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3 VULNERABILIDADE SOCIAL E TÁTICAS NO

3.3 As crianças e adolescentes ante a vulnerabilidade social

Em meio às desigualdades e vulnerabilidade social da sociedade, as crianças e adolescentes sempre foram uma população expostas aos conflitos e problemas. A busca por compreender os processos de formação de um adulto sadio, passa pela compreensão dos ambientes que envolvem a infância e adolescência. Segundo Abramovay et al. (2002):

As desigualdades sociais não são mais suficientes para explicar as situações de risco e abandono em que vivem crianças e adolescentes em nosso país, e que propiciam marginalização, exclusão e perda dos direitos fundamentais. Estas situações repousam principalmente sobre os fenômenos de vulnerabilidade social, ruptura e crise identitária pelos quais passa a sociedade, ou seja, estão relacionadas ao enfraquecimento das redes sociais e, portanto, a um forte sentimento de solidão e vazio de existência. As crianças e adolescentes que se encontram em situação de vulnerabilidade social são aquelas que vivem negativamente as consequências das desigualdades sociais; da pobreza e da exclusão social; da falta de vínculos afetivos na família e nos demais espaços de socialização; da passagem abrupta da infância à vida adulta; da falta de acesso à educação, trabalho, saúde, lazer, alimentação e cultura; da falta de recursos materiais mínimos para sobrevivência; da inserção precoce no mundo do trabalho; da falta de perspectivas de entrada no mercado formal de trabalho; da entrada em trabalhos desqualificados; da exploração do trabalho infantil; da falta de perspectivas profissionais e projetos para o futuro; do alto índice de reprovação e/ou evasão escolar; da oferta de integração ao consumo de drogas e de bens, ao uso de armas, ao tráfico de drogas (ABRAMOVAY, et al. 2002, p. 34).

Todos os problemas sociais apresentados pelos autores citados, ainda é uma realidade que assola a infância e a adolescência no Brasil, fatores esses que muitas vezes chegam ao acolhimento institucional, como forma de acesso às políticas públicas sociais, que deveriam atender a todos, mesmo quando não estão acolhidos. Viu-se no tópico anterior que há famílias que entregam seus filhos a tutela do Estado, da mesma forma há adolescentes que busca no acolhimento as oportunidades que não conseguem obter sem a Institucionalização, a exemplo do acesso a educação, a saúde, e principalmente ao mercado de trabalho, seja pelas dificuldades em se especializar, quando vive no seio familiar ou mesmo de se inserir em uma vaga, antes dos 18 anos, nos programas “Jovem Aprendiz”.

Os dados do acolhimento, em Araguaína, mostram que de 2008 ao ano de 2019, houve 145 acolhimentos, de grupos de irmãos, o que representa um total de 26,36% do número de famílias atendidas, do universo de 550 famílias, no total. No quadro 10 pode ser observada a distribuição anual dos acolhimentos de grupos de irmãos:

Quadro 12 - Acolhimentos de grupos de irmãos entre 2008 a 2019 na CAACTL

ANO Nº grupos de irmãos %

2008 5 0,90 2009 10 1,81 2010 9 1,63 2011 6 1,090 2012 11 2,0 2013 13 2,36 2014 12 2,18 2015 10 1,81 2016 15 2,72 2017 10 1,81 2018 27 4,90 2019 17 3,090 Total 145 26,36

Fonte: Autora, 2020. Ressalta: nº de famílias é de 550

Quando se trata de grupos de irmãos, há ainda, a separação, ao chegar a Instituição de Acolhimento, muitos Município adotam atendimentos em Unidades separadas, destinando uma para o acolhimento de meninos, normalmente acima de 6 anos, e outra para as meninas de 0 aos 18 e meninos de 0 aos 6 anos, como é o caso de Araguaína. De acordo com os dados do PPP da Casa Ana Caroline (2018), em Araguaína, essa separação começou, no final de 2016, como forma de otimizar os serviços, pois o atendimento em conjunto geravam muitos conflitos de gênero e compatibilidade de faixa etária. A separação do grupo familiar de irmãos, justificado pela organização das casas em gênero e idade, mostra mais uma face perversa do sistema, uma vez que além de serem retirados dos pais, ainda são separados dos irmãos, o que provavelmente gerará inúmeras marcas traumáticas de abandono, solidão e tristeza. O Estado que acolhe é o mesmo que violenta em nome de uma (necro)política.

Observa-se na tabela 10, do total de 824 acolhidos que foram atendidos pela Instituição entre 2008 ao ano de 2019, mostra que 413 foram do sexo feminino e 363 do sexo masculino o que corresponde a 50,12% e a 44,05% respectivamente. Sendo que de 2008 a 2011 a predominância era de acolhidos do sexo masculino e de 2012 em diante essa realidade

mudou, passando a ter anualmente mais acolhidas do sexo feminino. Observe os dados na tabela 10:

Tabela 10 - Acolhimento por Ano, Sexo, Faixa etária na CAACTL

ANO SEXO Total / %

Feminino Masculino Feminino Masculino

Bebê Crian. Adol. Bebê Crian. Adol.

2008 2 7 9 4 5 5 18 / 2,18 14 / 1,69 2009 4 10 8 8 15 6 22 / 2,66 29 / 3,51 2010 4 8 2 8 9 5 14 / 1,69 22 / 2,66 2011 5 9 2 4 9 6 16 / 1,94 19 / 2,30 2012 6 10 10 3 14 6 26 / 3,15 23 / 2,79 2013 6 12 12 12 11 4 30 / 3,64 27 / 3,27 2014 9 12 15 4 13 7 36 / 4,36 24 / 2,91 2015 6 14 8 4 14 3 28 / 3,39 21 / 2,54 2016 9 23 11 6 13 3 43 / 5,21 22 / 2,66 2017 8 23 19 9 17 16 50 / 6,06 42 / 5,09 2018 17 42 24 9 39 25 83 / 10,07 72 / 8,73 2019 10 18 19 8 24 15 47 / 5,70 47 / 5,70 Total/ % 86 / 10,43 188 / 22,81 139 / 16,86 79 / 9,58 183 / 22,20 101 / 12,25 413 / 50,12 363 / 44,05

Fonte: Autora, 2020. Ressalva: teve um total de 48, o que representa 5,82% dos acolhimentos, entre 2008 a 2019, que não continham informações relacionadas à faixa etária do acolhido, de um total de 824 acolhidos.

Ao prosseguir, com as análises da tabela 10, quando se analisa pela vertente da faixa etária, tem-se a maior incidência de acolhimento que correspondem à faixa etária das crianças com 371 (45,02%) acolhimentos, acompanhado de 240 (29,12%) adolescentes e 165 (20,02%) bebês. Os quais quando observados também pelo viés do sexo, tanto meninas como meninos a predominância correspondem à sequência com mais acolhimentos de crianças, adolescentes e bebês. Para Sluzki (1997):

As relações em contexto de vulnerabilidade social geram crianças, adolescentes e

famílias passivas e dependentes, com a autoestima consideravelmente

comprometida. Estes jovens e suas famílias introjetam como atributos negativos pessoais as falhas próprias de sua condição histórico -social. De forma circular e quase inevitável, este ciclo se instala reforçando -se a condição de miséria, não só no nível material, como no nível afetivo. As pessoas, desde muito jovens, percebem-se como inferiores, incapazes, desvalorizadas, sem o reconhecimento social mínimo que as faça crer em seu próprio potencial como ser humano (SLUZKI, 1997, p. 15).

A vulnerabilidade social é uma realidade do cotidiano que as crianças e adolescentes institucionalizados devem enfrentar, e na construção de suas relações, vão buscando

reconstruir e fortalecer seus vínculos, na tentativa de sobreviverem às imposições sociais trajadas de políticas públicas, que mais marcam do que constroem identidade.

3.4 Do processo de acolhimento ao processo de desabrigamento de crianças e