Alguns dos problemas que afectam as mulheres em Marrocos estão relacionados com o difícil equilíbrio entre a necessidade de responder às exigências de uma sociedade profundamente hierárquica e as aspirações de uma certa autonomia, expressão da «modernidade». Trata-se de uma procura de independência face às decisões conjugais. No meu trabalho de terreno, encontrei duas situações onde este desafio foi especialmente visível no âmbito da vida familiar: por um lado, os frequentes problemas que as mulheres jovens têm com as sogras, sobretudo se vivem na sua proximidade ou até na mesma casa; por outro lado, os casos de mulheres que se casam contra a sua própria vontade, sendo a decisão tomada pelo pai ou o irmão.
A intervenção da sogra na relação entre os esposos assenta num princípio de hierarquia etária. A mulher jovem deve manifestar submissão face à mãe do seu marido, nutrindo a expectativa de que, com o tempo, a relação de forças se vá reequilibrando e ela vá adquirindo o prestígio social que o facto de ser casada, mãe e dona de casa
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implica. Em suma, o estatuto social de uma mulher é dependente da escolha de um «bom» casamento, de conseguir ter filhos, de ser paciente face ao marido e, finalmente, de saber gerir bem a casa, sobretudo cozinhar bem e manter a casa limpa. Antigamente, dizem-me, no dia após o casamento, era hábito a sogra pedir à jovem rapariga para cozinhar um ṭājīn de peixe, um prato especialmente difícil, dada a preferência dos marroquinos pela carne.
Várias mulheres que recorrem à Associação referem que, a par da violência praticada pelos maridos, são também sujeitas à violência da sogra. Muitas acabam a decidir-se pelo divórcio por esse motivo. Tal pode ser ilustrado pelas histórias de Rachida e Hanane.
Rachida tinha 18 anos quando se casou com um homem de 32 anos. Ele era amigo do noivo de uma amiga dela. Saíram algum tempo e ele pediu-a em casamento. Fizeram o noivado durante alguns meses mas só depois de se casar é que Rachida veio a descobrir que a família dele, principalmente a mãe e a irmã, não queriam que ele se casasse com ela. Queriam que se casasse com uma rapariga com meios financeiros, cujas redes familiares permitissem um bom trabalho para o filho. Ora Rachida é de uma família pobre. O pai é comerciante, compra e vende vestuário e a mãe trabalha numa fábrica de peixe, um indicativo social da precariedade económica da família. Estiveram casados durante cinco anos e, de acordo com Rachida, os primeiros três anos, enquanto viviam em Essaouira, correram bem. O marido é cozinheiro de profissão, tendo trabalhado durante algum tempo num riyāḍ74, mas as oscilações turísticas não lhe
permitiam usufruir de um salário estável e, por isso, decidiram mudar-se para Marraquexe, onde a família dele prometia que lhe arranjaria um bom trabalho. Uma vez lá, a relação entre ambos deteriorou-se. Foram viver para a casa da família dele. Quase imediatamente Rachida sentiu que a cunhada e a sogra lhe tornavam a vida difícil, criticando-a perante os vizinhos, afirmando abertamente que ela não merecia o marido que obtivera. Segundo a jovem esposa, foi impossível impor-se perante a família do marido e, muito embora se tivessem dado bem no início do casamento, a mudança para o novo contexto obrigou-a ao divórcio. O marido colocou o pedido de divórcio no tribunal e sugeriu um divórcio de comum acordo, onde ela aceitasse desistir dos seus
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Termo que designa um tipo de arquitectura magrebina, uma casa de gente endinheirada, caracterizada por não ter janelas para o exterior, no centro interior é composta por um pátio, que pode ser ou não a céu aberto. Este tipo de construção, muitas vezes com jardim e fontes de água, permitia a criação de uma atmosfera agradável e pouco quente, refrescante nas horas de maior calor. A palavra veio a ser utilizada para designar os hotéis ou pensões que se encontram neste tipo de construção.
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direitos. No entanto, Rachida exige que ele lhe pague a pensão alimentar referente ao período durante o qual, ainda casada, teve que viver em casa dos seus próprios pais. Durante a minha estadia de terreno, o advogado da associação estava a prosseguir judicialmente essa exigência.
Hanane tinha 21 anos. Encontrava-se a realizar a formação em cozinha fornecida pela Associação quando a entrevistei. Disse-me que estava ali por causa da formação, mas que não foi através do advogado da associação que se divorciou. A decisão do casamento foi da responsabilidade da família. O marido foi a casa dos pais dizer que estava interessado em casar-se. Muito embora a família não o conhecesse a ele nem à sua família, insistiram com Hanane para que se casasse, dizendo que era já altura de o fazer. Num primeiro encontro antes do casamento, com as duas famílias presentes, ele disse-lhe que, com o tempo ela iria aprender a amá-lo. Parecia gentil. Logo após o casamento, porém, quando se mudaram para Agadir começaram a surgir problemas. Primeiro, porque eram vizinhos da família dele e Hanane afirma que estes a maltratavam. A sogra queixava-se da forma como Hanane cuidava do marido, de que não o alimentava bem e de que o obrigava a fazer despesas que iam muito para além das suas possibilidades. Com o tempo e devido a pressões familiares, o marido foi-se tornando violento. Após sete meses apenas, Hanane decidiu divorciar-se. O marido, porém, resiste à ideia, não quer pagar-lhe o dote que ela trouxe nem a pensão alimentar. Quando decidiu divorciar-se, Hanane não teve apoio da sua família. Achavam que a culpa das coisas estarem a correr mal era mesmo dela e não acreditavam que ele lhe batia. Mas depois de ela ter voltado à casa dos pais constataram que ele não a veio buscar e acabaram por aceitar que se divorciasse. Depois do divórcio, Hanane foi viver com uma irmã. Na altura que a conheci, o divórcio ainda se encontrava em curso e o marido faltava frequentemente às convocações para se apresentar no tribunal.
Estes casos têm por finalidade ilustrar quão difícil é o equilíbrio entre mulheres que se encontram em diferentes posições familiares. Os relatos que apresento são sem dúvida uma versão, aquela a que tive acesso, mas não deixam por isso de ser característicos das dinâmicas em jogo. Hildred Geertz (1979), no seu famoso estudo sobre o bairro Aldun em Sefrou, refere que, muito embora a virilocalidade seja apresentada como uma preferência, ela é evitada devido às disputas entre uma mulher e a sua sogra. Soraya Altorki (1986), responsável por um estudo sobre as mulheres da elite na Arábia Saudita, evidencia como a nova geração prefere residir neolocalmente, desejando criar uma independência do novo agregado face à família mais extensa. A
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alteração dos padrões de residência revela que não são apenas as mulheres que desejam independência face às sogras, mas também os seus maridos, que querem assumir a chefia do novo agregado familiar e não depender do pai. As «novas casas» dos casais jovens são menos segregadas espacialmente, homens e mulheres partilham espaços ou alternam-nos no seu uso. De acordo com Altorki, estas práticas demonstram importantes mudanças nas relações homem-mulher, uma vez que entre a geração mais velha, o espaço era organizado para manter a segregação, o «mundo dos homens» e o «mundo das mulheres» (cf. Altorki 1986:34). Esta diferente utilização do espaço da casa por homens e mulheres foi igualmente analisada por Pierre Bourdieu na Argélia, onde identificou uma série de oposições que distinguem os sexos e as suas actividades e que se entrecruzam com noções de honra e de pureza e poluição. O que Altorki demonstra é que a mudança dos padrões de residência indica uma diferente gestão da casa no seu interior e uma maior cooperação entre os esposos.
Em Marrocos é habitual que, após o casamento, a nova família resida perto ou na casa da família do marido. O inverso só acontece quando a família da mulher é mais rica, usufruindo de um estatuto social superior à do marido. Entre as classes populares, porém, este tipo de opção é desprestigiante para o marido, porque mostra a sua origem mais humilde mas também a incapacidade de criar uma nova casa, para si e para a sua família. Muitas mulheres aceitam a residência virilocal, na expectativa de que tal contribua para poupanças que permitam construir posteriormente uma casa própria. O desejo da constituição de uma casa neolocal representa uma procura de autonomia, tanto por parte do marido como da mulher.
A presidente da Associação referiu que hoje em dia muitas jovens mulheres já não suportam a autoridade da sogra, que acusam de querer fazer delas empregadas domésticas, para realizar as limpezas e servir o chá quando têm visitas. Lembro-me de uma funcionária da Associação contar-me que as sogras controlam inclusivamente a actividade sexual do novo casal, através do número de vezes que tomam banho75. A vigilância dos comportamentos sexuais do novo casal e especialmente da nova nora é algo que Jansen (1987) já havia identificado na vizinha Argélia: «A residência patrilocal e a falta de espaço na casa adicionam a supressão da expressão sexual. Um jovem casal é cuidadoso em esconder todos os sinais da sua relação sexual em frente aos seus
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A prática religiosa obriga a que depois do acto sexual e por forma a poder realizar as orações, seja necessário uma purificação maior chamada Al-ghasl, que implica a passagem de água por todo o corpo e que se opõe à limpeza menor (al-wuḍū), onde apenas as mãos, os antebraços, os cotovelos, a cara, a cabeça e os pés até ao tornozelos são ritualmente passados por água.
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parentes masculinos. Qualquer manifestação de afecto em palavras ou gestos é tabu.» (1987:171). Quando as condições económicas e de habitação são precárias, a privacidade é algo difícil de alcançar, e isso abre caminho para uma vigilância apertada por parte das sogras e a necessidade de cuidado extremo por parte das noras face aos seus sogros.
Ora o que se pode observar é uma tendência para as unidades domésticas neolocais serem um requisito que as mulheres cada vez mais exigem aos maridos. Esta mudança de expectativas obriga a uma maior preparação monetária por parte do marido, obrigado a alugar/comprar uma casa e a recheá-la. As estatísticas marroquinas comprovam aliás esta tendência crescente para a formação de unidades domésticas conjugais neolocais, em detrimento das famílias extensas, caracterizadas como tradicionais. Segundo o Inquérito Nacional à Família, realizado em 1995, as unidades familiares conjugais constituem a fracção mais importante das casas marroquinas; 51,1%3 em 1982 e 60,3% em 1995, constatando-se um aumento do número de famílias nucleares (Royaume du Maroc 2005). A maioria é bi-parental, composta por um pai, uma mãe e filhos solteiros. A análise das unidades complexas mostra uma realidade muito diversa, mas predomina a co-habitação de três gerações, frequentemente com laços de parentesco entre si: representam 64,2% dos diversos tipos de unidades complexas e 21,6% do conjunto das unidades domésticas marroquinas (Lfarakh,1998:113). Aliás, no que se refere ao período entre 1955 e 1982, existe uma diminuição significativa da proporção de famílias alargadas, de 20% para 10% em benefício das famílias nucleares, que aumentou de 29,5% em 1955 a 82,2% em 1982 (Chekroun 1996:24). Mas a habitação familiar em prédio, que é habitual em Marrocos, onde cada casa/andar corresponde a um membro da família e seu agregado, desafia estes parâmetros de análise, já que é uma solução de organização espacial do agregado conjugal mas que mantem a proximidade com a família extensa.
Nas nossas conversas, a presidente da Associação insistiu frequentemente que muitos dos casamentos não correm bem porque nem sempre é feita a devida prospecção por parte dos pais, de forma a saber se aquele homem e aquela mulher seriam realmente adequados um para o outro e qual a real viabilidade do novo projecto conjugal. A urgência de casar uma filha é comum quando surgem dificuldades económicas para sustentar os filhos homens. Os casamentos escolhidos por decisão dos pais nem sempre respeitam as vontades pessoais dos cônjuges (particularmente das mulheres).
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Ilustração nº 6: Após o sacrifício do carneiro no ʿId al-Aḍḥa, lava-se o sangue do chão, preparam-se os pulmões, o coração, os intestinos, a cabeça e só depois as carnes. Nesta fotografia, sogra e nora antes de começarem o trabalho de limpeza do animal.
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Várias mulheres com quem falei casaram-se por escolha dos pais e não se sentiram violentadas por o fazer. Uma das mulheres que conheci na Associação, e cuja história não envolvia violência conjugal, referiu-me que a escolha do seu casamento foi dos pais e ela confiou plenamente neles. Inicialmente, a convivência com a sogra na aldeia foi difícil mas ela decidiu ser paciente. Anos mais tarde tudo se resolveu, quando veio viver para Essaouira com o marido, por este ter conseguido um emprego como funcionário público. De acordo com o Inquérito Nacional da Família realizado em 1995 (Lfarakh 1998:114), a escolha livre do primeiro cônjuge é pouco frequente; apenas 16,1% das mulheres interrogadas o fizeram. Dois terços dos casamentos marroquinos (64,8%) são escolhidos por um ou dois dos pais, sobretudo no que se refere à escolha dos maridos das filhas (Ibidem). O casamento por livre escolha é mais frequente entre os quadros médios/superiores e as profissões liberais (76,63% no primeiro caso e 77,03% no segundo), assim o indica Aboumalek (1994).
São várias as razões pelas quais se escolhe um casamento com um parente próximo. Uma delas (a outra será discutida no capítulo IX) é a redução da possibilidade de surpresa e de conflito entre mulheres. Jansen mostra, já na década de oitenta que, muito embora os jovens continuem a casar-se com pessoas apresentadas/escolhidas pelos pais, as narrativas do amor nas escolhas matrimoniais estão presentes e que cada vez mais os pais as integram no momento de fazer a escolha:
«A maioria dos jovens argelinos ainda se casa com os esposos que a família arranja para eles. A maior parte dos argelinos não partilha a visão europeia de que um casamento arranjado diminui a qualidade da relação entre os esposos. Porém, cada vez mais pais incluem a existência de amor como uma pré-condição para um casamento bem-sucedido. Por ‘amor’ entendem que os membros do potencial casal devem mostrar que gostam um do outro. O número de casamentos por amor aumenta, mas reparei que um bom número de parceiros escolhidos pelos próprios são primos. Entre primos há mais oportunidade de se relacionarem do que entre raparigas e rapazes que não sejam aparentados.» (Jansen 1987:168)
Alguns autores têm alertado (p. ex. Langford 1999) para a visão eurocêntrica que coloca o amor como o motor da escolha do parceiro conjugal, manifestando-se nas decisões pessoais. Os discursos do amor mapeiam o imaginário das mulheres marroquinas, que se expressam, por exemplo, no canto e poesia popular. Mas talvez o que seja importante identificar não é o eurocentrismo da noção de amor. É antes que forma e como essa
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disposição vem a ser incorporada nas escolhas matrimoniais, articulando decisões pessoais e as decisões dos outros.