-55c); (v) Análise e classificação dos conhecimentos (55c-59c); (vi) Revisão das teorias precedentes (vida boa) e hierarquia final dos bens (59c-61c)65.