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Capítulo I. O Impacto das Mulheres na Vida Política

1. A Política no feminino em Portugal: análise aos anos de Democracia

1.4. As consequências da Lei da Paridade de 2006

Tendo em conta as análises feitas anteriormente, constata-se que a implementação da representatividade (eletiva e efetiva) do género feminino decorreu em três períodos: em 1975, nas primeiras eleições livres; durante as governações de António Guterres e aquando da incrementação dos instrumentos previstos na organização das listas eleitorais, na Lei da Paridade. Em 2006, é apresentada uma nova proposta que pretendia a introdução de medidas de discriminação positiva e que foi designada por Lei da Paridade. É sob aprovação da bancada parlamentar do PS e promulgada em agosto do mesmo ano pelo Presidente da República. A par desta lei, em 1999, tinha surgido uma proposta legislativa semelhante pelo qual ficou conhecida como a “lei das quotas”.

Esta iniciativa legislativa ocorre segundo uma tendência internacional de acolher um grande número de países (110 sistemas políticos até 2009), de políticas de paridade entre o género feminino e o masculino- e pela aplicação de medidas indicadas que possibilitem o

15A título de curiosidade, Isabel Mota, Manuela Aguiar, Manuela Ferreira Leite, Marília Raimundo, Rosário Águas e Teresa Patrício Gouveia do PSD; no PS, Ana Benavente, Ana Paula Vitorino, Elza Pais, Helena Marques, Idália Moniz, Leonor Coutinho e Maria João Rodrigues; no CDS-PP, Celeste Cardoso, Teresa Caeiro e Teresa Costa Macedo.

43 aumento de mulheres eleitas para funções políticas (BAUM, ESPIRITO- SANTO, 2009: 375). Nas eleições europeias, legislativas e autárquicas, de 2009 foi aplicado o novo diploma legal. No que se refere às eleições para a Assembleia da República, a lei da Paridade foi cumprida por todos os partidos, na organização das listas eleitorais nos sufrágios de 2009 e de 2011.

Afirmando um efeito significativo na taxa de feminização dos eleitos em 2009, passando de 21,3% para os 27,4%, destacando-se os partidos de centro-direita. Contudo, nas eleições legislativas seguintes registou-se um decréscimo da percentagem de deputadas eleitas para o Parlamento, ficando-se pelos 26,5%. Não estando, assim, garantida uma maior paridade de género na instituição parlamentar. É verdade que existe uma forte ascendência da eleição de deputadas para o Parlamento, porém, a representatividade feminina é ainda menos de um terço do universo dos deputados do hemiciclo, sendo que só o Bloco de Esquerda supera essa taxa nas legislativas de 2009 e de 2011.

Analisando as três últimas eleições legislativas, destaca-se excecionalmente o facto de algumas mulheres terem sido cabeças de lista, o que impossibilitou a sua eleição nos círculos eleitorais com dimensões pequenas ou com resultados eleitorais muito baixos. Ainda nas listas das legislativas de 2009 e 2011, as mulheres surgiram na 3ª e 6ªposições, evidenciando a prevalência das exigências legais face ao princípio da paridade. No gráfico que se segue é demonstrada a distribuição das “cabeças de lista” nas três últimas eleições legislativas.

Figura 26.- Representatividade Eleitoral: % de Homens e de Mulheres “Cabeças de Lista” em Eleições Legislativas, por Partido Político entre 2005 e 2011, Revista Media e Jornalismo do Centro de Investigação Media e Jornalismo, N.º 21, N.º Especial online 2012.

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O percurso da Paridade foi sempre marcado por uma certa incoerência e pela sua forma enigmática. Na história da Assembleia da República, em junho de 2011, foi eleita uma mulher para ocupar o cargo de Presidente da Assembleia. Este facto resultou de duas votações falhadas face ao primeiro candidato apresentado pelo PSD, pelo que Assunção Esteves passou a ser a segunda figura do Estado ao tornar-se a 14ª presidente do Parlamento desde 1975. Em 1987, mais de duas décadas antes, Manuela Aguiar foi a primeira mulher a exercer a função de vice-presidente do Parlamento.

“Pude assim ter a oportunidade de ser a primeira mulher que dirigiu o Plenário da Assembleia da República. Foi espetacular a primeira vez que isso aconteceu, porque houve um aplauso espontâneo da Câmara. De pé, foram as deputadas que começaram a aplaudir, suponho eu, mas os colegas de todas as bancadas associaram-se a esse momento inédito na vida parlamentar portuguesa. Aquela manifestação era dirigida ao facto de se ter quebrado um tabu” (BETTENCOURT, PEREIRA,1995: 28).

No que concerne à comparação entre a representatividade eleitoral e à representatividade efetiva, podemos considerar que, nas primeiras legislativas seguintes ao 25 de Abril de 1974, as mulheres foram afastadas para lugares não elegíveis nas listas eleitorais dos partidos para a Assembleia da República. Até 1995, a não valorização do género como princípio de introdução parlamentar nos partidos políticos era acentuada, não reconhecendo a representatividade feminina como algo contributivo para a Democracia e afirmando, desta forma, o Parlamento como um “clube masculino”. Consequentemente, a “mancha feminina” não demonstrou a realidade da participação das mulheres no hemiciclo, uma vez que este género apenas tendia a ocupar cargos em substituição ou de forma rotativa. Os assuntos sobre a paridade e a igualdade de género destacaram-se dentro do seio dos paridos políticos e tornando-se mais evidente nas últimas legislaturas, permitindo um impulsionamento através da via legal.

O impacto da Lei dos Partidos Políticos aprovada em 2003 e a Lei da Paridade de 2006 impulsionaram a representatividade feminina na Assembleia e, em especial, no caso do CDS- PP. Ao longo de quase 40 anos, e analisando o perfil académico e profissional das deputadas com assento parlamentar evidencia-se o facto de ter existido um aumento das habilitações literárias. No que se refere aos dados apresentados, podemos constatar que grande parte das titulares com mandato parlamentar já tinha contactado com algum género de atividade política e que desempenharam funções partidárias. Este facto leva a considerar que a introdução de mulheres carateriza-se pela sua especialização técnica até mais do que a sua experiência política. Porém, este último aspeto é importante para a constituição das listas eleitorais.

Assim, nos resultados das legislativas de 2011, o lastro da paridade continua em construção no “jogo político”.

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Capítulo II. Maria de Lourdes Pintasilgo e