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4. CAPÍTULO 2 A LEI 10.639/03 E A EDUCAÇÃO PARA AS RELAÇÕES

2.1 As Constituições Brasileiras e a Educação

A nossa primeira Constituição foi promulgada em 1824, dois anos depois da independência do país. Nela, o tema educação se fez presente por meio de dois parágrafos: no parágrafo 32 do artigo 179 estabeleceu a gratuidade da instrução primária a todos os cidadãos. No parágrafo 33 do mesmo artigo, a abordagem se concentrou em torno dos Colégios e Universidades que ofertariam os cursos de Ciências, Belas Letras e Artes. Nesse período, mesmo após a Independência, as antigas estruturas do Brasil colônia foram mantidas, sobretudo as de ordem política e econômica. Dentre elas, destacamos a manutenção do sistema escravocrata, que influencia diretamente no acesso à educação, haja vista que grande parte da população brasileira não era considerada cidadã. Sendo assim, apenas uma pequena parcela da população tinha acesso à educação formal institucionalizada.

Em 1889 com a Proclamação da República, consequentemente uma nova Constituição foi elaborada. Nela, podemos notar que houve um número maior de dispositivos a respeito da educação. Os incisos 2º, 3º e 4º do artigo 35 determinaram a criação de Instituições de Ensino Superior e Secundário nos Estados e prover a Instrução Primária e Secundária no Distrito Federal. Salienta ainda, que a abrangência do atendimento educacional ficava sob a responsabilidade de cada Unidade Federativa. É importante destacar, o fato de incumbir aos Estados o alcance dessa educação, que continuava privilegiando as elites brasileiras. Em tese, é importante salientar que, em 13 de maio 1888, o Sistema Escravocrata foi abolido no Brasil.

24 Alguns textos que versam sobre o abismo social entre negros e não negros. Cf. https://exame.abril.com.br/brasil/8-dados-que-mostram-o-abismo-social-entre-negros-e-brancos/; https://www.cartacapital.com.br/sociedade/educacao-reforca-desigualdade-entre-negros-e-brancos; https://www.geledes.org.br/o-abismo-entre-brancos-e-negros/.

Contudo, a abolição da escravatura não foi capaz de promover alterações significativas do ponto de vista do acesso a cidadania plena dos ex-escravizados na sociedade brasileira, uma vez que o Estado, sobretudo a partir de 1889 com a Proclamação da República, não foi capaz de fomentar Políticas Públicas de inclusão e ou inserção para os ex-escravizados e afro-brasileiros, principalmente no tocante ao acesso à educação. Para além, podemos destacar que os mesmos foram lançados à própria sorte, sem acesso à indenização, à terra ou à educação, legando uma posição marginalizada.

Em 1930, Getúlio Vargas chegou ao poder, através de um golpe político. Logo, em 1934, foi promulgada uma nova Constituição, pela qual a educação ocupou um amplo espaço, com 17 artigos e 11 capítulos específicos a respeito da temática. O destaque se deu na inserção do Ensino Privado por meio do artigo 154, que tornava isento de impostos qualquer instituição que oferecesse educação primária ou profissional.

O artigo 156 determinou medidas para atender à educação, cabendo à União e aos Municípios o investimento nunca menor que 10% e os Estados e o Distrito Federal nunca menos de 20% da renda resultante dos impostos, na manutenção e no desenvolvimento da educação. O artigo 139, por sua vez, estabeleceu parceria com empresas privadas que possuíam mais de 50 empregados, ofertando o Ensino Primário e gratuito. O artigo 108, por sua vez, tornou isento de impostos os professores e no artigo 158 foi criada a obrigatoriedade do Concurso Público, como forma de ingresso ao magistério oficial.

Essa constituição apresentou inúmeros mecanismos para o desenvolvimento da educação no país, que vivia naquele momento, um período de crescimento no que diz respeito ao processo de industrialização. Concomitantemente, havia uma exigência por parte desse processo principalmente no tocante a qualificação da mão-de-obra, e essa qualificação atravessavam a necessidade de alfabetização dos sujeitos, para participarem do projeto voltado à educação profissionalizante, cujo resultado seria a capacitação desses indivíduos para atender às exigências demandadas pelo mercado em expansão.

O projeto, entretanto, não se consolidou dentro das expectativas almejadas, já que nem todos os trabalhadores estavam dispostos a enfrentar, depois de uma excessiva jornada de trabalho, uma sala de aula e, mais uma vez, a

inserção de todos os cidadãos, principalmente a população negra, ao contexto escolar esteve comprometido.

Em 1937, foi instaurado o Estado Novo, sob o comando de Getúlio Vargas, por meio de mais um Golpe de Estado. Assim sendo, o governo elaborou uma Nova Constituição em 1937, com inspiração nas Constituições fascistas. Como destaque, podemos citar o artigo 130, o qual determinou que o Ensino Primário fosse obrigatório e gratuito. No entanto, trouxe um adendo importante: não exclui o dever de solidariedade dos menos para com os mais necessitados. Além disso, aqueles que detinham um poder aquisitivo maior iriam contribuir mensalmente com o caixa escolar. O pensamento está diretamente pautado em uma correlação entre o Público e o Privado, ocupando, por vezes, o mesmo espaço. Segundo Sofia Lerche Vieira, “a educação gratuita se tornou um símbolo de uma educação voltada aos pobres” (VIEIRA, 2007, p. 298).

Após 15 anos frente à presidência do Brasil, Vargas deixa o governo em 1945. Neste momento, foi instaurada uma nova estrutura política, pautada em princípios democráticos. Em 1946, foi promulgada a nova Constituição, na qual a educação voltava a fazer parte do contexto universal, disseminada como sendo um direito de todos. Vale destacar, o parágrafo único do artigo 171, o qual determinava que a União devesse contribuir com o desenvolvimento dos Sistemas de Ensino.

Entre 1945 e 1964, a política brasileira viveu momentos conturbados, sendo que três presidentes não concluíram seus mandatos. Getúlio Vargas cometeu suicídio, alegando estar sofrendo perseguição por parte de uma elite financiada pelo capital estadunidense, sobretudo por conta da sua campanha nacionalista ligada à exploração do petróleo. Jânio Quadros renunciou após sete meses de mandato e o seu vice, João Goulart, assumiu em meio a uma turbulência política, em virtude do seu posicionamento político considerado vinculado aos princípios socialistas.

Diante disso, a elite brasileira, correlacionada com os militares e com apoio internacional, principalmente, dos Estados Unidos, dificultaram, ao máximo, o acesso de João Goulart à presidência. Este, por sua vez, assumiu o governo por meio da implantação do Parlamentarismo, tendo o seu poder político limitado. Entretanto, buscou na Constituição a base legal para o retorno do Presidencialismo, haja a vista que na Constituição vigente, só poderia existir mudança no Sistema Político mediante a convocação de um plebiscito. Dessa forma, Goulart exigiu a

convocação do plebiscito e os cidadãos brasileiros votaram a favor do retorno ao Presidencialismo.

Ao assumir a presidência da República, João Goulart, implantou algumas medidas tidas como revolucionárias. Pretendia realizar diversas reformas: Reforma Agrária, Reforma da Previdência, Reforma Educacional, Reforma Política e Fiscal. Em meio à possibilidade da implementação das Reformas de Base, a elite brasileira viu seus privilégios ameaçados, principalmente, os políticos oriundos da base ruralista. Em meio à repercussão das Reformas, produzida de maneira negativa, sobretudo se levarmos em consideração o papel exercido pela mídia em apoio ao Golpe Militar, tendo em vista a maneira pela qual eram noticiadas tais reformas. Essas eram apresentadas como ações de cunho comunista, como se a concretização dessas Reformas fossem negativas para a sociedade brasileira.

Naquele período histórico, o mundo estava politicamente dividido em duas grandes áreas de influência: de um lado, os países capitalistas, liderados pelos Estados Unidos da América (EUA); e, do outro, os países socialistas, liderados pela União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Com isso, as imagens e propagandas que se remetiam aos comunistas eram negativadas e demonizadas, visto que, o Brasil sempre manteve uma relação mais próxima do bloco capitalista e a política econômica ditada pelos Estados Unidos.

Assim, a maioria da população abraçou o projeto articulado pela elite brasileira e as Forças Armadas. Eles foram apoiados pelo capital financeiro dos Estados Unidos, que temia perder um grande parceiro político e econômico nas Américas. Nesse contexto, em 1964, foi concretizado o Golpe Militar que depôs João Goulart. Após o Golpe Militar de 1964, mais uma vez, a nossa Constituição teve que se adequar à ordem política vigente e, em 1967, é instaurada uma Constituição que cerceava a liberdade política dos sujeitos.

No tocante à educação, essa Constituição incentivou e apoiou, demasiadamente, o Ensino Privado. Segundo Sofia Lerche Vieira,

Vale registrar o flagrante retrocesso representado pela desvinculação dos recursos para educação. Enquanto pela Constituição de 1946, a União estaria obrigada a aplicar “nunca menos de dez por cento, e os Estados, o Distrito Federal e os Municípios nunca menos de vinte por cento da renda resultante dos impostos na manutenção e desenvolvimento do ensino” (art. 169), na carta de 1967, tal obrigação desaparece. (ibid., p.303).

A Ditadura Militar durou mais de duas décadas, caracterizada pela forte repressão, perseguição política, mortes, torturas, as liberdades em todos os sentidos foram cerceadas, inúmeros opositores exilados e mortos. Em 1985, o regime autoritário chegou ao fim e, assim, mais uma vez, houve a necessidade da elaboração de uma Constituição que se adequasse aos novos tempos. Esta nova Carta foi construída de forma mais ampla e democrática, inserindo as demandas de todos os brasileiros, inclusive trazendo, no seu corpo, temas até então considerados tabus em nossa sociedade, a exemplo disso, as questões envolvendo as diversidades.

A Constituição de 1988 foi a mais robusta em relação à questão da educação. Com dez artigos específicos (205 a 214) e quatro dispositivos, o texto contempla todos os níveis e modalidades educacionais com abordagens que abarcam os mais diversos conteúdos. Como bem destaca Sofia Vieira, ao considerar o espírito do texto o de uma “Constituição Cidadã”, por propor a incorporação de sujeitos, historicamente, excluídos do direito à educação, expressa no princípio da “igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”. (ibid., p. 304).

Partindo dessa contextualização, envolvendo a educação em nossas Constituições, percebemos o quanto era incipiente a valorização da educação e quando esteve presente com maior robustez, não foi capaz de garantir a permanência dos menos favorecidos. Logo, a configuração da educação Pública brasileira atendia única e exclusivamente aos interesses dos setores privilegiados da sociedade.

Apenas na Constituição de 1988, já no final do século XX, que o texto voltado para as questões educacionais veio acompanhado por mecanismos de debates acerca das diversidades que compunham a sociedade brasileira, ou seja, mesmo estando presente o tema voltado para educação de maneira considerável, em algumas Constituições, não foram estabelecidos dispositivos suficientes, de tal modo, que pudessem oportunizar a todos os cidadãos, o acesso e a permanência em condições igualitárias, sendo priorizados determinados grupos sociais, sobretudo as elites conservadoras, em detrimento dos grupos considerados minoritários25 na

perspectiva do acesso à cidadania.

25 Entendam grupos minoritários, aqueles compostos pela maioria da população, que historicamente teve o acesso a cidadania plena negado, sendo marginalizados, guetificados e por vezes silenciados.

O Estado oferecia o básico de uma educação formal, cujo interesse era a prevenção da criminalidade e ociosidade, bem como a diminuição da ignorância que permeava a mentalidade da maioria dos sujeitos. Assim, nas Constituições de 1934 a 1967, a Educação Básica brasileira se restringia à garantia de um Ensino Primário e Gratuito, atendendo, principalmente, ao público adulto, tendo pouca eficácia no processo de alfabetização da nossa população, uma vez que a maioria dos adultos estava inserido no campo de trabalho, não tendo disponibilidade para o gozo ou usufruto dessa educação.

Além disso, deve-se levar em consideração a inexistência de leis que impedissem o trabalho infantil. Assim sendo, a maioria das crianças oriundas de famílias de baixa renda, encontrava-se no campo de trabalho, para auxiliar nas despesas e, até mesmo, na garantia da sobrevivência. Desse modo, evidencia-se o porquê de nosso país ainda apresentar um número considerável de analfabetos, mesmo com tantos Programas Governamentais, nas últimas três décadas, voltados para alfabetização de crianças e de jovens e adultos, tendo em vista que, durante séculos, a educação esteve restrita a crianças abastardas que tinham subsídios suficientes para garantir o seu acesso e permanência no sistema educacional brasileiro.

Carlos Roberto Jamil Cury nos chama atenção acerca da necessidade de levarmos em consideração a dura realidade a qual foram submetidos os países colonizados, para compreendermos como esses países que estiveram sobre a tutela do colonizador, após a independência criou diversos mecanismos para garantir os privilégios das elites locais. Segundo o autor,

E, mesmo no meio dos países colonizados, ainda resta avaliar o impacto sociocultural da colonização quando acompanhado de escravatura. A conquista do direito à educação, nestes países, além de mais lenta, conviveu e convive ainda com imensas desigualdades sociais. Neles, à desigualdade se soma a herança de preconceitos e de discriminações étnicas e de gênero incompatíveis com os direitos civis. Em muitos desses países, a formalização de conquistas sociais em lei e em direito não chega a se efetivar por causa desses constrangimentos herdados do passado e ainda presentes na sociedade. (CURY, 2002, p. 256-257).