Varella (2017) relata suas experiências, vivenciadas no período em que fora voluntário na Penitenciária Feminina da Capital, em São Paulo. O livro retrata as desigualdades de gênero, que são ainda mais cruéis atrás das grades, demonstrando que para as mulheres é ainda mais difícil promover a sua reintegração social, tendo em vista que o contexto do cárcere, para as mulheres, é ainda mais doloroso.
Varella (2017) relata as experiências vividas dentro da prisão, desde sua chegada, demonstrando as dificuldades enfrentadas no espaço físico onde eram realizadas as consultas. Segundo o autor, o espaço entre a sala de espera e o consultório era o mesmo, o qual era
dividido apenas por uma cortina; o local era pequeno, sem janela, possuindo apenas uma mesa e uma cadeira de plástico, além da maca para consulta ginecológica.
Relata o descaso ocorrido no ano de 2015, quando ocorreram problemas técnicos com as caldeiras, e o presídio passou a contar apenas com água fria para o banho, problema que, apesar das queixas, no início de 2017, ainda não havia sido resolvido. Esta condição obrigou as presas a tomar banho frio no inverno. Nas palavras de Dona Sebastiana, presa aos 68 anos: “É uma desumanidade. Não só comigo, que já estou velha para passar frio, mas para essas mocinhas que tomam banho gelado, naqueles dias, com cólica” (VARELLA, 2017, p. 24).
Varella (2017) descreve ainda que muitas presas relatam se sentir sós, que o abandono é o que mais aflige as mulheres, tendo em vista que, para a sociedade, a prisão de uma mulher envergonha a família inteira, diferentemente do que ocorre com os homens, que tem o apoio da mãe, esposa, namorada, as quais por muitas vezes passam a noite para poder visitar o apenado. Já no caso das mulheres, segundo Varella (2017, p. 39), “as filas são pequenas, com o mesmo predomínio de mulheres e crianças; a minoria masculina é constituída por homens mais velhos, geralmente pais ou avós. A minguada ala mais jovem se restringe a maridos e namorados [...]”. É válido frisar que, a manutenção de vínculos afetivos é de extrema importância, além de ser direito garantido, e quando não ocorre, pode causar “[...] distúrbios de comportamento, transtornos psiquiátricos e dificulta a ressocialização” (VARELLA, 2017, p. 39). A importância do convívio familiar era perceptível ao brilho nos olhos das mulheres, as quais alegremente abraçavam seus filhos, e os conduziam às celas, as quais eram preparadas carinhosamente para o momento.
Ainda, Varella (2017) relata ter atendido inúmeras mulheres em estado de choque, por terem perdido seus filhos adolescentes, envolvidos com o mundo do crime. A presença da mãe no ambiente familiar é de extrema importância e insubstituível, sendo que sua ausência geralmente acarreta na entrada dos filhos para o mundo das drogas e do crime. Segundo o médico, Suzana, apenada, perdeu dois filhos, e nem se quer pode estar presente na despedida.
Relata Varella (2017) que as presas grávidas saíam apenas para dar à luz. O censo carcerário, realizado pela Fundação Oswaldo Cruz e pelo Ministério da Saúde, denominada “Saúde materno-infantil nas prisões”, constatou que o atendimento se dá de imediato, cerca de meia hora do início do trabalho de parto, em 60% (sessenta por cento) dos casos. No entanto,
apenas 10% (dez por cento) têm suas famílias avisadas, o que reflete no percentual de 3% (três por cento) as que tiveram acompanhante durante o parto (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2017).
A pesquisa supra demonstrou que 16% (dezesseis por cento) das mulheres que entram em trabalho de parto sofreram algum tipo de maus-tratos e violência psicológica pelos profissionais da área da saúde, bem como em 14% (quatorze por cento) dos casos pela própria escolta. Ainda, que 8% (oito por cento) das mulheres entrevistadas esteve algemada durante o trabalho de parto, e 36% (trinta e seis por cento) usou algemas em algum momento da internação. Apenas 11% (onze por cento) recebeu autorização de visita (CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA, 2017).
Varella (2017) relata que logo que chegou para trabalhar na penitenciária, as mães permaneciam sob guarda dos seus filhos pelo período de dois meses apenas. Passado esse tempo, a criança ficava sob responsabilidade de algum familiar, ou então do Conselho Tutelar. No entanto, a separação entre a mãe e a criança aos dois meses era contrária às orientações do Ministério da Saúde, o qual preconiza que a mãe tem o dever de alimentar exclusivamente a criança pelo menos até os 6 (seis) meses, quando a Lei foi alterada, e nas palavras de Varella (2017, p. 46): “Quando a Justiça se deu conta da injustiça que é punir um bebê pelos erros cometidos pela mãe, o período de seis meses passou a ser respeitado”.
Quanto às celas especiais, destinadas às mães que acabam de dar à luz, expõe Varella (2017) que possuem os utensílios necessários para um recém-nascido, como fraldas, berço e mamadeiras e que as mães passam o tempo todo envolvido com os bebês, o que torna a separação ainda mais dolorosa.
Varella (2017) atenta ao fato da multiparidade, sendo comum mulheres com 25 anos possuírem dois, três filhos, afirmando que se atende uma mulher nessa faixa etária que não possui nenhum filho é gay ou não pode ter filhos em face a infertilidade.
Queiroz (2015), inspirada por Heidi Hann Cerneka, coordenadora da Pastoral Carcerária Nacional, escreve em seu artigo de 2009: “para o Estado e a sociedade, parece que existem somente 440 mil homens e nenhuma mulher nas prisões do país. Só que, uma vez por mês, aproximadamente 28 mil desses presos menstruam”.
Queiroz (2015) relata em seu livro um pouco da realidade vivida por mulheres atrás das grades, e como é o retorno aos seus lares, como é o caso de Safira, que após cumprir a pena de quase 6 anos, passa ao regime semiaberto e finalmente consegue realizar seu maior desejo ao chegar em casa, servir o café da manhã para seus filhos. No entanto, ela acaba por se decepcionar por não conhecer mais os gostos de seus filhos:
Eu não conheço meus filhos. Eu sou assim: eles sabem que eu sou a mãe deles, mas praticamente sou uma desconhecida. Além de eu ter que me adaptar às coisas que eu perdi todo esse período que estive presa, eu tenho que aprender a conhecer os MEUS filhos (QUEIROZ, 2015, p. 12).
Esta realidade encontra-se presente não só na vida de Safira, mas de tantas outras mulheres que passam muitos anos atrás das grades, sem poder conviver com seus filhos, sem poder vê-los crescer. Queiroz (2015) relata, através da realidade vivenciada por Júlia, os maus-tratos e a violência sofrida durante o momento do flagrante a sua prisão temporária, quando apanhou 25 dias, dos 30 que se manteve presa preventivamente. Conhecendo seus direitos, Júlia solicitou a realização de exame de corpo de delito, bem como solicitou registro de queixa contra os abusos. Ao ser encaminhada ao médico, para a realização de perícia, fora surpreendida com a não realização do exame, sendo que o médico nem sequer olhou para ela.
Nas próprias palavras de Júlia:
– Assim, como se eu tivesse sido examinada, e eu não fui. Cada vez que eles me buscavam na cadeia para interrogatório, era um carro diferente. Mas aí começaram a surgir os hematomas. Então, como eu voltava pra delegacia, as policiais começaram a pegar no pé deles. Na próxima vez que pedi exame, uma delas que me acompanhou até o IML, eu tirei a roupa, fui examinada e ela viu os hematomas. Depois de um ano que eu tava presa veio uma audiência pra eu ir. Disse tudo que aconteceu e simplesmente ninguém falou mais nada. Morreu o assunto (QUEIROZ, 2015, p. 22).
Desta forma, é possível perceber o tamanho do descaso das autoridades em relação às pessoas que se encontram em condições de vulnerabilidade. A incidência de violência, tanto no ato do flagrante, como durante a prisão, seja ela cautelar ou definitiva, é bastante corriqueira. Diante desses abusos, implementou-se as chamadas Audiências de Custódia, que buscam a apresentação a um juiz, no prazo de 24 horas, para apurar se houve alguma ilegalidade, ou abuso no momento da prisão, o que em tese, na teoria possui muita validade.
Queiroz (2015) relata em seu livro o sufoco vivido por Gardência. No momento de sua prisão, ela já estava em fase avançada de sua gravidez, mas sua situação não sensibilizou os agentes que autuaram sua prisão, os quais a trataram com violência. No quarto dia que se manteve presa na delegacia, passou a sentir dores muito fortes, e gritava por ajuda, no entanto, os policiais alegavam não existir viaturas disponíveis para levá-la ao hospital. O desespero foi tanto que arrumaram uma viatura para sua condução ao hospital. Ao chegar lá, Gardência foi muito bem tratada, conforme relata:
– Ela me tratou bem. Eu sentia dor, porque conforme dá os ponto dói, né? E eu: “ai dotora, tá doendo”, e ela dava outra anestesia. Se desse uma pontada, ela dava outra. Dava anestesia sem dó. Sem economizar. Então, quer dizer, eu achei que ela me tratou bem porque geralmente eles dão ponto a cru, né? Lembro dela: era branquinha, do cabelo bem lisinho, assim, comprido. Um amorzinho. Os cabelos loiros, os olhos pretos. Era bonita, uma cara de menina bem novinha. Eu ia até pôr o nome da minha filha em homenagem à médica: Dariane. Não pôs. Mais tarde, por medo de perder a guarda da filha, pediu que a irmã corresse para registrá-la. Como a irmã não sabia que nome a mãe havia escolhido, colocou Ketelyn mesmo, que era um de que ela gostava.
– Fiquei triste porque eu queria esse outro nome, né? Tanto é que eu fiquei chamando ela um tempão de Dariane. Dei todas as vacinas nela como Dariane antes de registrar, na carteirinha, o nome é Dariane. Aí depois que registrou começou a chamar ela de Ketelyn. Mas tá bom, já acostumei Ketelyn mesmo. Tem que acostumar, né, fazer o quê? (QUEIROZ, 2015, p. 41).
Insta salientar o tamanho de sua gratidão por ter sido tratada como “gente”, considerando que na delegacia onde estava presa, sofreu maus-tratos, a ponto de fazer com que sua filha nascesse antes do tempo. Após o parto, Gardência mal pôde ver sua filha, e imediatamente fora algemada em sua cama. Conforme a autora:
O procedimento é comum para presas que dão à luz. A ativista Heidi Cerneka, uma americana de português quase impecável e fala pausada, que há treze anos trabalha com a causa da mulher presa no Brasil na Pastoral Carcerária, faz brincadeira com esse protocolo:
– Tem mulher que até dá à luz algemada na cama. Como se ela pudesse levantar parindo e sair correndo. Só homem pode pensar isso. Porque mesmo que ela pudesse levantar, qualquer policial com uma perna só andaria mais rápido que ela (QUEIROZ, 2015, p. 42).
Lamentável que isto ainda ocorra, além da maioria chegar algemada no hospital, e muito bem escoltada, ter que se sujeitar a permanecer algemada durante sua recuperação. É deprimente, humilhante, triste, além de violar a Regra 24 de Bangkok, a qual não permite que as mulheres sejam algemadas tanto no trabalho de parto, quanto depois.
Em relatos descritos por Queiroz (2015), presenciados pela ativista Heidi, existia muito descaso com as presas mães. Heidi acompanhava mulheres prostitutas na prisão, cujas era presas por tráfico e se queixavam do tratamento que recebiam nas prisões. Relata ter visto mulheres e crianças dormindo no chão, por não haver espaço nas celas, a população carcerária chegava a quase o triplo de sua capacidade.
Alega ainda, que dificilmente as presas possuem acompanhamento pré-natal, pois na maioria dos casos já chegam na prisão grávidas, e são destinadas as celas comuns, com as demais presas, sem haver o alocamento nas celas especiais, conforme dispõe a lei. Já aconteceu muitas vezes das mães darem à luz nos próprios estabelecimentos prisionais, com parto feito pelas próprias presas e enfermeira da prisão:
Já nasceu muita criança dentro do presídio porque a viatura não chegou a tempo, ou porque a polícia se recusou a levar a gestante ao hospital, já que provavelmente não acreditou – ou não se importou – que ela estava com as dores de parto (QUEIROZ, 2015, p. 43).
Situação que pode comprometer a saúde física e mental tanto das mães, quanto das próprias crianças que nascem nas cadeias, possibilitando uma futura revolta desses adolescentes, abrindo margem ao mundo do crime, consequência da ausência do poder público.
Queiroz (2015) relata o descaso dos agentes em relação aos horários de amamentação dos recém-nascidos no hospital, como é o caso de Gardência, que dependia da boa vontade dos mesmos para que sua filha pudesse ser amamentada, pois quando as mulheres dão à luz, permanecem em um quarto e as crianças no berçário. Quando Gardência ganhou alta, sua filha teve de permanecer no hospital, e ela não pode nem ao menos se despedir da pequena, pegando em seus braços, permanecendo apenas com sua imagem, pela janela de vidro, local onde o agente permitiu que fosse feita a despedida. Com a alta de Gardência, retornou à cela da delegacia, que não tinha nada de especial diante de suas necessidades pós-parto, a falta e higiene no local fez com que seus pontos inflamassem, conforme relata:
(...) Doíam tanto que não conseguia andar direito. Chegou a ir ao hospital, onde lhe receitaram vinte injeções de anti-inflamatório. Levaram-na pra tomar duas delas e depois não levaram mais. Não tinha viatura, não tinha policial, sempre havia uma desculpa. Concluiu que era má vontade e não adiantava insistir. Teve que sarar com as duas que tomou mesmo (QUEIROZ, 2015, p. 43).
Mais uma vez se evidencia a negligência por parte do Estado em relação ao ser humano que se encontra sob sua custódia, ou seja, que deveria estar sob sua proteção.
Ventura, Baptista e Larouzé (2015), em sua obra “A jurisprudência brasileira acerca da maternidade na prisão”, discutem a questão das crianças que convivem atrás das grades, sendo que o meio é totalmente inapropriado, fazendo com que a criança deixe de se desenvolver, pois as condições ambientais interferem negativamente em seu crescimento, fazendo com que a criança também sofra a pena. No entanto, esse convívio é visto como uma motivação para as presas, de maneira a fazer com que elas modifiquem seus comportamentos.
Os autores em comento, ainda fazem menção ao Habeas Corpus com efeitos coletivos 0074015-74.2011.8.11.0000, julgado em 18/11/2011, no Tribunal de Justiça do Estado do Mato Grosso, pelo qual buscava-se a prisão domiciliar à 47 mulheres presas, ou de maneira alternativa, que seus filhos ficassem sob tutela de familiares, não havendo a possibilidade, que fossem encaminhados para locais de acolhimento, desde que permitido o deslocamento para a devida amamentação das crianças. O pedido se deu em face das crianças permanecerem alocadas em locais insalubres, sem alimentação adequada, sem médico especialista, tampouco medicamentos em caso de necessidade para as crianças, revelando em verdadeiro descaso, que ocorre inclusive aos inocentes, que não possuem culpa nenhuma por estarem ali.
Ventura, Baptista e Larouzé (2015), ainda narram em sua obra a estória de Luiza, que nasceu na prisão, filha de mãe e pai presos, que aproximadamente aos 4 anos de idade, foi retirada do estabelecimento prisional por religiosas, e que ao sair ficou impressionada ao olhar o céu e conhecer as estrelas, tendo em vista que nunca teve acesso ao lado de fora da prisão, tampouco ao cenário na noite, sendo que atrás das grades o dia se encerra as 17 horas. Com esta narrativa é possível vislumbrar que não são somente as mães que cumprem a pena.
Ainda se tratando da questão dos alojamentos especiais destinados as mulheres gestantes ou que tenham dado à luz recentemente, Ventura, Baptista e Larouzé (2015, p. 539) relatam as condições que vivem as mulheres em uma penitenciária no Paraná:
No Paraná o contraste é ainda mais gritante, na medida em que a mulher gestante, e mesmo puérpera, não ascende a nenhum lugar na prisão por conta de sua situação especial; ao contrário, lhe era destinado um dos lugares mais precários da prisão: a “Galeria A”, onde ficavam as mulheres grávidas, e, nos seis meses após darem à luz, seus bebês. O local destinado a gestantes e puérperas era o mais precário da prisão,
com péssima infraestrutura, um ambiente completamente insalubre, composto por um espaço bem estreito (uma espécie de corredor com quartos), com sete celas com duas camas cada, um banheiro de uso geral e uma lavanderia. No dia em que a equipe de pesquisa esteve presente, as mulheres da “Galeria A” puderam sair para o banho de sol; porém, em conversas informais, as presas denunciaram que elas não saíam das celas fazia mais de quinze dias e que isso só se deu devido à presença das pesquisadoras na unidade prisional.
Desta forma, é notório o descompasso existente entre a lei e a prática. Sendo que, ao invés de possuírem melhores condições neste período, levando em conta que se trata de momento em que a mulher encontra-se em estado de maior vulnerabilidade, elas são postas em celas piores, sem as mínimas condições tanto para elas quanto para seus bebês.
Queiroz (2015) ainda traz à tona a questão do abandono que ocorre com as mulheres que são presas: dificilmente elas recebem visitas de sua família e amigos. Quando entram na prisão simplesmente esquecem que elas existem. Atenta ao fato das revistas, que ocorrem de maneira vexatória em estabelecimentos que ainda não possuem aparelhos de radiografia corporal, que inclusive as crianças e os bebês estão submetidos. Por muitas vezes é objeto no livro a questão da violência no ato da prisão, relatos de agressão são constantes, inclusive à gestantes, e mesmo com a queixa e o corpo de delito, nenhuma providência é tomada.
2.3 A privação de liberdade como privação de dignidade: a violação sistemática de