OS BRASILEIROS DA COSTA DA CAPARICA
3.6 AS CONEXÕES COSTA DA CAPARICA-ESPANHA
Los cayucos llegan ahora de Portugal. Com esta manchete, o jornal La Vanguardia informava, em Outubro de 2006, a chegada à Espanha de milhares de
imigrantes que estavam em Portugal. Estes imigrantes, segundo o La Vanguardia, fugiam da crise econômica portuguesa e procuravam novas oportunidades no país vizinho, contando para isso com o auxílio de intermediários que angariavam grupos de trabalhadores para os levar até a Espanha.
Prácticamente la mitad de la numerosa colonia ucraniana, compuesta por unas 60.000 personas, se ha marchado ya. También una parte de los cien mil brasileños, que representan una quinta parte de los inmigrantes en Portugal, y miles de los africanos que llegaron de las ex colonias. En su horizonte inmediato está España, donde esperan encontrar el trabajo que ahora escasea en Portugal. Y mejores sueldos. (LA VANGUARDIA, 15/10/06)
Tratava-se, de acordo com o mesmo jornal, de uma característica nova das migrações interfronteiras, pois, se até então o que ocorria era uma emigração de portugueses para a Espanha, agora o que se percebia era um deslocamento de ucranianos, brasileiros e africanos que haviam chegado em Portugal especialmente entre o início da década de noventa e o princípio dos anos dois mil.
A notícia acima referida, publicada na edição dominical do jornal La
Vanguardia, circulou não só na Espanha, mas também em Portugal, graças à reprodução
feita pelo Alto Comissariado Português para a Imigração (ACIME). Ainda em 2006 e ao longo de 2007 novas notícias sobre o mesmo assunto ganharam as páginas tanto de jornais portugueses quanto espanhóis, numa evidência de que o fenômeno do deslocamento de Portugal para a Espanha continuava com bastante força.
Foi em meio a esse contexto que cheguei à cidade da Costa da Caparica, em setembro de 2007, para o trabalho de campo junto a brasileiros trabalhadores ali residentes. Mesmo sem saber previamente da existência do que mais tarde denominaria A Rota Espanhola, não demorou para que o assunto viesse à tona à medida que freqüentava bares, restaurantes, casas de envio de dinheiro ou simplesmente sentava junto a rodas de brasileiros que reuniam-se na praça central da cidade. Foi a partir de então que, prestando atenção às conversas e ouvindo os relatos dos imigrantes, percebi que se tratava de um fenômeno de grande magnitude, apesar de relativamente novo naquele local. Como se originou e estruturou a Rota Espanhola? Quem eram os sujeitos envolvidos nesse processo? Que impactos as migrações para a Espanha tinham nas trajetórias dos brasileiros trabalhadores da construção civil? Quais as conseqüências dessas saídas para a imigração brasileira em Portugal e na Espanha? Perguntas estas que surgiram no decorrer da pesquisa e para as quais busquei respostas.
A imigração de brasileiros para a Espanha, seja do Brasil ou de Portugal era pouco expressiva até o final da década de 1990, conforme mostrarei no próximo
capítulo. No entanto, desde o final dos anos 1990 o número de brasileiros que emigram para Espanha não para de crescer.
Dos 6.708 brasileiros em 1998 passaram para 18.305 em 2001 e para 73.704 em 2006, isto sem contar os trabalhadores indocumentados e os que transitam entre Portugal e Espanha104. As maiores entradas ocorreram a partir de 2001 e os principais destinos foram Madrid, Barcelona e Andaluzia. Diferentemente de Portugal, o crescimento econômico espanhol continuava alto até recentemente, acima da média européia, o que gerava oportunidades de empregos e atraía cada vez mais grupos de emigrantes. Se compararmos os números oficiais dos dois países entre 2004 e 2006 veremos que enquanto em Portugal a população estrangeira diminuiu cerca de 10%, na Espanha cresceu mais de 36% e que os brasileiros acompanharam esta tendência, porém com um menor decréscimo do que a média portuguesa e um crescimento bastante superior à média nacional espanhola.
População Estrangeira População Brasileira País
2004 2006 % 2004 2006 %
Portugal 447.155 409.185 -9% 66.907 65.463 -2%
España 3.034.326 4.144.166 36% 37.448 73.704 97%
Fonte: Dados por mim organizados a partir das estatísticas publicadas pelo Instituto Nacional de Estatística e Serviço de Estrangeiros e Fronteira de Portugal e Instituto Nacional de Estatística da Espanha.
Estes números mostram que a população brasileira na Espanha quase dobrou em dois anos. Além disso, se compararmos os dados de 1998 e 2006 teremos uma taxa de crescimento superior a 1000% e se recuarmos a 1991 nos depararemos com um aumento de quase 2500%, o que indica que a Espanha é, na atualidade, o país europeu de grande atração de brasileiros e que uma emigração profissionalizada está ali também instalada. Por outro lado, os números mostram que os brasileiros mantêm-se em Portugal e que não acompanharam a tendência de saída em massa verificada, por exemplo, com o grupo de emigrantes do leste europeu. São dados que confirmam o conjunto de informações recolhidas na pesquisa de campo na cidade da Costa da Caparica. Ambos, dados oficiais e minhas pesquisas de campo, nos dão algumas pistas para pensarmos a emigração brasileira nos dois países.
104 - Os dados são do Instituto Nacional de Estatísticas da Espanha e correspondem ao Padrão Muncipal de 1998, Censo Populacional de 2001 e Padrão Municipal de 2006, respectivamente.
Das pesquisas de campo, o que se extrai é que as chegadas de brasileiros em Portugal, apesar de não deixarem de acontecer, diminuíram. Já as saídas são cada vez mais constantes e os destinos se ampliaram. “Em 2001, por exemplo, ainda era uma época boa de trabalho e dali pra cá veio fracassando os trabalhos, veio fracassando e está até hoje. Para mim está muito mais pior”, informou Seo Onofre, um ex-agricultor que hoje vive em Portugal como trabalhador da construção civil105. “Muitos que a gente conhece estão na França, estão na Espanha, estão em Barcelona…na Áustria. […] Eles estão procurando trabalho em outro lugar”, salientou o casal Iva e Sílvio em entrevista concedida em novembro de 2007.
Mesmo que haja também quem faça referência a saídas para países como os Estados Unidos, Inglaterra, Itália, Alemanha e diversos outros, é sobre a Espanha que mais falam os brasileiros da Costa da Caparica, ou por terem vivido a experiência da migração, terem ouvido falar ou por desejarem emigrar para lá. Nos relatos que obtive na Costa da Caparica é comum associarem a Espanha a uma espécie de novo Eldorado do emprego. Na Espanha, conforme me explicou Seo Onofre com a experiência de quem já esteve do outro lado da fronteira durante alguns meses, há “serviço a revelia” e muitos brasileiros.
Porque na Espanha você chega lá hoje e tem serviço a revelia (muitas ofertas de trabalho). Mesmo que os espanhóis não dão trabalho, mas há muitas firmas portuguesas lá que têm trabalho a revelia. E têm muitos brasileiros já a tocar serviço na Espanha, muito mesmo. Abriram firma aqui e hoje estão lá a tocar trabalho106.
Um dos principais atrativos, na opinião de Leandro, outro brasileiro que já trabalhou na construção civil na Espanha, é o nível salarial mais elevado. “Hoje a gente vê muitos brasileiros indo para a Espanha. […] Em Espanha a gente ganha mais. Pode trabalhar o mesmo tanto ou até mais, mas ganha bem mais”107. Já para Jorge, além dos altos salários, outro diferencial dos espanhóis é o tratamento que os brasileiros recebem.
É uma coisa que você trabalha no meio de pessoas assim cultas. Trabalha no meio dos espanhóis você não escuta gritaria. Os espanhóis sabem conversar. Eles tratam você totalmente diferente. Eles te perguntam as coisas. Gostam de falar a língua
105 - ONOFRE. Entrevista concedida a Adriano Larentes da Silva. Costa da Caparica, Portugal, 07 out. 2007. Gravação em MP3.
106 - Idem
da gente, aprender a falar a língua do brasileiro. E eles respeitam os brasileiros108.
A imagem construída da Espanha entre os brasileiros, como se vê, é bastante positiva, por mais que circulem também notícias sobre a exploração do trabalho, os riscos da travessia, os ordenados não pagos, as promessas não cumpridas, como mostra Daniel em seu depoimento. “Isso aí é coisa de doido. A maioria sai e não recebe. Isso aí você tem que conhecer bastante a firma que você vai. Eu conheço várias pessoas que vão e não recebem. O cara oferece bastante dinheiro e chega lá te solta lá e você se vira. Então para fora eu não vou”109. Portanto, boas ou más, as notícias sobre a Espanha são recebidas pelos brasileiros, estimulando-os ou não à partida.
Os deslocamentos de Portugal para a Espanha são basicamente de dois tipos. Há os que vão para a Espanha com a intenção de lá residir e os que vão apenas para trabalhar e que mantêm sua residência em Portugal. Acontece, porém, que, como ocorre com as migrações em geral, nem sempre os que vão para residir ficam e os que vão apenas para trabalhar voltam. Em geral experiencia-se primeiro para ver se de fato vale a pena trocar Portugal pela Espanha.
Para arrumar o emprego na construção civil no país vizinho os brasileiros da Costa da Caparica contam com o auxílio de amigos e parentes que já estão naquele país ou que conhecem alguém que lá esteja. Há ainda muitos que vão através das próprias firmas portuguesas em que trabalham, as quais são subempreiteiras que contratam serviços do outro lado da fronteira. Há também uma rede de intermediários ou engajadores que estimulam a ida com ofertas de trabalho em obras em diferentes partes do país. Esses intermediários muitas vezes aproveitam-se para ficar com boa parte dos salários dos imigrantes (até 50% segundo o jornal LA VANGUARDIA, 2006), uma vez que muitos imigrantes não possuem documentos legais para permancer naquele país Os contratos nem sempre existem, nem em Portugal e muito menos na Espanha, e os salários são pagos por hora trabalhada. Assim, para receber um bom ordenado e compensar o deslocamento, os brasileiros fazem em geral longas jornadas de trabalho em turnos em que sobra pouco tempo para descanso e lazer.
108 - JORGE. Op.cit. 109 - DANIEL. Op. cit.
C ar taz af ix ado em s uper m er cado d a C os ta Fo to : A dr ia no La re nt es d a S ilv a
Para muitos, a única “folga” é ao final de quinze ou trinta dias, quando retornam para suas casas na Costa da Caparica. O depoimento de Jorge, que na época da entrevista havia recém retornado da Espanha, mostra um pouco dessa realidade.
Na Espanha era assim de domingo a domingo, de domingo a domingo, lá não pára. E teve uma época assim que eu ficava até meio bobo. Porque trabalhando demais não tirava o tempo. Porque na Espanha é assim, é uma hora a mais que aqui. São cinco horas de diferença com o Brasil. Então pegava no trabalho de oito às oito todo o dia e tinha vez que era de oito às nove. E era de domingo a domingo esse horário. Aí teve uma época que parecia que eu estava ficando meio fora de mim. Parecia que não estava em mim. Estava assim meio fora do comum110.
Para o padre António Pires, da igreja católica da Costa da Caparica, ainda sabemos muito pouco sobre as conseqüências da abertura dessa nova rota brasileira para a Espanha.
Agora interessa perceber que conseqüência isso vai ter. Quer dizer, porque se as pessoas vão da Costa para a Espanha todas as semanas, em que condições é que circulam? Que descanso é que têm? Agora, estamos a falar de pessoas. Estamos a falar de pessoas que estão na construção civil. Como é que esse fluxo funciona? Alguém lhe dá atenção? Ninguém lhe dá atenção? E quando começar a aparecer desastres com as carrinhas, como a gente vai ouvindo nos jornais? Como é que é, as pessoas pagam pena? Como funcionam os seguros? Eu queria entender como é que isso funciona. Evidentemente que eu percebo a lógica do imigrante. Não tem trabalho aqui, tem trabalho em Cádiz, vai para Cádiz, tem trabalho em Madrid, vai para Madrid. […] Sai daqui domingo à noite e começa a trabalhar segunda-feira de manhã. Acaba de trabalhar sexta-feira ao fim do dia para chegar cá sábado. Nós não estamos a falar de uma pessoa nem de duas, nem de três. Estamos a falar de dezenas, de centenas. Basta ir a fronteira, ver aqui na nossa fronteira as chegadas das carrinhas às tantas horas. Às quatro da manhã, às cinco da manhã, às seis da manhã111.
Segundo o padre António Pires, a diminuição da procura de auxílio, como ocorria antes quando havia “uma grande multidão pedindo ajuda” em função do desemprego, dos salários não pagos ou de outras necessidades foi uma das conseqüências da saída de brasileiros da Costa da Caparica para a Espanha. Os que o procuram agora são, segundo o padre António, sobretudo pessoas que acabam de chegar. Estas pessoas, após reconhecerem o terreno português e ampliarem sua rede de
110 - JORGE. Op.cit.
contatos se transformarão também em potenciais emigrantes para a Espanha e outros países. Nesse sentido, a Espanha é uma nova “válvula de escape” para os brasileiros em Portugal, em especial para aqueles que já estão no país há mais tempo, já trabalham na construção civil e mantêm relações com conterrâneos, portugueses ou outros imigrantes que transitam entre os dois lados da fronteira.
Nesse movimento transfronteiriço, muitos dos que migrarão para a Espanha manterão o Brasil e suas cidades de origem como referência, já que lá estão seus familiares, sua história, seus investimentos e seus projetos de retorno, terão a Costa da Caparica como o local que lhes acolheu em Portugal e onde estão sua residência atual, sua igreja, seus espaços de lazer, seus amigos, seus familiares (em alguns casos), sua “comunidade” fora do Brasil e suas obrigações enquanto imigrantes. É dali também que continuarão a enviar dinheiro e se comunicar com o Brasil regularmente. Porém, é na Espanha que trabalharão a maior parte dos seus dias, deslocando-se para casa de tempos em tempos para uma estada de um ou dois dias.
Ao se deslocar para a Espanha, os brasileiros ampliarão sua área de atuação profissional, mas não deixarão de morar e vincular-se, enquanto imigrantes, a Portugal. Trata-se, para uns, de um deslocamento que envolve riscos e reaviva o medo de serem repatriados, e, para outros, de uma mobilidade para um novo local de trabalho, ou seja, uma situação um tanto familiar para quem atua na construção civil. Quando concluírem as obras no país vizinho diversos desses brasileiros retornarão a Portugal, onde permanecerão desempregados até que consigam um novo trabalho em um dos dois países. Para o novo emprego e deslocamento acionarão novamente suas redes de contato em Portugal, no Brasil e na Espanha. É através dessas redes que se consegue, além do emprego, a moradia provisória e o transporte para a Espanha. É também através delas que têm se estruturado a migração brasileira para Portugal e para a Espanha na contemporaneidade.
Portanto, trata-se de uma imigração entre três mundos, que envolve geralmente brasileiros empobrecidos, com baixa escolaridade e provenientes de regiões onde existe uma cultura da emigração estabelecida há muitos anos. Da mesma forma, estamos falando de um deslocamento transnacional de força de trabalho e de um alargamento da configuração do mundo do trabalho entre os imigrantes brasileiros nesse início de século.
Os dados e informações acima apresentados sobre os brasileiros em Portugal e na Espanha confirmam que estes imigrantes, assim como outros grupos, não têm se
conformado com a migração para um único local. Ao contrário, aproveitam-se das redes já estruturadas e das transformações contemporâneas nos transportes e comunicações, que encurtam cada vez mais as distâncias, para movimentar-se para inúmeros lugares e com maior agilidade. Sentem na pele o que significa ser trabalhador desterritorializado e são concretamente parte do que Octávio Ianni (2002) chamou de força de trabalho de
caráter global, composta por trabalhadores ativos e de reserva que movimentam-se
acompanhando os fluxos do capital internacional. Para essa movimentação, analisam as conjunturas existentes no país de origem, no país para o qual emigraram e do país para onde pretendem partir. Comparam a paridade entre as moedas, os salários, o tipo de trabalho. Medem os riscos da travessia, buscam a opinião de familiares e amigos, analisam as vantagens e desvantagem da partida. No caso da Europa, podem movimentar-se com certa facilidade, especialmente se estiverem documentados. Já os imigrantes indocumentados usarão as redes de amigos e parentes, se transformarão novamente em “turistas” ou recorrerão a atravessadores e falsificadores de documentos para ir de um país ao outro. Nesse contexto, o retorno ao país de origem vai sendo ainda mais adiado e, quando ocorrer, poderá não ser definitivo, como já acontecia antes, pois agora o fracasso, nem sempre admitido, será superado com a re-emigração para outro destino. Afinal, o leque de opções é muito maior e, dependendo da região do Brasil onde se vive, sempre haverá um conterrâneo no exterior a contatar.
Para Duda Guennes, esse cenário de grande mobilidade é algo novo. “Antigamente não existia esse papo de dar o salto. Agora o brasileiro com quem você conversa já está pensando não em voltar, mas muita gente está indo para a Irlanda, para a Espanha…”112. “Dar o salto”, ou seja, re-emigrar, já é, portanto, parte do projeto migratório de muitos brasileiros, incluindo aí muitos dos que escolheram Portugal como primeira opção.
No caso dos brasileiros da Costa da Caparica, a re-emigração pode não significar um deslocamento total, mas apenas parcial, para o trabalho, como mostrei acima. Estes brasileiros fazem parte de um contingente de imigrantes para os quais não é preciso deixar de morar em Portugal para trabalhar em outro país europeu. Usando algumas alternativas de transporte à sua disposição podem voltar para casa de tempos em tempos sem perder muitos dias de trabalho e gastar muito dinheiro. Para os que decidem pela Espanha, há transportes especiais de ida e volta, com os patrões, e que saem da própria
Costa da Caparica. Os brasileiros da Costa vão assim ajudando a engrossar a fileira daqueles que, cada vez mais, têm escolhido a Espanha para trabalhar113. Nesse processo de saída para o país vizinho seguem os rastros dos próprios portugueses, que há muito fazem essa travessia, e, em alguns casos, também as suas redes de emigração. Além disso, nos últimos anos, os brasileiros parecem ter aproveitado a antiguidade da presença nesse país, as redes aí construídas, as relações diplomáticas privilegiadas e as afinidades entre Brasil e Portugal para converter este último país em uma espécie de base de apoio que permite o trânsito a outros países europeus.
É em Portugal que estão possivelmente as entidades brasileiras mais duradouras, que dão visibilidade e permitem aos imigrantes serem ouvidos e representados. Há nesse país, por exemplo, uma representação do Partido dos Trabalhadores, que tem contribuído e feito o debate político com os brasileiros em Portugal desde os anos oitenta. Há a Casa do Brasil em Lisboa, que tem atuado junto aos brasileiros, sido ouvida e se manifestado sobre temas brasileiros e portugueses desde o início dos anos noventa. Há uma série de pequenos estabelecimentos, bares, restaurantes típicos, pontos de acesso à Internet e ligações telefônicas, lojas com produtos brasileiros e também grandes empresas, algumas já desde os anos setenta. Para os trabalhadores imigrantes há ainda uma rede de casas de envio de dinheiro para o Brasil, instaladas em locais onde estes residem e circulam frequentemente, bancos brasileiros que possuem agências nas cidades de origem e destino e inúmeros outros negócios ligados à imigração. O envio de dinheiro para o Brasil, por exemplo, ocorre regularmente, conforme mostrei anteriormente. É ele que mantém aquecido o mercado imobiliário, a construção civil e que garante a manutenção de muitas famílias e cidades brasileiras, e dos próprios fluxos migratórios. Tudo isso mostra que os imigrantes brasileiros em Portugal mantêm vínculos e relações próximas com o Brasil e com as comunidades onde nasceram e também permite que uma parte deles tenha um envolvimento regular em atividades transnacionais.
No entanto, é um trânsito que não envolve apenas Brasil e Portugal, mas no caso aqui apresentado, também a Espanha e que ocorre num ritmo e intensidade bastante fortes, com tendência a manter-se assim enquanto a economia portuguesa estiver com baixo crescimento ou que a Espanha continue gerando oportunidades de empregos na construção civil e outros setores.
113 - A maior parte dos brasileiros da Costa da Caparica que vai para a Espanha é homem, trabalhador da construção civil. Porém, as mulheres são a maioria do contingente oficial de brasileiros na Espanha.
O fato de existir esse trânsito entre fronteiras ou entre três países, não significa,