Emília Ferreiro, Ana Teberosky e uma equipe de pesquisadores criaram uma nova concepção sobre alfabetização, que diz respeito à introdução da criança na leitura e na escrita. O foco do estudo não era o sujeito que ensina e seus métodos, mas o processo de aprendizagem do sujeito. Dessa forma, para que a pesquisa fosse concretizada, foram necessários dois anos de trabalho experimental com crianças de quatro a seis anos de idade. Como afirma Elias (2000), a proposta de Ferreiro muda radicalmente o eixo da alfabetização, passando de “como se ensina” para “como se aprende”. Seu trabalho promoveu uma revolução conceitual em relação à alfabetização e aos processos de introdução da criança na leitura e na escrita. Hermine Sinclair, no prólogo da primeira edição de Psicogênese da língua escrita (FERREIRO; TEBEROSKY, 1985, p. 15) apresenta a seguinte ideia:
Este livro tem como objetivos tentar uma explicação dos processos e das formas mediante as quais a criança chega a aprender a ler e a escrever. [...] Nosso objetivo é o de apresentar a interpretação do
processo desde o ponto de vista do sujeito que aprende, e tendo tal interpretação seu embasamento nos dados obtidos no decorrer de dois anos de trabalho experimental com crianças entre quatro e seis anos..
Para Ferreiro e Teberosky (1985), há dois aspectos centrais para mudar a maneira como a criança é percebida no decorrer do processo de alfabetização: sua competência linguística e suas capacidades cognoscitivas. Conforme já foi discutido, é em Piaget que as autoras vão buscar as bases teóricas para compreender as capacidades cognoscitivas da criança em relação à língua escrita:
O sujeito cognoscente é o sujeito que busca adquirir conhecimento, o sujeito que a teoria de Piaget nos ensinou a descobrir. O que isso quer dizer? O sujeito que conhecemos através da teoria de Piaget é um sujeito que procura ativamente compreender o mundo que o rodeia, e trata de resolver as interrogações que este mundo provoca. Não é um sujeito que espera que alguém que possua conhecimento o transmita a ele, por um ato de benevolência. É um sujeito que aprende basicamente através de suas próprias categorias de pensamento, ao mesmo tempo em que organiza seu mundo. (FERREIRO; TEBEROSKY, 1985, p. 26).
Nessa perspectiva, a escrita da criança segue uma linha de evolução regular, através dos diversos meios culturais, de diversas situações educativas e de diversas línguas (FERREIRO; TEBEROSKY, 1985, p. 19). A construção de escrita da criança é dividida, então, em alguns períodos evolutivos, no interior dos quais também se evidenciam subdivisões. Pretende-se, agora, explicar de forma mais precisa as características dessas fases.
2.3.1 Fase pressilábica
A hipótese central assenta-se no fato de que a criança preocupa-se em reproduzir os traços típicos da escrita, da forma como ela os identifica. Nesse nível, o aprendiz inicialmente utiliza desenhos, rabiscos, letras ou o utros sinais gráficos para escrever, imaginando que a palavra, assim gravada, representa o objeto a que se refere. Há um avanço quando se percebe que a palavra escrita representa não o objeto diretamente, mas seu nome. Ao aprender as letras que compõem o próprio nome, o aluno nota que escreve com letras que têm diferentes desenhos.
Entretanto, nesse momento de escrita, mesmo após tomar consciência de que se escreve com letras e abandonar a utilização de outros sinais gráficos, o
aprendiz tenderá a grafar um número indiscriminado de letras, sem antecipar quantos e quais caracteres precisará usar para escrever cada palavra. Por exemplo, quando quiser escrever a palavra MAÇÃ, poderá escrever CMIAL, limitando-se a usar apenas um pequeno repertório de letras, como as de seu nome (CAMILA, por ex.), sem correspondência sonora alguma, tal como exemplificado na Figura 2. Abaixo, discrimina-se o processo de caracterização gráfica das escritas não convencionais e convencionais.
Escritas não convencionais
Utilização de grafismos primitivos, predomínio de garatujas ou pseudoletras.
A escrita pode ser unigráfica, apresentando uma só grafia para cada nome, com uma quantidade constante e um repertório fixo ou variável.
Escritas convencionais
A representação de uma escrita pode ser convencional, mas sem o controle da quantidade de símbolos, constituindo, assim, uma sucessão de grafias só interrompidas pelo limite da folha .
A representação da escrita pode implicar a sucessão de letras e números.
A criança pode apresentar grafismos separados, com linhas curvas, retas e suas combinações.
*Disponível em:<www.coordenacaopedagogica.blogspot.com >. Acesso em: 14/09/2013. .
2.3.2 Fase silábica
O estudante passa a perceber a correspondência entre a representação escrita das palavras e as propriedades sonoras das letras, utilizando, ao escrever, uma letra para cada emissão sonora.Quando incitado a refletir sobre a quantidade de vezes que se abre a boca para pronunciar determinada palavra , o aluno começa, só então, a antecipar a quantidade de letras que deverá registrar para escrevê-la. Nesse momento, o aluno avança para o próximo nível de escrita, o silábico, sem valor sonoro, pois, de início, grafará uma letra para cada sílaba. Entretanto, seu registro não terá correspondência sonora. Para escrever a palavra CASA, poderá grafar IT, por exemplo.
Assim, a passagem para o nível silábico é feita mediante atividades de vinculação do discurso oral com o texto escrito, da palavra escrita com a palavra falada. O aprendiz descobre que a palavra escrita representa a palavra falada, mas acredita que basta grafar uma letra para pronunciar uma sílaba oral:
[A criança] começa diferenciando o sistema de representação escrita do sistema de representação do desenho. Tenta várias abordagens globais (hipótese pré-silábica), numa busca consistente da lógica do sistema, até descobrir – o que implica uma mudança violenta de critérios – que a escrita não representa o objeto a que se refere e sim o desenho sonoro do seu nome. Neste momento costuma aparecer uma hipótese conceitual que atribui a cada letra escrita uma sílaba oral. Esta hipótese (hipótese silábica) gera inúmeros conflitos cognitivos, tanto com as informações que recebe do mundo, como com as hipóteses de quantidade e variedade mínima de caracteres construída pela criança. (WEISZ, 1990, p. 73).
Assim, só entrará para o nível silábico com correspondência sonora à medida que seus registros apresentarem essa relação: por exemplo, quando, para CASA, grafar CZ. Deve ficar claro que,mesmo com equívocos ortográficos, o mais importante, nesse momento, é a correspondência sonora com o que é representado: para GATO, GO (G=ga, O=to), BEA (B=bo, E=ne, A=ca) para BO-NE-CA, e assim por diante, tal como se demonstra na Figura 3.
Figura 3. Exemplo de escrita silábica*
*Disponível em: <www.coordenacaopedagogica.blogspot.com>. Acesso em:.14/09/2013
2.3.3 Fase silábico-alfabética
Corresponde a um período de transição entre a hipótese silábica e a hipótese alfabética. Nessa fase, o estudante trabalha simultaneamente com as duas hipóteses: em alguns momentos, atribui a cada sílaba uma letra e, em outros, representa-as como unidades sonoras menores, os fonemas. A tendência é que os alunos façam um uso maior de consoantes, embora por vezes acreditem que empregar apenas as consoantes não é suficiente para a construção das unidades menores (sílabas) das palavras. Para escrever uma palavra, o estudante pode ora fazer a composição da sílaba, ora apenas apresentar consoantes ou vogais isoladas, como se pode perceber na Figura 4.
[...] vão desestabilizando a hipótese silábica até que a criança tem coragem suficiente para se comprometer em seu novo processo de
construção. O período silábico-alfabético marca a transição entre os esquemas prévios em vias de serem abandonados e os esquemas futuros em vias de serem construídos. Quando a criança descobre que a sílaba não pode ser considerada como unidade, mas que ela é, por sua vez, reanalisável em elementos menores, ingressa no último passo da compreensão do sistema socialmente estabelecido. E, a partir daí, descobre novos problemas: pelo lado quantitativo, se não basta uma letra por sílaba, também não pode estabelecer nenhuma regularidade duplicando a quantidade de letras por sílaba (já que há sílabas que se escrevem com uma, duas, três ou mais letras); pelo lado qualitativo, enfrentará os problemas ortográficos (a identidade de som não garante a identidade de letras, nem a identidade de letras a de som). (FERREIRO; TEBEROSKY, 1985, p. 13-14).
Figura 4. Exemplo de escrita silábico-alfabética:*
* Disponível em:<www.coordenacaopedagogica.blogspot.com>. Acesso em:.14/09/13
2.3.4 Fase alfabética
Finalmente, a criança atinge a hipótese alfabética, mediante a qual analisa, nas palavras, suas vogais e consoantes. Acredita que as palavras escritas devem representar as palavras faladas, com correspondência absoluta de letras e sons. Pode-se afirmar que, nessa fase, a criança já está “alfabetizada”, porém ainda apresenta sérios conflitos ao comparar sua escrita alfabética e espontânea com a escrita ortográfica, em que se fala de um modo e escreve-se de outro. Porém, aos poucos, a criança vai superando as dificuldades ortográficas e avançando em sua escrita.