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2. Enquadramento teórico

2.2. As correntes dominantes

2.2.1. Ciclo de vida das cidades

Ao longo da história encontram-se períodos em que as cidades perderam população. O desen-volvimento urbano tem complexas etapas de crescimento, estagnação e declínio, que podem resultar de alterações nas condições económicas, sociais, políticas ou ambientais. Este pro-cesso tem sido designado por diferentes palavras tais como declínio, decadência, abandono, contra-urbanização, crise urbana e demográfica, entre outras (Haase et al., 2014).

O processo da evolução populacional das cidades, em que períodos de aumento da população são seguidos de períodos com um menor número de habitantes, tem recebido a atenção dos primeiros investigadores das problemáticas urbanísticas desde Rust (1975), Berry (1977) a van den Berg et al. (1982). Esta dinâmica de crescimento, alternado com declínio populacional, deu origem à teoria do ciclo de vida das cidades (van den Berg et al., 1982). De acordo com este ponto de vista, baseado na abordagem da economia neoclássica, o declínio é um processo inevitável gerado pelas estratégias dos agentes económicos. Após a perda de habitantes nas cidades, os governos locais tentem a desenvolver e a implementar políticas capazes de

atrair de volta as pessoas que anteriormente saíram para os subúrbios ou para outras cidades, pelo que ao declínio sucede a recuperação demográfica (figura 3). A transformação urbana que ocorreu nos últimos dois séculos na Europa seguiu, segundo alguns autores, este padrão, consistindo nos processos de urbanização, suburbanização e consolidação (van den Berg et al., 1982; Buzar et al., 2007).

Haase et al. (2014) enfatizam que, de facto, períodos de investimento, são seguidos de desinvestimento, a que se segue reinvestimento, o que faz parecer estas oscilações uma ca-racterística “normal” do desenvolvimento urbanístico assente num modelo capitalista. A nova geografia económica enfatiza igualmente os processos circulares do desenvolvimento urbano e regional (Dunford, 2003). Esta abordagem cíclica encontra suporte empírico com os pro-cessos que resultaram da desindustrialização em que com a descentralização dos propro-cessos produtivos e a substituição das indústrias de trabalho e espaço intensivos por tecnologias de menor dimensão, alterou o perfil económico de muitas cidades da Europa Ocidental e da Amé-rica do Norte (Birch e Mykhnenko, 2009), tendo algumas cidades conseguido recuperar, pelo menos em parte, da perda contínua de habitantes.

Figura 3. Cidades que perderam população e que estão a recuperar. Antiga zona mineira que na sequência da desati-vação da atividade perdeu população e que na sequência de uma política de recuperação ambiental, paisagística e urbanística está a conseguir reter habitantes em Essen – Alemanha (à esquerda); Antiga zona industrial que após uma extensa limpeza de solo permitiu a construção de urbanizações com estacionamento coberto por zona verde em Liu-bliana – Eslovénia (à direita).

2.2.2. O declínio persistente

Observações mais recentes têm questionado a visão baseada no ciclo de vida para a expli-cação da evolução da população nas cidades. Alguns estudos descrevem a diminuição da população como um processo contínuo (Metzger, 2000) – figura 4. Champion (2001) afirmou que o desenvolvimento da Europa Ocidental desde os anos 70 e a sua evolução futura serão distintos do que foi observado entre 1950 e 1970. Essa diferença resulta da mudança de uma

“cidade monocêntrica” para uma “região urbana policêntrica” e da transição demográfica que criou uma variedade de trajetórias para as cidades.

O próprio conceito de “shrinkage” – cidade a ficar mais pequena, com menos habitantes, só de-pois dos anos 80 começou a aparecer na literatura, muito provavelmente porque o fenómeno

alastrou a um maior número de países e cidades (Oswalt e Rieniets, 2006; Turok e Mykhnenko, 2007). Beauregard (2009) chamou cidades em declínio – “shrinkage”- apenas às cidades dos Estados Unidos que perderam população desde a década de 80 até ao ano 2000, tendo de-signado, respetivamente, por cidades “aberrantes” e em “declínio” as cidades que registaram uma redução de habitantes nos períodos de 1820-1920 e 1950-1980. Na Europa, o declínio populacional urbano só aparece na literatura anglo-saxónica após a II Guerra Mundial e o ter-mo “shrinking city” é introduzido mais recentemente (final dos anos 80) pela escola alemã (Hoekveld, 2014).

O crescente número de cidades a registar declínio populacional é a manifestação espacial de um processo global (Martinez-Fernandez et al., 2012) que acompanha a criação de um

“novo regime de acumulação”. O processo de globalização levou ao desenvolvimento de um pequeno número de “cidades globais” (Dicken, 2003; Sassen, 2001) que reúnem as atividades financeiras e de serviços de alto nível, e as redes de informação e comunicação, concentran-do-se nessas cidades o investimento privado, que por sua vez atrai a edificação de infraestru-turas de qualidade, recursos humanos qualificados, e o estabelecimento de intrincadas redes de comunicação (Lang, 2005).

A quebra persistente de habitantes resultou por diversas vezes de opções de política que se vieram a revelar incorretas. Esse é o exemplo de diversas cidades da ex-Alemanha de Leste em que os decisores políticos negligenciaram as cidades históricas e as regiões industrializa-das. Um exemplo conhecido ocorreu em Leipzig cuja zona central da cidade foi negligenciada, sendo promovida a construção de grandes conjuntos habitacionais, seguindo um formato co-nhecido na Europa sob a influência da ex-União Soviética. Estas construções pré-fabricadas foram erigidas nas orlas da cidade, principalmente a partir de 1970, criando um processo de redistribuição da população do centro da cidade para a periferia (Couch et al., 2005).

Figura 4. Cidades com declínio populacional persistente. A degradação habitacional em cidades com perda acentuada de habitantes em Taranto – Itália (à esquerda) e em Tartu – Estónia (à direita).