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4 AS REDES PROGRESSISTAS ONLINE NO BRASIL

4.3 TENDÊNCIAS EMERGENTES NO CAMPO PROGRESSISTA

4.3.2 As consequências: do cancelamento ao burnout

De certo modo, os próprios militantes progressistas já percebem a dificuldade de manter um posicionamento moralmente coerente em relação a todos os grupos que convivem no campo progressista. No entanto, sua abordagem costuma ser mais persecutória do que pedagógica, concentrando-se não na educação de correligionários ou na conquista de novos adeptos, mas na exposição, na condenação e na execração moral de qualquer transgressão – incluindo o simples dissenso. Essa tendência já era observada por Willis (1994) nos anos 1990:

Muitas vezes, são os radicais dissidentes que estão sujeitos aos ataques mais cruéis: o movimento anti-pornográfico acusa suas oponentes feministas de celebrar o patriarcado e a violência contra as mulheres; feministas negras são vilificadas como aliadas da estrutura de poder branco por criticar o sexismo entre os negros. (WILLIS, 1994, p. 20, tradução nossa100).

Crucialmente, essa tendência é potencializada pela lógica das redes sociais online, que, como vimos, tende a formar comunidades onde a solidariedade e o apoio mútuo caminham de mãos dadas com a repressão ao pensamento divergente. Nesses ambientes, marcados pela competição e pelo anseio por popularidade (RECUERO, 2009), há um forte incentivo social para seguir o dogma do grupo, especialmente num contexto em que a exclusão do grupo (ou seja, a fonte de reconhecimento e solidariedade) é impensável. Nesse sentido, em resposta à crescente tomada do espaço público pela direita (MACHADO; MISKOLCI, 2019), os defensores brasileiros das minorias identitárias recuaram para detrás de barricadas virtuais, criando espaços seguros onde avisos de gatilho e lugares de fala sacrificam a dissidência no altar do bem-estar (RISÉRIO, 2020). A partir desses espaços, ciberativistas empreendem campanhas de cancelamento contra figuras públicas, como celebridades e políticos, mas também contra pessoas comuns que simplesmente cometeram erros ou têm posições diferentes sobre determinada questão (BOSCO, 2017; DOUTHAT, 2020).

Essas campanhas, frequentemente marcadas por contradições semelhantes às expostas acima, demonstram que a autocomunicação de massa enseja não só a ampliação da visibilidade das lutas identitárias (CASTELLS, 2015), mas também a

100 No original: “Often it is dissenting radicals who are subject to the most vicious attacks: the anti-porn movement accuses its feminist opponents of celebrating patriarchy and violence against women; black feminists are vilified as allies of the white power structure for criticizing sexism among blacks”.

(WILLIS, 1994, p. 20).

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ampliação da vigilância e da repressão social, que passaram a ser democratizadas (HAN, 2017).

Ainda que o termo venha sendo banalizado pelo uso corrente, o cancelamento propriamente dito implica não só o repúdio nas redes, mas também consequências pessoais e profissionais mais concretas na vida dos cancelados. Para Douthat (2020), isso faz com que pessoas realmente poderosas, a quem o cancelamento originalmente se dirigia, não sofram tantas consequências: “a cultura do cancelamento é mais eficaz contra pessoas que ainda estão subindo em seus campos e influencia muitas pessoas que na verdade não são canceladas” (DOUTHAT, 2020, s/ p., tradução nossa101). Nos Estados Unidos, o jornalista Jon Ronson vem se dedicando a estudar casos como esse, em que pessoas privadas relativamente desconhecidas se tornaram notórias no tribunal das mídias sociais, com perturbações significativas a suas vidas sem a possibilidade de se defender.

Uma das ocorrências mais emblemáticas desse processo se deu em 2013, quando a executiva estadunidense Justine Sacco publicou um tweet racista (em uma conta com menos de 200 seguidores) logo antes de embarcar num voo para a África do Sul. Ao ligar o celular novamente horas depois, já no aeroporto da Cidade do Cabo, ela descobriu que estava no topo dos trending topics do Twitter, com milhares de mensagens de repúdio, e que havia sido sumariamente demitida de seu emprego.

Enquanto o teor da mensagem certamente tenha sido condenável,

o furor em função do tweet de Sacco se tornou não apenas uma cruzada ideológica contra seu suposto preconceito, mas também uma forma de entretenimento ocioso. Sua completa ignorância de sua situação por essas 11 horas emprestou ao episódio uma ironia dramática e um arco narrativo agradável (RONSON, 2015, s/ p.)

às hordas virtuais, que não pouparam esforços para vê-la sofrer por sua transgressão. Um internauta chegou a ir até o aeroporto na África do Sul para fotografar sua chegada (RONSON, 2015).

No Brasil, um exemplo semelhante desse processo – consideravelmente mais leve que o anterior, mas ainda interessante para nossos propósitos – vem da seara do feminismo. Em junho de 2019, a advogada Maíra Costa Fernandes foi desligada do Comitê da América Latina e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher

101 No original: “cancel culture is most effective against people who are still rising in their fields, and it influences many people who don’t actually get canceled”. (DOUTHAT, 2020, s/ p.)

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(Cladem) por defender o jogador de futebol Neymar Jr. de acusações de estupro (FÓRUM, 2019). Fernandes, que tem trajetória conhecida no ativismo feminista, se manifestou em defesa de Neymar em postagens no Facebook, dizendo ter visto os autos do processo e se convencido da inocência do jogador. Além disso, ela pontuou que, em seu entendimento, “um registro falso de estupro não contribui em nada para diminuir ou combater esse crime” (FERNANDES, 2019, s/ p.) – ou seja, que sua decisão de assumir o caso decorria, inclusive, de sua perspectiva enquanto feminista.

O resultado foi uma onda de ataques nas redes e o subsequente desligamento da advogada da Cladem. Segundo a coordenadora nacional da entidade, Soraia Mendes, o desligamento de Fernandes adveio de uma preocupação ética:

o que significa neste momento se colocar como advogada feminista, termo usado nas postagens de Maíra? Ela lança mão de ser feminista, de ser defensora dos direitos das mulheres e assume mais uma forma de desqualificar essa mulher. (MENDES apud TREVISAN, 2019, s/ p.).

Em outras palavras, Fernandes foi desligada de uma organização ativista por apresentar um posicionamento divergente sobre a causa feminista – amparado, inclusive, no direito civil à presunção de inocência.

Bosco (2017) já apontou que a causa de fenômenos problemáticos como esses se encontra no desequilíbrio entre capital social fortalecedor e capital social conector. Porém, diante das reflexões tecidas acima, nosso questionamento vai além desse simples intercâmbio de bonding por bridging: se as redes sociais online progressistas são tão afeitas ao cancelamento e à moralização inclusive de seus próprios membros, o capital social fortalecedor está contribuindo, de fato, para o fortalecimento dos indivíduos e do movimento? Ou, relembrando as palavras de Willis (1994, p.

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, tradução nossa102), um movimento incapaz de debate “não pode integrar novas ideias nem construir apoio baseado em transformações genuínas da consciência, em vez de culpa e/ou medo de ostracismo”?

Para além do cancelamento e do cerceio ao debate, a conclamação progressista para se educar cada vez mais, para evoluir e atingir novos patamares de consciência, nos remete à cultura de desempenho e autocobrança discutida no capítulo 2. Na medida em que indivíduos progressistas atrelam sua realização política

102 No original: “(…) nor build support based on genuine transformations of consciousness rather than guilt and/or fear of ostracism". (WILLIS, 1994, p. 20).

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e pessoal a um processo de crescimento e aperfeiçoamento contínuos, o ideal do bom ativista lembra muito o empreendedorismo de si mesmo assinalado por Magno e Barbosa (2011) e Han (2015) em sua denúncia dos efeitos perversos do capitalismo tardio sobre a sociabilidade. Dado que o objetivo desse processo de aperfeiçoamento é, como vimos, inexequível, consideramos que ele pode contribuir para sintomas de exaustão ou burnout – conceito entendido aqui como uma apropriação metafórica, visto que dinâmicas de cobrança, autocobrança e exaustão se aplicam não apenas a ativistas mais ou menos profissionais, mas também a pessoas progressistas em geral.

Nesse sentido, entendemos que o ideal do bom ativista pode estar relacionado aos seguintes estressores identificados no capítulo 2 como causas de burnout potencializados pela comunicação: senso de responsabilidade pessoal, conflitos interpessoais, falta de justiça, cultura do martírio, e percepção de impotência. Além disso, o fenômeno adquire matizes especialmente problemáticos em função de sua inserção num contexto de crescente polarização e moralização do discurso, onde são fortes os incentivos ao isolamento sectarista – outra causa de burnout.

A seguir, complementaremos as reflexões teóricas desenvolvidas até aqui com o estudo de um caso em que a pressão colocada sobre as pessoas progressistas é visível, com uma multiplicidade de exigências sendo articuladas no mesmo espaço, expressas pela mesma voz e recebidas pela mesma audiência. Esse espaço é o canal de YouTube Tempero Drag, e essa voz é a de Rita von Hunty, talvez a drag queen intelectual por excelência do campo progressista brasileiro.

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5 “EU PRECISO QUE VOCÊ ENTENDA”: EDUCAÇÃO, IDEALIZAÇÃO E COBRANÇA NO CANAL DE YOUTUBE TEMPERO DRAG

Ao longo da construção do projeto que deu origem a esta dissertação, muito de nosso interesse de pesquisa se concentrou nos possíveis efeitos do fenômeno em tela, ou seja, aquilo que definimos como um ideal do bom ativista no campo progressista online. Essa preocupação permeia grande parte do referencial teórico trabalhado até aqui, do estudo do papel da comunicação no burnout ativista, no capítulo 2, à problematização de tendências na comunicação progressista online, no capítulo 4. Como a idealização do ativismo teoricamente toma forma e adquire relevância a partir da ação de uma multiplicidade de causas e movimentos progressistas sobre as mesmas pessoas, dedicar-nos ao estudo de um recorte do campo (os membros de uma causa ou movimento específico, por exemplo) não serviria muito aos nossos propósitos. Assim, passamos a enxergar como ponto culminante desta dissertação a realização de uma pesquisa quantitativa-qualitativa voltada a dimensionar os efeitos mesmos do fenômeno, buscando em seus supostos sujeitos (ativistas progressistas) evidências de seu impacto (sinais de burnout relacionados à dinâmica comunicacional do campo progressista online).

No entanto, para além do desafio de conduzir uma pesquisa como essa num ano de pandemia global (tanto pelos constrangimentos práticos quanto pelo surgimento do coronavírus e do isolamento social como potenciais causas de ansiedade e exaustão), eventualmente nos demos conta de que o espírito desta dissertação poderia ser melhor servido por outro esforço de pesquisa. Antes de examinar os efeitos do fenômeno, percebemos que seria importante expandir nosso entendimento do fenômeno em si – descrevê-lo, caracterizá-lo melhor, e encontrar na realidade empírica aportes para guiar futuros estudos mais aprofundados a seu respeito. A partir dessa percepção, nossa pesquisa rumou para um caminho muito distinto do que imaginávamos originalmente: em vez de uma pesquisa quantitativa-qualitativa conduzida junto aos sujeitos do fenômeno, focando em seus efeitos, nos detivemos no estudo de um caso específico de produção de conteúdo online, focando nos dois elementos que constituiriam o fenômeno: (a) a copresença digital de pessoas ostensivamente progressistas e (b) a expressão de discursos que convocam a aderência simultânea dessas pessoas a uma ampla diversidade de causas.

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