5. PESQUISA DE CAMPO SOBRE O DIREITO DESPORTIVO E SEUS DILEMAS
5.3 AS DECISÕES DE TERCEIROS QUE PODEM INFLUENCIAR NO AMBIENTE
Ficou muito claro que há a incidência de decisões de atletas e que prejudicam o ambiente desportivo, minando sua confiabilidade, mas além disso pode ocorrer de atitudes de pessoas que não sejam os competidores cometerem atos que prejudicam a ética e moral do jogo limpo e justo visado na prática desportiva, e para entender um pouco mais sobre estes casos onde terceiros influenciam no ambiente competitivo, foi realizada a seguinte pergunta aos participantes “Você já presenciou uma situação onde um atleta/time foi privilegiado, durante a contratação ou em uma convocação de atletas por um clube ou seleção, por questões políticas, desprezando talvez um critério técnico de resultados estabelecidos previamente? Se sim, descreva.”, onde foram obtidas as seguintes respostas:
“Sim, já vi serem convocados atletas para seleções brasileiras que não se encaixavam nos critérios, normalmente o atleta tem técnico ou conhecido e influente na confederação. “
“Sim, pela proximidade de amizade foi convocada uma pessoa, porém existia outra que estava melhor preparada. ”
“Sim. Sou exemplo vivo disso. Em 2009 obtive o índice A em uma prova olímpica para participar dos primeiros Jogos Olímpicos da Juventude. Fui cortado da seleção e incluíram um nadador com índice B em uma prova não olímpica*. Nesse caso foram cortados 2 atletas (eu e mais um) para adicionar 2 atletas com índice B. Para quem não sabe o índice A prevalece sobre o índice B em qualquer critério para escalar a melhor seleção. ”
“ Sim. Em praticamente todos os times em que passei esse jogo político e de quem paga mais, privilegia atletas que não estavam nem perto de serem os melhores, mais técnico e eficientes. “
“Sim, inúmeras vezes também. Responsáveis por convocações em âmbito estadual e nacional criando critérios subjetivos (o chamado "critério técnico") para desprezar o ranking (critério objetivo) e poder realizar convocações por motivos políticos e de influência. ”
“Sim. Técnico de vôlei em convocações de atletas do clube onde ele trabalhava (com poucas qualidades técnicas), para seleções estaduais.
Isso seria para favorecer seu relacionamento com pais e diretores do clube que atuava e manter seu emprego. ”
“ Sim. Um exemplo foi durante a convocação para as olimpíadas de Tóquio 2020 em que um atleta de natação do Pinheiros recebeu uma "segunda chance" de nadar sozinho. Outro foi quando houve um erro em uma convocação para o campeonato sul-americano Juvenil em que a atleta que tinha o melhor tempo não foi convocada, e a atleta com o segundo tempo foi, após muitas reclamações, a CBDA percebeu que havia errado e ofereceu uma outra convocação (para outra competição internacional, não relacionada) em troca de que "não reclamássemos mais".
Estas declarações ilustram de forma prática o que foi enfatizado durante diversas oportunidades no trabalho, o esporte vai muito além do que resultados e medalhas ganhas, se tornando cada dia mais um negócio que envolvem cifras gigantescas, poder e ganancia entre países inteiros que querem se provar melhores que outros, de patrocinadores que exigem resultados a qualquer custo para divulgar sua marca, de pais que em seus filhos encontram uma forma de realizar sonhos e alcançar e prover a sua família uma melhor situação, entre muitos outros exemplos situações onde a índole, ética e moral são colocadas em segundo plano em face de uma conquista.
Ainda sobre esta pergunta, a análise é de que muitas das vezes não passam somente pelos atletas a quebra de regras, podendo partir até mesmo de árbitros, que são os responsáveis pelo fiel cumprimento das regras, por dirigentes que fazem de tudo
para que seus atletas obtenham destaque e gerem lucros e tenham sucesso no esporte, entrando em acordo com clubes para escalação de atletas em troca de vantagem em negociações futuras, ou em esportes onde existem convocações que são combinadas visando a valorização de atletas.
Os fatos apontados são de prática comum principalmente no futebol, mas com toda a certeza existem casos na maioria dos esportes de alto rendimento, coletivos ou individuais, onde grandes clubes que fazem maior investimento, muitas vezes exigem regalias de federações e cobram seus atletas para melhor obtenção de resultados por patrocínios e capital.
Foi ainda realizado mais um questionamento com tema próximo a este: “Você já presenciou alguma situação onde um atleta, técnico, ou árbitro, infringiu alguma norma para favorecer um dos competidores de forma proposital e antiética? Se sim, descreva.”, porém, mais voltado aos envolvidos propriamente nas competições, obtendo os seguintes relatos:
“Sim, na seletiva olímpica desse ano (2021), foi dada uma segunda chance para um atleta, que acabou tirando a vaga de quem estava no direito. Sendo que já havia ocorrido a mesma situação e não foi dada a segunda chance para o outro atleta ”
“Sim. No passado conheci técnico que apoiava e incentivava seu atleta a infringir regras. E esse ano um técnico pressionou um árbitro em uma competição para alterar o tempo do seu atleta. ”
“Sim. Conheço atletas, técnicos e árbitros que infringiram diversas regras para obter vantagem. O caso mais recente aconteceu aqui no Paraná em uma competição no interior do Estado, onde um árbitro a pedido do técnico da atleta, alterou o tempo oficial dela, afim de obter o índice de participação em um Campeonato Brasileiro. Na minha opinião, ambos deveriam ser banidos do esporte. ”
“Como comentado a cima, isso é algo constante e “normal” ao menos no mundo do futebol. Um dos exemplos do que vivi foi ter sido dispensado de um dos times grandes de Curitiba, apenas por não ter um empresário,
mesmo tendo 10 gols a mais, na temporada, do que outro atleta da mesma posição. ”
“Inúmeras, nesses três âmbitos. Atletas fazendo uso de substancias ilícitas ao esporte para aumentar seu rendimento, técnicos privilegiando alguns atletas (tanto em treinamentos quanto em convocações) por questões de influência ou algum ganho financeiro ilícito e árbitros sendo totalmente parciais, cometendo barbaridades por motivos políticos ou financeiros ilícitos. ”
“No futsal sim. A equipe do pato branco futsal em 2017 já estava planejado para jogar a liga Nacional de futsal. Para jogar a liga, sua equipe tem que estar na primeira divisão do campeonato estadual. Ainda em 2016 Eles estavam na segunda divisão estadual e investiram grande para subir. A equipe de Pato Branco teve neste ano muitos contratempos com ótimas equipes adversárias, e por decisão da federação alguns desses jogos foram remanejados, e não por acaso, nestas mesmas partidas, árbitros favoreceram a equipe do Pato Branco e mais tarde isso foi comprovado.
Mas nenhuma equipe recorreu por já se ter passado tempo do ocorrido. ”
Novamente vê-se grandes exemplos de favorecimento de grandes clubes, onde arbitro alteram resultados e são influenciados a dar vantagem a estes por pressão das federações e dirigentes do clube, que por serem em sua grande maioria muito influentes nestes esportes, conseguem, por meios antiéticos e imorais vantagens sob seus adversários e competidores, relatados em diversos esportes diferentes, tanto no futsal quando houve um grande investimento e expectativa de uma equipe, quanto na natação, onde um atleta por nadar em um clube grande e influente teve uma nova chance de nadar a prova, contrariando as regras oficias da FINA e classificando este para o evento máximo da natação, os Jogos Olímpicos.