2.5. A ÁREA SUL DO ESTADO DO AMAPÁ: UM TERRITÓRIO
2.5.2. Sócio-política
2.5.2.2. OS PRINCIPAIS ATORES SOCIAIS NA CADEIA PRODUTIVA DA CASTANHA
2.5.2.2.2. As cooperativas de beneficiamento de castanha
As cooperativas criadas na região sul do Amapá representam uma tentativa de melhorar a qualidade de vida das pessoas e o desenvolvimento das comunidades locais dessa região. Elas serão apresentadas a seguir de acordo com a sua ordem cronológica de formação: COMAJA (1986), COMARU (1997) e COOPERALCA (2001).
2.5.2.2.2.1 Cooperativa Mista de Agroextrativistas de Laranjal do Jari (COMAJA)
A cooperativa se situa na sede do município de Laranjal do Jari. Sua história tem início quando Manoel Conceição, uma liderança sindical rural local, começa a organizar os trabalhadores demitidos do projeto Jari, para reassumirem suas condições de agricultores, reivindicarem terras que a Jari não utilizava, mas que dizia ser proprietária: “No ano de 1983
esse direito foi reconhecido, mas somente em 1986 a COMAJA passou a existir de direito, e eu fui eleito o primeiro presidente” (Depoimento de Manoel Conceição, 2005).
No ano da pesquisa da Embrapa, em 2000, a cooperativa produzia o óleo de castanha, a castanha sem casca e a torta, que era utilizada até há pouco tempo na fabricação de biscoito na COMARU. Além desses produtos, a cooperativa beneficiava um tipo de óleo para dedetização, que é um subproduto fabricado com castanhas impróprias para consumo e que era comprado pelo Governo do Estado do Amapá (GEA). Neste ano a capacidade de produção
era de 580 Kg de massa de castanha, 348 litros de óleo e 800 Kg de castanha desidratada. Seus clientes eram representados principalmente pela COMARU (torta de castanha), COOPFLORA (óleo de castanha) e Empresas Mutran (castanha seca).
No ano de nossa pesquisa em 2005, face a série histórica de problemas enfrentados com a administração da cooperativa pelos próprios trabalhadores agroextrativistas, a nova diretoria contratou profissionais para fazerem essa administração. Essa forma de gerência elabora uma estratégia de gestão que afasta os poucos castanheiros que entregavam a produção para ser beneficiada. Em contrapartida, amplia o uso da fábrica pelos atravessadores, especificamente para um deles, conhecido pelo nome de Quentura.
2.5.2.2.2.2 Cooperativa Mista dos Produtores e Extrativistas do Rio Iratapuru (COMARU)
A COMARU foi fundada no ano de 1991 com o objetivo de viabilizar as demandas das populações extrativistas residentes na foz do rio Iratapuru. Seu estatuto foi aprovado em Assembléia Geral realizada em 27 de novembro de 1992. A fábrica de beneficiamento de castanha da COMARU se localiza na comunidade de São Francisco do Iratapuru, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru (RDS-I). Esta reserva foi criada pela Lei n° 0392, de 11 de dezembro de 1997, portanto, no primeiro governo Capiberibe. Uma das realizações do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá (PDSA).
Para dar suporte a sustentação da RDS-I, a administração da reserva fica sob a responsabilidade da Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Amapá (SEMA). Existem 6 comunidades na RDS-I e seu entorno (Iratapuru ou São Francisco do Iratapuru, Cachoeira de Santo Antônio, Retiro, São Militão e Padaria), que totalizam 114 famílias. A principal fonte de renda monetária dessas comunidades vem da extração da castanha-do-brasil. No ano da pesquisa da Embrapa em 2000, a produção total de castanha da RDS-I foi de oito mil hectolitros: “Uma produção que poderia ser bem maior, pois muitos dos castanhais não são
explorados” (Depoimento de um técnico da SEMA, 2000).
A cooperativa contou com o apoio financeiro do Ministério do Meio Ambiente (MMA) para implantação da sua fábrica de processamento de castanha. Por intermédio do Projeto Demonstrativo Tipo A (MMA/PD-A), um dos componentes do PPG-7. No ano de 2000, o GEA fazia o custeio do produto principal da COMARU, o biscoito de castanha, vendido para a merenda escolar.
No ano de 2003 um incêndio de causas não totalmente esclarecidas, destruiu a fábrica da COMARU. No ano de nossa pesquisa de campo em 2005, a fábrica havia sido reconstruída a partir de recursos obtidos de uma indústria nacional de cosméticos. Um contrato de exclusividade na compra do óleo da castanha produzida na nova fábrica da COMARU, foi a contrapartida exigida e obtida da comunidade para esse financiamento. Algumas famílias da RDS-I e sócios da COMARU manifestavam descontentamento com esse contrato. Eles alegam que a quantidade de óleo que a empresa compra é muito menor que a capacidade que eles podem produzir. O excedente, por força de contrato eles não podem procurar outros compradores para esse produto.
2.5.2.2.2.3 Cooperativa dos produtores de castanha do alto Cajari (COOPERALCA) Foi criada no ano de 2001 pelo CNPT de Macapá como uma figura jurídica legal para receber na forma de comodato, a usina construída pelo IBAMA, para realizar o processamento de castanha da RESEX/CA. Esta usina está situada na comunidade local de Santa Clara, no médio Cajari. Os recursos para as construções civis, e aquisição de máquinas e equipamentos, vieram diretamente do IBAMA.
Quando da nossa pesquisa no ano de 2005 a cooperativa possuía 99 cooperados, pertencentes a 12 comunidades locais da RESEX/CA. No início do funcionamento da usina (2001), o CNPT de Macapá, além de prestar uma boa assistência técnica, dava um apoio financeiro e logístico permanente à cooperativa. Na atualidade, porém, a assistência é precária e o apoio não existe (Depoimento de Natanael, presidente da COOPERALCA, ano de 2005).
A planta industrial de processamento tem capacidade de produção anual de 700 toneladas de castanha. O processamento começa com a recepção das castanhas “in natura” que chegam ensacadas ao pátio da usina, sendo em seguida retiradas dos sacos para serem estocadas no galpão de madeira, enquanto aguardam completar o volume para beneficiamento no secador rotatório, que é de aproximadamente 120 hectolitros.
Depois de atingir essa cota as amêndoas são levadas ao secador, que por secagem intermitente, reduzem a unidade interna da amêndoa para 12 – 14%, além de eliminar o pó que vem aderido nas amêndoas. Esse processo leva de 8 – 10 horas, dependendo do teor de umidade da castanha recebida. O secador é alimentado por um forno a lenha com temperatura regulada. O consumo médio de lenha é de seis metros cúbicos por carga de 120 hl de castanha secada.
Após passarem pelo secador, as castanhas secas são levadas por elevadores tipos canecas ao beneficiador de ventilação forçada, que elimina as amêndoas cochas. Por esteiras rolantes as amêndoas selecionadas no beneficiador sofrem outra seleção, por trabalhadores hábeis dispostos ao longo da esteiras rolantes, que retiram aquelas impróprias (podres, quebradas), para em seguida ensacar em sacos de polipropileno usados, com peso de 50 kg, e estocadas sobre tablados dentro do mesmo depósito, enquanto aguardam o transporte para comercialização.
A usina funcionou no ano de 2005 com castanha adquirida de cooperados do Centro Novo, com recursos para compra de matéria e funcionamento, obtido de financiamento bancário. Neste ano de 2005 a usina beneficiou apenas dois mil hectolitros de castanha, ou seja, pouco mais de 10% da capacidade instalada. No mesmo depoimento, o presidente da cooperativa nos disse que essa pequena quantidade de castanha beneficiada deve-se ao fato da usina funcionar com a castanha do Centro Novo. Apenas os castanheiros que tiram castanha dessa localidade entregam a produção à cooperativa:
“É um local distante e de acesso precário, somente a cooperativa apanha a produção e paga o preço de mercado. Os atravessadores sempre querem pagar menos, por ter um custo muito elevado com o transporte” (Depoimento de Natanael, 2005).
2.5.2.2.3 OS EMPRESÁRIOS E EXPORTADORES