CAPÍTULO I A QUESTÃO AGRÁRIA NA FORMAÇÃO DO TERRITÓRIO BRASILEIRO
1.2 O Brasil e a Reforma Agrária
1.2.1 As Comunidades Eclesiais de Base (CEB´s)
Com o processo de modernização da sociedade, as igrejas passaram a se defrontar com novas situações: a complexa divisão do trabalho, a fragmentação dos papéis sociais, o desenraizamento das massas, a atomização da existência, o desencantamento do mundo, a monetarização das relações, a perda do sentimento de solidariedade, o avanço da racionalidade das instituições e o desapego as relações tipo primário, especialmente as referidas à família e à religião. Estes desafios colocaram-se como verdadeiros paradoxos para o cristianismo que havia prosperado a partir da vida em pequenas comunidades e teve que se adaptar à grande sociedade urbana para continuar existindo, combatendo o comportamento massificado e preparando os requisitos cristãos para a modernidade (Doimo, 1996, p. 91).
Foi diante de contextos históricos favoráveis que a Igreja Católica encontrou condições para fazer os ajustamentos necessários de seus valores à nova época. Depois da eclosão dos movimentos estudantis de 1966 a 1968, sobretudo os de 1968 na Tchecoslováquia, França, EUA, Alemanha, desconfiando de suas próprias realizações históricas, houve revalorização de alguma coisa que a Igreja se considerava portadora: a pessoa.
Na encíclica Mater et Magistra, elaborada em 1961 pelo Papa João XXIII, visando o Concilio do Vaticano II do ano seguinte, consta no parágrafo 256: “está inteiramente nos planos de Deus que o homem se desenvolva e se aperfeiçoe pelo trabalho cotidiano (...) e nos negócios temporais”(p. 90 op. cit). O cotidiano e as relações pessoais se tornam então eixos fundamentais para reprodução da institucionalidade da Igreja.
Para colocar em prática o projeto de divulgação de novas concepções na Igreja, aumentam os encontros e conferencias para o debate de temas, como: migração, industrialização, pobreza, marginalização na América Latina. O projeto modernizante da igreja oficial ganhou força com a criação da linha 6 da CNBB, voltada para o social e formalizado no segundo e terceiro planos bienais das pastorais (1973-74 e 1975-76). Surge uma igreja popular, destacando- se em especial a Teologia da Libertação. Uma espécie de teologia do desenvolvimento, voltada para a organização autônoma da sociedade civil, um popular desenvolvimentismo, abandonando a antiga concepção centrada no Estado nação (Op. cit. p.82).
No mesmo momento que surge a Teologia da Libertação iniciam-se a ação das CEB´s, na década de 60, em pleno regime militar. As CEB’s, surgem enquanto um espaço da Igreja Católica utilizado para encontros de formação política dos trabalhadores rurais. No principio, os setores mais conservadores da Igreja – majoritários – estavam a favor do golpe militar, apoiando a queda do governo de João Goulart. Gradativamente, os setores mais progressistas foram se fortalecendo, ampliando a popularidade e a expansão da Igreja Católica entre os pobres da América Latina.
Como uma das poucas instituições presentes em todo território nacional que escapava do controle do Estado, a Igreja, foi capaz de reconhecer as principais lacunas em relação às condições sociais necessárias para que pudesse se manter na vida da população. É com isso que favorece as ações, na organização de uma oposição política que se contrapunha ao Estado autoritário.
Um marco desta mudança sócio-política da Igreja, foi a declaração feita na Conferência de Medellín na Colômbia, anunciando a necessidade de uma reflexão teológica sobre o sentido da luta contra a injustiça.
Com o objetivo de implementar esta prática no Brasil, em 1975, foi criada a Comissão Pastoral da Terra (CPT) que passou a realizar trabalhos em paróquias das periferias das grandes cidades, e com as comunidades rurais, contribuindo na organização política dos trabalhadores e afirmando um novo espaço de atuação da Igreja.
Neste novo papel81, a igreja incorpora - em sua pedagogia, nos rituais e trabalhos na comunidade - a cultura, o interesse, a vontade e o conhecimento para refletir a história e evidentemente a realidade econômica deste povo. Esta iniciativa favorecia por fim, também uma aproximação com os mais pobres, setor no qual a Igreja Católica estava perdendo força.
81 “Ninguém nega a religiosidade do povo brasileiro. Alguns até diriam que este é o único modo que
encontram de enfrentar uma realidade nada agradável, de violência, miséria, abandono. Na ocupação de nosso território já se delineava este perfil, através da ação de jesuítas. Depois deste momento, vários foram os papéis que a Igreja Católica como instituição exerceu em nossa história. Legitimadora da escravidão do negro; subordinada no padroado aos desmandos do poder moderador; oposição ao império no amanhecer republicano. Tamanha foi a sua presença que aqui tornou-se conhecida a expressão ´´catolicismo popular´, ou ainda ´religiosidade popular´, indicando justamente a apropriação dos elementos da religião católica pelas camadas mais humildes do povo brasileiro” (Machado, Vitor Barletta, 2003).
O espírito de igualdade nas CEB´s afirmava-se na concepção de que todos são parte do “Povo de Deus”82. A partir deste princípio de igualdade as pessoas eram convidadas a participar dos ritos. Os sacerdotes estimulavam a participação dos leigos, abrindo a palavra em determinados momentos da missa. A leitura do evangelho estava associada à realidade da luta da comunidade. Por exemplo, durante os estudos bíblicos, no caso do sem-terra expropriado, faziam analogias entre o êxodo do povo hebreu e a migração dos trabalhadores rurais.
Assim, no final da década de sessenta começam a surgir as primeiras ocupações organizadas pela igreja, militantes de esquerda, partidos e o novo sindicalismo em ascensão. A luta pela terra transformou-se em interesse político na bandeira de partidos, sindicatos, além de assunto de interesse da Igreja. Muitas destas instituições, fundamentadas no socialismo da revolução cubana vislumbraram no campo brasileiro a possibilidade de uma revolução.
82 A conjuntura de supressão da participação popular fez com que o povo buscasse nas CEB´s um lugar