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CAPÍTULO 3 – BRINCANDO COM OS GÊMEOS IBEJIS E

4.5 As Crianças e suas Relações com a Negritude

FIGURA 30 – GINGANDO E DANÇANDO CAPOEIRA

Fonte: Arquivo da pesquisa. Edição: Júlia Braga e Lia Braga.

Será desenvolvida neste último tópico a unidade circular Criança Negritude, que se refere às experienciações das crianças sobre as manifestações simbólicas e culturais, entre outras, que perpassam a negritude, bem como expressões positivas (como valorização, reconhecimento etc.) ou negativas (como preconceito, racismo, etc.) sobre elas.

Na 1ª oficina, comecei a comentar em forma de narrativa as fotografias do livro

Crianças – Olhar a África e ver o Brasil, do fotógrafo Pierre Verger, que contém 14 fotografias

e textos de acompanhamento. Explorei 11 fotografias, com os títulos curiosidade, brincar,

alegria, o pequeno camelo, tambores, kalimba, flauta, afoxé, esculturas, embarque e homem sábio, e tentei dialogar com as crianças, associando as características culturais dos povos

africanos e sua aculturação ao contexto brasileiro.

Quando apresentei a fotografia intitulada alegria, a menina Coelhinha expressou: “Tenho medo de africanos!”. Eu lhe perguntei: “Você tem medo dessa menina?”. Ela olhou, pensou por alguns segundos e disse “Não”. Eu falei: “Pois ela é africana!”. Já na 4ª oficina, em conversa informal, a mesma menina demonstrou uma opinião diferente da anterior e indagou

se haveria histórias dos índios. Eu disse que dos índios, não, mas sim dos africanos. Então ela disse: “Eu adoro as histórias dos africanos, eu adoro aprender com vocês!”

Na 4ª oficina, para a história Ajê Xalugá e o seu brilho intenso (OLIVEIRA, 2009), decidi contar com o acompanhamento do livro. Perguntei como era o nome do livro, e o menino

Oceano Tubarão Tigre disse: “Omo oba”, ao que eu complementei: “Omo-Oba: histórias de princesas”. Falei o nome da autora, Kiusam de Oliveira, e a menina Raposa perguntou: “Ela

é... uma africana?”. E eu respondi: “Ela tem origem africana, mas nasceu no Brasil!”. Ao mostrar a primeira imagem do livro, que apresenta a personagem Ajê Xalugá, houve algumas manifestações:

Professora Sol: “Uauuuu, que lindooo!”

Eu: “Essa menina aqui, que vocês estão vendo…” Menina Raposa: “Ela parece uma deusa da água!”

Menino Oceano Tubarão Tigre [animado e apontando para o livro]: “Olha, acho que ela é da água!”

Eu [com energia de empolgação]: “Muito bem, da água! E aí, Ajê Xalugá tem que cor, qual é a cor dela?”

Várias crianças: “Preeeto!” Eu: “Preto, negra, né?”

Menino Leão Fogo: “Neeeegra, igual a você!”

Eu: “Eu… tu me acha negra? Eu acho lindo ser negra, que legal! Muito obrigada!” Menino Onça Preta: “Eu não gosto de ser negro!”

Eu: “Ai, pois eu adoro ser negra, eu adoro pessoas que são negras!” Menina Leoa Oxóssi: “Eu não gosto!”

[Vários burburinhos]

Menino Oceano Tubarão Tigre: “A minha avó é negra!” Eu: “A sua avó é negra, que legal!”

Menina Raposa: “Eu sou um pouquinho negra!”

Eu: “É um pouquinho negra, né? Muito bem! Vocês sabiam que os orixás são negros e negras? Os que eu tô contando as histórias? Eles são negros e negras! E essa menina é uma orixá feminina, e essas histórias são da época que elas eram crianças, igual a vocês!”

Enquanto eu narrava, a menina Gatinha Folha pegou o braço da menina Borboleta e passou-o por cima de seu pescoço, pousando o braço da menina em seu ombro; ficaram por um bom tempo escutando a história abraçadas. Em alguns momentos, as suas cabeças se uniam, e a menina Gatinha Folha fazia carinho na amiga. Isso me chamou atenção, porque as meninas têm características extremamente diferentes uma da outra – uma com características brancas, e a outra com características negras.

Outras expressões parecidas das crianças foram manifestadas quando, na 7ª oficina, comecei a narrar a história Oxum e seu mistério (OLIVEIRA, 2009), com o acompanhamento do livro. Com a primeira imagem em aberto, com uma linda figura da menina Oxum, a menina

Lua tocou com seu dedo na figura e sorriu. Depois se apoiou em mim e pegou o instrumento

que estava no meu colo. O menino Oceano Tubarão Tigre disse: “É Oxum, é Oxum!”

Eu disse que achava a menina muito bonita, e o menino Onça Preta disse: “Eu não acho!”. E eu respondi: “Eu acho ela linda, mas você tem o direito de não achar!”. O menino

Oceano Tubarão Tigre expressou: “É porque você gosta das pessoas negras!”, e eu respondi

sorrindo e concordando com o menino. Então, o menino Leão Fogo apontou o dedo para mim e disse: “Então você é negra!”, e eu respondi: “Eu não sou neeegra, mas eu gosto muito das pessoas negras, certo?”. O menino Oceano Tubarão Tigre falou, assim como da vez passada, que uma de suas avós é negra, e a Professora Sol sorriu; então o menino Leão Fogo disse: “A minha também!”. Perguntei qual era a cor da menina da ilustração do livro, e o menino Oceano

Tubarão Tigre disse: “Verde!”, e eu perguntei: “Ela é verde?”. O menino Onça Preta falou:

“Neeeegra!”, e eu completei: “Neeegra, muito bem!”

Pode-se perceber, mesmo com algumas manifestações negativas, que certas crianças expressaram uma postura de afirmação em relação à negritude – a partir de laços familiares, por exemplo, como os meninos Oceano Tubarão Tigre e Leão Fogo, que disseram que suas avós são negras, e na fala da menina Raposa, na contação anterior, que disse: “Eu sou um pouquinho negra!”

Ocorreu um fato curioso entre a penúltima e a última oficina. Cruzei casualmente com o menino Oceano Tubarão Tigre, em um passeio em um parque da cidade de Natal. O menino estava com seus pais e, ao me ver, agarrou-se em mim; nos abraçamos, e seus pais expressaram simpatia. A mãe disse: “É a tia Lia, da pesquisa?”, e eu respondi que sim. Ela comentou: “A gente vinha conversando sobre Salvador, né? Aí disse [ela referiu-se à fala do menino], ‘Eu acho que a Lia ia amar Salvador, porque ela ama negros!”. E, abraçando o menino, finalizou: “Então ela ama você?”, e eu falei: “Com certeza!”, e nos despedimos.

Na 4ª oficina, a partir das personagens da história Ajê Xalugá e o seu brilho intenso (OLIVEIRA, 2009), referi-me às personagens Olocum e Iemanjá e consegui desenvolver um diálogo sobre a valorização positiva de características negras, como o tom de pele e os cabelos cacheados, enfatizando a diversidade de belezas com as quais as crianças conviviam em suas realidades:

Eu: “E vocês perceberam como é a cor deles? Que é a cor... Negra, né?” Menino Onça Preta: “Que é a cor... que eu não dou muito valor!” Eu: “Mas eu acho a cor negra linda, meu amor, sabia?”

Menino Onça Preta: “Eu não acho!”

Eu: “Ó, a cor branca é linda, a cor negra é linda! Eu tenho os cabelos… e como é, ele é liso ou cacheado?”

Alguma menina: “Cacheado!”

Eu: “Eu adoro o meu cabelo cacheado!”

Menina Borboleta [levanta-se um pouco e diz, tocando em seu cabelo]: “Eu também!” Eu: “Que lindo, meu amor!”

Menina Leoa Oxóssi: “Eu também!”

Eu: “O cabelinho da [referi-me a uma das meninas] é liso.”

Menina Raposa: “E ela tem olhos verdes [várias crianças falando ao mesmo tempo]… e é a única que tem olhos verdes!”

Eu: “E ela é tão linda como a [fui falando o nome de algumas meninas, com diversas características], como todo mundo aqui. Todo mundo é lindo e linda do jeito que é!” [Enquanto eu falava, as meninas ficaram bem próximas umas das outras, quase se abraçando, olhando-se entre elas.]

Convém ressaltar algumas das considerações da Professora Sol, na entrevista final, quando ela destaca os aspectos relevantes vivenciados na pesquisa e a contribuição desta para a formação das crianças:

Como, por exemplo, os conteúdos ministrados, né, eles conseguiram entender, é... que existe outra formação além do que é dado socialmente pra eles... eles conseguiram diferenciar... não tive condições de conversar com eles sobre religião, mas acredito que eles já conseguem diferenciar e desmistificaram [...] muita coisa do que eles já sabiam, se identificaram com livros, né... de matriz afro, tanto que agora eles identificam quais são os livros e sugerem as leituras [...] e assim discursos bem mais empoderados e mais fortes sobre cabelo, cor, como se portar diante das outras pessoas... um discurso bem mais forte que eu percebo nas crianças agora [...], elas

conhecem melhor a temática e já conseguem indicar, falar sobre esse tema com outras pessoas, entre si também, já é muito comum.

Nessa confluência de olhares, retomo a autora Kiusam de Oliveira, em entrevista cedida a Camilla Hoshino, para o portal Lunetas, a respeito de como a literatura infantil e a arte podem servir como ferramentas para se falar sobre representatividade:

A literatura infantil e a arte devem caminhar juntas e podem ser vistas como ferramentas importantes para pensar e construir esse “corpo-resistência”. Escrevo focada no empoderamento das crianças e jovens negros, mas indiretamente meus textos proporcionam oportunidades para que não negros se vejam no processo relacional com a diversidade entre as pessoas a partir das diferenças. Proponho textos capazes de revelar a beleza do povo negro, fortalecendo as características da criança negra que possui cabelos crespos, nariz largo, lábios grossos, etc. Isso também revela a possibilidade de brancos refletirem sobre seus privilégios em sociedades racistas como a nossa, entendendo que há outros padrões de beleza e que podem ser solidários numa luta que é de todos. Tenho chamado o tipo de literatura que produzo de “Literatura Negra do Encantamento”. Ela está focada na ancestralidade e no fortalecimento das identidades negras. Ela é capaz de atingir as estruturas psíquicas mais profundas de jovens e crianças negras, provocando as costuras psíquicas necessárias para que suas identidades, fragmentadas pelas vivências racistas, sejam reconstruídas de forma saudável. Tal literatura depende da arte presente nas ilustrações que devem encantar crianças e jovens negros para que se sintam orgulhosos do que veem e se reconheçam naquelas imagens. Esse tipo de literatura considera as situações de conflitos existentes nos corpos negros bem como no corpo social, as tensões presentes nas relações interpessoais, sem perder de vista a necessidade de reencantamento pelo próprio corpo (OLIVEIRA, 2017, on-line).

Considero que uma das formas de se trabalhar com a representatividade negra é usando bonecas e bonecos, entre outros objetos. Utilizei, durante algumas oficinas em que contei histórias dos Ibejis, dois bonecos para representar os gêmeos; e, na 6ª oficina, utilizei bonecas na contação de histórias Iemanjá e o poder da criação do mundo (OLIVEIRA, 2009).

Durante a contação, as crianças ficaram muito curiosas quando peguei uma boneca

abayomi para representar Iemanjá criança, bem pequenina: aproximaram-se para ver, e o

menino Onça Pintada ficou intrigado, porque não conseguia ver o rosto dela, comentando isso diversas vezes.

Narrei que Iemanjá, quando ainda era pequena, criança e princesa, morava no “Orun, que é assim como o povo Iorubá chama o céu!” e se sentia muito sozinha, mas tinha o poder da imaginação. Ela havia criado uma amiguinha para ela, para lhe fazer companhia. Tirei então da bolsa de palha uma sereia negra, de longos cabelos em vários tons de azul e rosa, e, interpretando Iemanjá criança, eu disse: “Janaína, oi, Janaína, você veio me fazer companhia, vamos lá!”. A personagem Iemanjá começa então a cantar: “Janaína Janaína Janaína / É a sereia menina Janaína Janaína / É a sereia do mar / Onde eu quero morar / E também brincar / Ô, Janaína / Me leva para lá.”

Quando retirei a boneca da bolsa de palha, a Professora Iemanjá sorriu, e a menina

Gatinha Folha ficou balançando animada a cabeça. Na hora em que comecei a cantar, passei a

boneca bem próximo às crianças, fazendo movimentos ondulares com ela, a Janaína. A menina

Cachoeira expressou: “É uma sereia, uma sereia!”, enquanto a menina Borboleta se levantava,

ria e a admirava. A menina Gatinha Folha e o menino Onça Preta primeiro se agacharam e tocaram nela, e depois se levantaram, para pegar melhor, principalmente a cauda, feita de lantejoulas prateadas.

Enquanto personagem, a menina Iemanjá reclama de solidão e tira da cesta um espelho azul, o seu abebé, movimentando-o com o lado que reflete a imagem, mostrando-o para as crianças. A personagem Iemanjá questionou se um dia iria conhecer tantas crianças lindas como as que estava vendo. Naquele momento, a maioria das crianças se aproximou para se olhar através do espelho.

Há um determinado momento em que, da boca de Iemanjá – depois que

Olodumare/Olorum, o deus criador, colocara as mãos em sua barriga, que cresce muito –,

surgem as nuvens. A menina diz que gosta muito das nuvenzinhas, porque elas se abraçam; e mesmo antes de pedir permissão, a menina Gatinha Folha abraça o menino Onça Preta. Depois, a princesa Iemanjá pede para as crianças abraçarem quem estiver ao seu lado, e conta até três. As crianças se abraçam carinhosamente, formando às vezes um montinho, com um grupo maior. Mesmo dizendo “Pronto!”, elas continuaram por mais alguns segundos nos abraços. A Professora Iemanjá, que sorriu no momento dos abraços, pede para elas pararem, para continuarmos a história, expressando: “Que abraço gostoso!”

Nesse sentido, a história de Iemanjá, no momento dos abraços, permitiu que fossem estimulados gestos de carinho e respeito para com todas as crianças, independentemente do tom de pele e de outras características físicas. Apesar de algumas expressões de preconceito já internalizadas e manifestadas por algumas crianças durante alguns momentos, a turma embalou-se em abraços coletivos e “gostosos”, como a própria professora expressou.

Ao continuar narrando, perguntei se eles sabiam que Iemanjá havia tido muitos filhos

orixás, porque ela era a mãe dos orixás. E muitas crianças disseram que sim; o menino Leão Fogo expressou: “Porque ela é uma rainha!”. Aproveitei a deixa do menino, para tirar da cesta

de palha um acessório que é feito com muitos búzios e que utilizo para coroar Iemanjá adulta – é o seu adê, sua coroa, que, no caso do meu acessório, também acaba cobrindo parte do meu rosto. O menino Onça Pintada disse: “Tá atrapalhando a sua vista, é?”, e eu disse que não.

Retiro uma boneca que representa Iemanjá como adulta/orixá, e o mesmo menino disse: “Poxa, como ela tá muito grande!”. Peguei o abebé dela e, com o espelho em uma das

mãos, e a boneca em outra, me pus a girar: “E ela ia dançar, enquanto as pessoas saudavam ela... Odô Iyá Odociabá, mamãe Iemanjá, salve a rainha do mar! Odô Iyá Iemanjá, salve a rainha do mar, salve a mamãe Iemanjá!”

Após a contação, quando disse que iríamos brincar, as crianças vibraram; e enquanto eu ia organizando os objetos, algumas crianças pegavam neles e até brincavam. O menino Onça

Preta pegou a boneca abayomi, que representa Iemanjá criança, ficou pulando, deu uma volta

e disse: “Quá quá, eu sou o boneco, quá quá quá, eu sou o bonequinho!”, repetindo isso várias vezes; a menina Leoa Oxóssi ficou com a boneca Janaína sereia, jogando seus cabelos para baixo e alisando seu corpo, e em um momento girou com ela de mãos dadas; a menina Borboleta colocou a coroa de búzios em sua cabeça e saiu andando, enquanto a menina Gatinha Folha a seguia, e depois colocou a coroa em sua cabeça, ao que o menino Gato Ninja do Fogo elogiou: “Ficou bonita, ficou bonita!”. Contei com o apoio da Professora Iemanjá para envolver as crianças na tarefa de guardar as coisas. A menina Leoa Oxóssi ficou de frente para a câmera do computador e, com muita criatividade, ao brincar

com a boneca sereia Janaína, disse: “Olá, eu sou a Iemanjá [...] Odô Iyá Odô Iyá [como no som da música que cantei]”. Depois eu peguei da menina a boneca e fui guardá-la.

Dessa oficina, a menina Lua não quis participar. Quando terminou, fiquei interagindo com ela e lhe mostrando alguns objetos utilizados – como, por exemplo, o espelho de

Iemanjá –; ela ficou rindo e se mirou, e depois

tocou um pouco o instrumento kalimba, que eu havia levado no dia. Depois ela pegou novamente o espelho para se olhar, voltou a tocar o instrumento e cantou uma música. Ela saiu de perto de mim, ao que levei embora a boneca sereia Janaína; ela observou e interagiu com a boneca nesse momento. A menina Cachoeira, a respeito da boneca que representa Iemanjá como

orixá, perguntou: “Compra essa boneca para mim?”, e eu lhe respondi: “Meu amor, eu não

posso comprar essa boneca para você!”

FIGURA 31 – LIA MIRANDO-SE NOS

ABEBÉS (ESPELHOS) COM AS BONECAS IEMANJÁ ORIXÁ E JANAÍNA SEREIA

Destacarei a seguir algumas apreciações da Professora Sol a respeito do uso de alguns recursos metodológicos com foco nas relações étnico-raciais e, mais especificamente, na negritude e nas africanidades, mencionando as estratégias metodológicas da pesquisa e a contribuição desta à sua prática docente:

Passei a conhecer muita… muita... muita coisa... assim... eu tinha algumas leituras, conhecia algum ou outra coisa da cultura, mas eu não tinha tido a experiência como a sua, como você proporcionou... então minha leitura vinha da universidade ainda, dos cursos de formação, mas eu nunca tinha vivenciado uma prática... então você clareou muito, de como começar, de onde começar, de que materiais trazer, então eu sempre me encantava muito com os instrumentos, tanto que eu acho que você puxava um instrumento e você dizia “oh o kalimba... é um tambor, é isso... é aquilo”... eu sempre tive muita vontade de trazer, mas eu não... realmente eu não sabia como [...] então procuro ter muito cuidado com o discurso com as crianças, então eu não sabia como trazer essa temática pras crianças, como adequar meu discurso ao discurso delas e isso você trouxe muito bem, né. E nos envolveu muito, todos... crianças e adultos.

É oportuno fazer alguns entrelaçamentos entre o Corpo-Poroso, o Corpo Brincante e o Corpo-Dança Afroancestral (PETIT, 2015) manifestados pelas crianças. Assim, é possível integrar negritudes e africanidades. No início da contação de histórias da 5ª oficina, Os Ibejis

encontram água e salvam a cidade (PRANDI, 2001), frisei que o som do instrumento kalimba

é muito suave, e que eles precisariam fazer silêncio para escutar. O menino Onça Preta colaborou e disse: “Muito silêncio, assim!”, e colocou o dedo na boca. Comecei a cantar e a tocar uma música criada por mim: “Vamos lá, vamos lá, vamos todos escutar / Vamos lá, vamos lá, vamos todos escutar / Esse som da kalimba, que agora vou tocar / Esse som da kalimba, que agora vou tocar / E de onde é que ele vem? / Ele veio da África! / E de lá também vêmdeuses da natureza! / Orixás, Iorubá / Um povo tão bonito! / E de lá também vêmos gêmeos Ibejis.”

Logo após ter iniciado a música, o menino Onça Preta se levantou e começou a fazer uma dança com braços e mãos, o que me remeteu a uma estátua egípcia em movimento. Em sua dança, seus braços em oposição iam para frente e para trás, alternando-se quanto à direção. Com um ritmo mais pausado, fez leves paradas; os joelhos ficaram um pouco flexionados e fizeram com que a parte da frente de seus pés se fincassem no chão. Em certo momento, escutei o som de uma pisada mais forte.

O menino Gato Ninja do Fogo achou engraçado esse momento e, rindo, começou a dançar também, cruzando com o primeiro menino, que se sentou depois de um tempo. Gato

Ninja do Fogo propôs o mesmo desenho de movimento; porém, de maneira mais frenética e

ágil, com os braços também em oposição, mas sem trocá-los de direção e com o corpo mais ereto. Em determinado momento, a menina Borboleta quis também propor a dança, mas ela

apenas se levantou em um impulso e ficou por alguns instantes em estátua com o desenho coreográfico, o que me remeteu mais à proposição do menino Onça Preta.

Depois, o menino Onça Pintada levantou o dedo e disse: “O nome disso é kalimba!”. Em outro momento, olhou para o menino Gato Ninja do Fogo dançando e riu discretamente, apontando o dedo para o colega. Já no final do canto, quando finalizei com “os gêmeos

Ibejis…”, o menino Onça Preta completou: “Que morreu!”, e eu disse, “Um deles morreu,

né?”, pois estávamos nos referindo a uma história anterior.

Ao iniciarmos a 8ª e última oficina, a menina Raposa espontaneamente me falou de uma brincadeira africana: “Ô, Lia, eu tenho uma brincadeira africana!”. Depois fez uns movimentos de pular, e eu disse que naquele dia iríamos fazer outras brincadeiras, mas que tinha adorado conhecer essa que ela estava apresentando.

Depois, perguntei onde ela havia aprendido essa brincadeira. Pedi para ela me explicar detalhadamente, e a menina disse: “Eu aprendi… com uma música africana, que… fala muito sobre a África… fala de onde a África fica… e aí nela tem essa brincadeira que pula vassoura!”. A menina pegou dois bonecos e tentou demonstrar: “Aí uma criança vai tá aqui e vai fazer assim [mexeu as pernas do boneco], e aí a outra vai tá aqui… aí vão ter que pular, um pé dentro… aí se fechar você tira o pé, aí depois você bota o outro pé dentro… aí a brincadeira termina quando as crianças quiserem!”. Eu falei: “Muito bem! Amei a sua explicação! Vamos