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As conversações de paz de Genebra III (2016)

No dia 01 de fevereiro de 2016, um mês após o previsto, tiveram início as negociações de paz sediadas em Genebra, conhecidas como Genebra III. Organizadas pelo ISSG e mediadas pelas Nações Unidas, tais reuniões tinham como fim primordial estabelecer um cessar-fogo, seguido de um governo de transição e de eleições na Síria, além da derrota do Estado Islâmico.

A primeira reunião foi composta pelos mesmos participantes de Viena, mas com a marcante diferença da inclusão de representantes do governo sírio e do Alto Comitê de Negociações

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(HNC), uma coalizão composta por 3417

grupos de oposição ao regime Assad - um terço desses representando facções armadas -, liderada pela Arábia Saudita e chefiada por Mohammed Alloush, do grupo salafista Jaysh al-Islam18. A

demora para a ocorrência dessa reunião – que estava marcada para o dia 01 de janeiro – se deu, fundamentalmente, pela indecisão sobre quem seria a oposição síria reconhecida (Lund 2016). Além disso, o próprio HNC mostrava-se ainda um pouco reticente em negociar com o regime de Damasco caso este não cesasse os ataques aéreos contra a oposição, mas acabou cedendo à pressão internacional para estar presente.

A definição sobre quais grupos são moderados ou radicais é um fator de conflito entre as partes envolvidas: de um lado, Estados Unidos, Arábia Saudita, Turquia e demais países europeus consideram os grupos do HNC representativos da oposição ao governo sírio, enquanto a Rússia, o Irã e o governo Assad classificam alguns destes como radicais ou terroristas, realizando

17 A ONU nunca cogitou aceitar no HNC os grupos de oposição que são amplamente considerados terroristas, como o Estado Islâmico e a Frente al-Nusra. Alguns grupos considerados terroristas pela Rússia e pelo Irã, porém, foram incluídos no Comitê- a exemplo do Ahrah al-Sham, do Jaysh al-Islam -, apesar das demandas russas de que apenas grupos que não recorressem à violência contra o frágil Estado sírio deveriam poder participar. Ainda, grupos importantes no combate ao Estado islâmico, como os curdos, também não foram incluídos na coalizão da oposição. Infelizmente, ainda é muito difícil encontrar fontes confiáveis e detalhadas que contenham informações sobre quais são, de fato, os 34 grupos que compõe o HNC. Aqueles que se tem confirmação sobre a participação são Jaysh al Mujahideen, Jaysh al Islam, Al Jaysh al Awl, Jabhat al Asala wal Tanmiya - todos esses sabidamente atuando como oposição armada -, Ahrar al-Sham, Jabal Turkman Battalion, Suqour al-Jabab Brigade, Council of Direction of Syrian Tribes, Popular Front for Change and Liberation, Movement Kamh, Movement for a Pluralist Society, Cairo Group, Movement for a Peaceful Policy Change, Syrian Democratic Council, e Salim Herbek e Namroud Suleiman como participantes independentes (Pike 2016; Cafarella and Casagrande 2016) .

18 O Jaysh al-Islam é um dos principais grupos de oposição jihadista salafista na Síria. Possui apoiadores

em sete províncias diferentes na porção ocidental do país, mas detém sua maior força na capital, Damasco (Cafarella and Casagrande 2016).

ataques aéreos em suas posições. Apesar da ausência de um consenso sobre isso, ambos os lados do conflito excluíram representantes dos curdos, da milícia jihadista Jabhat al-Nusra, a qual possui laços com a al-Qaeda, e do Estado Islâmico (Zraick 2016).Os 34 membros do HNC selecionaram uma delegação de 17 representantes para negociar com uma delegação do governo sírio, essa liderada pelo Representante Permanente da Síria na ONU, Bashar al-Jaafari, nas conversas iniciadas em 2016 (Pike 2016; Lund 2016).

A inclusão de representantes do governo de Bashar al-Assad nas conversações reflete as mudanças ocorridas em território sírio entre as forças do governo e demais grupos: desde os ataques aéreos russos em apoio à Assad, o governo tem recuperado regiões importantes do país, como a cidade de Alepo, maior cidade do país antes da guerra. Desde então, o governo prometeu reconquistar o controle sobre todo o país, o que demonstra a sua posição relativamente fortalecida e sólida. Isso deixou claro que Assad não seria destituído através da força e que a

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participação do governo, em qualquer negociação, se tornara indispensável a partir da nova conjuntura – mesmo que grande parte dos negociadores permaneça se opondo veementemente à continuidade de Assad no cargo de presidente (Irish and Strobel 2016; Dearden 2016).

Os representantes do HNC focaram nas questões humanitárias e na libertação de prisioneiros políticos, enquanto o posicionamento declarado do governo sírio seria de defesa da independência e soberania territorial síria, além da unidade do seu povo. O mês de fevereiro foi, contudo, um período de estagnação nas negociações, principalmente em virtude dos avanços militares do governo sírio e das forças russas contra rebeldes em Alepo. Assim, apenas foi discutida a necessidade de se estabelecer um cessar-fogo. No dia 22, em Munique, os Ministros de Relações Exteriores da Rússia e dos EUA se reuniram na 52ª Conferência Anual de Segurança de Munique e anunciaram juntamente com o ISSG a adoção dos Termos para o Fim das Hostilidades19 na

Síria. O cessar de hostilidades deveria ter início no dia 27 de fevereiro e ser acompanhado de conversações políticas entre as partes envolvidas. Para isso, foi

19 Esses termos incluíam, entre outras coisas: a implementação da Resolução 2254 de Conselho da Segurança

da ONU - retomada pela Resolução 2268, de 26 de fevereiro de 2016 -, a interrupção de ataques de quaisquer formas às forças de governo sírio ou a qualquer grupo associado a elas, e ajuda humanitária imediata (United States of America 2016).

20 O anúncio pelo presidente russo Vladimir Putin, em 14 de março de 2016, sobre a retirada parcial das

forças militares russas da Síria, surpreendeu os países e grupos envolvidos no conflito. Apesar dessa retirada parcial, bombardeamentos aéreos continuaram, principalmente contra posições de grupos da oposição. Assim, a Rússia atingiu seu objetivo de fortalecer as forças do governo e estabelecer sua presença militar no país sempre que necessário. Analistas acreditam que o anúncio de Vladimir Putin buscou pressionar o presidente Bashar al-Assad a oferecer maiores compromissos para um acordo de paz, em Genebra III (Salih 2016).

estabelecida uma Força Tarefa para o Cessar-Fogo presidida pelo ISSG, EUA e Rússia (United States Department of State 2016). Após as primeiras 24 horas do estabelecimento do cessar-fogo, porém, as forças russas e sírias continuaram seus ataques contra uma série de grupos opositores na parte noroeste do país. Mesmo apesar disso, houve queda notável da violência no país, permitindo que o representante das Nações Unidas avançasse com seus esforços para a resolução de conflito (Syrian Institute 2016).

Uma nova etapa das negociações iniciou-se no dia 14 de março, durando até o dia 24 desse mês. Segundo o enviado da ONU, as conversações, naquele momento, tinham atingido um novo nível de urgência em decorrência do anúncio da retirada das forças russas do território sírio20 (Arvinth 2016). Ainda

nesse contexto, Mistura redigiu uma declaração de princípios que iam desde o repúdio ao terrorismo até o estabelecimento de uma transição política pacífica na Síria, os quais deveriam guiar as conversações a partir daquele momento. Contudo, a declaração não especificava como se daria essa transição nem qual seria o

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papel da Assad nesse processo (Wintour 2016).

No dia 13 de abril, as reuniões entraram em uma terceira etapa, em que se esperava que fossem finalmente definidas as condições necessárias para a transição política na síria (Wintour 2016). No mesmo dia, ocorreram eleições parlamentares nas áreas da Síria que o governo Assad ainda controlava, e muitas pessoas compareceram em apoio a ele. Tais eleições foram consideradas ilegítimas pela oposição, tendo em vista a instabilidade do país e a necessidade do governo em forjar um apoio da população síria. Em contrapartida, a Rússia declarou que elas foram absolutamente necessárias, em virtude da necessidade de se evitar um vácuo de poder no país que poderia favorecer grupos armados (Davison and Bassam 2016).

No dia 18 de abril, o HNC suspendeu formalmente sua participação nas negociações de Genebra III. O grupo citou uma série de motivos, sendo o principal deles a recusa de governo sírio em permitir ajuda humanitária no seu território. Segundo o HNC, as negociações não poderiam continuar enquanto o regime Assad e seus apoiadores, principalmente as forças russas, continuassem bombardeando civis, atacando rebeldes e se recusando a aceitar a formação de um novo governo em Damasco. Apesar de reconhecerem que a saída do HNC teve motivos legítimos, tanto a ONU quanto os EUA posicionaram-se contra essa decisão, pois essa representaria um

retrocesso nas conversações (Hudson 2016).

Nas semanas mais recentes, ambos os lados têm se acusado mutuamente de violar o cessar-fogo estabelecido no final de fevereiro. Para tentar atrair novamente os dois lados para a mesa de conversas, o enviado especial da ONU recorreu aos EUA e a Rússia (Hudson 2016).

Apesar de todos esses esforços no tocante à inclusão do governo sírio e da oposição, é importante, porém, prestar atenção ao fato de que o Partido da União Democrática (PYD), que representa os territórios curdos no norte da Síria, foi excluído de qualquer participação nas negociações. A participação dos curdos na Guerra Civil Síria é complexa e envolve interferências e interesses das potências envolvidas. As forças curdas são, atualmente, o principal agente em território sírio em combate contra as posições do Estado Islâmico, fato que tem incentivado a ajuda militar e financeira por parte dos Estados Unidos. Entretanto, devido aos laços existentes entre o Partido e as organizações rebeldes curdas no sudeste da Turquia (PKK, do inglês Kurdistan Workers Party), o governo turco se posicionou veementemente contrário a qualquer participação de representantes curdos nas conversações, ameaçando deixá-las caso isto ocorresse (Perry and Mohammed 2016; DeYoung and Morello 2016). Dada esta relação entre os curdos sírios e turcos, o governo de Ancara impôs ofensivas nos territórios ao norte da Síria, próximos à fronteira com a Turquia, região controlada pelos curdos

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(Reuters 2016). Assim, mesmo que em Genebra III fosse elaborado algum acordo entre governo e oposição, a ausência dos curdos nesta resolução poderia colocar à prova suas reais

chances de efetividade, uma vez que o PYD goza de grande apoio popular e tem conquistado mais posições no norte da Síria.

Imagem 1 - Áreas controladas pelos grupos na Síria (Janeiro 2016)

Fonte: Robbins 2016

Considerações Finais

A análise das últimas conversações de paz sobre a Síria atesta a importância e o alcance do conflito sírio. Esse conflito tem envolvido, de alguma maneira, todos os países vizinhos: exemplos são o Iraque, em virtude da atuação do Estado Islâmico; a Jordânia e o Líbano, em razão do fluxo de refugiados; a Turquia, em razão dos refugiados e também da questão curda. O Irã e a Arábia Saudita, por sua vez, têm

interesses específicos - e praticamente opostos - na maneira como se concluirá a guerra síria, e, portanto, financiam e apoiam grupos distintos dentro da Síria, garantindo que o equilíbrio de poder na região se configure de maneira favorável aos seus interesses. A União Europeia, os Estados Unidos e a Rússia também atuam, direta ou indiretamente, relacionando-se com o governo ou com grupos de oposição, e realizando intervenções militares diretas, tanto para combater o Estado Islâmico quanto, no caso da Rússia, para apoiar o regime de

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Assad. Reconhecendo-se essa diversa gama de interesses, a existência das conversações pode ser interpretada como um momento em que, finalmente, houve consenso sobre pelo menos um ponto com relação à Síria: todas as partes envolvidas deveriam participar das discussões em virtude das muitas ambições em jogo.

Apesar desse ponto positivo, é possível afirmar que a ausência dos curdos sírios nas negociações poderia se mostrar muito problemática para que se alcançasse uma paz verdadeiramente duradoura no país, em virtude do apoio local e estrangeiro que detêm. Ignorar esse fator permitiria que os braços armados rebeldes continuassem agindo, já que não estariam incluídos em acordos de cessar-fogo e, consequentemente, de transição política. A política adotada por Washington, baseada em apoio indireto e evitando um maior envolvimento em terra, tem demonstrado incoerência uma vez que fornece apoio direto aos curdos ao mesmo tempo em que concorda com sua ausência nas negociações – dada, em grande medida, por oposição da Turquia.

A saída do Alto Comitê de Negociações das conversações de Genebra pode fazer com que esse histórico esforço multilateral em busca da resolução do conflito sírio seja interrompido por tempo indeterminado. Se isso de fato acontecer, as consequências serão muito negativas para a região e, especialmente, para a população síria, uma vez que o fim oficial do cessar-fogo provavelmente significará uma escalada no uso da violência por

parte do governo e dos grupos rebeldes em torno das áreas em disputa atualmente. Mesmo que as negociações continuem sem o HNC – no modelo da mais recente reunião de Genebra, ocorrida em 17 de maio de 2016, que não contou com a participação da oposição síria e nem do governo sírio -, é muito difícil que o grupo venha a acatar as decisões tomadas unilateralmente pelo ISSG, e que, portanto, se retardem as tentativas de transição política.

Algumas lições, entretanto, podem figurar como heranças positivas das conversações de Genebra III, especialmente no âmbito regional e internacional, e a observação dos próximos eventos na região poderá confirmar ou refutar isso. Primeiramente, a liderança por parte dos Estados Unidos e da Rússia de maneira conjunta e equilibrada, que foi algo realmente novo no período pós-Guerra Fria, até então marcado pela predominância dos EUA. Tal situação vem se alterando desde a crise na Ucrânia, apontando para a possibilidade de uma nova tendência diplomática de maior diálogo entre as grandes potências, sem a preponderância de um único país, e utilizando a ONU como palco para tais negociações.

Em segundo lugar, e, por fim, é importante destacar também o papel desempenhado pelo Irã nas conversações a partir das reuniões de Viena. A inclusão deste país nas negociações pode ser interpretada como um sucesso diplomático e estratégico não somente russo e iraniano, mas também estadunidense, ao conseguir um

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maior envolvimento do Irã no combate as forças do Estado Islâmico. Tal rearranjo se distingue das conversações anteriores a Viena, as quais foram tratadas ativamente entre os principais aliados estadunidenses na região, Turquia e a Arábia Saudita, percebidos como os tradicionais rivais do regime iraniano no Oriente Médio. A presença iraniana em apoio ao governo de Assad representou o reconhecimento, por parte dos demais participantes, de que uma solução pacífica para a Síria só poderia ter lugar com um papel mais ativo sendo desempenhado pelo Irã, que poderia, assim, trazer o governo de Assad à mesa de negociação. O Irã, por sua vez, logrou, ao menos por enquanto, a manutenção de sua influência sobre a Síria, impossibilitando uma decisão unilateral por parte do bloco liderado pelos EUA. Todos esses elementos, somados ao fim das sanções econômicas ao Irã, podem estar abrindo as portas para uma nova distribuição na balança de poder do Oriente Médio, com uma maior responsabilidade delegada ao Irã na manutenção da estabilidade na região, além de novas relações entre as potências regionais, e destas com as grandes potências extrarregionais, Estados Unidos e Rússia.

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