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Um dos temas mais recorrentes ao longo do itinerário histórico trata-se do fenômeno da modernidade e de suas derivações – moderno, modernização – e, principalmente, as correlações com outros termos emblemáticos, tais como progresso, civilização e desenvolvimento. O termo modernidade está pautado em diferentes discursos e contextos históricos, condicionado a partir de compreensões inerentes e próprias de cada um desses períodos20. Se, por um lado, a noção de modernidade não é uma invenção da Europa Moderna, por outro lado, o período tradicionalmente demarcado pela historiografia após o século XV, delimitou o processo de construção de um ethos moderno do qual somos herdeiros e que inevitavelmente se desenvolveu nos séculos seguintes. Pois, conforme aponta Berman:

O turbilhão da vida moderna tem sido alimentado por muitas fontes: grandes descobertas nas ciências físicas, com a mudança da nossa imagem do universo e do lugar que ocupamos nele; a industrialização da produção, que transforma conhecimento científico em tecnologia, cria novos ambientes humanos e destrói os antigos, acelera o próprio ritmo de vida, gera novas formas de poder corporativo e de luta de classes; descomunal explosão demográfica, que penaliza milhões de pessoas arrancadas de seu habitat ancestral, empurrando-as pelos caminhos do mundo em direção a novas vidas; rápido e muitas vezes catastrófico crescimento urbano; sistemas de comunicação de massa, dinâmicos em seu desenvolvimento, que embrulham e amarram, no mesmo pacote, os mais variados indivíduos e sociedades; Estados nacionais cada vez mais poderosos, burocraticamente estruturados e geridos, que lutam com obstinação para expandir seu poder; movimentos sociais de massa e de nações, desafiando seus governantes políticos ou econômicos,

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De acordo com Habermas (2002) as sociedades da Antiguidade utilizavam para si o adjetivo “moderno” em contraposição ao “bárbaro”, não civilizado. Além disso, a utilização desses vocábulos pode ser encontrada também em sociedades orientais clássicas, como a chinesa.

lutando por obter algum controle sobre suas vidas; enfim, dirigindo e manipulando todas as pessoas e instituições, um mercado capitalista mundial, drasticamente flutuante, em permanente expansão. No século XX, os processos sociais que dão vida a esse turbilhão, mantendo-o num perpétuo estado de vir-a-ser, vêm a chamar-se ‘modernização’. (BERMAN, 1986, p. 16).

O que seria esse paradigma moderno pós-século XV? Primeiramente, devemos enfatizar que o recorte aqui chamado de ethos moderno após o século XV” é uma escolha particular do autor a partir de teóricos estudados21. Afinal, não temos como demarcar com precisão quando ocorre o surgimento desse espírito moderno típico dos séculos XV e XVI, pois, dependendo do campo sobre o qual se debruçará o historiador e o contexto específico de um país ou de um grupo, ainda podemos presenciar práticas e ideias que não correspondem ao ideal de modernidade impresso pela “Sociedade de Corte” da Europa Moderna. Fato esse, por exemplo, evidenciado na pesquisa de Thompson (1998) sobre a venda de esposas, fenômeno típico da cultura comunal inglesa que ainda sobreviverá nas primeiras décadas do século XX.

Thompson desvela ao leitor que a venda de esposas correspondia a um divórcio de cunho popular pertencente ao campo da tradição campesina, no qual para sua concretização, a esposa era vendida em praça pública por seu esposo. Os discursos jornalísticos e do judiciário analisavam essa prática como selvagem, atrasada e pouco afeita aos padrões modernos. Desse modo, são essas contradições apresentadas pelos sujeitos ante ao conceito do que seria moderno que nos interessam, cuja construção está atrelada a uma série de acontecimentos e instituições que surgem depois do século XV.

Marshall Berman no clássico “Tudo que é sólido desmancha no ar” delimita três momentos - os quais não se configuram como categorias estanques, mas explicitam formas de pensar genéricas e que interferem sobre na ideia de modernidade e suas derivações: a Iluminista; a Revolução Francesa; e a pós-século XX.

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Desse modo, afirmar que esse modo de vida moderno iniciou-se anteriormente a essa demarcação concebo como forçoso pela própria inexistência ou incipiente existência de instituições que só serão consolidadas posteriormente: capitalismo, crescimento urbano entre outros. Por outro lado, afirmar que somente do XIX em diante encontraremos a modernidade acaba por cair no esquecimento de um processo que, para desembocar e se acentuar no XIX, iniciou há alguns séculos atrás.

De acordo com Berman, a sociedade europeia durante o movimento Iluminista começava a estabelecer com a modernidade vínculos mais intensos, mesmo que permeada por altos e baixos, o ritmo impresso por um capitalismo nascente na Inglaterra que começava a se espalhar por outros países e o germe de um liberalismo burguês já surtia efeito tanto no campo da representação quanto no cotidiano do europeu. Por exemplo, em 1761, Rousseau lançou a novela La Nueva

Heloise, na qual seus personagens já sentem um novo modo de vida, ao mesmo

tempo, fascinante e assustador, segundo uma das personagens:

Eu começo a sentir a embriaguez a que essa vida agitada e tumultuosa me condena. Com tal quantidade de objetos desfilando diante de meus olhos, eu vou ficando aturdido. De todas as coisas que me atraem, nenhuma toca o meu coração, embora todas juntas perturbem meus sentimentos, de modo a fazer que eu esqueça o que sou e qual meu lugar. (ROUSSEAU apud BERMAN, 1986, p. 17).

As figuras de linguagem e a geografia da cidade que serão tão bem utilizadas por Baudelaire no fim do século XIX começava a permear o imaginário de homens e mulheres séculos atrás: a noite, a embriaguez, a dor e o caos passavam, aos poucos, a serem associadas a essa nova estrutura de vida. De 1789, isto é, da Revolução Francesa em diante, as contradições impressas pela modernidade se acentuam ainda mais, pois, se por um lado a “liberdade, a fraternidade e a igualdade” burguesa destituem do centro político o regime monárquico centralizador e propalam uma nova era de desenvolvimento, por outro, o sistema econômico e político liberal elevaram, até então, para níveis impensáveis a desigualdade social.

Nesse contexto, Habermas em “O discurso filosófico da modernidade”, considera Hegel um dos filósofos precursores ao adotar o pensamento filosófico que assume uma perspectiva conceitual de modernidade, principalmente, ao caracterizar o século XIX como emblemático na ruptura entre o passado e o presente-futuro modernos: “os novos tempos [XIX] são os tempos modernos” (HABERMAS, 2002, p. 9). Segundo Habermas, Hegel, pautado por uma visão linear apontava para o desenvolvimento social permeado pela modernidade como uma marcha contínua.

Por outro lado, o XIX marca também a ressignificação do pensamento filosófico, que compreendia a modernidade apenas por seus aspectos positivos e no progresso como destino infalível da sociedade. Ainda assim, colocar em xeque a modernidade não significava para alguns desses pensadores abandoná-la. Berman

alerta ao seu leitor que, por mais que Marx, Nietszche, entre outros, analisassem a sociedade do XIX por um prisma pessimista – e por que não dizer um tanto realista, inerente a um cotidiano de mudanças – também visualizavam um futuro melhor do que o presente, pois as inovações tecnológicas que encarceram o proletariado poderiam gerar a consciência de classe desse mesmo proletariado, o egoísmo e o individualismo poderiam ser uma fase de transição para o ser humano racionalizado das décadas por vir e assim por diante.

Não há em Marx e Nietzsche uma crítica acentuada ao progresso e à racionalidade, mas sim às estruturas e às formas sociais dadas naquele contexto histórico, em outros termos, não há em seus escritos uma crítica à modernidade, mas sim ao processo social adotado que se contrapunha aos interesses pessoais e de estudo desses autores.

Baudelaire em poesias que tratavam sobre o ambiente das ruas, dos mendigos frequentadores das calçadas de dia e das prostitutas nas mesmas calçadas à noite, entre outras temáticas ligadas ao cotidiano urbano de miséria de Paris, considerava o surto moderno como “o transitório, o rápido, o contingente” (BAUDELAIRE, 1988, p. 174). Diferentemente de Marx e Nietzsche, Baudelaire não parecia enxergar com otimismo um futuro com as contradições e desigualdades sociais que acompanhavam a modernidade nas maiores cidades europeias.

Segundo Berman, a visão de Baudelaire no fim do XIX, destoando de Marx e Nietzsche, daria a tônica da modernidade no século XX:

Seus sucessores do século XX resvalaram para longe, na direção de rígidas polarizações e totalizações achatadas. A modernidade ou é vista com um entusiasmo cego e acrítico ou é condenada segundo uma atitude de distanciamento e indiferença neo-olímpica; em qualquer caso, é sempre concebida como um monolito fechado, que não pode ser moldado ou transformado pelo homem moderno. Visões abertas da vida moderna foram suplantadas por visões fechadas: Isto e Aquilo substituídos por Isto ou Aquilo. (BERMAN, 1986, p. 27).

Nesse sentido, conforme Anthony Giddens (1991), o século XX implode em alguns aspectos o otimismo de pensadores do XIX de um futuro melhor, pois as duas grandes guerras mundiais, a exacerbação das desigualdades sociais e as crises econômicas colaboraram para essa implosão. Em consonância com os apontamentos de Giddens, analisando o campo da arte, Gumbrecht considera as primeiras décadas do século XX como um momento marcante de “espírito

subversivo” por parte de poetas e pintores – dadaístas, futuristas, entre outros – ressaltando o desencaixe entre o tempo histórico e os sujeitos históricos modernos.

O que os historiadores culturais têm chegado a rotular como ‘alta modernidade’, o momento dominado pelas ‘vanguardas históricas’ (para nós) da primeira década e dos anos vinte deste século, é o nível mais radical nessa perda do equilíbrio entre significante e significado (...). (GUMBRECHT, 1998, p. 19).

Para além das contradições tão complexas de serem apreendidas, cabe-nos analisar como os intelectuais reunidos em um Centro Cultural e em diálogo com outros centros, grupos e sujeitos sentiam e recriavam essa modernidade em Ponta Grossa, no Brasil. Pois, se a modernidade é um fenômeno constante, a forma de senti-la é variável, seja no tempo, seja no espaço.

Destarte, de que modo um grupo de intelectuais ponta-grossenses sentia e compreendia a modernidade em Ponta Grossa? Uma cidade que até o fim do século XIX possuía uma população de menos de dez mil habitantes. Em outros termos, como se deu o processo de compreensão e construção das contradições da modernidade em um determinado espaço-tempo? É isso que buscamos.

Pois, esses homens e mulheres do século XX tinham acesso aos estudos e livros clássicos de séculos passados, como bem demonstra a biblioteca do Centro Cultural Euclides da Cunha. Ao mesmo tempo eram espectadores das guerras mundiais e das antíteses sociais, culturais, políticas e econômicas da modernidade do século XX, que saia da Europa e se transformava em sonho de consumo de boa parte dos países americanos. No Brasil, esse sonho não estava restrito às capitais como o Rio de Janeiro, São Paulo ou Curitiba, as pequenas cidades do interior também estavam inseridas nesse processo, mesmo que à margem.

1.2 Ponta Grossa nas primeiras décadas do XX e os sentidos da