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As Crianças – Os Olhares de Benjamin e Fernandes

CAPÍTULO 2 – NOSSOS BRINQUEDOS

2.2 As Crianças – Os Olhares de Benjamin e Fernandes

Walter Benjamin (1984) entende o todo manifestado no singular, reconcilia o particular e o universal, busca encontrar traços da totalidade em um único indivíduo, fragmento ou insignificância. Para tal, é necessário ver além do evidente e buscar a relação enigmática entre as partes. Nos textos34 sobre as crianças e seus brinquedos essa busca

aparece e são estas obras que utilizo para a escrita do presente trabalho.

A criança benjaminiana é aquela que (re)constrói o mundo baseada no seu olhar, ao contrário dos idosos que afirmam ser os protetores da tradição, da cultura e da experiência. Ela mostra, de muitas maneiras, o que muitos já esqueceram, está talvez aí a importância de ouvir suas narrativas. O olhar infantil é aquele que muitas vezes mostra o que já foi esquecido pelo adulto. Benjamin (1984) apresenta dois modos de apreender o olhar infantil: um, através dos objetos que dizem da infância (livros, brinquedos, etc); outro, pela rememoração que resgata a infância.

Esse autor revela em seus escritos um intenso e profundo conhecimento sobre a criança. Dilui-se como autor quando a percebe como um indivíduo, que vê o mundo à sua maneira – nos textos “Rua de Sentido Único” e “Infância em Berlim por volta de 1900”. Ao rememorar a sua própria história, retoma a história de uma época em especial, é como se fosse uma criança escrevendo para outras crianças. Ao registrar comentário sobre a história cultural dos brinquedos, Benjamin constata a maneira como esses objetos documentam o comportamento adulto em relação ao mundo da criança.

No mundo infantil, para este autor, a verdade não está dada de forma estanque, ela pode ser (re)inventada, se refaz nas relações. A criança, nas brincadeiras e nos relatos, traz

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situações vividas em outras instâncias – família, bairro, grupo de amigos. São essas experiências de vida o suporte para entender e compreender as relações que ela estabelece. A infância para Benjamin (1984, p. 79) leva à fantasia e à imaginação, ela é a história presente, passada e futura da humanidade,

Criança que anda de carrossel - [...] começa a música e aos trancos a criança, girando, distancia-se da sua mãe. A princípio ela tem medo de abandonar sua mãe. Mas depois ela se dá conta de como ela própria é fiel. Ela reina como fiel soberano sobre um mundo que lhe pertence. Na tangente, árvores e indí- genas formam colunas. A mãe aponta um novo oriente. Em seguida surge da floresta virgem uma copa que a criança já vira há milênios tal como acabara de vê-la agora, no carrossel. [...] Há muito o eterno retorno das coisas tor- nou-se sabedoria infantil, e a vida um êxtase primordial do domínio, com a retumbante orquestração ao centro como um tesouro no trono. A música toca mais devagar, o espaço começa a vacilar e as árvores a se recordar. O carrossel vira um terreno inseguro. E surge a mãe, estaca solidamente crava- da no chão sobre a qual a criança que aterriza lança amarras de seus olhares.

Assim, Benjamin apresenta o olhar da criança quando diz que há muito tempo o eterno retorno das coisas é próprio da sabedoria infantil, é essa a possibilidade de se ter o sempre novo. É este tempo a-cronológico marcado por Benjamin que Florestan Fernandes (2004) traz em evidência em seu estudo “Folclore e Mudança Social na cidade de São Paulo”, considerado como importante contribuição para a sociologia e para o folclore brasileiros, mas principalmente como precursor dos estudos da cultura dos grupos infantis. Relata a forma de organização dos grupos infantis denominados de trocinhas, como surgem, suas formas de seleção para os jogos, brincadeiras, parlendas, adivinhas, cantigas de roda, os pegas e outros divertimentos.

Na intimidade35 com as brincadeiras infantis, estabelecida no processo de observação

da infância de um outro tempo, Fernandes (2004, p. 13) identifica aspectos que estão

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Fernandes (2004) definiu como intimidade sua inserção no grupo infantil. Para realizar seu trabalho, teve que se inserir no contexto das crianças, passando tardes inteiras ou acompanhando os encontros no final da escola, observando e participando das atividades das trocinhas, percebendo seus ritos de passagem, expulsão e iniciação, a organização do grupo de brinquedos como grupo social, os elementos que constituem grande parte o patrimônio lúdico das crianças e a influência do folclore português e espanhol no folclore brasileiro, relatando as observações e a coletas de dados.

presentes na sua própria história que ainda permanecem. Acompanhando a rotina desses grupos, observou a experiência socializadora do folclore infantil “[...] através dela a criança não só aprende algo, como adquire uma experiência societária de complexa significação para o desenvolvimento da sua personalidade.” Para o autor, o folclore não é uma mera fonte de recreação para as crianças, ele opera como elo de ligação entre o passado e o presente. De acordo com ele, os sujeitos infantis constroem conhecimentos de significação social participando dos grupos, evidenciando categorias do pensamento – símbolos – por meio dos quais a criança percebe, explica e interage com o mundo exterior.

Considera Fernandes (2004, p. 214) que o folclore e a cultura possuem uma diferença muito tênue, já que são poucos os elementos que os diferem, como o futebol e a natação, freqüentes nas atividades da trocinha, e que não são folclóricos, mas sim culturais. Ele reforça a sua preferência pelo termo cultura infantil quando afirma que: “[...] a expressão cultura infantil é mais adequada na medida em que nos preocupa no momento [...] ela é mais inclusiva que folclore infantil.” Observa a existência de uma cultura infantil que é constituída por elementos exclusivos das crianças, caracterizados pela natureza lúdica, cujo suporte social está no grupo infantil, assim a criança adquire, pela interação, os diversos elementos do folclore infantil. O autor apresenta uma coletânea dos tipos de brincadeiras que até hoje permanecem com a mesma função e que estão relacionados com aspectos da vida adulta, como casamento, função paterna e materna, lugar de homem/mulher.

A obra de Fernandes revela o tradicionalismo popular e se tornou um documento etnográfico de referência sobre a cultura. Aborda o folclore infantil como uma possibilidade de através dele conhecer as relações entre o mundo adulto e o mundo infantil. Quando o autor relata que, mesmo tendo que trabalhar desde os seis anos de idade nunca deixou de pensar em ser criança, evidencia seu compromisso com as questões do sujeito infantil, seu grupo social e

as experiências de vida. No seu texto “Em busca de uma sociologia crítica e militante” (1997, p. 143-144), elabora uma espécie de biografia:

Se tinha pouco tempo para aproveitar a infância nem por isso deixava de sofrer o impacto humano das “trocinhas” e de ter réstias de luz que vinham pela amizade que se formava através do companheirismo nos grupos de folguedos, de amigos de vizinhança, dos colegas que se dedicavam ao mesmo mister, como meninos de rua, engraxates, entregadores de carne, biscateiros, aprendizes de alfaiate e por aí a fora. O caráter humano chegou- me por essas frestas, pelas quais descobri que o “grande homem” não é o que impõe aos outros de cima para baixo, ou através da história; é o homem que estende a mão aos semelhantes e engole a própria amargura para compartilhar a sua condição humana com os outros, dando-se a si próprio, como fariam os meus tupinambás. Os que não têm nada repartem com os outros as suas pessoas – o ponto de partida e de chegada da filosofia “folk” dentro da qual organizei a minha primeira forma de sabedoria sobre o homem, a vida e o mundo.

Fernandes (2004, p. 215) questiona a origem dos elementos da cultura infantil e acredita que na grande maioria são “[...] elementos da cultura adulta, incorporados à infantil por um processo de aceitação e nela mantidos com o correr do tempo [...] são restos de romances velhos, hoje transformados em jogos cênicos.”

Walter Benjamin (1984, p. 14) afirma que a criança reage a essa imposição com a resposta que “[...] se dá através do brincar, através do uso do brinquedo, que pode enveredar para uma correção ou mudança de função.” Cada um à sua maneira, os autores descrevem a criança como sujeito cultural. Este sujeito que produz o brincar, por mais que o brinquedo seja imposto pelos adultos, consegue transformá-lo.

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