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2. DA ARQUITETURA VERNACULAR AOS DESAFIOS DA ATUALIDADE

2.2 As culpas do Movimento Moderno/International Style

O Movimento Moderno é o movimento arquitetónico mais importante do séc. XX e, segundo Benévolo (1997), nele destacam-se três mestres, Le Corbusier, Gropius e Mies van der Rohe. Todos tiveram uma ação de primeiro plano até ao fim da sua vida, com várias máximas e conceitos frequentemente repetidos e conjugados com uma arquitetura de imagem forte, que continua a influenciar gerações de arquitetos. Face à relevância deste movimento arquitetónico é pertinente percebê-lo ao nível da adaptação ao lugar através da referência a algumas das suas maiores personalidades. Não se pretende, de modo algum, julgar aqueles que pertenceram a este movimento e que, à luz da época, difundiram e aplicaram as crenças inerentes a ele, mas perceber a propagação e influência mundial que este movimento teve na arquitetura mundial.

O Movimento Moderno emerge no contexto revolucionário das artes plásticas do início do séc. XX, que se caracterizam por uma rutura com a tradição académica, ao qual este movimento arquitetónico não é indiferente. Inebriada pelos novos progressos tecnológicos, como o automóvel, a arquitetura moderna despoleta uma rutura com o passado e com as formas tradicionais de construção, crente que as transformações no espaço de habitar se refletiriam na transformação da vida de cada habitante e da sociedade em geral. Animados por esta crença, os arquitetos modernos pretendiam ensinar as pessoas a viver sem tentarem compreender previamente as condicionantes históricas específicas que moldaram os modos de habitar de cada população. Entendiam que todos os seres humanos apresentam as mesmas necessidades independentemente da cultura e geografia onde se encontram (Montaner, 2001). Fernández-Galiano (2000) caracteriza de forma sintética o clima emocional dos arquitetos do Movimento Moderno como “o desejo da pureza através da amnésia”. Também partiam do princípio que as formas e o espaço racionalista são universais e aplicáveis a qualquer zona da Terra, tendo a arquitetura a obrigação de contribuir para o esbatimento das diferenças culturais e das desigualdades sociais, uma homogeneidade que tornaria o mundo um local melhor para se viver (Cerqueira, 2005). O ser humano foi interpretado como um indivíduo de comportamentos previsíveis e tipificados cuja casa seria uma “máquina para habitar”, conforme descreveu Le Corbusier. A casa-máquina, para além dos argumentos filosóficos e estéticos, tinha a seu favor a rapidez de construção e o custo reduzido, que serviam os objetivos da sociedade da época. O resultado foi a proliferação de monótonos tipos de construção, indiferentes ao local onde se inseriam, pensadas apenas para responder às necessidades de um habitante idealizado, mais tarde explicitado pelo sistema de proporções antropométricas “Modulor” de Le Corbusier (Montaner, 2001; Cerqueira, 2005), ilustrado na Figura 9.

No entanto, é importante referir que a teoria da arquitetura moderna se dividiu em dois polos opostos. O ramo que procurou a estética da máquina, que tentou criar novas soluções estéticas, baseadas em métodos de produção industrial, e um outro ramo que tinha uma preocupação de enquadramento na Natureza, de equilíbrio e de harmonia do Homem com o seu meio ambiente. Deste último destacou-se Alvar Aalto, um arquiteto num país de clima extremo, que revelou cuidado nos detalhes de prevenção de pontes térmicas e uma mestria na utilização da iluminação natural, valorizando a arquitetura e reduzindo as cargas energéticas dos edifícios originadas pela iluminação artificial. Por diversas vezes proferiu afirmações que o divergiam do ramo maquinista do Movimento Moderno (Lahti, 2006):

Afirmei em tempos que o melhor comité de uniformização era a própria Natureza. No entanto, acontece que a uniformização na natureza quase só se realiza nas unidades mais pequenas possível, as células. Daí resultam milhões de combinações flexíveis, que nunca se tornam esquemáticas, e a sua consequência é também uma riqueza e variabilidade infinitas de formas orgânicas que crescem. A uniformização na arquitetura deve percorrer também o mesmo caminho.

Alvar Aalto

Mas as grandes linhas orientadoras do movimento foram estabelecidas no Congresso Internacional da Arquitetura Moderna (CIAM) que, na Declaração de La Sarraz de 1928, expressa a atenção dada à construção como a “atividade elementar do homem, intimamente ligada à evolução e ao desenvolvimento da vida humana”. Nesta, enfatiza a necessidade de uma economia e de uma industrialização planeadas, defendendo a introdução de dimensões normativas e métodos de produção eficientes como um primeiro passo para a industrialização da construção, requisito inicial para que a produção de edifícios possa aumentar e os métodos da era artesanal sejam abandonados (Figura 10) (Frampton, 2003).

Le Corbusier desenvolveu alguns projetos em que são evidentes as preocupações de adaptação dos edifícios ao clima. No entanto, a sua maior contribuição, nesta matéria, parece ser no campo teórico defendendo que o sol, a vegetação e o espaço eram as matérias-primas do urbanismo, sendo um dever do arquiteto a introdução do sol nos edifícios, conceitos que surgem descritos na Carta de Atenas de 1933. Nesse mesmo ano, a propósito de um projeto concebido especificamente para a Argélia, escreve sobre a necessidade da adaptação climática da arquitetura moderna às especificidades dos locais. Nessa reflexão aborda o exemplo vernáculo da janela marroquina com a sua gelosia (mashrabyia), a qual acreditava poder ser reproduzida com os mesmos resultados utilizando as técnicas modernas (Milheiro, 2011). Essa sua expressão local do projeto moderno levou à

exploração do brise-soleil como meio de controlar os ganhos solares dos grandes panos envidraçados, do seu agrado. Mas também é da sua autoria a afirmação que “uma janela pode ter um comprimento de 10 metros para uma casa unifamiliar e de 200 para um palácio” (Conrads, 1973). Neste ponto da janela horizontal, como noutros da sua arquitetura, Le Corbusier buscava uma certa justificativa ambiental, que por se tornar axiomática deve ser considerada com ponderação.

Apesar das preocupações de alguns na adaptação dos edifícios ao clima, os princípios formais do Movimento Moderno/International Style – transparência das fachadas, paredes de vidro, a planta livre, a arquitetura do volume como um jogo de planos mais do que como massa (Figura 11) (Montaner, 2001) – são suscetíveis de gerar edifícios com mau desempenho térmico e inadaptados aos climas dos lugares. Se estes princípios formais forem analisados em contraponto com as suas consequências energéticas, encontram-se vários pontos fracos em termos de adaptação ao clima. A utilização da planta livre permite uma relação mais direta entre o interior e o invólucro exterior, o que conduz a uma maior perda de calor; a libertação da fachada em relação à estrutura e a adoção de grandes envidraçados dá origem a edifícios de inércia fraca, resultando em maiores flutuações da temperatura interior entre o dia e a noite, com ganhos solares elevados (benéfico no inverno) mas com elevadas perdas de calor devido à fraca resistência térmica do vidro, ferro e betão (Graça, 2000). No entanto, salienta-se que a mentalidade da época considerava que o petróleo era ilimitado e, como tal, as preocupações energéticas não eram uma premissa, o que não invalida a análise dos seus erros, mesmo que inconscientes.

De entre os mestres do Movimento Moderno o melhor paradigma da total insensibilidade perante estas questões é Mies van der Rohe. O seu apreço pelo ferro e pelo vidro materializou-se em edifícios onde as condições de conforto interior eram resolvidas com recurso a meios mecânicos. E de entre todos, Mies surge como aquele que mais repercussão obteve. Todas as suas propostas teóricas, o arranha-céus em aço e vidro, a casa isolada na paisagem (Figura 12), o grande salão sem pilares sustentado por uma estrutura externa, foram concretizadas na prática e aperfeiçoadas em sucessivas experiências. A sua máxima tantas vezes repetida, “Less is More”, reduzia cada problema aos seus termos mínimos, ao essencial, o que agora, numa análise diacrónica, se pode descrever como demasiado minimalista, pois resultava em consumos energéticos maximalistas. Leonardo Benévolo caracteriza a sua arquitetura como tendo uma grande influência mesmo naqueles que não a apreciam e que se veem obrigados a aceitar os seus métodos, tão simples e claros que parecem sempre constituir as soluções óbvias e inevitáveis (Benévolo, 1997). Por esta breve descrição pode depreender-se o quão influente era, e é, a arquitetura de Mies van der Rohe e, deste modo, quão os seus “erros” foram difundidos.

Outra das grandes máximas do Movimento Moderno é a da “Forma segue a função”, uma frase sucinta mas com forte significado, na qual se pode ver refletido um saber vernacular. Se a função primordial da arquitetura é proteger o homem da intempérie, se a sua forma não se adapta ao clima é porque não seguiu a função.

Mas não só nos princípios formais se pode falar de inadequação ao clima. A escolha arbitrária dos materiais, no sentido em que eram usados segundo a intenção de um estilo, mais que por razões funcionais, levou à difusão de materiais com mau comportamento térmico, como o caso de betão, amplamente utilizado por Le Corbusier (béton brute) e pelo Team X, o New Brutalism. Apesar do Team X ter criado uma rutura no consenso do CIAM, realçando as diferenças entre gerações e países, empenhados em pesquisas cada vez mais heterogéneas, continuou a usar os mesmos materiais e sistemas construtivos deixados a nu. Isto é evidente na obra de Alison e Peter Smithson, influenciados numa primeira fase pelo Campus do ITT de Mies van der Rohe e que desenvolveram o seu estilo brutalista usando o vocabulário da última fase de Le Corbusier (Frampton, 2003).

No decurso dos anos cinquenta, será com Team X liderado por Alison e Peter Smithson — influenciado pelos diversos existencialismos originários do período entre as grandes guerras — que surge uma nova visão do homem individual e concreto e se inicia a rutura e a decadência do modernismo. A vontade é a de aproximar novamente a arquitetura ao gosto e à necessidade das pessoas, recuperando argumentos como a diversidade cultural, contextualismos, tradição, pré-existências ambientais, arquitetura anónima (tradicional), etc. (Montaner, 2001).

A ausência de relação entre a arquitetura e o lugar levou à rejeição do Movimento Moderno por parte dos cidadãos. Desta rejeição nasce a necessidade de se redefinir o espaço de habitar tomando em consideração o passado vernacular (Montaner, 2001).

Em conclusão, Le Corbusier nos últimos anos da sua vida revelou uma reflexão menos entusiasta pela máquina, defendendo um reencontro do homem e da arquitetura com a Natureza, e que é pertinente

transpor-se para a atualidade (Corbusier, 1995):

Nesta hora de perturbação regressa-se aos princípios que constituem o humano e o seu meio.(...) Reencontrar a lei da Natureza. (...) É necessário tornar a obra humana solidária com a obra natural. A Natureza fornece-nos ensinamentos ilimitados. Le Corbusier