2 O COOPERATIVISMO E O CAPITAL
2.3 As cooperativas dos imigrantes
O cooperativismo agropecuário é o mais importante entre todos os segmentos cooperativistas do Paraná, conforme a OCEPAR (2012). Por meio de uma política imigratória do governo paranaense, oferecendo diversos incentivos à formação de colônias agrícolas, os imigrantes europeus trouxeram as bases do cooperativismo. Essas bases foram adaptadas ao campo segundo princípios elementares e propripiciaram a fundação de cooperativas, cada uma com características próprias e em alinhamento com a realidade regional.
Esses imigrantes, maior parte alemães e italianos, vieram para o Brasil em um grande movimento migratório entre o final do século XIX e meados do século XX. Em 1829 ocorre a chegada do primeiro grupo de 248 imigrantes alemães que fundaram a Colônia Rio Negro, hoje município. Em 1847, ocorre o mais importante movimento pré- cooperativista de origem francesa (fundação da Colônia Thereza Cristina, Rio Ivaí, hoje município de Candido de Abreu), onde se desenvolve uma ação social caracterizada principalmente pela solidariedade e trabalho coletivo:
No Brasil e em especial na região Sul, este tipo de ação associativa qualificada tem seus fundamentos nas práticas da comunidade indígena (mutirão), na ação dos jesuítas e no seu projeto civilizatório (1610) e principalmente na ação do médico francês e Jean Maurice Faivre que, em 1847, no Paraná, fundou a colônia Tereza Cristina, organizada em bases cooperativas “fourerianas” (SILVA et al., 2003, p. 87).
De acordo com a OCEPAR (2006), as cooperativas mais antigas do Paraná foram a Cooperativa Mista 26 de Outubro, em 1906, e a Cooperativa Florestal Paranaense, em 1909. Um dos pioneiros do cooperativismo foi o agrônomo ucraniano Valentin Cuts, o qual chegou ao estado em 1912, e criou a Sociedade Cooperativa Svitlo, em Carazinho, União da Vitória (1920) e Cooperativa Agrária de Consumo de Responsabilidade Ltda, “Liberdade”, município de Paulo Frontin, surgida em 1930 e registrada em 1942 sob nº 1.
Outro nome importante na história do cooperativismo foi o do padre Teodoro Drapienski, que fundou a Sociedade Cooperativa de Comércio “União Lavoura” e fundou a Colônia Muricy transformada em Cooperativa Mista Agropecuária São José em 1945. Entre a década de 1930 e de 1950, surgiram as cooperativas fundadas por imigrantes, ainda em atividade no Paraná (Figura 6).
Figura 6: Mapa das cooperativas fundadas por imigrantes no Paraná. Fonte: OCEPAR (2004). Organizado por PELEGRINA (2012).
As cooperativas de origem holandesa, como a Batavo em 1935, a mais antiga fundada por imigrantes e em atividade no Paraná, instalaram-se na mesorregião Centro- Oriental, chamada ainda de “Campos Gerais”21. A Castrolanda foi fundada em 1951 e a Capal em 1960. A Cooperativa Agrícola Witmarsun, de origem russo-alemã (menonita) foi fundada no município de Palmeira, em 1951. Na mesorregião Centro-Sul do Estado, em Guarapuava, criava-se em 1951 a Cooperativa Agrária Mista de Entre Rios,oriunda dos suábios do Danúbio, hoje denominada Cooperativa Agrária Agroindustrial, e a Cooperativa Agrícola Mista de Prudentópolis (CAMP), fundada em 1977, composta por descendentes de ucranianos.
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Em Wachowicz (2000), Campos Gerais são uma estreita e alongada faixa de terra no segundo Planalto Paranaense, que se estende de Jaguariaiva até a margem direito do Rio Negro, e as primeiras famílias de holandeses chegaram em 1911, comprando lotes através do Programa Brazil Railway Company.
As atividades das cooperativas agropecuárias no Oeste e no Sudoeste do Paraná, bem como no Norte do estado iniciaram-se na década de 1960, com migrantes de Santa Catarina e Rio Grande do Sul e São Paulo. Hoje, o número delas é representativo no estado. Segundo a OCEPAR (2012), o cooperativismo paranaense é formado por 240 cooperativas registradas que agrupam mais de 735 mil cooperados e 62.300 colaboradores, faturaram mais 32,1 bilhões de reais no ano de 2011 e congregam em torno de 2 milhões e 500 mil paranaenses.
Das 240 organizações, mais de 80% são do ramo agropecuário, e têm suas raízes nas comunidades de imigrantes europeus, que procuraram organizar estruturas comuns para compra e venda da produção, além de suprirem suas necessidades de consumo e crédito através de sociedades cooperativistas.
Pressupõe-se que as cooperativas de imigrantes apresentam peculiaridades organizacionais envolvendo a coesão cultural do grupo na relação com o trabalho, no alicerce na pequena propriedade policultora, no fortalecimento da pequena propriedade, mas também na questão da identidade étnica, materializada principalmente na preservação da língua. Apesar dessas peculiaridades, alguns pesquisadores revelam que essas cooperativas não fugiram a um processo que envolve as empresas mercantis:
No início, embora algumas cooperativas, notadamente as que tiveram origem em grupos de imigrantes, fossem sólidas, muitas eram incipientes. Pequenas cooperativas muitas vezes, atuando em áreas comuns com outras, formavam um ambiente de competição e hostil no final dos anos 60 e início dos anos 70 (SETTI, 2006, p. 69).
A crescente participação de cooperativas no processo de expansão das atividades agropecuárias e agroindustriais no Paraná funda-se no processo de formação desse agronegócio “(seletivo e oligopólico), num setor dominado por grandes e poucas empresas multinacionais (as trades agrícolas), responsáveis pela comercialização da maior parte das
commodities agrícolas no país” (FAJARDO, 2008, p.174).
Inseridas no contexto das grandes empresas agroalimentares brasileiras, as grandes cooperativas agropecuárias do Paraná chegaram ao século XXI marcadas pelo processo de modernização da produção. Tais cooperativas foram estimuladas por políticas públicas de fomento à exportação e transformação industrial de produtos como a soja, o trigo e a cana-de-açúcar, que “não atingiram as pequenas propriedades responsáveis por gêneros alimentícios de primeira necessidade” (GRAZIANO DA SILVA, 1982, p.30).
Nesse contexto, ainda que mantenham os principais elementares do cooperativismo e sua identidade étnico-cultural, essas organizações apresentam mudanças em suas estratégias de ação.
Percebeu-se uma distorção nessa tipologia cooperativista. Ao mesmo tempo em que tais cooperativas buscaram a modernidade e o crescimento econômico, dentro de uma lógica capitalista, tentaram manter em seus estatutos os princípios da cooperação e da igualdade. As mudanças provocadas pelas cooperativas de imigrantes no Paraná foram inúmeras.
Vista por uma questão cultural, o elemento estrangeiro conseguiu alterar muitas das relações sociais até então existentes nas comunidades em que se instalou e se reproduziu. A partir de 1822, nos tempos do Império, havia um fator cultural agindo sobre os interesses governamentais na imigração e colonização no Brasil, pois “pretendia-se, também, constituir um grupo social intermediário (um novo estrato social e político, fundamental ao governo central), não escravo e não grande proprietário” (SAQUET, 2003, p. 38).
A partir de 1880, os objetivos da política imigratória passam a ser a dinamização crescente do mercado de trabalho livre em formação. Depois, no século XX, quando praticamente encerram-se as grandes correntes migratórias de estrangeiros para o sul do Brasil, a grande motivação era diversificar as atividades econômicas. Essa intenção acabou provocando “maior dinamização da divisão social e territorial do trabalho” no qual “escravidão, imigração e colonização são processos intimamente ligados”, conforme observa Saquet (2003, p. 37) ao se referir a um processo semelhante de colonização pelos açorianos, alemães e italianos no Rio Grande do Sul.
É nesse cenário político, social e econômico da sociedade brasileira, onde se inicia um processo de reestruturação das atividades produtivas através do interesse nas especializações em determinadas áreas, que a Cooperativa Agrária Agroindustrial começou a ser constituída e se tornou o centro da comunidade dos suábios do Danúbio.
3. APROPRIAÇÃO DO TERRITÓRIO PELA COOPERATIVA AGRÁRIA