II. OS ELEMENTOS HUMANOS
1.4. As Damas Camaristas
Como vimos, com o casamento de D. Amélia foram nomeados 3 Veadores para o seu serviço e, como Damas, as respectivas mulheres dos titulares. De facto, a 12 de Maio de 1886 era nomeada a Condessa de Sabugosa e de Murça: “ Sua Majestade a Rainha, atendendo às qualidades e merecimentos que concorrem na pessoa de Vossa Excelência, há por bem nomeá-la para o serviço de Dama Camarista de Sua Alteza Real a Princesa, o que de ordem da Rainha participo a Vossa Excelência para sua inteligência”704
No dia seguinte, foram nomeadas quatro Damas, duas para serviço da Rainha D. Maria Pia e outras duas para o da Princesa D. Amélia: “Sua Majestade El-Rei tendo elegido a Marquesa de Pombal, a Condessa de Bertiandos, D. Ana, a Condessa de São Miguel e a Viscondessa de Seisal para Damas Camaristas de Sua Majestade a Rainha, devendo as duas últimas [ser] consideradas o serviço de Sua Alteza a sereníssima Senhora a Princesa Maria Amélia, (…)”705.
Assim, foram nomeadas três Damas. A primeira, a Condessa de Sabugosa, por casamento, e de Murça por direito próprio706. A nomeação da Condessa de Sabugosa e de Murça como Dama seria confirmada quando D. Amélia se tornou Rainha: “El-Rei, atendendo às qualidades e merecimento de Vossa Excelência, há por bem nomeá-la Dama Camarista de Sua Majestade a Rainha, conservando-lhe ao mesmo tempo as honras de Dama honorária de Sua Majestade a Rainha, a Senhora Dona Maria Pia (…).”707
703 Carta da Condessa de Seisal à Rainha, s.l., 26 de Junho de 1903, IANTT, Casa Real, caixa 7377. 704 Ordem de serviço da Camareira-mor da Rainha D. Maria Pia à Condessa de Sabugosa, Lisboa, 12 de
Maio de 1886, ASSL, Estante do Relógio, caixa 5, maço 6.
705 Cópia do ofício do Ministro do Reino, José Luciano de Castro dirigido à Camareira-mor, a Marquesa
do Funchal, Lisboa, 13 de Maio de 1886, IANTT, Casa Real, caixa 7362.
706 Bisneta do décimo quarto Senhor e primeiro Conde de Murça, governador e capitão general de Angola
e dos Açores, presidente do Erário Régio, ministro e secretário de Estado, que foi elevado à titulação ainda em vida de D. João VI. A mãe de D. Mariana das Dores era filha de uma das irmãs do primeiro Duque de Palmela, D. Mariana Vicência de Sousa Holstein, terceira Condessa de Alva pelo casamento
707 Ofício da Camareira-mor da Rainha D. Amélia à Condessa de Sabugosa, Lisboa, 15 de Dezembro de
A segunda, a Condessa de Seisal, era a segunda mulher do segundo Conde desse título (e irmã da falecida mulher) e filha de Rodrigo Delfim Pereira, diplomata e filho ilegítimo atribuído a D. Pedro IV e a Maria Benedita de Castro Canto e Melo, Baronesa de Sorocaba pelo seu casamento com o Barão desse título708. D. Maria Germana rapidamente passaria a ser chamada de Mariquita pela Rainha D. Amélia, petit nom pelo qual era tratada.
Finalmente, a terceira fora Condessa de São Miguel, que deixou de estar a seu serviço quando D. Amélia foi elevada a Rainha.
Nessa ocasião foi nomeada Camareira-mor a Duquesa de Palmela, D. Maria Luísa de Sousa Holstein, senhora de sua casa, à qual pertencia o ofício de Capitão da Guarda Real dos Archeiros, ofício desempenhado por seu marido. Possuidora de uma das maiores fortunas da época, a ponto de se ter pensado o seu casamento com D. Luís, ainda infante709, era, de todas as senhoras de Casa à época, a que ostentava o maior título.
Por essa ocasião, nomeou-se uma outra senhora como Dama Camarista: D. Josefa Sandoval y Pacheco, mulher de António Vasconcelos e Sousa, também nomeado Veador nessa altura e filha do secretário da Legação de Espanha em Lisboa, D. João Baptista de Sandoval y Marascón e de sua mulher, D. Rita Júlia Ruiz Pacheco.
Seguir-se-iam três outras Damas, todas solteiras e nenhuma delas titular, mas de origem aristocrática: logo em 1890, D. Isabel de Almeida Lobo Melo e Castro e D. Isabel Saldanha da Gama, esta última para entrar propositadamente ao serviço dos príncipes. Dois anos mais tarde, seria nomeada D. Maria Francisca de Menezes.
D. Isabel de Almeida Lobo Melo e Castro era filha do oitavo Conde das Galveias, D. Francisco Xavier Lobo Almeida de Melo e Castro, casado com uma das filhas dos primeiros Duques de Palmela, D. Catarina de Sousa Holstein. D. Isabel era assim prima co-irmã de D. Luísa de Sousa Holstein.
D. Isabel Saldanha da Gama era filha do oitavo Conde da Ponte, João de Saldanha da Gama Melo Torres Guedes de Brito, Par, Deputado, Vedor da Casa Real e
708 CORRÊA, Manuel de Mello (dir.) Anuário da Nobreza de Portugal, Tomo II, p. 535; ZUQUETE,
Eduardo Martins, Nobreza de Portugal e do Brasil, vol. I, p. 749.
709 OLIVEIRA, Eduardo Fernandes de, SANTOS, Fernando Brederode, Brederode da Holanda a
Governador Civil de Lisboa. A mãe era filha dos primeiros Condes de Vila Real, D. Maria Teresa de Sousa Botelho Mourão e Vasconcelos710.
Finalmente, D. Maria Francisca de Meneses, filha de D. António Pedro Jorge de Meneses Portugal e Silva, da Casa da Flor da Murta e Senhor do Reguengo da Carvoeira e de D. Eugénia de Almeida e Vasconcelos, filha dos segundos Condes da Lapa e cujo Conde desempenhava o ofício de Porteiro Mor.
Assim, as Damas tinham diversas origens familiares: as titulares e senhoras de Casa (Duquesa de Palmela e Condessa de Murça); titulares por casamento (Condessa de Seisal); filhas de titulares (D. Isabel Galveias e D. Isabel Ponte); netas de titulares (D. Maria Francisca de Meneses) ou casadas com netos de titulares (D. Josefa de Sandoval y Pacheco). Ainda que já só houvesse uma categoria de Damas, e embora todas oriundas da aristocracia, por nascimento ou por casamento, esta diversidade de estatutos faz lembrar as diversas categorias, mencionadas no capítulo antecedente, que até meados do século XIX ocorria na família feminina ao serviço da Casa da Rainha. A maior parte dos títulos das famílias destas senhoras eram anteriores a 1826, com excepção do título Seisal e Figueiró, este último concedido já durante o reinado de D. Carlos.
Tabela XIX – Damas ao serviço da Rainha D. Amélia
Título Nome Datas Estado
Duquesa de Palmela D. Maria Luísa de Sousa Holstein 1889-1908 Casada Condessa de Sabugosa D. Mariana das Dores 1886-1908 Casada Condessa de Seisal D. Maria Germana de Castro Pereira (Mariquita) 1886-1908 Viúva 1890 Condessa de Figueiró D. Josefa Sandoval y Pacheco (Pepita) 1889-1908 Casada
D. Isabel de Almeida Lobo Melo e Castro (Galveias) 1890-1908 Solteira D. Isabel Saldanha da Gama (Ponte) 1890-1908 Solteira D. Maria Francisca de Meneses 1892-1908 Solteira
O processo de escolha de Isabel Ponte e D. Isabel Galveias decorreu logo no início do ano de 1890. Por essa altura, já estavam ao serviço da Rainha D. Amélia as duas das Damas que a serviam enquanto Princesa – as Condessa de Sabugosa e de Seisal, e Pepita já havia sido escolhida, bem como a Camareira-mor. Todavia, a morte do Conde de Seisal, Veador da Rainha, poria o lugar da viúva em risco. Em carta à
710 Há uma ligação familiar com a Duquesa de Palmela. D. Isabel era neta de D. Teresa de Sousa
Rainha, a Duquesa de Palmela coloca a questão de a Dama continuar a efectuar o serviço: “(...) quant à la pauvre Mariquita il est bien naturel que Votre Majesté lui permette de ne plus faire de service. Votre Majesté ne pense-elle pas à la remplacer? La Reine Maria Pia ayant quatre Damas Camaristas, il est naturel que Votre Majesté en ait quatre aussi; d’ailleurs le service se ferait ainsi bien mieux.”711 Todavia, a Condessa de Seisal continuaria em serviço.
A Camareira-mor fora encarregada pela Rainha de lhe apresentar uma lista de possíveis candidatas para o desempenho do ofício. A incumbência desta tarefa podia revestir-se de vários significados. Por um lado, a D. Amélia poderia não dispor de todos os conhecimentos acerca das aristocratas sobre as quais recairia a escolha, daí a necessidade de alguém com conhecimentos imprescindíveis da sociedade de corte portuguesa, onde ingressara não havia quatro anos. Por outro lado, poderia também ser uma prerrogativa da Camareira-mor o aconselhamento da Rainha quanto à escolha das Damas. Certo é que, ao fazê-lo, a Camareira-mor estava em condições de favorecer alguém das suas relações.
Numa primeira carta, em finais de Janeiro de 1890, são sugeridas quatro senhoras: Benedita Resende, Assunção Angeja, Maria Francisca de Meneses e Maria José Figueira. Acrescentava ainda dois nomes para o serviço do Príncipe Real – Teresa e Isabel Ponte: “elles sont toutes les deux très capables”712. Em carta do dia seguinte, a Duquesa tecia rasgados elogios às senhoras que listava, sobretudo a Benedita Resende, ressalvando no entanto que não as conhecia muito intimamente: “Quant aux Dames, dont j’ai envoyé les noms à Votre Majesté, sans les connaitre très intimement, je crois pouvoir vous assurer qu’elles sont capables: Benedita Resende, sous une apparence frivole, est très sérieuse, très droite, très intelligente, très gaie, et une agréable compagnie – elle a 27 ans – les autres sont bien élevées et gentilles.”713
No entanto, a opção da Rainha recaiu sobre Isabel Galveias, embora pedisse segredo dessa escolha à Duquesa. A preferência parecia agradar à própria Duquesa – ou assim quis fazer parecer – e as reticências que detinha eram relativas não à pessoa da
711 Carta da Duquesa de Palmela à Rainha D. Amélia, Celas, 1 de Abril de 1890, IANTT, Casa Real,
caixa 7374.
712 Carta da Camareira-mor à Rainha D. Amélia, s.l., 23 de Janeiro de 1890, IANTT, Casa Real, caixa
7374.
713 Carta da Camareira-mor à Rainha D. Amélia, s.l., 24 de Janeiro de 1890, IANTT, Casa Real, caixa
Dama escolhida, mas sim à sua família porque, na verdade, supunha que a visada reunia todas as qualidades necessárias para o desempenho do cargo: educação, honestidade, instrução, inteligência e vivacidade – as mesmas que realçava relativamente a Isabel Ponte, outra das escolhidas. Aproveitava ainda para demonstrar o desagrado sobre a hipotética escolha da Condessa de Sabugal. Percebe-se que era uma questão pessoal, a qual tornaria a convivência entre Camareira e Dama desagradável. No entanto, a Duquesa, muito diplomaticamente, imputava-lhe algumas características que considerava negativas para o desempenho das funções em questão: antipatia, má- educação e falta de polidez. Por último, apresentava uma nova lista de possíveis Veadores e Damas: Marquês de Pombal, José Pombal, José Ferrão, Alexandre Resende, Francisco Galveias, Lencastre, Teresa Ponte, Maria Amália Figueira (mulher de José Pombal), Maria Barbosa (mulher de Alexandre Resende) e Condessa de Lagoaça (D. Maria Francisca, filha dos Marqueses de Belas): “(…) le chois de Votre Majesté ne pouvait tomber sur quelqu’un de plus digne que d’Isabel Galveias. Je l’ai déjà dit souvent à Votre Majesté et même Vous devez vous souvenir combien je l’ai défendue lorsqu’on l’accusait de coquetterie, mon unique hésitation était la maladie de sa famille, mais puis que cette cause est écartée, j’assure à Votre Majesté qu’Isabel réunit toutes les qualités que Vous pourriez désirer, trouver en votre Dame d’honneur, elle est bonne élevée, honnête, droite, comme il faut, instruite, intelligente et avez cela. (…) De même pour Isabel Ponte, de qui je n’ai entendu dire que du bien, elle est très consciencieuse, instruite, presse, ce qui n’est pas à dédaigner car elle réunit cette qualité à un caractère gai et enjoué, sans simagrées, sans exigences, se pliant parfaitement aux circonstances, bref, je ne crois pas, que Votre Majesté puisse trouver mieux. (…) Quant à la Comtesse de Sabugal, puisque Votre Majesté me demande franchement mon avis, je lui répondrai avec toute impartialité que je ne pense pas qu’elle réunisse les qualités nécessaires pour remplir le but désiré; elle est antipathique a presque tout le monde, d’un caractère désagréable, impolie, et pas du tout distinguée. Et maintenant que Votre Majesté me permettre un mot sur mon opinion personnelle: étant brouillé avec elle, ne lui parlant pas, ayant beaucoup à me plaindre d’elle, il me serait très difficile et désagréable d’avoir à vivre, jusqu’à un certain point intimement avec elle, ce qui arriverait si Votre Majesté la prenait à son service.”714
714 Carta da Camareira-mor à Rainha D. Amélia, s.l., 7 de Fevereiro de 1890, IANTT, Casa Real, caixa
Após a escolha, o passo seguinte era endereçar o convite às escolhidas, de forma não oficial, que só ocorreria após a sua aceitação. Numa primeira abordagem feita pela Duquesa a Isabel Galveias, junto de seu pai, não foi bem sucedida. O Conde de Galveias estava doente e não queria separar-se de suas filhas, levando Isabel Galveias a escrever à Rainha, recusando a honra715. No entanto, dias depois, o Conde das Galveias recuava na sua decisão, aceitando que a filha fosse nomeada Dama Camarista. Todavia, a Duquesa de Palmela pedia à Rainha para que D. Isabel entrasse de serviço somente quando a Dama ao serviço dos Príncipes também entrasse, de forma a permitir que a agraciada tivesse tempo necessário para efectuar todos os preparativos, nomeadamente a nível de vestuário716.
Dois dias depois, Isabel Galveias era apresentada à Rainha que, em comentários dirigidos à Duquesa, a considerou simpática, donde se depreende que a Rainha não a conhecia pessoalmente: “Je suis bien contente de savoir que Votre Majesté a trouvé Isabel Galveias sympathique (…) Il ne manque que donc plus que de nommer la Damme pour le Prince, et j’espérer que Votre Majesté ne tardera pas longtemps à me donner ses ordres à ce sujet, car alors seulement votre service sera complet. ”717
Por outro lado, era também importante para a Rainha saber se a nova Dama estava satisfeita na sua nova condição, como garante da estima e afecto para com a soberana. É nesse sentido que podemos compreender o interesse da Duquesa de Palmela em reportar a D. Amélia o sentimento de Isabel Galveias após os primeiros tempos de serviço: “Isabel Galveias en sortant hier de service est venue de me voir pour me dire combien Votre Majesté avait été bonne pour elle, et a quel point elle était heureuse d’avoir accepté de vous service.”718
D. Amélia incumbiria também a sua Camareira-mor de sondar Isabel Ponte acerca da nomeação para o ofício de Dama ao serviço dos Príncipes. Somente após a resposta afirmativa por parte desta, é que a Duquesa iria então reunir-se com Isabel Ponte, para lhe fazer o convite oficial719. O encontro de ambas encantou a Duquesa, que
715 Carta da Camareira-mor à Rainha D. Amélia, s.l., 10 de Fevereiro de 1890, IANTT, Casa Real, caixa
7374.
716 Carta da Camareira-mor à Rainha D. Amélia, s.l., 16 de Fevereiro de 1890, IANTT, Casa Real, caixa
7374.
717 Carta da Camareira-mor à Rainha D. Amélia, s.l., 18 de Fevereiro de 1890, IANTT, Casa Real, caixa
7374.
718 Carta da Camareira-mor à Rainha D. Amélia, s.l., [1890], IANTT, Casa Real, caixa 7376. 719 Carta da Camareira-mor à Rainha D. Amélia, s.l., [1890], IANTT, Casa Real, caixa 7374.
lhe teceu os mais rasgados elogios, por considerar que Isabel Ponte reunia todas as qualidades necessárias para o exercício das funções pretendidas: “Isabel Ponte (…) elle est parfaite, et réussit toutes les qualités que Votre Majesté peut désirer trouver dans celle qui doit remplir la mission difficile et délicate dont Votre Majesté va la charger. Elle m’a charmée, par son air franc et sympathique, je lui ai tout dit, et elle a très bien saisi toutes les manières, et Votre Majesté verra qu’elle saura tenir sa place avec tact. Elle est très contente et très flattée d’avoir été choisie par Votre Majesté et elle m’a dit qu’elle ferait tout son possible, afin que Votre Majesté ne soit pas désappointée. Elle remercie Votre Majesté pour tout ce qu’elle veut bien faire pour elle. Elle voudrait, que Votre Majesté permette à la Comtesse da Ponte sa Mère, qu’elle aille vous la présenter, (…). N’oubliez pas, chère Reine, de faire dire à Serpa de m’envoyer l’ordre pour la nomination officielle.”720
Pela leitura desta missiva, conclui-se que, tal como acontecia com Isabel Galveias, Isabel Ponte não tinha sido apresentada formalmente à Rainha, o que significa que D. Amélia desconhecia as Damas que iriam entrar ao seu serviço, pelo que os conselhos da Camareira-mor se revelavam essenciais para a escolha das mesmas, conselhos esses que se tornavam a oportunidade ideal para dar preferência às suas próprias amizades ou, pelo contrário, afastar a possibilidade de pessoas da sua inimizade serem nomeadas, como aconteceu com a Condessa do Sabugal.
O processo da nomeação passava então pelo Ministério, que decretava o dito provimento. No entanto, e apenas por costume, a Camareira-mor enviava um aviso à Dama, anunciando-lhe a nomeação: “ (...) Toutefois, j’ai transmis à Isabel Ponte, les ordres de Votre Majesté et ayant reçu hier soir du ministère, la communication du décret royal la nommant Dame d’honneur de Votre Majesté au service des Princes, je lui ai, ce matin, adressé la lettre d’usage pour le lui annoncer.”721 Ou seja, a nomeação oficial passava pelo Ministério do Reino, não bastando a nomeação pelos oficiais da Casa Real. No entanto, estes não deixavam de a fazer, não só por costume, mas como uma afirmação do pouco poder que ainda detinham.
Após a apresentação à Rainha, esta encontrava-se já em condições de tecer alguns comentários acerca das Damas que entravam agora ao seu serviço à Duquesa de
720 Carta da Camareira-mor à Rainha D. Amélia, s.l., s.d. [1890], IANTT, Casa Real, caixa 7374. 721 Carta da Camareira-mor à Rainha D. Amélia, s.l., [1890], IANTT, Casa Real, caixa 7374.
Palmela: “Je remercie Votre Majesté (…) de m’avoir dit qu’Elle est contente d’Isabel Galveias et que son impression d’Isabel Ponte a été bonne. Celle-ci, en revenant du Palais, m’a écrit pour me dire combien Votre Majesté avait été bonne pour elle, elle revenait, enthousiasmée et complètement sous le charme de votre amabilité et bienveuillance (…)”722
Por estas linhas, percebe-se que, acima de tudo, o desempenho deste cargo exigia essencialmente confiança por parte da Rainha em quem o exercesse. Ainda que não fosse o factor decisivo para essa escolha, visto que, à partida, D. Amélia não conhecia pessoalmente as Damas, era certamente a condição essencial para a manutenção do ofício, até porque eram estas as senhoras que a partir do momento da sua nomeação, passariam a ser as mais íntimas da soberana, uma vez que o seu círculo de amizades se resumia praticamente a estas. Esta constatação é corroborada por D. Teresa Saldanha da Gama, em carta ao filho, referindo-se ao quotidiano do Paço, que se conservava “num isolamento que não é dos nossos dias. Porque não há-de a Rainha ter senhoras à noite como a outra gente, convidadas é claro, fazer música e conversar e um simples chá. O ano dava para contentar muitas.”723
Esta confiança por parte da Rainha era conveniente que se estendesse também aos restantes oficiais. Era necessário existir um equilíbrio entre a vontade da soberana e um consentimento implícito dos restantes oficiais que desempenhassem funções na sua Casa. É nessa conjuntura que podemos enquadrar as duas cartas enviadas, uma do Conde de Seisal ao Conde de Sabugosa, felicitando-o pela nomeação de D. Mariana das Dores, outra da Condessa de Seisal à Rainha, demonstrando o seu apreço pela designação de D. Maria Francisca de Meneses como Dama Camarista. Claramente se tratam de missivas de cortesia, mas que na prática serviam também para melhorar o relacionamento não só entre oficiais, mas também entre oficiais e Família Real: “Agora só te quero dar um grande abraço e felicitar-te pela escolha acertadíssima a mais não poder ser, que fez Sua Majestade a Rainha, nomeando a Senhora Condessa sua Dama efectiva. Não imaginas quanto prazer me causou esta notícia que me foi dada pela Mariquita e confirmada pelos jornais recebidos hoje. Ninguém se achava melhor no caso de desempenhar um daqueles lugares do Paço onde se requerem tantas coisas em
722 Carta da Camareira-mor à Rainha D. Amélia, s.l., 27 de Fevereiro de 1890, IANTT, Casa Real, caixa
7374.
723 Carta de D. Teresa Saldanha da Gama para seu filho Francisco, Lisboa, 18 de Maio de 1906, Arquivo
geral difícil de reunir. (…) Felicito-a muito e muito da minha parte, mas dizendo-lhe que é sobretudo a Rainha, que eu felicito.”724 Como se depreende, a felicitação última acabava não apenas por ser à Condessa de Sabugosa, mas à Rainha, pela escolha que fez, do agrado do Conde de Seisal. O mesmo agrado que a mulher expressou a D. Amélia, pela nomeação de D. Francisca de Meneses: “Le choix de Votre Majesté est des