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AS CONCEPÇÕES E MODELOS DE EXTENSÃO RURAL NO BRASIL

3 PANORAMA DA ATER NO CONTEXTO BRASILEIRO

3.2 AS CONCEPÇÕES E MODELOS DE EXTENSÃO RURAL NO BRASIL

Inicialmente a extensão rural brasileira acabou seguindo o modelo norte-americano, onde o extensionista é o elo entre a pesquisa e os agricultores, através de um processo de comunicação unilateral, a partir dos preceitos difusionistas de Everett Mictchel Rogers e que tinham por objetivo o aumento da produção agrícola, usando para tanto, processos de transferência de tecnologia, através de técnicas de persuasão (WAGNER, 2011).

Relevante as citações de Willy Johanan Timmer14, especialista em Extensão Agrícola da FAO, em sua passagem pelo Brasil na década de 50, e reproduzido por Eros Mussoi (1985, p. 44),

As contradições são encontradas no próprio discurso de TIMMER quando, no mesmo documento faz colocações como “a questão é persuadir os agricultores a utilizar os melhores métodos”,(...) “se não persuadirmos as populações rurais a empregar um método de produção e se não lhes dermos os meios indicados, a educação será apenas instrução”(...) “a educação deve elevar o nível das necessidades das populações rurais para que então o fomento encontre um ambiente para seus meios e métodos diretos” (...) “persuadir as populações rurais a aceitar nossa propaganda é justamente a tarefa do extensionista” (...) a rivalidade tem sido o motivo que vem se utilizando a extensão agrícola como ponto de partida para a realização de competições e concursos agrícolas” (...) “devemos salientar a necessidade de uma reforma mental na atividade e concepção da vida das populações” (MUSSOI, 1985, p. 44, grifos do original).

Samborski (2015, p. 73-75), comenta sobre os resultados insatisfatórios do serviço de extensão da na primeira avaliação da ACAR-MG, realizado em 1952, por uma equipe de técnicos americanos. Frente a isso, se faz uma adequação ao sistema clássico para uso no mundo subdesenvolvido, que se denominou difusionista-inovador, a partir de contribuições de Everett Rogers, antropólogos ingleses e na teoria dos sistemas sociais de Talcott Parsons.

Assim, com estas alterações e através do uso constante e auxiliar do crédito rural, a extensão passou pelas décadas de 60, 70 e parte de 80, contribuindo enormemente para o processo da modernização conservadora no campo (PIRES e RAMOS, 2009), com práticas e metodologias favoráveis à adoção da “Revolução Verde”.

Em meados da década de 80, acompanhando o movimento em que a participação social é concebida como estratégia básica para a consolidação no estado democrático, surge um movimento interno e externo à extensão rural, questionador destes processos extensionistas, denominado como “Repensar da Extensão Rural”.

14 Ver mais em TIMMER, W.J. Planejamento do trabalho em extensão agrícola. Rio de Janeiro, Ministério da

Por um lado, os movimentos sociais reorganizados a partir do final da década de 70, a tensão gerada pelos conflitos pela terra, a grande diferenciação social ocorrida no campo em razão do processo de modernização, o êxodo rural de enorme contingente de pessoas e o empobrecimento da grande maioria da população rural, exigiam uma nova postura dos aparelhos de Estado diante da população. Por outro lado, as próprias contradições internas dos aparelhos, aliadas à necessidade do Estado atuar no sentido de amortecer as tensões crescentes e as demandas criadas a partir da “abertura política”, justificavam que a EMBRATER se propusesse a mudar seu discurso, influindo de maneira direta nas suas filiadas EMATER's, nos estados da federação (CAPORAL, 1991, p. 12).

Para Caporal (1991) este tema cria conformação com a democratização e a posse do presidente da EMBRATER, Sr. Romeu Padilha de Figueiredo, em 15/05/1985, que era um questionador da extensão rural brasileira e possibilitou às filiadas da Embrater uma nova dinâmica no trabalho com os agricultores abandonados pelo processo de modernização.

Cabe citar também, a importância das obras de Paulo Freire para a ampliação do debate, em especial, a Pedagogia do Oprimido (1968) e Extensão ou Comunicação? (1969 Chile; 1971 Brasil).

Antes disso, o termo já havia sido usado, entre outros, por Juan Bordenave, em texto elaborado como contribuição para os debates ocorridos na Reunião Técnica de Professores da Extensão Rural, em Belo Horizonte, em 1977 e por Eros Marion Mussoi, no texto Extensão Rural: Uma contribuição a seu repensar15.

Na Emater/RS, este “Repensar” culmina com o Seminário Extensão Rural: Enfoque Participativo, em 1987. Deste seminário, foi criado um documento com o mesmo título, em que em sua apresentação o Presidente da Emater/RS afirma,

O conjunto de diretrizes e estratégias aprovadas pelos representantes das diversas unidades operativas são consideradas por esta diretoria como orientação básica a ser seguida pela EMATER – RS no período de 1987/91 e deverão estar consubstanciadas no Plano Diretor da Organização para este período... é importante que, desde já, cada funcionário procure analisar e internalizar as diretrizes aqui apresentadas, bem como considerá-las no seu processo de trabalho e na operacionalização das suas ações de Ater (CAPORAL, 1991, p. 15).

Caporal chama a atenção para alguns parâmetros fundamentais de mudança.

O processo educativo, até então, utilizado para “induzir” mudanças, passava a ser substituído pelo “processo educativo dialógico”. A população rural, antes vista como depositária do conhecimento dos técnicos, passa a ser considerada como “agente ativo e responsável pelo próprio progresso”. A atuação, antes baseada na transferência de tecnologia, de fora para dentro das comunidades, deveria passar a considerar a realidade e as necessidades da sociedade em geral. Para que isto fosse

possível, o objetivo da atuação da EMATER RS, que antes preconizava a transferência de tecnologia como caminho para o aumento da produção, produtividade e renda das famílias rurais, passa a determinar aos extensionistas que participem do processo de desenvolvimento rural através de uma metodologia de educação não formal participativa (CAPORAL, 1991, p. 15).

Constitui-se um novo contexto, para novas possibilidades dos extensionistas, frente à sua atuação de campo, no entanto, o próprio Caporal (1991, p. 16) analisando o Programa Operativo da Emater/RS para o ano de 1990 verificou retrocessos ao invés de avanços na ação extensionista e ressalta que, “[...] qualquer mudança nesta prática, dependerá, antes, de mudanças que devem ocorrer nos próprios extensionistas, a partir da sua visão de mundo” (Ibid., p. 120).

A partir de meados dos anos 90, e mais efetivamente no início dos anos 2000, experiências de ATER com enfoque participativo passam a ganhar contornos, na Emater/RS. Em 1995, a instituição, recebeu a assessoria do Centre de Cooperacion Internacional em Recherche Agronomique pour Développement (CIRAD) da França, e começou a aplicar o Diagnóstico Rural Participativo (DRP)16. No ano de 1997, a EMATER/RS-ASCAR realiza formação dos seus técnicos visando prepará-los para assessorar ações, em nível de município e de comunidades, dentro da perspectiva do desenvolvimento rural sustentável (SOARES, 2012).

As mudanças se intensificam na gestão administrativa do governador Olívio Dutra (1999-2002), quando a Agroecologia ganha prioridade de ação institucional e assim, as metodologias participativas e os processos construtivistas de educação não-formal são ainda mais utilizadas, levando-se em conta a visão holística e sistêmica, empoderamento das comunidades e respeito aos diversos saberes (SOARES, 2012).

Da mesma forma, o fato do até então diretor técnico da Emater/RS, Francisco Roberto Caporal, ser cedido ao recém-criado MDA, passando a coordenar o DATER, sendo um dos responsáveis pelo processo de discussão e formulação da PNATER, bem como, pela formação de técnicos prestadores desses serviços, ampliou este modo de fazer ATER pelo país.

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Conjunto de técnicas e ferramentas que permite que as comunidades façam o seu próprio diagnóstico, portanto um processo de auto-reflexão, visando o planejamento e a autogestão do seu projeto de desenvolvimento (Verdejo, 2006)

A partir da gestão e criação da ANATER, com forte presença da EMBRAPA, o modelo orientado ao difusionismo e à transferência de tecnologias, parece estar sendo retomado, com similaridades ao processo de instauração da Revolução Verde.

A ANATER dá novo fôlego ao caráter impositivo das ações de extensão rural iniciado na década de 1960, no qual o agricultor passa ao papel de coadjuvante, restringindo sua função participativa e de cooperação no processo de desenvolvimento (ZARNOTT, et al., 2015, p. 18)

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Estas alterações são explícitas desde o lançamento da agência em 2013, conforme demonstram as lâminas abaixo retiradas de apresentação feita pelo Governo Federal.

Figura 5 – ANATER e a proposta difusionista

Fonte: BRASIL (2013), adaptado pelo autor.

Evidencia-se assim, um protagonismo da Embrapa na capacitação para os extensionistas a partir da operacionalização da Anater, no entanto capacitando com uma visão difusionista, não-dialógica e setorial, já que esse formato de capacitação dos técnicos é oriundo da metodologia Treino & Visita (T&V), amplamente difundida pela Embrapa como um recurso para que as tecnologias desenvolvidas na empresa sejam levadas até os agricultores. (ZARNOTT, et al, 2015, p. 9).

a pesquisa agropecuária brasileira já desenvolveu milhares de projetos, produziu conhecimentos e tecnologias, mas muitas vezes eles não são adotados pelos agricultores. Visando sanar essa lacuna foi adaptada para a realidade brasileira a metodologia T&V, que consiste basicamente na formação e treinamento de técnicos multiplicadores cuja tarefa é formar e treinar grupos organizados de técnicos multiplicadores de campo (os técnicos de ATER, no caso) que, por sua vez, devem repassar as tecnologias para grupos organizados de produtores rurais (ZARNOTT, et al., 2015, p. 9).

Desta forma, a ATER seguindo esta linha de atuação desenha-se no contrafluxo das conquistas das duas últimas décadas de construção de metodologias dialógicas e participativas, com respeito aos conhecimentos e realidades locais e culturais.

Cabe lembrar, que neste ano de 2017, a ANATER iniciou a implementação de contratos, termos de parceria e instituiu o Pacto pela Nova Ater, sem que tenha sido discutido nenhuma estratégia, modelo, plano ou abrangência com o Conselho Assessor Nacional, órgão de caráter propositivo e consultivo. Da mesma forma, não teve contato oficial com o pleno do Condraf, visto que este conselho não teve reunião ordinária ou extraordinária desde o impedimento da presidente Dilma Rousseff até o presente momento (agosto de 2017), desrespeitando o colegiado e a democracia representativa brasileira.

Pertinente salientar, que em todos os períodos e sob todas as diretrizes gerais sempre houve heterogeneidade nas ações e práticas da extensão rural e dos extensionistas, entremeando atividades de cunho difusionistas e participativas.