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As Conquistas das Terras Sul-Americanas e as Primeiras Edificações

2 O POVO BRASILEIRO E SUAS CONTRIBUIÇÕES ÉTNICAS E

2.1 As Conquistas das Terras Sul-Americanas e as Primeiras Edificações

A expansão marítima europeia ocorrida entre os séculos XV e XVII, tinha, entre seus objetivos, expandir as atividades comerciais e novas conquistas territoriais para o acúmulo de capital. Durante a expedição de Cristóvão Colombo em 1492, a Espanha sai a frente em suas descobertas além-mar, aumentando a rivalidade com Portugal. No ano seguinte, o Papa espanhol Alexandre VI proclama a bula “Inter Coetera” que traçou uma linha imaginária a partir da ilha de Cabo Verde favorecendo os interesses de seu país.

Portugal, um país de clima temperado, localizado no sudoeste da Europa, com características climáticas diferentes do Novo Mundo Tropical, no século XV, era um reino unificado, com muitos conflitos políticos com Espanha e França que ambicionavam as terras portuguesas por suas riquezas naturais, posteriormente denominadas Brasil, cuja

origem do nome mais difundida vem da madeira pau brasil, muito explorada pelos portugueses, franceses e holandeses.

Com um povo desconhecido e considerado selvagem, as notícias que chegavam a Corte eram péssimas. O ritual de antropofagia era assustador, de modo que os que se aventuravam viviam em constantes vigilância. Os portugueses eram religiosos e trouxeram o catolicismo com seus ritos, como suas missas, romarias, procissões, festejos tradicionais do calendário religioso de Portugal, a festa Junina e o Carnaval, assim como vários folguedos regionalistas.

Os portugueses encontram as terras habitadas, no entanto, sem nenhuma construção arquitetônica além das ocas e aldeias primitivas, a diferença dos espanhóis.

Frei Vicente de Salvador acreditava que o nome Brasil, vinha da brasa, do fogo, tinha relação com Satã, não coincidindo com a origem mais difundida e supracitada ao nome Brasil. Muitos consideravam as novas terras uma espécie de Jardim do Éden, como se comprova na descrição contida na carta de Pero Vaz de Caminha:

De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos — terra que nos parecia muito extensa. Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro;

nem lhe vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!

Sendo assim, a visão de um novo mundo com suas lendas relacionadas ao céu e inferno, despertou a cobiça por novas riquezas. Decidiram então ocupar as terras e a

“civilização” brasileira passou a ser composta pelas nações indígenas pré-existentes e pelos portugueses, os colonizadores. Posteriormente, os africanos vieram com o processo escravocrata no século XVII, passando a contribuir para a formação do Brasil, em uma miscigenação étnica e cultural.

No início foram criadas feitorias40 cercada por palhiçada41. Tais edificações foram construídas em Pernambuco e São Vicente, elas serviam de ponto de chegada para os homens que trabalhavam na extração do madeiramento, em especial o pau-brasil, de onde se extraía uma resina de cor vermelha, usada para tingir tecidos. O pau-brasil era cobiçado

40 Casas de madeiras com teto de palha.

41 Uma espécie de muro feito de estacas de madeiras fincadas na terra que servia para proteção de possíveis invasões de índios.

também por franceses e holandeses que o extraiam de forma ilegal. Nos três primeiros séculos do Brasil colônia, chegaram as ordens religiosas primeiramente para catequisar os índios e em seguida para o fortalecimento religioso dos então brasileiros. Aqui foram encontradas nações indígenas que embora semelhantes em alguns aspectos tinham sua própria identidade e sua diversidade cultural. Porém, aos olhos dos portugueses, os nativos pertenciam a uma única etnia, chamando-os de gentis ou indígenas (RIBEIRO, 1995).

O autor comenta ainda que os portugueses aprenderam e se beneficiaram dos conhecimentos indígenas, como plantar e colher determinados alimentos. Perceberam que precisavam do conhecimento do povo da terra para habilidades da caça, pesca e dos caminhos desse lugar desconhecido. O aprendizado com os nativos foi fundamental para os novos habitantes viverem e sobreviverem em um lugar considerado inóspito. As Nações indígenas construíam suas ocas, artesanatos, cerâmicas e cestaria, realizavam seus rituais religiosos e pinturas corporais42. Os objetos estavam associados aos rituais:

produziam estatuetas, pigmentos vegetais, penduricalho e arte plumária, as penas eram utilizadas como matéria-prima das tribos como: os Caiapós e os Camaiurás, usavam a pintura corporal com o objetivo de afastar os maus espíritos que assombravam.

A dança era realizada em grupo ou pelo Xamã. As mulheres não participavam de determinadas danças sagradas, pois tinham uma estrutura diferente e papéis diversos dentro da aldeia. Elas pintavam as crianças de encarnado, vermelho, para proteção contra espíritos, usavam máscaras ou cobriam todo o corpo. Eles acreditavam nas forças da natureza e espíritos dos antepassados. A figura do pajé ou xamã como curandeiro foi sendo excluída da tribo, assim como seus rituais demonizados com a vinda das Ordens Religiosas para implantação da religião católica. Embora manteve-se vivo no Brasil colonial entre os brasileiros, os rituais clandestinos, fortaleceu-se com a chegada dos africanos inserindo outros tipos de magias realizadas em seus ritos. Algumas dessas heranças se amalgamaram aos costumes do povo europeu que aqui chegaram. Apesar do espírito livre, os índios não tinham consciência de castigo, havia um misto de medo e respeito pelo desconhecido, o que fomentou a superstição, explorada sabiamente pelos portugueses e Jesuítas (FREIRE, 2003).

42 A pintura corporal, uma forma de preparação para rituais, utilizavam-se pigmentos extraídos de frutas e sementes, como jenipapo que produz a cor negra e o urucum, o vermelho, usado para casamentos, enterros e situação de guerra ou de caça.

Contudo, o processo de conversão não foi uma tarefa fácil, a inserção de hábitos cristãos, a missa dominical e a prática de sacramentos como: batismo e casamento, encontrou resistências de toda ordem. O branco trouxe suas regras e leis impondo aos habitantes, com deveres e obrigações sob a doutrina da Igreja Católica, seguindo o decreto do Concilio de Trento acompanhado pelo olhar atento da Inquisição ou Santo Ofício confrontando-se com uma realidade onde inexistia a propriedade privada e tampouco relações jurídicas (RIBEIRO, 1995).

Os portugueses acreditavam que as terras além-mar seriam uma expansão para a cristandade católica na missão salvadora do homem branco e a união de todos os homens em uma só religião, neste momento dividida entre católicos e protestantes com a Reforma de Martin Lutero. Os religiosos com a finalidade de salvadores de almas semelhantes a Deus, foram enviados para o Novo Mundo em Missão Jesuítica, até que outras ordens viessem, como Beneditinos, Carmelitas e Franciscanos, todos com o mesmo objetivo – converter os habitantes a religião católica.

Os jesuítas ensinam os indígenas a ler e falar sua língua, os franciscanos tinham o objetivo de ensiná-los a serem artífices e técnicos. A língua tupi-guarani foi mantida como forma de facilitar a comunicação, no entanto, foram adaptadas às regras da catequese, como ler, escrever, contar e rezar em latim. A conversão era a tônica, como forma de dominação para os portugueses afim de cessar as atitudes dos nativos que consideravam amorais. Isso excluiu toda forma de expressão artístico-cultural que confrontava com as crenças católicas, sobrevivendo apenas aquilo que era vislumbrado pelos jesuítas.

Diante dessas disputas de poder, batalhas por espaços com derrotas e vitórias, os portugueses tomaram posse do território. O Rei D. João III, o denominado “piedoso”, homem religioso, com o intuito de evitar a pirataria da madeira e a propagação do protestantismo, decide povoar o Brasil. Durante a União Ibérica43, os portugueses avançaram suas técnicas arquitetônicas. As construções monásticas e conventuais receberam influências dos povos greco-romano44, onde representavam aspectos

43 União política das Coroas Portuguesa e Espanhola no período entre 1580 a 1640. Após a Guerra da Sucessão Portuguesa.

44 Os gregos foram responsáveis por construções importantes na Antiguidade, entretanto foram os romanos, com as influências etruscas que projetaram a cidade de forma administrativa como: aquedutos, estradas, fóruns, bibliotecas, arcos plenos, termas, palácios e templos para os deuses pagãs, entre outras arquiteturas relevante para o bem-estar do povo. Os traçados das ruas eram calculados de formas ortogonais como um tabuleiro e suas interfaces eram considerados sagradas, lugares de forças sobrenaturais.

históricos, econômicos e sociais, características usadas na formação da cidade de Salvador (MENDES, VERISSIMO E BITTAR, 2011).

A Igreja católica teve uma forte influência política na expansão marítima com o objetivo de propagar a fé, combater a heresia e a Reforma Protestante no século XV. Ela apoiou e reforçou o processo mercantilista de colonização e a produção de cana de açúcar, como Portugal já fizera nos Açores na Ilha da Madeira. Além disso, a descoberta de prata em Potosí no Alto Peru (hoje Bolívia), foram estímulos para o Rei nas terras brasileiras.

Em 1522, foi atribuído ao Rei D. João III, pela Igreja, o poder de nomear e pagar o salário do clero e capelães funcionários da coroa no trabalho religioso, assim como edificação das igrejas, capelas, hospitais e dioceses. Recebiam, instalavam as ordens religiosas, eram encarregados de incentivar as organizações de confrarias e distribuição das funções. Teoricamente, a igreja se sustentava com os dízimos dos cristãos, dessa forma o clero era dependente das ordens do rei de Portugal. (PRIORE, 1994).

A coroa portuguesa apoiou incondicionalmente as teses elaboradas pelo Concilio de Trento45 (1545-1563) que reafirmava todos os dogmas da Igreja, combatendo a heresia.

Essa aliança entre a igreja e a monarquia portuguesa, foi chamado de Padroado Régio46, no qual o Papa delegava poderes ao rei de Portugal que recebia o título de Grão-mestre da Ordem de Cristo. Os reis desempenhavam o papel do governo (religioso e civil) nas colônias, podiam exigir doações e taxas à igreja, cobravam dízimos e controlavam sua distribuição entre as paroquias.

2.2 A Capital da Colônia: suas Influências Culturais, Artísticas e Arquitetônicas